O Domador de Paixes

Catherine Anderson






      Molly Wells  uma mulher  que arrasta consigo muitos segredos. S ela sabe o motivo que a levou a roubar um valioso puro-sangue ao ex-marido e a empreender
com ele uma viagem de dentenas de quilmetros, atravs do Oregon, para o levar ao rancheiro Jake Coulter, um conhecido domador de cavalos. Ou o razo por que chega
ao rancho deste sem emprego, sem dinheiro e com um medo horrvel do ex-marido, que ameaa ainda controlar-lhe a vida. Molly est disposta a quase tudo para salvar
Sonora Sunset, e nem sequer se apercebe que  ela prpria quem precisa de salvar-se e muito menos que Jake  o homem que pode dar-lhe aquilo de que ela necessita.

      Ao acolher Molly no seu rancho, Jake suspeita que pode estar a dar guarida a uma ladra. Mas algo naquela mulher corajosa e ao mesmo tempo vulnervel o toca
particularmente. Anseia assim por dar-lhe a maior ddiva que alguma vez poder conceder  um lar, o seu afecto e a partilha do resto da sua vida. Mas at que ela
se sinta suficientemente forte para aceitar tudo o que lhe deseja proporcionar, a nica coisa que Jake pode oferecer-lhe  a sua disponibilidade paciente, a fora
para a ajudar a fazer frente aos seus inimigos e a promessa de a amar para sempre.






      "Uma grande escritora de literatura romntica.
      Pubishers Weekly

      Um raro talento para tocar os coraes dos leitores.




      Ttulo original
      Sweet Nothings
      Copyright  Adeline Catherine Anderson, 2002

      A Sid, meu marido e heri, que encheu a minha vida de sol. Quando olho para trs, para os anos que passaram, compreendo que o amor  uma viagem em constante 
evoluo e sinto-me imensamente agradecida por seres o homem que empreendeu essa viagem comigo. Quando o percurso se tomou difcil, estiveste sempre ao meu lado 
para me apoiar. Quando desanimei, deste-me coragem para no desistir. Nos bons momentos, riste-te comigo e partilhaste a minha alegria. Nos maus momentos, choraste 
comigo e deste-me fora.
      Em suma, tu s e sers sempre tudo para mim.
    
    
    
    Captulo 1
      


      Ainda enforcam ladres de cavalos no Oregon?
      No, claro que no, sossegou-se Molly Sterling Wells, e no pensou mais nisso. Era mesmo dela. Sempre negativa e a pensar o pior. No era de estranhar que 
desanimasse e nunca conseguisse levar nada at ao fim.
      Naquele momento j tinha problemas suficientes com que se preocupar. Quando nessa mesma manh ouvira o telefone tocar, j ia a sair e agora arrependia-se por 
ter voltado atrs. Por ter atendido aquele telefonema via-se a duzentos e quarenta quilmetros de casa, o seu estmago protestava com fome e, ainda por cima, tinha 
calor e sede, sentia-se exausta e estava totalmente perdida. Teria de pensar duas vezes antes de voltar a armar-se em boa samaritana.
      Tinha contornado tantas curvas naquela estrada secundria de gravilha que no fazia a menor ideia do stio onde estava, e tambm no existia um nico sinal 
que a pudesse orientar. At onde a vista alcanava, que no era muito devido ao terreno acidentado, s se viam junperos, matagais de salvas, rochedos escarpados 
e ervas cor de palha. Ainda estvamos em Abril. Teria chovido assim to pouco no Oregon, a leste das Cascades?
      Habituada ao verde luxuriante e s temperaturas mais frescas da sua chuvosa Portland natal, Molly soprou para afastar uma madeixa hmida e encaracolada de 
cabelo castanho-avermelhado que se tinha escapado da sua trana  francesa. O Toyota 4Runner deu um violento solavanco nesse momento, e ela teve de se esforar para 
que o carro no fosse parar  vala de drenagem, mas o peso do reboque do cavalo a balanar tornava a conduo quase impossvel. Pisou o travo com toda a fora e 
perdeu o controlo do automvel. O suor pingava-lhe das axilas quando se virou para a empoeirada janela de trs.
       Raios o partam! 
      Conseguia ver Sonora Sunset atravs da abertura dianteira do grande reboque branco. O garanho negro revirava os olhos sem parar e relinchava de terror. Molly 
sentia um aperto no corao por causa dele, mas a sua pacincia tinha limites e aps cinco horas a lutar com o volante j no podia mais. Desejava saltar para fora 
do carro e dar-lhe uns quantos berros. Seria possvel que no percebesse que estava a tentar salvar-lhe a vida?
      Apertou as suas mos trmulas e colocou-as sobre o volante, repousando a testa na parte de dentro dos pulsos. Isto ensinava-a a no confiar nos filmes de Hollywood. 
Em O Encantador de Cavalos, uma mulher tinha atravessado metade do pas transportando um cavalo irrequieto num reboque sem grande dificuldade, parando nos cafs 
ao p da estrada e passando as noites em motis. Isso nada tinha a ver com a realidade.
      Molly levantou a cabea e olhou para a estrada. No estou assim to perdida, consolou-se a si prpria. Antes de deixar a estrada principal um agricultor tinha-lhe 
dado indicaes sobre o caminho para o Rancho Lazy J. Olhou para o tabli para calcular a distncia que havia percorrido, exactamente dezasseis quilmetros, precisamente 
a distncia que o homem lhe dissera que era necessrio percorrer at chegar  porta principal do rancho. Jake Coulter, o encantador de cavalos, no podia estar a 
mais de dez minutos dali. Muito em breve iria entregar Sunset a um ssia de Robert Redford e a sua participao nesta louca misso de salvamento teria chegado ao 
fim.
      Sonora Sunset queixou-se outra vez, como se estivesse a demonstrar o seu descontentamento pelo atraso, fazendo o reboque baloiar para a frente e para trs 
e de um lado para o outro. O solavanco que provocou no Toyota fez Molly cerrar e ranger os dentes de frustrao. No era de estranhar que estivesse exausta. Tinha 
passado toda a manh a tentar conduzir o equivalente a um touro mecnico.
      Levantou o p do travo e deixou o veculo deslizar para a frente. J no precisava de se preocupar. Depois de todas as tangentes que tinha feito na estrada 
interestadual naquela manh, conduzir numa estrada secundria deserta deveria ser fcil.
      Aps quase cair noutra vala, fez uma curva apertada e descobriu, mais  frente, uma entrada em forma de arco construda com troncos acabados de descascar, 
que correspondia  descrio dada pelo agricultor.  medida que se aproximava, comeou a distinguir na viga transversal o nome Lazy J, entre parntesis formados 
por ferraduras.
      Graas a Deus. Tinha finalmente encontrado Robert Redford.
      Fez uma curva muito larga para poder entrar no caminho lamacento e cheio de sulcos. Avanou com cuidado por entre as portas que estavam abertas e ouviu o rudo 
surdo de um motor, o que a fez pr a cabea de fora da janela para melhor seguir o som. O caminho bifurcava-se mais 
frente. A ltima coisa que pretendia era escolher a direco errada e ir parar a um stio sem sada. Fazer marcha atrs com um reboque no  assim to fcil como 
parece.
      Sunset no gostou do piso spero e queixou-se ruidosamente. S mais uns minutos, rapaz. Estavam mesmo a chegar. Segundo o treinador de Portland, se havia algum 
que pudesse ajudar este garanho era Jake Coulter.
      Pum-pum. Os dentes de Molly bateram uns nos outros quando o Toyota saltou novamente sobre um buraco bem fundo. A onda de poeira que se levantou debaixo das 
rodas dianteiras atingiu-a directamente no rosto. Molly tossiu e piscou os olhos. Como poderia algum no seu perfeito juzo ter escolhido este lugar para viver? 
Jake Coulter podia ser um gnio com os cavalos, mas tinha certamente uma grande falha nos miolos.
      O caminho tornou-se subitamente ngreme, o que fazia aumentar o esforo que o motor do Toyota tinha de fazer para puxar a sua pesada carga. Molly carregou 
a fundo no acelerador. O motor tossiu e o Toyota deu um solavanco. Ela teve de lutar para manter o quatro-por-quatro agarrado ao cho e suspirou de alvio quando 
o SUV conseguiu finalmente subir os ltimos metros da colina sem que o seu sobrecarregado motor se fosse abaixo.
      Ao chegar ao cimo da encosta, parou para contemplar o pequeno vale que se encontrava l em baixo. Parecia surgido do nada, um osis luxuriante na borda do 
deserto. Grandes extenses de erva verde e brilhante estendiam-se, formando franjas, entre grupos de pinheiros altos, e um riacho cintilante serpenteava a paisagem 
de uma ponta  outra do vale.  direita viu uma longa casa d madeira com telhado de metal verde e duas chamins de pedra, cujo estilo rstico se enquadrava perfeitamente 
na floresta que a rodeava. Talvez Jake Coulter no fosse assim to parvo. O lugar era maravilhoso.
      O caminho passava precisamente entre a casa e um edifcio de placas de metal verde que Molly pensou que fosse o estbulo. Na parte de trs havia grandes portais 
que davam para ptios com portas que, por sua vez, se abriam sobre pastos verdes vedados com travessas de madeira, onde pastavam vrios cavalos. O cenrio era to 
pitoresco que sentiu um alvio no corao. Era o local perfeito para deixar Sonora Sunset.
      Molly recuperou a f nos filmes de Hollywood. S faltava aparecer Robert Redford para a cena ficar completa. Embora soubesse que isso era um disparate, procurou 
por ele enquanto percorria os ltimos metros at  casa. Depois de ultrapassar o estbulo, foi estacionar o carro junto a uma cerca para no obstruir o trnsito. 
Desligou o motor do Toyota, puxou para trs os cabelos que no paravam de lhe cair sobre os olhos, sentindo-se sem energia, mas aliviada.
      Tinha conseguido. Trouxera Sonora Sunset em segurana at ao psiclogo de cavalos.
      Ao sair do carro, recebeu com agrado na sua pele quente a brisa que transportava o odor campestre do pinheiro, das ervas e das flores silvestres, misturado 
com um cheiro ligeiramente acre, que suspeitou ser de esterco de cavalo. Por estranho que parecesse, no o achou desagradvel, apenas rural, o que considerava apropriado.
      A sombra dos altos pinheiros e a proximidade do riacho faziam com que a temperatura fosse aqui, pelo menos, seis graus mais baixa do que na estrada. Um paraso 
para cavalos. O local era to tranquilo que a prpria Molly no se teria importado de l ficar. Desde que, naquela manh, deixara Portland, era a primeira vez que 
se sentia segura.
      Porm, no foi por muito tempo. Quando o motor que tinha ouvido antes voltou a rugir, assustou-se e deu um salto. Ao virar-se, viu um homem junto a um grupo 
de altas rvores diante de um dos lados da casa. Manejava com preciso e destreza a serra articulada com que cortava um pinheiro derrubado. Molly distinguiu vagamente 
uns cabelos negros despenteados e umas feies morenas, mas, a seguir, baixou os olhos e no conseguiu voltar a olhar para o rosto dele.
      O homem estava despido at  cintura. O seu tronco nu e ondulante exibia magnificamente a sua fora vigorosa. Os msculos contraam-se e distendiam-se enquanto 
se movia, e o suor fazia brilhar a sua pele bronzeada pelo sol. Molly no costumava ficar a olhar embasbacada para as pessoas  no se importava que olhassem para 
ela, embora achasse que era uma falta de educao, mas, por um instante, esqueceu-se das suas boas maneiras.
      Ele era lindo.
      Sabia que no era a descrio mais apropriada para um homem, mas lindo foi a nica palavra que lhe veio  cabea. As suas costas e os seus ombros largos estreitavam-se 
num tringulo perfeito que terminava numa cintura esguia, e o sulco da sua espinha formava uma linha escura que lhe batia nas calas de ganga Wranglers. O tecido 
debotado destas cobria as suas poderosas e longas pernas, que pareciam nunca mais acabar. O desenho do corpo dele era to perfeito como uma gravura talhada em carvalho 
seco. O simples facto de olhar para ele despertava tudo o que havia de feminino nela.
      Esta reaco surpreendeu-a. Aps o divrcio, os homens tinham deixado de lhe interessar. Havia mulheres que gostavam de jogos amorosos, mas outras eram totalmente 
incapazes de compreender as suas regras. Molly aprendera  sua custa que se enquadrava na segunda categoria.
      O homem, parecendo aperceber-se da sua presena, espreitou subitamente por cima do ombro. Ao v-la ficou imvel. Os seus olhos, mesmo quela distncia, eram 
to azuis e penetrantes como se fossem raios laser.
      Molly teve repentinamente noo da sua prpria aparncia e desejou ter tido mais cuidado com a roupa que escolhera para dar um passeio no campo. As primeiras 
impresses so sempre importantes e o que estava em jogo era a vida de Sonora Sunset. Os seus confortveis sapatos de cunha  prticos e adequados para andar na 
cidade  eram frvolos e inapropriados naquele tipo de terreno. Ao sacudir as calas reparou no emaranhado de rugas que o seu corpo suado tinha imprimido na sarja 
como se fosse um ferro a vapor. No h nada que menos favorea umas coxas gordas que um tecido de caqui enrugado
      O homem desviou o olhar para o todo-o-terreno de ltima moda e, a seguir, para o grande reboque para transportar cavalos. Naquela terra de condutores viris 
de camionetas com traco s quatro rodas, no era normal ver-se um reboque para dois cavalos puxado por um Toyota. Na sua face morena surgiu uma expresso de incredulidade.
      Ele e Molly ficaram empatados porque ela tambm estava  espera de encontrar Robert Redford e em vez dele apareceu-lhe um indivduo com ar de Im too sexy 
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      Molly disse para si prpria que  aquele no podia ser o dono do rancho. Os homens jovens e bonitos como ele estavam demasiado preocupados em exercitar os seus 
bceps para conseguirem governar um negcio com xito.
      O homem levantou a serra para desligar o motor com um dos seus braos fortemente musculados. Depopis de pousar este instrumento de aspecto perigoso junto ao 
tronco, pegou num chapu de cowboy Stetson e numa camisa azul de algodo que estavam em cima de um cepo.
      Ao dirigir-se para Molly sacudiu cuidadosamente o p do chapu e colocou-o na cabea, dando  aba a inclinao necessria para lhe proteger os olhos do sol, 
o que a surpreendeu. Se ela estivesse nua da cintura para cima, vestia primeiro a camisa e s depois  que se preocupava em tapar a cabea.
      O ritmo bem oleado das suas ancas era lento, mas o seu andar pachorrento permitia-lhe percorrer uma enorme quantidade de terreno com uma grande economia de 
esforo. Sempre que fazia um movimento, a fivela prateada do seu cinto cintilava. Molly fixou os olhos na penugem negra de forma triangular que dividia o seu abdmen 
direito e estriado, terminando numa linha fina e escura mesmo acima dos jeans.
      Quando estava a poucos passos dela, sacudiu violentamente a camisa para lhe retirar a serradura e, a seguir, enfiou um brao numa manga. Os msculos do seu 
peito contraam-se a cada movimento que dava, e o tom deliciosamente escuro da sua pele bronzeada fazia lembrar a Molly um caramelo derretido.
       Ol  disse ele. Molly sentiu a sua voz profunda e sedosa envolv-la como se fosse uma espiral de fumo clido.  O que deseja?
      Podia comear por apertar os botes. A lngua prendeu-se-lhe.
       Eu, bem... venho  procura de Jake Coulter.
      Ele retirou algumas farripas de madeira das mangas enroladas da camisa e disse:
       Acaba de o encontrar. Em que a posso ajudar?
      Aquele homem no podia ser Jake Coulter, pensou ela estupidamente. No se parecia nada com Robert Redford.
      Este pensamento era to idiota que Molly sentiu um ligeiro sobressalto. Era natural que no se parecesse com Robert Redford, mas no podia ser to jovem. Se 
bem que ela nunca tivesse conhecido nenhum encantador de cavalos para saber a idade que eles costumavam ter. Pensava que deveriam andar pelos cinquenta anos ou mais 
e ter montes de experincia sobre os ombros. Este homem parecia estar nos primeiros trinta, s uns quantos mais do que ela.
      Ele procurou-lhe o olhar, os olhos de Jake Coulter eram chamas de cor azul-celeste que perscrutavam bem fundo e j tinham visto muito. Molly lutou para manter 
a compostura.
       H algum problema?
      Nada estava bem. O homem, a situao, tudo.
       No... nada. Acho-o apenas diferente do que esperava.
      Um canto da boca firme e grande do homem tremeu como se ele estivesse a reprimir um sorriso.
       Parece-me que traz um passageiro descontente consigo.
       Muito descontente.  Molly enxugou as palmas hmidas das mos nas calas.  Eu,... hum,... chamo-me Molly Ster...  deteve-se e engoliu em seco. Se Rodney 
alertasse a polcia para ir  procura dela no Oregon, era melhor no dar o seu verdadeiro nome.  Chamo-me Molly Houston.  No fazia a menor ideia onde tinha ido 
buscar o apelido Houston, a no ser que fosse por desejar estar no Texas naquele momento. Ps uma mo na cintura e disse:  Eu... hum...
      Hum? Era uma das suas palavras preferidas quando estava nervosa. Pelo menos ele estava a abotoar a camisa, o que j era bom.
      Sonora Sunset escolheu aquele momento para relinchar e dar pontaps nas portas do reboque. Molly deu um salto e Jake Coulter desviou lentamente o olhar para 
o local de onde vinha o rudo. Dava a impresso de que s uma exploso de dinamite o conseguiria assustar.
      Ao sentir o corao mais calmo, Molly engoliu em seco e recomeou a falar:
       Como pode ver, tenho problemas com um cavalo.
      Ele concordou com a cabea, mas os seus olhos estavam repletos de perguntas.
       Bem me parece.
        Um treinador em Port...  deteve-se e ficou a meio da palavra. Quanto menos ele soubesse sobre ela melhor seria.  Um treinador no Sul do Oregon disse-me 
que o senhor era um encantador de cavalos.
      Neste momento os lbios dele esboaram um sorriso  um sorriso aberto, ardente e demorado que provocou nela uma sensao esquisita.
       Lamento  disse ele , mas no sou o homem de que precisa se pretende um encantador de cavalos. Nem acredito que isso exista.
      A vibrao interior que ele lhe causara interrompeu-se, caindo-lhe o corao aos ps. Havia corrido um risco muito grande para trazer Sonora Sunset at ali.
       Mas o treinador tinha a certeza absoluta de que o senhor me podia ajudar.
      Jake deu uma olhadela ao Toyota e fixou a ateno nas coisas que ela tinha arrumado apressadamente no banco de trs e na rea da carga. As suas sobrancelhas 
espessas e negras arquearam-se ligeiramente.
        No disse que no a podia ajudar, mas apenas que no sou um encantador de cavalos. Qual  o problema?
      Tendo em conta a barulheira que Sunset estava a fazer, Molly admirou-se que ele fizesse semelhante pergunta.
       Ele, hum...  levantou as mos  ele fica louco quando algum tenta aproximar-se.
      Jake Coulter levantou uma sobrancelha e disse:
       Ah.
      Ah? Molly achou que essa no era a resposta adequada para um homem que era considerado um grande perito em cavalos.
       Consegue trabalhar com um garanho que no coopera absolutamente nada, Senhor Coulter?
       Talvez, depende do cavalo.
      Deus do Cu! Como se sentia cansada. Cansada at  medula dos ossos. Desejava que ele a sossegasse, dizendo-lhe que ia resolver tudo, mas, em vez disso, estava 
especado ali  sua frente, estudando-a minuciosamente. Era o cavalo quem precisava de ajuda, no ela.
       O treinador diz que ele  perigoso  prosseguiu Molly , que, se no se fizer alguma coisa, poder ter de ser abatido.
       H quanto tempo  que ele est assim?  perguntou Jake enquanto subia para o guarda-lamas da roda com a facilidade de quem est habituado a lidar com reboques 
de cavalos e com as gigantescas criaturas de quatro pernas que eles transportam. Ao olhar para Sunset atravs das frestas laterais do reboque, perguntou:
       Isto comeou de um momento para o outro ou...?
      Sunset relinchava e escoiceava de tal forma que o veculo se inclinou para um lado. Coulter teve de se agarrar para no cair.
       Com todos os diabos! Jake lanou a Molly um olhar irado.  Minha senhora, este animal foi chicoteado.
      Ela cruzou as mos sobre a cintura:
       Eu sei, mas no fui eu, se  isso que est a pensar.
       Quem foi?
      Molly procurou desesperadamente encontrar uma boa resposta mas, como no lhe ocorreu nenhuma, decidiu dizer a verdade.
       O meu ex-marido.
       Ele  que devia ser chicoteado.
      Molly pensou que lhe daria mais satisfao esmagar a arrogncia masculina de Rodney numa mquina de passar a ferro.
        No foi a primeira vez que isto aconteceu, mas nunca tinha sido to violento.
       Santo Deus! J vi animais maltratados, mas tanto como este nunca. Como pde permitir uma coisa destas?
      Ela indignou-se:
        Eu no permiti nada. No fazia a menor ideia do que estava a acontecer.
       O seu ex-marido costuma chicotear o seu cavalo e a senhora no sabe? Se este animal  seu, porque  que o treinador no a informou?
      Molly encontrou rapidamente uma resposta:
       Antes nunca tinha ficado com marcas.
        Seja como for, o cavalo deve ter alterado o seu comportamento assim que comeou a ser chicoteado.
      At quela manh, Molly apenas tinha observado Sunset a uma distncia segura.
       Nunca notei nada de estranho nele, e se o treinador notou no me disse.
      Coulter ficou a pensar durante um momento. Depois, saltou do guarda-lamas para o cho e, com os olhos fixos nos dela, perguntou-lhe com uma suavidade letal.
       Este cavalo  mesmo seu, minha senhora?
      Ela teve medo que ele a mandasse embora se lhe contasse a verdade e, sem a ajuda de Coulter, Sunset podia acabar numa fbrica de cola.
       Claro que  meu. Se no fosse, como  que eu o tinha trazido?
       Boa pergunta.  As rugas entre as sobrancelhas de Jake ficaram mais vincadas ao olhar para ela.  Tem documentos que comprovem a propriedade?
       Documentos? Ai, meu Deus! Esqueci-me completamente de os trazer.
       Tem ar de ser um animal muito caro. Se o cavalo se magoar enquanto eu estiver a trabalhar com ele posso ver-me metido num belo sarilho.
       Eu assino uma declarao exmindo-o de toda e qualquer responsabilidade.
       Essa declarao no vale absolutamente nada se o cavalo no for seu.  Ele passou a mo pelo queixo e os seus olhos tornaram-se mais escuros ao procurarem 
os dela. A seguir deu uma nova olhadela ao reboque e praguejou baixinho.  Neste momento, no tenho dinheiro para pagar honorrios a um monte de advogados.
      Ele estava quase a mand-la embora. Molly tinha conscincia disso. Ao ouvir os relinchos desesperados de Sunset quase se lhe partiu o corao. No podia voltar 
para Portland com o cavalo e permitir que o seu destino fosse decidido por quem no queria saber dele para nada. Alm do mais, a probabilidade de Rodney lhe voltar 
a fazer mal era mesmo muito grande.
       J lhe disse que o cavalo  meu, Senhor Coulter. Est a chamar-me mentirosa?
      Jake franziu o queixo e durante um momento, que pareceu uma eternidade, travaram uma batalha visual que os deixou num impasse. Molly ergueu as mos numa splica:
       Acha que tenho ar de ladra de cavalos?
      No conseguia decifrar a expresso dele e tinha os nervos em franja enquanto aguardava a sua resposta. Ele voltou a olhar para o veculo que estava atrs do 
Toyota.
       No  admitiu, finalmente, Jake em voz solene. A seguir os seus expressivos lbios esboaram um sorriso envergonhado ao mesmo tempo que suspirava admitindo 
a derrota.  Est bem, vamos dar uma olhadela quele desgraado.  Olhou para o carro dela com um ar muito profissional e perguntou-lhe:  Tem as chaves na ignio?
      Ainda Molly no tinha respondido, j ele estava a ligar o motor do Toyota. Ela teve de se afastar enquanto Coulter manobrava o quatro-por-quatro de forma a 
alinhar o reboque com a porta. Ao ver a facilidade com que ele andava em marcha atrs com o reboque, Molly ficou admirada por isso lhe ter custado tanto.
        No o vai libertar, pois no?  perguntou quando Jake saiu do quatro-por-quatro.
      Era to alto que a copa do seu chapu se tinha amachucado ao bater no tecto do carro dela.
       Vou ter de descarregar o cavalo para o poder avaliar.
       Se achar que no pode trabalhar com ele, consegue voltar a p-lo no reboque? Ele  muito difcil. Esta manh foi preciso o treinador e trs empregados do 
estbulo para o obrigarem a subir a rampa.
      Jake tirou o chapu, ajeitou a copa e voltou a coloc-lo na cabea.
       Acho que consigo. Se for preciso, peo ajuda ao meu irmo Hank. Ele est neste momento na seco norte, mas posso contact-lo por rdio.
      Molly fechou os olhos, cheia de medo, quando ele abriu as portas do reboque e estendeu a rampa. Ouviu o rudo das botas de Jake a bater na madeira e, a seguir, 
as suas palavras:
       Tem calma, rapaz, tem calma.
      Sunset relinchou e, a julgar pelos rudos que se seguiram, esperneava com todas as suas foras. Ela abriu parcialmente os olhos, temendo ver Jake Coulter sair 
em voo da traseira do veculo.
       Tem calma, rapaz  ouviu-o dizer novamente.
      No instante seguinte passou os olhos pelos quartos traseiros do animal. O garanho estava quase a resvalar para fora da rampa, mas Coulter conseguiu faz-lo 
equilibrar-se e voltar a percorrer o caminho como devia ser. O rudo ensurdecedor dos cascos a baterem na madeira fez Molly cruzar as mos sobre a cintura e cerrar 
os dentes.
      Naquela manh, Sunset quase tinha matado o seu treinador, facto que ela havia omitido a Jake Coulter por temer que ele se recusasse a trabalhar com o cavalo. 
Mas, agora, desejava de todo o corao ter sido honesta com ele.
      Se o pobre do homem ficasse ferido, a culpa seria inteiramente sua.
      
      
    Captulo 2
      
      
      Jake Coulter mostrou-se perfeitamente capaz de lidar com o garanho. Quando Sunset tentou empinar-se e atingi-lo com as patas dianteiras, o musculado rancheiro 
evitou o ataque agarrando rapidamente o cabresto do animal ao mesmo tempo que se servia do seu peso para o impedir de lhe dar cabeadas. Numa confuso de rudo e 
movimento, o homem e o cavalo desceram em tropel a rampa at ao cercado.
      Coulter foi incrivelmente rpido. Depois de libertar o cavalo, correu to depressa para a vedao que Molly apenas viu uma mancha confusa a passar. Ao v-lo 
saltar por cima da barreira com o chapu ainda elegantemente colocado na cabea, respirou de alvio, expelindo todo o ar que havia reprimido sem dar por isso.
      Ele limpou o suor das sobrancelhas com o punho da camisa.
       Ena, rapaz. Tem razo, ele  mesmo reguila. Reguila? Uma criana de dez anos era reguila. Mas este cavalo relinchava e corria em crculos  volta do cercado. 
As suas patadas levantavam nuvens de poeira que queimavam as narinas de Molly, que mantinha as mos cruzadas sobre a cintura, apertando fortemente a blusa de algodo 
branco. Tinha visto Sunset em aco naquela manh e receava que ele conseguisse saltar a barreira.
      Coulter no parecia preocupado. Encaixou a rampa do reboque, fechou a porta do cercado e correu o ferrolho. A seguir, cruzou os braos sobre a vedao e ficou 
a observar o comportamento do cavalo. Pelo menos, foi o que Molly pensou que ele estava a fazer. Fazia-lhe lembrar a forma como os mdicos observam os pacientes 
admitidos nos hospitais psiquitricos, um escrutnio minucioso que no deixa escapar o mais nfimo pormenor.
      Molly sentiu uma impresso sufocante na garganta. Observou Sunset s voltas no cercado e teve tanta pena dele que at lhe doeram os ossos.
      Talvez os cavalos no sentissem a invaso da privacidade da mesma forma que as pessoas.
      O movimento dos ombros de Jake repuxava-lhe a camisa de algodo na zona do peito e ele metia-a para dentro, empurrando-a fortemente com os dedos. Molly assustou-se 
ao olhar para ele e o seu nervosismo aumentou ao v-lo sentar-se em cima da barreira com uma perna para cada lado.
       Senhor Coulter!
      Se ele a ouviu, no o mostrou. Tinha os olhos fixos no cavalo. Molly, que o via de perfil, reparou na expresso determinada do seu queixo. O lbio inferior, 
que brilhava  luz do Sol como se fosse de seda, era o nico vestgio de doura numa cara que parecia ter sido esculpida em granito.
       Senhor Coulter, no est a pensar voltar l para dentro, pois no? Ele lanou-lhe uma olhadela.
       No tenho outra maneira de descobrir se posso trabalhar com ele.
       Mas ele  perigoso, Senhor Coulter.
       Um cavalo de quatrocentos e cinquenta quilos com problemas de comportamento  sempre perigoso. E  disso que eu vivo.
       Pelo menos, leve qualquer coisa para se defender.
       O que  que me sugere? Um cassetete?  Jake apoiou-se na vedao para se endireitar e ficar mais confortvel. Observou Sunset durante uns segundos e abanou 
a cabea:  Se levar alguma coisa na mo ele vai pensar que eu lhe vou bater com ela.
       No seria melhor reconsiderar?  insistiu Molly, a tremer, ao mesmo tempo que ele passava a outra perna por cima da barreira.  O Sunset quase matou o treinador 
esta manh.
      Se isso o fez recuar, ele dissimulou-o muito bem. A seguir, olhou para baixo com os olhos brilhantes:
       No se preocupe, no me vai acontecer nada.
      Molly agarrou-se  travessa da vedao e assistiu impotente  sua entrada no cercado. Sunset encavalitou-se e soltou um relincho desesperado e cortante que 
continha um sinal de aviso.
       Alto, rapaz!  Coulter afastou as pernas ligeiramente arqueadas, notando-se a flexo dos msculos das suas coxas atravs das calas de ganga.  No merece 
a pena excitares-te tanto.
      Sunset no lhe deu ouvidos e Molly no o podia censurar por isso. O aspecto de Coulter era impressionante  forte, rpido como um raio e preparado para tudo. 
Nem mesmo um animal formidvel e gil como um garanho conseguia escapar a um tal adversrio dentro dos limites de um pequeno cercado.
      Molly sabia o que era sentir-se encurralada e impotente. O estremecimento de terror, a sensao profunda de ultraje e o pnico claustrofbico que tornava a 
respirao quase impossvel. Como ela o sabia!
      Sunset relinchou, correu para o lado contrrio do cercado e, a seguir, virou-se para enfrentar o seu torcionrio. A parte branca dos seus olhos pareciam quartos 
crescentes por cima das ris e os msculos dos ombros tremiam de pavor.
        Pobrezinho!  Jake estendeu as mos para que o cavalo pudesse ver que estavam vazias. Os seus tendes e as suas veias distendidas formavam cordas  volta 
dos antebraos bronzeados.  Ests a ver? No precisas de ter medo.
      Sunset levantou-se apoiado nas patas traseiras. Gritava como um louco e dava pancadas no ar com as suas patas dianteiras de cascos brilhantes. Ao regressar 
 posio normal, as patas bateram com tanta fora no cho que Molly era capaz de jurar que o solo vibrava.
        Tem calma.  Jake estava agora to concentrado no cavalo que Molly pensou que ele se tinha esquecido da sua presena.  Tem calma, rapaz, que no ests 
em condies para isso.
      O rancheiro, cujas mos permaneciam bem abertas, manteve-se firme enquanto Sunset circulava  sua volta, embora o seu corpo esguio estivesse preparado para 
saltar se o garanho o atacasse. Virava-se para o ler sempre debaixo de olho mas, fora isso, no se mexia, gastando muito pouca energia, ao contrrio de Sunset que 
estava a ficar extenuado.
        Ests a ver? No te vou fazer mal  disse ele continuando a falar num baixo tom de voz.
      Molly enterrou as unhas nas palmas das mos e mordeu as bochechas com fora, desejando de todo o corao que Sunset parasse de lutar contra o inevitvel. Por 
que razo no conseguia ele compreender que Coulter apenas o queria ajudar? Por vezes, aqueles que inicialmente parecem ser os nossos piores inimigos acabam por 
se tornar os nossos maiores amigos. Molly tinha aprendido isso  sua prpria custa mas, infelizmente, no havia forma de transmitir essa sabedoria ao cavalo. Ele 
t-la-ia de descobrir por si prprio, tal como ela havia feito.
      O cavalo continuou a movimentar-se de um lado para o outro at ficar ofegante e vacilar de cansao. Os seus flancos pareciam ter sido salpicados com creme 
de barbear.
      O suor tambm escorria por Molly quando o animal sucumbiu  exausto. Com as mos coladas  vedao, observava-o atravs da nvoa formada pelas suas lgrimas 
ardentes. O garanho encostara a anca a um dos cantos do cercado, baloiava a sua grande cabea e tinha os flancos a palpitar. Estava to extenuado que parecia prestes 
a cair.
      Ela pediu a Deus que o pior j tivesse passado, mas Coulter, em vez de sair do cercado, virou-se ligeiramente para o garanho e baixou a cabea. Foi-se aproximando 
lentamente dele sem tirar os olhos do cho. O cavalo olhou preocupado para o rancheiro, mas no fez meno de se mexer at este se encontrar a metro e meio de distncia. 
A seguir, Sunset gemeu e tropeou para o lado.
      Coulter parou nesse momento. Molly ficou perplexa ao v-lo marcar com o taco da bota o ponto at onde tinha chegado. A seguir recuou, voltando a aproximar-se 
dessa linha vrias vezes at Sunset no mostrar a menor reaco. S ento  que o rancheiro se mostrou satisfeito.
       Lindo menino  disse ele num tom de voz to suave que parecia mel quente.  Havemos de l chegar, mas por hoje j chega.
      Deu um salto para fora da vedao.
       Peo desculpa  disse ele a Molly  Sei que no  fcil deixar um estranho fazer isto ao seu cavalo.
       Qual era a sua inteno? Nunca conseguiu chegar suficientemente perto dele para lhe tocar.
      Jake pousou uma das suas mos na travessa da vedao e cruzou os ps. A brisa que soprava por trs dele colava-lhe a camisa azul-clara ao tronco.
        Basta que ele saiba que podia t-lo feito. De alguma forma, ele compreendeu que eu no lhe pretendo fazer mal.  Os lbios firmes de Jake esboaram um largo 
sorriso.  E descobri o mesmo em relao ao cavalo.
       Descobriu?
      Coulter inclinou afirmativamente a cabea.
        um rapago rpido como um raio. Se tivesse maus instintos tinha tentado deitar-me abaixo, em vez de andar aos crculos  minha volta. O cavalo no  mau, 
apenas est muito assustado e quem o pode censurar por isso?
      Dirigiu-se a uma torneira situada no canto norte do cercado e comeou a encher um balde de noventa litros. Molly, que o observava atravs das travessas da 
vedao, perguntou:
       Ento, quer dizer que o vai ajudar?
      Em vez de responder, Jake introduziu o balde por baixo da vedao e chegou-se para trs. Sunset olhou para ele com ar preocupado e, a seguir, caminhou cansado 
e aos tropees at  gua. Quando o cavalo estava quase a chegar ao balde, Coulter aproximou-se dele e tirou-lho.
      Molly cerrou os dentes. A sua fria aumentava  medida que via Jake repetir este processo vezes sem conta, sem nunca deixar o pobre animal beber.
      Quando j no podia mais, gritou:
       Porque  que est a fazer isso?
      Ele lanou-lhe um olhar desprovido de expresso.
       Sabe que ele est louco de sede. Atorment-lo dessa forma  uma crueldade.
      Jake foi at ao canto oriental do cercado e introduziu uma vez mais o balde por baixo da vedao.
       No se pode deixar um cavalo exaltado satisfazer a sua sede  e, de novo, esperou que Sunset chegasse mesmo ao p da gua para lhe retirar rapidamente o 
balde.  Quando os cavalos esto muito quentes  preciso lev-los a passear. Em circunstncias normais, andava por a com ele durante cinco minutos, deixava-o beber 
um pouco de gua e, a seguir, fazia-o andar outros cinco. Uma vez que no posso lev-lo a passear, obrigo-o a andar da nica maneira que consigo.
      Molly olhou repentinamente para Sunset. O sol daquela tarde era to quente que se tinham comeado a cristalizar rios de suor na sua pelagem negra salpicada 
de transpirao espumosa.
       Oh  disse ela num fio de voz.
       Vou deix-lo beber um pouco daqui a nada  Jake colocou novamente o balde dentro do cercado e andou para trs para que o cavalo se aproximasse , mas apenas 
o suficiente para molhar os lbios. A seguir, vou obrig-lo a andar mais um bocadinho. Repetimos esta operao at o cavalo j no estar ansioso por beber e, s 
nesse momento,  que o podemos deixar ingerir toda a gua que quiser.  Foi buscar o balde.  Se beber tudo agora, vem-se abaixo ou fica com clicas. Em nove de 
cada dez cavalos, isso mata-os.
      Ela sentiu-se estpida, sem saber o que havia de dizer.
      Dali a uns minutos, Jake deixou finalmente Sunset beber um pouco de gua. Depois, fez com que o garanho desse, outra vez, voltas ao cercado. Molly reparou 
que ele olhou para o relgio. Quando o cavalo se acalmou, voltou a encher o balde, meteu-o no cercado e dirigiu-se a Molly com ar pensativo.
       Parece-me que no percebe muito de cavalos  disse, para puxar conversa, ao mesmo tempo que pousava os braos numa travessa da vedao   capaz de me explicar 
esse facto?
       L porque nunca vi ningum acalmar um cavalo dessa maneira, no significa que seja totalmente ignorante sobre eles.  Com medo de parecer nervosa, descruzou 
os braos, deixando-os cair. Pareciam-lhe dois pedaos de chumbo pendurados de cada lado do corpo.  Na cidade, muitas pessoas arranjam um local onde albergar os 
cavalos e pagam a algum para tratar deles.  Isso no era mentira. Rodney e os seus amigos yuppie faziam-no com os seus cavalos, e ela sabia que raramente cuidavam 
deles.  Eu contratei um treinador e nunca participei directamente na rotina diria do Sunset.
      A luz do Sol tornava bem visveis as linhas oblquas que partiam em forma de leque dos cantos dos olhos de Jake. As suas pestanas negras e espessas projectavam 
sombras franjadas na sua face delgada.
       Tem alguma experincia de quintas e ranchos?
       Quintas e ranchos?  Teve a percepo de que a sua resposta era importante e que, por razes que a transcendiam, Jake Coulter poderia recusar-se a trabalhar 
com Sunset se os seus conhecimentos sobre ranchos fossem limitados.  Toda a minha vida tive contacto com eles  pensou nas inmeras vezes que passara por quintas 
e ranchos no seu caminho para Portland. Isso servia. Tinha tido contacto com eles, no  verdade?  Porque pergunta?
      Ele lanou uma olhadela  blusa e calas enrugadas que ela trazia.
       Estou apenas a tentar perceber se tem alguma prtica de lidar com cavalos?
      Npia.
       No sou nenhuma perita, como disse, mas tenho experincia suficiente para me desenvencilhar.  O truque era evit-los completamente, empreendimento em que 
havia tido um xito total.  Situo-me algures entre principiante e medianamente conhecedora.
      Os cantos dos lbios dele franziram-se:
       Estou a ver.
      Molly comeou a recear que ele estivesse mesmo a ver, o que no podia ser pior.
       A vida de Sunset est em jogo. Sem a sua ajuda, temo que ter de ser sacrificado.
      O olhar de Jake passou por ela e fixou-se no Toyota.
        bvio que a senhora precisa de ajuda.
        E ento? No  a minha experincia com cavalos que estamos a discutir.
        No disse que era. O que acontece  que neste tipo de treino a participao do dono  fundamental.
       Do dono?
       Sim, a participao do dono. Sei que pode parecer que estou a pedir muito, mas uma coisa em que insisto  que os donos venham trabalhar com os seus cavalos 
vrias vezes por semana.
      Molly sentiu o cho faltar-lhe debaixo dos ps e lanou um olhar horrorizado ao garanho.
      Jake ergueu as suas negras sobrancelhas.
       Isso  um problema? No lhe vai servir de muito se o cavalo s me conhecer a mim.
      Sem saber porqu, Molly tinha associado esta situao a pr o carro na oficina e entreg-lo a um mecnico. Tinha planeado deixar Sunset ali para depois o ir 
buscar quando ele estivesse pronto.
       Est  espera que eu... que eu me meta ali dentro com ele?
        um pouco complicado trabalhar com um cavalo do lado de fora da vedao.
      Molly recordou a si prpria que havia jurado que desta vez no iria desistir mas, Deus do Cu, ela jamais tinha esperado uma coisa assim.
       Tomarei todas as precaues para garantir a sua segurana  sossegou-a ele  e estarei sempre por perto, no caso de alguma coisa correr mal. Isso deixa-a 
mais descansada?
      Praticamente nada.
        Eu hum... eu vivo muito longe, Senhor Coulter. No poderei vir aqui vrias vezes por semana.
      Ele voltou a olhar para o Toyota.
       Tenho a impresso de que neste momento est a viver na parte de irs do seu carro.  Apoiou-se com maior firmeza na travessa da vedao.  Tambm me parece 
que arrumou tudo  pressa.
      Ela no podia negar a prova que estava mesmo diante dos olhos dele.
       Estou numa espcie de... mudana.
        Nesse caso a distncia no dever ser um problema. Pode hospedar-se num local aqui perto.
      Molly sentia a garganta to seca que lhe parecia que a laringe se deslocava para cima e para baixo no interior de um tubo de lixa.
       Acho que sim  respondeu.
      Jake virou-se para ela sem qualquer vestgio de humor no olhar:
       Nesse caso, no ter nenhum problema em trabalhar regularmente com o cavalo.
      Ela perdeu toda a coragem e ia traindo Sunset ao deixar quase escapar a verdade. No momento em que abriu a boca para falar, lanou uma olhadela ao animal. 
 luz do Sol da tarde as gotas de sangue que salpicavam as suas feridas brilhavam como rubis em veludo negro.
      O sentimento de culpa  algo de terrvel que nos aflige em todos os momentos em que estamos acordados e nos persegue durante os sonhos. Molly recordou-se das 
inmeras noites em que palmilhara o cho, incapaz de dormir. Por duas vezes na sua vida havia falhado s pessoas que amava e ambas tinham morrido. No sabia se iria 
conseguir viver com outra morte na conscincia, ainda que Sunset fosse apenas um cavalo.
        No, trabalhar com ele no dever ser um problema  disse ela, num fio de voz.
       Ainda bem.  Coulter afastou-se da vedao.  Perdoe-me, mas no consegui deixar de reparar que no traz muitas coisas consigo. Ser que isso significa que 
tem falta de dinheiro?
      Molly endireitou os ombros.
        Desculpe, mas acho que no tem nada a ver com isso, Senhor Coulter.
        Vou passar a ter daqui a nada quando chegar.o momento de me pagar e a senhora no tiver dinheiro para isso.
       Quanto me vai levar?
        Quinhentos dlares por semana. Este preo cobre tudo, no s o treino como tambm a estada do cavalo, que pode ser cara tendo em conta a alimentao e os 
salrios do pessoal.
      Molly sentiu o corao cair-lhe aos ps.
       Parece-me um pouco excessivo.
       Como a senhora bem disse, os cavalos como este so perigosos e no  qualquer pessoa que consegue entender-se com eles. Eu sou mesmo bom naquilo que fao 
e os meus servios no so baratos.
       Tenho a certeza que merece todos os cntimos que me pede, no estava a pr em causa o valor do seu trabalho.  Molly esfregou as mos, sentindo um frio repentino, 
no obstante o calor que fazia.  Quanto tempo acha que necessita para acalmar Sunset?
       Pode levar s um ms ou pode levar seis.  impossvel prever. Alguns cavalos nem sequer respondem ao tratamento.
       Meu Deus!
       Tenho uma elevada percentagem de xito. Na maioria das vezes os cavalos afeioam-se a mim, mas  sempre um risco. Levo sempre o mesmo dinheiro, seja qual 
for o resultado. No posso trabalhar de graa s porque um cavalo no tem soluo.
      Molly no o censurava por isso. Ele no podia governar um rancho com sucesso se fizesse beneficncia.
        O que se passa, Senhor Coulter,  que pagar quinhentos dlares por semana  muito difcil para mim. Seria possvel combinarmos um plano de pagamento?
      Ele passou a mo pelo queixo.
       Detesto parecer mercenrio, sobretudo quando um animal foi to cruelmente maltratado, mas neste momento no posso aceitar trabalhos a crdito. Como j lhe 
disse, estou a tentar levantar o rancho. Tenho muito pouca margem de manobra e preciso de receber o dinheiro adiantado. Dedico todas as horas do dia a treinar cavalos 
e, neste momento,  com isso que pago os meus emprstimos  banca.
      Molly tinha ido levantar dinheiro a um Multibanco antes de sair de Portland, mas a mquina havia deixado de lhe dar notas a partir do limite dirio permitido 
e, mesmo contando todos os trocos, ficara apenas com mil dlares na carteira. E destes, j tinha gasto alguns em gasolina para chegar ao rancho. Podia passar cheques 
at oitocentos dlares da nica conta que ainda tinha disponvel, mas no se atrevia a tocar-lhe porque todas as transaces bancrias e movimentos de Multibanco 
deixavam rasto.
      Se entregasse uma pequena quantia, como sinal, a Jake Coulter podia ficar com dinheiro suficiente para se governar enquanto no tivesse emprego, mas era-lhe 
totalmente impossvel pagar quinhentos dlares por semana. A no ser que dormisse no carro e vasculhasse os caixotes  procura de comida at encontrar trabalho. 
E era preciso que o encontrasse. A maioria dos empregadores pediam a identificao do candidato, queriam uma lista de referncias e precisavam de um nmero da segurana 
social. Molly no se atrevia a dar essas informaes, uma vez que temia que a polcia possusse uma ficha com todos os seus dados.
      Comeou a sentir dores de cabea devido ao stresse ou  falta de alimentos, no estava certa. Mas isso no tinha importncia. Uma dor de cabea era sempre 
uma dor de cabea e esta aoitava-lhe os pensamentos com a eficincia brutal de um espanador de arames, tornando-os numa salgalhada.
       Bem... isso fecha a porta a qualquer acordo, penso eu. 
       Aceito cartes de crdito  props Jake. Isso tambm no servia para nada. Mulheres loucas e legalmente incapacitadas no podiam usar dinheiro de plstico. 
Como Molly odiou Rodney Wells naquele preciso momento!
       Infelizmente no tenho cartes de crdito.
      Jake tirou o chapu e alisou o cabelo com os dedos, formando profundou sulcos na brilhante cabeleira escura. Fitou o cho durante um longo momento e, a seguir, 
raspou a terra com o taco da bota.
      Molly percebeu que ele estava a pensar numa forma de a ajudar. Por muito que apreciasse a sua preocupao no conseguia conceber uma sada que no tropeasse 
no problema do dinheiro e duvidava que ele fosse capaz de a encontrar. Com o corao cheio de dor, evitou olhar para  Sunset, por recear desfazer-se em lgrimas 
se permitisse a si prpria contemplar o destino que lhe poderia estar reservado.
       Acho que o incomodei para nada  disse ela, obrigando as palavras a ultrapassarem o n que se lhe formara na garganta e lhe parecia cada vez maior.  Obrigada 
por...
      Ele ergueu a mo, no a deixando terminar a frase. Quando os seus olhares se cruzaram, Molly entreviu de novo um brilho divertido nos olhos dele, embora desta 
vez tivesse a impresso que ele se ria de si prprio e no dela.
       Posso ser totalmente franco consigo?
      Achou que ele lhe ia abrir o corao quer ela lhe permitisse quer no, e respondeu:
       Claro que sim.
       Eu gosto de cavalos e simpatizei instintivamente consigo.  O timbre da voz dele tornou-se mais rouco.  No sei se conseguiria dormir de noite depois de 
vos mandar embora a ambos  apontou com o polegar para o reboque dela.  Tenho o mau pressentimento de que est sem trabalho, quase sem dinheiro e sem sorte nenhuma. 
Estou enganado?
      Molly tentou sorrir, mas foi-lhe completamente impossvel.
        mais ou menos isso  respondeu.
       Tem sequer onde ficar?
      A vergonha f-la ruborizar-se. Era assim que os sem-abrigo se deviam sentir.
       Neste momento no. Vou ficar num motel at encontrar um emprego, acho eu.
       Com o cavalo num reboque? No pode manter o garanho fechado indefinidamente.
      Ela ainda no tinha pensado nisso. De manh havia deixado Portland movida por um nico pensamento: entregar Sunset quele homem. Procurou rapidamente uma resposta 
e disse:
       Talvez possa lev-lo a pastar algures por a.
       No pode levar um cavalo como este a pastar em qualquer stio. Pode matar algum.
      Molly cruzou as mos sobre a cintura e mexeu os ps, tentando desesperadamente raciocinar. Era verdade. Sunset era perigoso e no o podia pr a pastar em qualquer 
lado. S algum como Jake Coulter era capaz de lidar com um cavalo to difcil, mas ele pedia-lhe mais do que ela podia pagar.
      Pensou na fortuna que o pai lhe tinha deixado. Tanto dinheiro depositado no banco e no podia pr a mo num nico cntimo. Deus do Cu... Deus do Cu. Sem 
a ajuda de Coulter, Sunset poderia vir a ser sacrificado e ela no tinha a menor possibilidade de o evitar.
      Era incapaz de explicar porque se preocupava tanto com um cavalo. Sabia apenas que a afinidade que sentia com o animal desafiava toda a razo. Talvez isso 
se devesse ao facto de ambos quase terem sido destrudos pelo mesmo homem, embora de modo diferente. Se no conseguisse salvar o cavalo, conseguiria salvar-se a 
si prpria?
      Tentando esconder o estado de desnimo em que se encontrava, estendeu a mo a Jake Coulter e esboou um sorriso to forado que quase lhe fez doer o rosto.
        De alguma forma me hei-de desenvencilhar. Obrigada, Senhor Coulter. Se voltar a pr Sunset no reboque, ns vamo-nos embora. Foi muito amvel em me ter atendido 
apesar de ter uma vida to ocupada e, ainda por cima, sem marcao prvia. Est na altura de o deixar voltar para o trabalho.
      Ele tomou-lhe a mo e apertou-lhe calorosamente o pulso com os seus dedos longos e calejados pelo trabalho. No disse nada, ficou simplesmente a olhar para 
ela. Depois, sorriu levemente:
       Sabe cozinhar e tratar de uma casa? Era a ltima coisa que ela esperava ouvir.
       Sei o qu?
      O sorriso de Jake tornou-se mais aberto.
       Coloquei um anncio no jornal durante um ms, mas obtive muito pouca resposta. Se estiver disposta a trabalhar talvez possamos chegar a um acordo.
      Ele continuava a apertar-lhe a mo. No o fazia com muita fora, mas Molly teve a impresso de que fugir-lhe era to impossvel como se ele a tivesse algemado. 
A dor nas fontes intensificou-se, o sol perfurava-lhe os olhos como se fosse uma picareta.
       Quer que eu seja a cozinheira e governanta do rancho?
      Deu-lhe vontade de rir, mas teve medo de que a sua cabea explodisse.
       A soluo parece-me perfeita. A senhora est a atravessar um mau momento, o seu cavalo precisa de ajuda e eu necessito desesperadamente de uma cozinheira.
      A soluo perfeita dele era o pior pesadelo dela. Sabia cozinhar o suficiente para si prpria, mas era fcil de contentar. Poucos homens tinham to boa boca 
como ela. Alm do mais era uma deciso arriscada. O rancho estava muito afastado da cidade e no conhecia Jake Coulter de lado nenhum.
        Cozinhar no  o meu forte. No o poderei fazer a troco de um salrio.
       Claro que pode  ele piscou-lhe o olho.  Uma mulher que atravessou as Cascades com um cavalo num reboque puxado por esse patim com rodas  capaz de fazer 
tudo o que quiser.
      Na boca dele a ideia parecia lgica. E to tentadora! Pelo menos permitia-lhe ganhar tempo. Se Sunset reagisse rapidamente, uns quantos dias poderiam significar 
a diferena entre a vida e a morte para o cavalo.
        uma proposta muito generosa.
       Ento diga que sim  insistiu Jake.  O que  que tem a perder? O lugar d direito a alojamento privado  e apontou com o polegar para trs do ombro, indicando 
uma pequena casa de madeira situada mais abaixo na direco do riacho.  No  elegante, mas o telhado no tem gretas e est meio limpa. S tem dois pequenos quartos. 
Pago-lhe quatrocentos dlares por semana mais o alojamento. Costumo oferecer regalias bastante boas, mas se preferir no declarar o que recebe, tambm se pode fazer.
      No declarar? Isso significava que ela no tinha de lhe dar o nmero da segurana social. E tambm significava que ela ia ganhar mais porque no lhe iam ser 
descontados impostos no ordenado.
       V l  insistiu ele.   a nica forma que tenho de a poder ajudar e suportar a despesa.
       Mil e seiscentos dlares por ms no cobrem o preo que leva pelo treino do cavalo  precisou ela.
        Se for minha empregada posso fazer-lhe um desconto e tambm lhe consigo arranjar trabalhos extra para obter o que falta. Nunca tenho pessoal que chegue 
no estbulo.
      Ele estava  espera que ela trabalhasse no estbulo? Lembrou-se de lhe ter dito que tinha estado em contacto com quintas e ranchos durante toda a sua vida. 
Era evidente que ele julgava que ela podia ter mais utilidade do que aquela que realmente tinha.
       No tenho grande experincia de trabalhar em estbulos. Jake olhou-a nos olhos com simpatia:
       Algures entre principiante e medianamente conhecedora? No se preocupe, eu mostro-lhe o que  preciso fazer.
      Ele tinha resposta para tudo. Molly contemplou pensativa a pequena casa de madeira. O lugar era to tranquilo, um santurio junto ao riacho com uma floresta 
atrs. Este rancho estava resguardado do mundo. Era at invisvel da estrada. Se a polcia andasse  procura dela, que hipteses teria de a encontrar ali?
        Pode ficar trinta dias  experincia  props ele.  Se no final desse tempo algum de ns estiver descontente com o acordo podemos romp-lo sem qualquer 
problema. O que  que lhe parece?
      Parecia-lhe maravilhoso, como se fosse a resposta s suas preces. Pousou os olhos em Sunset, sentindo-se totalmente paralisada e estranhamente desligada da 
realidade. Quando o caminho se tornou difcil, a nova Molly Sterling Wells comeou a caminhar 2. A vida do garanho estava em jogo. Se tivesse livros de culinria 
 sua disposio era capaz de se desenvencilhar na cozinha durante algum tempo e limpar a casa no exigia grandes conhecimentos. No era de esperar que um dia que 
tinha comeado de uma forma to louca viesse a terminar numa completa insanidade?
       No pense muito no assunto  aconselhou-a ele , algumas das melhores decises da nossa vida so tomadas sob o impulso do momento.
        Mais tarde, se conseguir resolver alguns problemas, volto para o meu emprego. Estou numa espcie de licena.  O sol incidiu-lhe novamente nos olhos e o 
rosto de Jake tornou-se para ela numa mancha escura com pontos brancos que danavam nas suas feies.  Cheguei a dizer-lhe isso?
       No faz mal. Se concordar em avisar-me com um ms de antecedncia, terei tempo para arranjar uma substituta.  Jake fez uma careta.  Espero que da prxima 
vez tenha mais sorte com o anncio.
      Molly teve a impresso de que estava prestes a atirar-se em voo de uma falsia. Coragem. Talvez ele estivesse certo e ela pensasse demasiado. A sua indeciso 
sempre a tinha levado  runa. A vida passa enquanto ests a decidir o que hs-de fazer, havia-lhe dito o pai, todo risonho, vezes sem conta. Este homem estava 
a oferecer-lhe uma sada, dava-lhe no s trabalho como um lugar para viver, e o acordo ainda inclua o alojamento e a alimentao de Sunset.
        Muito bem  disse ela quase sem flego.  Vou experimentar. Porque no?
      Um sorriso desenhou-se lentamente na cara morena de Jake.
       Ento, temos acordo?
       Sim, temos acordo  respondeu Molly. O sorriso dele alargou-se.
       Bem-vinda ao Lazy J., Molly Stir-Houston.
      Stir-Houston? Molly sentiu o corao cair-lhe aos ps e lembrou-se que quase tinha deixado escapar o seu verdadeiro apelido quando ali chegara; ele apercebera-se 
do deslize e agora estava a provoc-la, o que s podia significar uma coisa. Jake sabia que ela lhe havia dado um nome falso. 
      Se tinha percebido isso, de que mais desconfiaria?
      
      
    Captulo 3
    
      
      
      Aps ter aceitado a proposta de Jake Coulter, Molly j no teve oportunidade de voltar atrs. Embora as passadas pachorrentas do homem lhe conferissem um andar 
vagaroso, ele cobria as distncias com uma espantosa eficincia, obrigando-a a apressar o passo para o acompanhar. Quase sem ela dar por isso, estacionou o Toyota 
em frente da pequena casa de madeira diante do riacho e comeou a descarregar os seus pertences. Enquanto corria de um lado para o outro com os sacos, os velhos 
fantasmas de Molly voltaram a atorment-la, havia uma questo que no lhe saa da cabea. Terei perdido o juzo?
      Uma mulher sensata no confia em homens desconhecidos. Bastava ler as manchetes dos jornais para compreender como isso era imprudente. Agora que j no estava 
ao sol e a sua dor de cabea tinha abrandado um pouco, podia pensar com maior clareza, e essa clareza trouxe-lhe uma srie de receios. Como poderia ela estar certa 
de que Jake Coulter no era um tarado sexual ou um assassino em srie? Se desaparecesse, ningum se iria lembrar de procurar por ela num rancho de gado no centro 
do Oregon.
      Parecendo aperceber-se do seu nervosismo, Jake no entrou com ela no quarto ao mostrar-lhe a casa. Em vez disso ficou  porta, bloqueando a nica sada existente 
com o seu considervel volume. Magnfico. O homem pesava bem mais de noventa quilos, e o seu corpo musculado possua a dureza do ao. Se lhe quisesse fazer mal, 
ser-lhe-ia quase impossvel fugir.
       Sente-se bem?  perguntou ele, tirando-a dos seus pensamentos angustiosos.
      Molly pestanejou e concentrou a ateno na face morena de Jake, ignorando a largura impressionante dos seus ombros.
       Sim, estou bem  garantiu ela, mas teve vontade de se esconder ao notar que a voz lhe saa fina e trmula.  Apenas me di um pouco a cabea, mais nada.
      Sentindo-se constrangida e sem graa, virou-se para observar o quarto, que era pequeno e continha apenas o mobilirio essencial. Inclinou-se para ver como 
era o colcho.
       A estrutura de lato da cama  encantadora. Tem ideia do dinheiro que actualmente esto a pedir por estas armaes?
      Jake encostou o seu ombro musculado  ombreira da porta, roando a viga mestra com  copa do chapu.
       Mais do que valem?
      Molly soltou uma gargalhada de surpresa. Habituada a frequentar lojas de antiguidades com Cludia, a me adoptiva, durante anos, tinha muito bom olho para 
descobrir peas coleccionveis. A recordao dessas compras encheu-a de tristeza. No s tinha perdido o pai h um ano, como tambm, para todos os efeitos, a nica 
me que havia conhecido.
       Para dizer a verdade, acho que o que esto a pedir pelas estruturas de lato  exagerado.
      Ele olhou para o colcho e disse:
       Eu tambm sou um apaixonado por coisas antigas, mas para mim o conforto vem primeiro. As pessoas antigamente deviam ser ans. Quando dormia nessa coisa, 
ficava com os ps pendurados e batia com os tornozelos nas barras da cama durante toda a noite.
      Ela no teve dificuldade em acreditar. Jake Coulter no era precisamente de baixa estatura  um facto que no podia deixar de ter em considerao, uma vez 
que se encontrava sozinha com ele na casa de madeira. Quando o seu psiclogo, Sam Banks, a encorajara a afrouxar a guarda com os homens, de certeza que no era nisso 
que estava a pensar.
      Comeou a apalpar o colcho mas, a seguir, lembrou-se de que j linha feito isso e retirou a mo. Se este homem fosse um tarado sexual, no queria meter-lhe 
ideias na cabea.
       Tenho a certeza de que o colcho serve muito bem para mim. Eu no sou muito alta.
      O formidvel olhar azul dele percorreu-a lentamente desde a ponta dos ps at ao cimo da cabea.
       No, acho que no. Uma boa rajada de vento fazia-a voar.
       Duvido.  Molly ps uma mo no estmago. Quando tinha vinte e poucos anos, o seu corpo, que era extremamente magro da cintura para baixo, avolumou-se, criando 
uma feia salincia no estmago e nas ancas, o que levava Rodney a dizer que ela parecia estar grvida. Nem sequer a saia safari que trazia vestida conseguia esconder 
isso.  No sou o que se chama uma magricela.
      As sobrancelhas negras de Jake juntaram-se, ao olhar novamente para Molly.
       No,  mais o que eu chamaria agradavelmente rechonchuda  ele ficou-se por a, deitando-lhe um sorriso de esguelha que alterou o ritmo do pulso dela, e 
acrescentou:  Com nfase em agradavelmente.
      A seguir Jake foi-se embora deixando-a a cogitar no que quereria ele dizer com aquilo. Pela sua experincia, os adultos amveis usavam a expresso agradavelmente 
rechonchuda para descreverem crianas gorduchas. A opinio dele no lhe interessava. H muito tempo que tinha assumido que o seu corpo estava longe de ser esbelto 
e que nenhuma dieta conseguiria alterar a situao.
      Ouvia o bater ritmado das botas dele nas velhas tbuas do cho ao andar pela casa. Deu uma olhadela  cama de aspecto confortvel e obrigou o seu corpo cansado 
a mover-se. Encontrou o novo patro na antiquada cozinha. Tinha acendido um fsforo e tentava ligar o bico do fogo de gs, que j fora verde-lima, mas se tinha 
amarelado com o tempo. Nunca tendo usado um fogo to antigo, Molly aproximou-se para observar.
      No preciso momento em que se baixou para apreciar o queimador, o gs acendeu-se e a chama rebentou mesmo na sua cara, ouvindo-se um assustador cauch. Ela gritou 
e deu um pulo, sacudindo a camisa e o cabelo.
       Minha Nossa Senhora!  exclamou.
      Jake agarrou-a pelos ombros, obrigando-a a ficar imvel:
        Queimou-se?  Passou-lhe a mo pelo cabelo e pelos ombros.  Molly, responda-me.
      Ela levou as mos ao pescoo e engoliu em seco, sem saber ao certo se o calor que sentia era devido  exploso de gs. A pele ardia-lhe em todos os pontos 
onde a mo dele tocava. Alerta vermelho. Este homem podia ser perigoso de vrias formas.
       Estou ptima. Peo desculpa. Estou ptima, acredite. O gs acendeu-se mesmo  frente da minha cara e eu assustei-me. Acho que no me queimei em parte nenhuma.
      Jake passou uma ltima revista ao cabelo de Molly.
       Quem tem de pedir desculpa sou eu. Devia t-la avisado. Estes antigos foges a gs tm este problema. At eu me assusto s vezes.
      Virou-se para trs para verificar as vlvulas. Desta vez Molly permaneceu bem longe, sem saber muito bem o que queria evitar, se o fogo ou o homem. Anis 
de fogo azul ganharam vida, fazendo com que os nervos dela tambm despertassem. Se tivesse de cozinhar naquela horrorosa velharia iria certamente morrer de fome.
      Aparentemente satisfeito, Jake desligou os queimadores e deu leves pancadinhas com os seus longos e robustos dedos na feia porcelana verde.
       Ele parece estar a trabalhar bem  afirmou.
      A seguir abriu as torneiras do lavatrio. O primeiro jorro saiu castanho-enferrujado, mas rapidamente se tornou mais claro  medida que a gua arrancava o 
sedimento que se tinha depositado no cano. Ele ps a mo em concha para apanhar um pouco de gua e inclinou-se para a beber. Aps limpar a boca disse-lhe:
       Vai adorar a gua deste poo.  artesiano.
      A ateno de Molly estava presa na bomba manual montada num dos lados do lavatrio. J tinha visto algumas nas lojas de antiguidades, mas nunca numa casa.
       Isto ainda funciona?  perguntou incrdula.
       Maravilhosamente. Quando modernizei a cozinha ia deit-la fora, mas a minha irm Bethany teve um ataque.  Ps a bomba a funcionar com gua da torneira e 
comeou a dar  manivela. No foram precisas muitas tentativas para que um jacto de gua irrompesse do cano. Jake chegou-se para o lado e disse:  Experimente.
      Tendo o cuidado de no chocar com ele, Molly colocou as mos em concha por baixo do fluxo de gua e curvou-se para beber. Talvez estivesse com sede, mas nunca 
uma gua lhe tinha sabido to bem. Bebeu avidamente durante uns momentos, mas a seguir lembrou-se da fora que ele estava a fazer com o brao para manter o fluxo 
a correr. Sentindo-se embaraada, endireitou-se e limpou o queixo.
       Desculpe.  simplesmente divina.  como se estivesse a beber a gua cristalina de um regato na montanha.
      Ele parou de dar  manivela, fixando o olhar nas gotitas que Molly ainda mantinha no lbio inferior. Envergonhada, ela levou a mo  boca. O azul intenso dos 
olhos de Jake tornou-se mais escuro, adquirindo a tonalidade cinzenta de um dia de tempestade.
       No me importo de dar  bomba e, alm disso, a gua  barata.
       Ao contrrio de...  Molly interrompeu-se, levantando os braos para no cometer outro deslize. Quase tinha dito que a gua no era barata em Portland. Desviou 
o olhar, desejando, uma vez mais, ter habilidade para mentir.  Ao contrrio da cidade onde moro.
      Ele arqueou as sobrancelhas:
       Em que cidade  que mora?
      Ela pensou em todas as cidades por onde passava a estrada interestadual 5 e disse:
       Grants Pass.
       Ah! - exclamou Jake, concordando com a cabea.   um stio agradvel. O meu colega de quarto na universidade era de l.
       Frequentou a universidade? Jake riu-se ligeiramente:
       Ns, os rapazes do campo, precisamos de ter alguns conhecimentos. Molly no pretendera ofend-lo, apenas tinha ficado surpreendida.
      Jake Coulter no se assemelhava a nenhum dos homens com educao universitria que ela conhecia. Com as suas calas de cowboy e a sua camisa azul de algodo 
parecia to simples e puro como a natureza bravia que rodeava a sua propriedade e, ao falar, mostrava, por vezes, indiferena para com a gramtica.
       Em que universidade estudou?
       Oregon State.  para onde vo muitos rapazes do campo como eu. Os meus dois irmos gmeos estudaram Veterinria l. O meu irmo Zeke tirou o MBA. O Hank 
e eu escolhemos Agricultura e criao de gado.
       Caramba, isso quer dizer que tem quatro irmos?
       E uma irm. Foi por isso que me tornei insuportvel. Era o mais velho dos seis e a nica forma que tinha de sobreviver era ser mau.  Contornou-a para ligar 
os botes da temperatura dentro do velho frigorfico.  Em que universidade  que andou?
      Molly foi atingida por uma nova vaga de recordaes que, desta vez, a deixou fria e estranhamente vazia.
       Estive pouco tempo na universidade.  Essa era a histria da sua vida, grandes sonhos e nenhuma persistncia.  Aconteceram coisas e eu tive de sair.
      Jake lanou-lhe um olhar por cima da porta.
       Ningum o diria. Fala como se tivesse muitos estudos. Ela esforou-se por esboar um sorriso luminoso.
       Leio imensos livros.
       Ento  uma autodidacta. Em que  que trabalha?
      Com a sensao na garganta de ter engolido uma embalagem de desentupidor de canos, Molly olhou ansiosamente para a gua que ainda pingava do cano da bomba.
       Finanas  decidiu responder. Dada a sua propenso para cometer deslizes ao mentir, achou que era mais avisado colar-se o mais possvel  verdade.  Trabalho 
numa firma de investimentos.
       Quando no est de licena  acrescentou ele.
       Sim, se tiver algum dinheiro para investir  comigo que deve falar. Ele riu-se ligeiramente e voltou a agachar-se dentro do frigorfico, ouvindo-se o eco 
surdo da sua voz.
       Neste momento no tenho um tosto para investir. Reaver o rancho deixou-me completamente teso.
      Reaver o rancho? Molly pensou no que quereria ele dizer com isso. J teria antes possudo o Lazy J? Sentiu vontade de perguntar, mas como no tinha nada a 
ver com o assunto reprimiu-se.
      Quando Jake finalmente saiu do frigorfico, o motor do velho electrodomstico deu sinais de vida, fazendo vibrar o solo. Molly encolheu-se de medo e reparou, 
ao v-lo fechar a grossa porta redonda, que sobre o esmalte estava escrito Gibson.
        Este velho rapaz  uma maravilha. O leite fica to fresco que at faz doer os dentes.
      Ela pensou na sua espectacular cozinha em Portland com um microondas de 1200 watt e um fogo da marca Jenn-Air. Embora gostasse de antiguidades, preferia equipamentos 
modernos para a vida diria e esperava fervorosamente que a cozinha da casa principal estivesse melhor equipada. Caso contrrio, estaria metida num lindo sarilho.
      Ele ligou a torradeira para ter a certeza que funcionava. O cheiro acre da poeira e de velhos pedacinhos de po queimado chegou ao nariz de Molly.
       Parece que tudo funciona bastante bem aqui  afirmou ele, passando a sua ampla mo por cima da bancada,  procura de p.  Limpei ludo meticulosamente quando 
deixmos a casa, mas ningum diria.
      Quando Jake passou por ela para sair da cozinha, Molly olhou preocupada para o fogo. Mesmo com o bico aceso, tinha medo que explodisse outra vez caso lhe 
tocasse.
      Foi ter com Jake  pequena sala de estar e encontrou-o de ccoras diante de uma arca. Aproximou-se para ver melhor e achou que era suficientemente grande para 
caber l um cadver.
      No entanto, Molly j no pensava que ele a poderia assassinar. Havia-se mostrado to preocupado com ela durante o acidente do fogo que certamente no lhe 
queria fazer mal. A nica coisa que ainda a preocupava era o receio de que a noo que ele tinha de fazer mal pudesse ser completamente diferente da dela. Era 
demasiado encantador para a deixar descansada, caracterstica que lhe podia ser inata, mas o mais certo era que a tivesse adquirido com a experincia e elevados 
custos para o sexo oposto.
      A impressionante musculatura das suas amplas costas chamava-lhe a ateno cada vez que ele se movia. Em Portland havia imensos culturistas, mas no possuam 
os contornos robustos de Jake Coulter, parecendo esculturas de borracha exageradamente cheias em comparao com ele. Absorta nos seus pensamentos, no reparou que 
Jake tinha separado alguns cobertores de l.
       Tudo o que est aqui foi lavado depois de termos sado. Tenho a certeza que ainda est limpo.  Jake cheirou uma fronha e pareceu satisfeito, continuando 
a remexer na roupa de cama.  Esta arca deve t-la protegido.
      Molly moveu-se.
       Eu tenho roupa de cama, Senhor Coulter  lanou uma olhadela  confuso de sacos que estava em cima do sof de cabedal castanho.  No precisa de ter esse 
trabalho.
       O meu nome  Jake e no estou a ter trabalho nenhum. Parece-me morta de cansao  puxou o chapu para trs para ver melhor.  Vou ajud-la a instalar-se 
e, a seguir, deixo-a em paz.
      Escolheu um jogo de lenis brancos, trs cobertores e duas fronhas bordadas antes de se levantar. Os olhos de Molly pousaram-se no bordado, um sinal revelador 
de que j tinha havido uma mulher na vida dele. Seria divorciado? Provavelmente. Sendo to bonito como era, devia sem dvida pensar que a monogamia era o nome de 
um dinossauro pr-his-trico.
      Molly seguiu-o at ao quarto.
 Consigo fazer a minha prpria cama  protestou, desejando que ele a deixasse sozinha.  Tenho a certeza de que tem um monto de coisas para fazer. Eu sei governar-me 
bem.
      Jake estendeu um lenol sobre o velho colcho. Quando o linho assentou, disse:
       Nada que no possa fazer amanh e duplamente melhor. Ainda no encontrei um trabalho que desaparecesse antes de eu ir ter com ele.
      Ela achou que havia sabedoria naquelas palavras. Estava tambm a comear a compreender por que razo este rancho se chamava Lazy J. Jake Coulter no parecia 
ser uma pessoa muito apressada.
       No quero interromper o seu plano de trabalho  disse ela.
       No acredito em planos de trabalho  respondeu Jake ao mesmo tempo que prendia o lenol do lado em que estava a fazer a cama, deixando o canto muito mais 
liso do que o dela, o que indiscutivelmente se devia s suas grandes mos e  fora com que puxava o lenol.  To certo como dois e dois serem quatro, aparece sempre 
alguma coisa para os estragar. Uma pessoa fica com lceras se lhes der demasiada importncia.
       Bem, o senhor  o patro. Se insiste nisso, faa como quiser.
       Muito obrigada.  Jake piscou o olho maliciosamente, levando-a a pensar que ele tinha praticado aquele sorriso de coitar a respirao diante do espelho. 
  o que costumo fazer.
      Desconcertada, Molly inclinou-se para prender o lenol do lado dela e, a seguir, os dois deslocaram-se at aos ps da cama. Formavam uma boa equipa, pensou 
ela, para logo se questionar de onde  que aquele pensamento lhe tinha sado.
      Observou-o, perplexa, a desdobrar trs cobertores.
       Um deve chegar  disse ela, recordando-se como o dia tinha sido quente.  Vou morrer assada.
         melhor ter de os tirar do que passar frio.  Jake comeou a prender os cobertores no fundo da cama, mas as suas mos grossas mal cabiam entre o colcho 
e a armao.  De manh vo saber-lhe bem.
      Molly duvidava que fizesse assim tanto frio.
       O tempo aqui parece Vero.
        No se deixe enganar. Ainda vamos ver neve antes da Primavera.
       Est a brincar?
        Nem por sombras. Costuma ser assim nos climas desrticos de elevada altitude quando a Primavera se aproxima. Um dia  gelado e o outro a seguir mais quente 
do que o Inferno.  Entregou-lhe uma fronha.  No se admire se vir geada quando acordar.
      Assim que a cama ficou feita, saiu outra vez do quarto com Molly a correr atrs dele. Ao chegar  sala de estar puxou uma porta de metal escondida na parede, 
ao lado da velha lareira de pedra.
       Parece-me que precisa de mais toros.  Ao endireitar-se, acrescentou:  Como precauo, d sempre umas quantas pancadas nesta porta untes de a abrir.
      Ela olhou para a parede e perguntou cautelosamente:
       Porqu?
        Cascavis. So uma surpresa desagradvel quando ainda se est meio acordado.
       Cascavis  repetiu Molly.
       Se as avisar tm a delicadeza de se ir embora. Provavelmente ainda no so um problema nesta poca do ano, mas no faz mal ter cuidado.
       Est a falar de cobras?  perguntou ela num fio de voz. Ele ergueu uma sobrancelha.
       No tem medo delas, pois no? Claro que tinha medo delas.
        As cobras-cascavis metem-se na caixa dos toros?  perguntou Molly ao passar por ele para ir observar a caixa de metal.  Isto no tem um trinco, pois no? 
Uma cobra pode empurrar a porta e entrar?
       No  provvel.
      Tratando-se de cascavis, ela preferia ter a certeza:
       Mas pode acontecer.
       Acho que sim.
       Ento o que  que as impede de entrar em casa?
       Sobretudo o seu bom senso. Acabam mortas se se aproximarem das pessoas. Basta dar umas quantas pancadas na porta que elas fogem. O mais certo  nunca encontrar 
nenhuma.
      Ela teria um ataque de corao se encontrasse uma cascavel. Olhou para os instrumentos baos da lareira que estavam atrs dele, perguntan-do-se se o atiador 
serviria para matar uma cobra. Quando voltou a olhar para Jake, ele puxava uma orelha com ar perplexo.
       Nunca passou muito tempo em zonas de cobras-cascavis, pelo que me parece.
      Ela ajeitou a madeixa de cabelo que no parava de lhe cair sobre os olhos.
       Na verdade, no.
       So criaturas solitrias. Caminhe com passos pesados e faa barulho. Se se embrenhar no bosque, leve um pau e bata no mato. Elas fogem para lugares mais 
seguros. Vivi aqui toda a minha vida e nunca soube de algum que tivesse sido mordido.
      Molly cruzou as mos sobre a cintura e voltou a lanar um olhar preocupado para a caixa dos toros, o que o fez suspirar.
       Quer que eu ponha um pedao de corda na parede?  perguntou ele.
       Para qu?
       Pensam que  outra cobra e no passam por ela.
       A srio? Est bem, claro que sim. Ele concordou com a cabea.
       Tenho de a ir procurar e traz-la para c.
       Est bem.
      O olhar dele prendeu-se no dela. Aps um interminvel momento, Jake sorriu:
       No tive a menor inteno de a assustar. Aqui a maioria das pessoas lida com as cobras sem lhes dar muita importncia.
        No se preocupe comigo  Molly engoliu em seco, resistindo  tentao de olhar para trs  procura de intrusos escorregadios.  Se  preciso fazer barulho, 
eu fao. O meu andar nunca foi muito leve. Afinal a minha falta de graciosidade sempre pode servir para alguma coisa.
      Ele continuou a procurar o olhar dela. Molly teve a impresso de que Jake ia dizer qualquer coisa e se arrependeu a seguir. Por fim, virou-se e foi l para 
fora.
      Ela ficou a olhar para a porta, desejando que fosse dupla. Com aquele calor, saber-lhe-ia bem uma brisa, mas no se atrevia a deixar a porta aberta, com medo 
que as cobras pudessem entrar. No sabia se era capaz de aguentar aquilo.
      Ao esfregar os olhos doridos voltou a encarar a hiptese de se ir embora. Mas o que iria ser de Sunset? Pestanejou e olhou para fora. De onde estava podia 
ver o garanho no cercado, os golpes ensanguentados na sua outrora bela pelagem negra brilhavam ao sol. Era preciso no ter corao para o abandonar.
      O rudo de uma grande pancada ressoou em toda a casa. Molly quase desatou a correr, mas, a seguir, percebeu que era apenas Jake a pr toros na caixa.
      O peso que sentia sobre os ombros devido  exausto era to brutal que podia ir-se abaixo naquele mesmo momento. Quando a figura distorcida do seu patro surgiu 
na porta, ficou a olhar para ele de tal modo esvada que nem sequer tinha conscincia de si prpria. Jake arregaou a manga solta da camisa para consultar as horas.
       O jantar  s seis em ponto. Faa uma sesta e vemo-nos nessa altura. No precisa de bater  porta. Ns no fazemos cerimnia.
      Grande novidade.
        Posso arranjar qualquer coisa para comer aqui  disse ela secamente.  Tenho alguns artigos de mercearia.
      Ele fez um leve sorriso.
       Mesmo assim, fico  sua espera para o jantar.
      Molly esteve quase a perguntar-lhe se era uma ordem, mas a seguir Icmbrou-se que trabalhava para aquele homem e engoliu as palavras. No era o momento prprio 
para sarcasmos. Tinha de pensar em Sunset. Se pusesse  prova a pacincia de Jake Coulter ele era capaz de a mandar embora.
      Jake tocou na aba do chapu.
       Vai ser outra vez chili em lata com biscoitos e, depois, claro, sais de frutos como sobremesa, mas se jantar connosco ter a oportunidade de conhecer todos 
os homens. Devem estar quase a chegar, com uma ressaca e piursos aps uma noitada de sbado na cidade. Vo ficar muito animados quando souberem que finalmente arranjei 
uma cozinheira.
      Todos os homens? Na boca dele parecia que vinha a um regimento. Sabe-se l porqu, tinha julgado que ia cozinhar apenas para ele e para 0 irmo.
       Quantos homens so?
       Nove a tempo inteiro. Onze, contando comigo e o Hank.
       E eu vou cozinhar para todos?
       Claro.
      Molly nunca tinha cozinhado para mais de quatro pessoas em toda a sua vida. Rodney sempre havia preferido encomendar as refeies a empresas de catering quando 
davam jantares por ela ser to m cozinheira.
       Eu no consigo cozinhar para tanta gente. Eu nem sequer...
        Claro que consegue. Ns somos pacientes. Toma-lhe o jeito com a prtica.  Ele afastou-se da porta.  Os homens tm as suas prprias instalaes  apontou 
com o polegar para um longo edifcio de madeira adjacente  casa , limp-las no faz parte das suas responsabilidades. Eles tm onde lavar a roupa. A sua nica 
preocupao ser manter-lhes a barriga cheia. No trabalham ao fim-de-semana. Normalmente vo sbado de manh para a cidade e voltam no domingo ao cair da noite, 
esfomeados. Se quiser sair, pode faz-lo entre o jantar de sexta-feira e a noite de domingo. Ou, se preferir, pode ficar por aqui. Desde que volte a tempo de fazer 
o jantar de domingo, para mim  igual. Eu e o Hank costumamos andar pelo rancho. Se um de ns sair, o outro faz o possvel para ficar c, por isso nunca vai ficar 
aqui sozinha.
        bom sab-lo.
      No conseguia pensar em mais nada a no ser no facto de ter de cozinhar para onze pessoas, doze incluindo ela. Deus do Cu. Nunca devia ter aceitado aquilo.
       O jantar  s seis em ponto  disse Jake, inclinando de novo a aba do chapu.  No se esquea. Ns esperamos pelos atrasados como os porcos esperam uns 
pelos outros. E, por outro lado, tambm no nos vestimos para jantar  o sorriso dele revelava que tinha acabado de dizer uma piada, e que a achava engraada.  
Venha simplesmente como est.
      
      
    Captulo 4
      
      
      
       medida que Jake caminhava para casa, observava as nuvens de poeira que se levantavam em redor das suas botas, a cada passo que dava, pensando que se assemelhavam 
a miniaturas do cogumelo formado pela exploso de uma bomba atmica. A comparao no podia ser mais apropriada. Se as suas suspeitas se confirmassem, acabava de 
tomar uma deciso que lhe podia rebentar mesmo na cara.
      Ao aproximar-se do cercado onde os animais se exercitavam, levantou o olhar para o garanho de um metro e oitenta de altura que se encontrava no interior da 
vedao. Nunca em todos os seus trinta e dois anos de vida tinha visto um animal to cruelmente maltratado. As marcas do chicote eram muito profundas. Embora as 
tivesse examinado o mais perto e o melhor que podia, dentro do cercado, e nenhuma delas necessitasse de pontos, a maioria iria deixar cicatrizes.
      Que espcie de homem era capaz de fazer uma coisa daquelas?
      Apoiando os cotovelos sobre uma travessa da vedao, Jake esfregou o osso do nariz, pensando que estava a precisar de quatro ibuprofen acompanhados de whisky. 
Por norma, no tinha o hbito de beber quando se sentia com stresse, mas esta noite era capaz de fazer uma excepo. Por vezes, quando um homem no consegue encontrar 
respostas seja para onde quer que se volte, acaba por descobrir algumas no fundo de uma garrafa.
       Com todos os diabos, o que ter acontecido a este cavalo?
      Jake deu um pulo ao ouvir a voz do seu irmo mais novo. Comeou a andar de um lado para o outro com os pensamentos to emaranhados que quase formavam um n, 
tentando descobrir uma maneira de explicar a situao a Hank. O panorama era to desanimador que teve vontade de enterrar o chapu at s orelhas e dizer que estava 
com dor de cabea. No seria totalmente mentira, uma vez que tinha duas, uma dentro do chapu e a outra alojada na casa de madeira junto ao riacho.
       Ol, Hank.
       No tens mais nada para me dizer?
      Assustado pela aproximao de Hank, Sunset empinou-se e comeou a relinchar. O rapaz parou repentinamente e exclamou:
       Santo Deus, Jake! De onde  que este veio?
      Uma sensao de aperto e asfixia apoderou-se da garganta de Jake Coulter.
        No tenho bem a certeza de onde  que ele veio. Portland, possivelmente. Ou talvez de algum local mais a sul.
      Virando-se para apoiar o ombro na vedao, viu o irmo aproximar-se cautelosamente dele. Com os seus vinte e nove anos acabados de fazer, Hank parecia-se tanto 
com o pai deles que podia ser um clone. A sua pele bronzeada pelo sol era escura como o melao e o cabelo despenteado que lhe caa sobre a testa parecia formar remoinhos 
de chocolate. A T-shirt empapada de suor que trazia vestida estava suja de terra, resultado da luta que havia travado com os vitelos doentes para lhes dar injeces, 
e a camisola de algodo pegava-se-lhe ao peito como se fosse uma segunda pele. Os seus olhos azuis faiscaram intensamente quando levantou a aba do chapu em busca 
do olhar de Jake.
        Se no tens a certeza de onde  que ele veio, como raio  que o cavalo foi parar ao nosso cercado?
        uma boa pergunta.
      O msculo do queixo de Hank deu um estalo.
       Tudo indica que este infeliz foi chicoteado.
      Jake respondeu que sim com a cabea, notando que Hank, tal como ele, tinha as mos em forma de punho.
       Quem  o dono dele? Poucas coisas neste mundo me do vontade de partir as trombas a algum, mas no tenhas a menor dvida que esta  uma delas.
      Jake apontou para trs dos ombros.
        A pessoa que o trouxe est na casa de madeira. Agarra o chapu antes de comeares a partir as trombas a algum ou eu terei de partir as tuas por falta de 
educao.
       Uma mulher?
       Exactamente.
      Hank semicerrou os olhos:
       Nenhuma mulher pode marcar um cavalo desta maneira, a menos que tenha a compleio de uma amazona.
       No tem.  Jake teve vontade de rir perante a imagem de Molly que surgiu na sua mente. Amazona no era de todo a melhor palavra para a descrever.  Acho 
que ela deve ter um metro e meio.  difcil de perceber porque usa aqueles sapatos novos com solas grossssimas  enfiou um polegar no cinto.  Nunca consegui compreender 
o que  que as mulheres vem naquelas porcarias. So uma boa maneira de partir o tornozelo, se queres saber a minha opinio. Hank franziu as sobrancelhas.
        O que  que o gosto dela em matria de sapatos tem a ver com isto?
       Nada. Era s para meter conversa.
      Hank comeou a falar, mas a seguir fechou a boca, lanando um olhar cortante a Jake. Cruzou os braos sobre a travessa de cima da vedao, prendeu o taco 
da bota no intervalo entre as duas travessas mais baixas, e ficou uns instantes a observar o garanho.
      Aquele momento de silncio proporcionou a Jake uma oportunidade para organizar os seus pensamentos, que era o que Hank pretendia. Se havia algum que o conhecia, 
era, sem dvida, o seu irmo mais novo.
      Jake disse em voz solene.
       Fiz uma coisa terrvel, Hank. Vais ficar mesmo muito chateado comigo e no te posso censurar.
      Hank moveu-se, mas voltou a colocar-se praticamente na mesma posio com a anca inclinada para cima e uma perna esticada para trs.
       Percebo que te meteste num sarilho  disse Hank.
      Jake procurou a forma de apresentar a situao sob o seu melhor ngulo. Esteve tentado a suavizar alguns factos mas, segundo os seus princpios, isso significava 
mentir por omisso e ele no era um homem que usasse a mentira, fosse por que motivo fosse. Respirou fundo, expeliu demoradamente o ar e disse:
       Penso que ela roubou o cavalo.
       Pensas que ela fez o qu?
      Jake esboou um esgar de dor perante o tom elevado da voz do irmo. Parecia-lhe que tinha cmbalos a baterem nas suas tmporas.
       Atendendo ao facto de ela no me parecer uma criminosa, a minha impresso  de que no teve outra alternativa.
        H sempre alternativas quando no se quer violar a lei. Por que haveria algum de fazer uma coisa to louca como roubar um cavalo?
       Como raio hei-de eu saber? Mas acho que deve ter as suas razes. Parece uma mulher inteligente e olhando para ela v-se que tem um bom corao.  Jake esfregou 
de novo o osso do nariz.  Diz que se chama Molly Houston.
       Diz?
        O nome prprio  convincente, mas acho que o apelido  pura inveno  pensou um instante antes de continuar.  Ela  um enigma, Hank, uma daquelas pessoas 
muito difceis de decifrar.  No seu esprito surgiu de novo a imagem de Molly, doce e rechonchuda nos stios certos, com cabelo cor de whisky, grandes olhos castanhos 
dourados e uma imaculada pele de marfim. Desde que atingira a idade adulta sempre se tinha interessado por mulheres altas, de longas pernas, mal reparando nas baixinhas 
e generosamente torneadas. Mas havia qualquer coisa em Molly, qualquer coisa de indefinvel que o tinha cativado no preciso instante em que a vira. Achou que deviam 
ser os olhos, to abertos, receosos e carregados de desconfiana. Sempre que olhava para ela sentia vontade de a abraar e tranquilizar.   uma coisinha bonita, 
se gostares do tipo e no ligares  camuflagem.
      Hank voltou a lanar-lhe um olhar cortante.
       Que camuflagem?
      Jake pensou como havia de responder.
        Alguma vez encontraste uma mulher que faz tudo para parecer desengraada?
      Hank sorriu pensativo.
       Poucas.
       A Molly  assim, mas est a travar uma batalha perdida. Teria de meter a cabea num saco para esconder aquela cara.  Ele pensou na forma como ela usava 
o cabelo puxado para trs numa trana.  No se preocupa em pr maquilhagem e as suas roupas so to largas que serviam para uma mulher com o dobro do seu tamanho 
e ainda sobrava espao para uma mida.  Olhou para o irmo com ar inquiridor.  O que levar uma mulher atraente a distorcer a sua aparncia?
      Hank voltou a mover-se e, a seguir, coou o queixo.
       Como raio hei-de eu saber? Para desviar a ateno, talvez. Ser que tem medo dos homens?
      Jake lembrou-se que ela se tinha mostrado nervosa ao p dele e achou que aquela explicao fazia algum sentido.
       Talvez  admitiu ele.  Mas, de um modo geral, no me parece que seja tmida.  preciso ter coragem para trazer aquele cavalo para aqui. A maior parte das 
pessoas ter-se-ia assustado e voltado para trs no primeiro declive acentuado da estrada.
      Hank olhou de relance para o Toyota estacionado em frente da casa de madeira e, a seguir, examinou o grande reboque.
       O que  que se est aqui a passar, Jake?
       Bem, agora  a parte de que no vais gostar, por isso vou cont-la o melhor que puder.
       Vai directo ao assunto  disse Hank. Jake voltou a respirar fundo.
       Disse-lhe que ia trabalhar com o cavalo e dei-lhe um emprego para que ela possa pagar os meus servios.
       Tu o qu  Hank ergueu as suas escuras sobrancelhas.  Por favor, diz-me que eu percebi mal. Um emprego para fazer o qu?
       Governanta e cozinheira. Estamos  procura de uma e ela precisa de um emprego e de um lugar para dormir. Parece-me a soluo perfeita.
      Hank riu-se incrdulo.
       Contrataste uma ladra de cavalos? Jake, isto tambm  um rancho de cavalos. Por que raio  que achas que ela no vai roubar os nossos cavalos tambm?
       Eu sei que no faz sentido. Estou apenas a contar-te o que eu fiz. No podia mand-la embora.  Jake olhou para as palmas das suas mos.  Sei que devia 
ter falado contigo primeiro, mas eu no consegui virar-lhe as costas. Ela parecia to perdida e eu fiquei com a sensao... bem, no sei... a sensao de que ns 
ramos a sua nica esperana.
      Hank abanou a cabea, mais incrdulo a cada segundo que passava.
       Se ela roubou o cavalo a polcia anda certamente  sua procura. Podem culpar-te pelo roubo do cavalo e isso  um crime grave.  Apontou para o garanho. 
 Parece-me um cavalo de corrida. No so baratos, listamos a falar de um furto importante.
       Pensei nisso tudo.
       Podemos perder o rancho  sublinhou Hank.  J pensaste nisso? As pessoas no me trazem os seus animais se o meu irmo estiver preso por roubar cavalos. 
Neste momento, o programa de treinos  a nica coisa que nos permite sobreviver.
      Jake no conseguia encontrar um nico argumento que pudesse utilizar em sua defesa.
       Eu sei  disse ele em tom sepulcral.
       E ainda a queres ajudar? Raios te partam, Jake. Como  que sabes se a polcia no anda j atrs dela?
      Jake engoliu em seco e procurou o olhar do irmo:
        Ela causou-me uma impresso que no consigo explicar, Hank. Nem sou capaz de racionalizar o meu comportamento depois disso. Eu no podia pura e simplesmente 
mand-la embora.
      Hank bufou e inclinou a cabea.
       Muito bem  disse finalmente.  Se  uma coisa que tu tens de lazer, no merece a penas estarmos a discutir. Foi o teu dinheiro que investimos, no o meu. 
No tenho voz na matria.
       Sabes muito bem que esta terra  dos Coulter. Somos scios. Nunca fiz distino entre o meu dinheiro e o teu.
       At agora  respondeu Hank.
      Jake ficou completamente descontrolado e olhou para o irmo, olhos nos olhos:
       Que diabo queres tu dizer com isso?
       Apenas o que disse. Foi com o nosso suor que levantmos esta terra  fez um gesto com a mo para abranger o rancho.  Talvez no tenha dinheiro para competir 
contigo dlar por dlar, mas trabalhei ao teu lado debaixo de um frio de rachar para reconstruir a casa e andei enterrado na lama e na neve at ao rabo durante todo 
o Inverno para reparar as vedaes e tratar dos animais. Agora,  primeira oportunidade, pes tudo em risco e nem sequer me dizes nada.
      Jake fez um esgar de dor, porque tudo o que o irmo tinha dito era verdade.
        Desculpa  respondeu bruscamente.  Tens razo, Hank. Desculpa.
       Pedir desculpa no serve para pagar a hipoteca se fores dar com os ossos na cadeia.  Hank voltou a colocar o brao na barreira da vedao e baixou a cabea. 
 Raios te partam. Gosto de praticar boas aces, mas tudo tem um limite, no? Este rancho no  uma terra qualquer. Tivemos sorte em o ter recuperado e agora meteste-te 
numa aventura que nos pode levar a perd-lo de novo.
      Jake suspirou e fechou os olhos.
       Tens razo. Sou culpado de tudo o que me acusas. Peo desculpa, Hank. Vou dizer-lhe que mudei de opinio e pedir-lhe para se ir embora.
      Fez-se silncio. Jake esperou que o irmo falasse. Ao no ouvir qualquer palavra, olhou para ele. Hank examinava o garanho com os seus olhos azuis chispando 
de fria e a boca transformada numa linha sombria. Quando sentiu que Jake o observava, lanou-lhe um olhar colrico.
       Fazes muito bem! Pe as culpas todas em cima de mim.
        No te estou a pr culpa nenhuma em cima. Argumentaste bem, eu sei que tens toda a razo e no h outra coisa a fazer. Primeiro est o rancho. Tal como 
disseste, tivemos muita sorte ao t-lo recuperado.
      Hank voltou a olhar para o cavalo. Aps um longo momento abanou a cabea.
        Quem  que consegue virar as costas a isto? Pobre desgraado. Olha s para ele!
      Jake j tinha olhado o suficiente. O estado do animal era um testemunho da depravao e falta de piedade da raa humana, fazendo-o sen-tir-se ligeiramente 
agoniado. Pior ainda, ele tinha o mau pressentimento de que o cavalo no havia sido o nico a sofrer. Molly no apresentava marcas fsicas que ele tivesse visto, 
mas nem todas as feridas so infligidas na pele. Ao afastar-se da vedao, meteu as mos nos bolsos dos jeans.
      Perante esta atitude de Jake, Hank virou a cabea e disse:
       No te precipites.
      Jake reprimiu um sorriso. Embora a diferena de idade entre ele e Hank nem sequer chegasse a quatro anos, sempre se tinha sentido muito mais velho do que o 
irmo, o que sem dvida se devia ao facto de ser o primeiro de cinco irmos arruaceiros que viam nele um exemplo a seguir. Tinha visto Hank deixar de ser um adolescente 
espigado e malandrote para se tornar num estudante universitrio compenetrado, mas no dera pela sua ltima transformao, que fez dele um adulto. No era um mido 
que olhava para ele de sobrolho franzido, mas um jovem bem-parecido que constitua um motivo de orgulho para o pai deles e para a famlia Coulter.
       Por vezes dou comigo a pensar no significado disto tudo  disse Hank baixinho.  H pessoas que conseguem determinar a fronteira entre o certo e o errado. 
Ao olhar para elas  fcil chegar  concluso que llo custa nada seguir o caminho recto.
      Jake tirou as mos dos bolsos e encostou-se novamente  vedao.
       Se  o que queres, peo-lhe que se v embora. Hank riu-se sem achar a menor graa.
       No. Sou to louco como tu.  Lanou uma vista de olhos ao rancho, franzindo os lbios num sorriso triste.  Se olharmos para isto com olhos de ver, Jake, 
por muito que amemos este rancho, ele no passa de um pedao de terra.
      O irmo mais velho deixou escapar um pequeno riso:
       Terra dos Coulter. Para ns  especial como nenhuma outra jamais ser.
       Apenas porque trs geraes de Coulters a trabalharam e nela criaram os seus filhos.  Hank contemplou a floresta que irrompia por todos OS lados.  O que 
 que pensas que o nosso bisav teria feito neste caso?  Lanou um olhar inquiridor a Jake.  Achas que ele virava as costas quele cavalo?
       -me difcil saber, eu nunca o conheci.
       Conheceste o av e de certeza que ambos conhecemos suficientemente bem o nosso pai. Lembras-te quando ele uma vez na feira arrancou a um cowboy o chicote 
de couro entranado com que estava a espancar o cavalo dele.
      Jake lembrava-se bem do incidente. Hank sorriu de orelha a orelha:
       Aplicou a mesma receita ao sacana e a me teve de pagar uma cauo para o tirar da cadeia.
       Mais gnio do que bom senso.  o nosso pai sem tirar nem pr. Hank abanou a cabea e a sua expresso tornou-se subitamente sria.
       O bom senso no era para ali chamado. Fez justia e deu quele filho da me uma lio de que ele nunca mais se esqueceu.
       O que  que queres dizer com isso, Hank?
       Que ns somos Coulters e temos a obrigao de estar  altura do nosso nome  deu um suspiro e encolheu os ombros.  O rancho que v para o diabo. Se o perdermos, 
podemos sempre comprar outras terras, mas no podemos voltar a comprar a nossa dignidade. H momentos na vida em que uma pessoa no pode fazer vista grossa se quiser 
estar bem consigo prpria. Acho que este  um deles  fez um aceno de cabea ao cavalo.  Nenhum de ns valeria uma cdea de po se lhe virssemos as costas.
       Sei que ajud-la no foi a deciso mais inteligente que tomei na minha vida  admitiu Jake , mas foi a nica que consegui tomar naquele momento. Ela estava 
quase a ir-se embora e raios me partam se eu era capaz de ficar ali especado a v-la partir.
      Os cantos dos olhos de Hank encheram-se de rugas ao observar o garanho:
       Sabes o que dizem sobre os quatro sbios que conseguiram entrar no cu? A nossa deciso pode no ser inteligente mas, acontea o que acontecer,  certamente 
a deciso correcta.
      
      Algum gritou. Molly acordou sobressaltada e ps-se  escuta. O grito no se repetiu, e por isso achou que estava a sonhar. Tentou virar-se, mas sentia-se 
to entorpecida que lhe parecia que os seus ligamentos estavam enregelados. Pestanejou, tentando ver alguma coisa, mas s havia escurido. Onde estaria ela? Sentia-se 
como se fosse um pedao de carne no fundo de um congelador. Apertou o corpo com os braos e esfregou-os um no outro. Estava to gelada que no se conseguia mover.
      Ouviu um novo grito estridente. Surpreendida pelo som, deu um salto para fora da cama, tropeou nos sapatos e estatelou-se no que lhe pareceu um soalho poeirento. 
Bateu com o queixo numa das tbuas do cho e ficou a ver estrelas. Permaneceu assim durante algum tempo, demasiado assustada para se mexer.
      Logo que sentiu a cabea mais firme, tacteou o soalho com a palma da mo, tentando perceber onde se encontrava. O horrvel grito soou uma vez mais, ecoando 
na escurido. Foi ento que se lembrou. A casa de madeira, Jake Coulter. Era Sunset quem estava a soltar aqueles gritos.
      Para ele relinchar daquela forma de certeza que alguma coisa terrvel lhe havia acontecido. Tinha de o ir ver. Ao pr-se de p todos os seus ligamentos protestaram. 
Quanto tempo teria estado a dormir? A julgar pela escurido, o Sol j se tinha posto h muito, o que significava que haviam passado vrias horas.
      Usando ambas as mos atravessou o quarto s apalpadelas e foi parar desajeitadamente  sala de estar. Um luar muito fraco, mas bem-vindo, entrava pela porta 
da frente que estava aberta, como se fosse um farol que estava ali para a guiar.
      Ao chegar ao alpendre, esfregou os olhos para afastar o sono e pestanejou sob o plido luar, tentando descobrir Sunset. Como se o tivesse feito de propsito, 
o garanho em pnico voltou a soltar um relincho de terror. Ela estava mesmo a sair do alpendre quando um vulto grande e escuro surgiu  sua frente. O corao de 
Molly deu um pulo e ela recuou um passo.
       Desculpe  disse uma voz profunda.  No pretendia assust-la.
       Senhor Coulter?  inquiriu ela, respirando apressadamente. Ao esforar-se para ver melhor, franziu tanto os olhos que ficou com eles a arder.   o senhor?
       Jake  corrigiu-a ele.
       Ai, graas a Deus  exclamou Molly, sentindo-se to aliviada que nem se importou com o tom esganiado da sua voz.  Pensei que fosse um urso.
      Ele riu-se ligeiramente, de uma forma seca, mas quente.
       Por vezes, fico to mal-humorado como um urso. Acha que chega para ser confundido com um?
      Moveu-se e a sua silhueta desapareceu. Molly semicerrou os olhos, tentando v-lo no meio da escurido.
       Senhor Coulter?
        Estou aqui  uma voz profunda e divertida soou perto do seu ouvido.
      A seguir, deu um salto e levou a mo ao peito:
       Santo Deus!
      Jake riu-se suavemente.
       No me v?
      Molly teve saudades da cidade, onde milhares de luzes iluminavam o cu nocturno:
       Claro que no. Est escuro como breu aqui.
       Para mim  to claro como se fosse dia.
       Ainda bem para si.  Ao aperceber-se do tom petulante da sua voz tentou ser menos arrogante.   bom que um de ns consiga ver. Aconteceu alguma coisa terrvel 
a Sunset. No o ouviu relinchar?
       Ele est bem. O melhor possvel, dadas as circunstncias. J comeu um pouco de cereais e depois tem estado, de um modo geral, calmo. Apenas se assustou quando 
passei pelo seu cercado.
       No lhe aconteceu nada, ento?
       Nada que o tempo, a pacincia e uma mo carinhosa no possam curar.
      Molly ouviu um som semelhante ao do papel a ser amachucado. A seguir, um rudo seco e metlico chegou-lhe aos ouvidos. Sem saber muito bem como, viu-se agarrada 
pelo brao.
        Serei os seus olhos at conseguirmos acender uma luz.  Segurando-a fortemente, Jake decidiu gui-la at  porta atravs da escurido. Molly era capaz de 
jurar que sentia o calor que emanava da pele dele.  Caramba, mida, est completamente gelada  disse ele, passando suavemente o polegar pela pele fria de Molly.
       Apanhei um pouco de frio enquanto estive a dormir.
      Assim que entraram em casa, Jake soltou-a para ligar o interruptor da parede. O velho candeeiro de p alto junto  poltrona que estava perto da janela da frente 
acendeu-se, inundando a pequena sala com a luz dourada que saa do seu globo de vidro estriado. Molly pestanejou, ficando momentaneamente to cega com a luminosidade 
como havia ficado no meio da escurido.
       medida que os seus olhos se habituavam  claridade, reparou que ele trazia debaixo do brao uma marmita de um litro embrulhada em plstico, um pacote que 
parecia de biscoitos Ritz e um termo de ao.
       O seu jantar  explicou ele.  No a posso deixar dormir durante as refeies, porque assim enfraquece, sobretudo se quiser faz-la trabalhar at  exausto.
       Ah, claro!  Molly teve vontade de bater em si prpria pela sua altivez e falta de sentido de humor. Ele estava a brincar com ela e devia responder-lhe da 
mesma forma. Infelizmente, nunca conseguia ter a cabea lmpida depois de acordar, um problema que sempre a tinha perseguido e que agora se agravara com a queda 
da cama e por ter os nervos completamente em franja.  E eu que pensava que estava apenas a ser atencioso comigo.
       Tambm  admitiu ele, mordaz.  Agora que consegui arranjar uma cozinheira e governanta, no quero que ela me deixe  brandiu a marmita de chili.  Se esta 
for a minha ltima refeio de comida enlatada, eu nem acredito.
      Ao v-lo vestido com roupas de rancheiro, Molly achou-o ainda mais perigosamente atraente do que antes. O chapu inclinado para a frente :apava os seus irresistveis 
olhos azuis, permitindo-lhe apreciar melhor 3 resto da cara. Os seus lbios finos e firmes brilhavam sob a luz do candeeiro como se fossem de seda hmida. As sombras 
delineavam-lhe is feies cinzeladas, acentuando a sua aspereza masculina. Tinha uma covinha no queixo anguloso e o nariz afiado sobressaa entre as grossas sobrancelhas 
negras como se de uma lmina se tratasse. Reparou que ele inha uma cicatriz num dos lados, resultante de um antigo corte.
      O seu olhar deteve-se no colarinho da camisa. O algodo azul, tingido de propsito para dar  pea de roupa um ar meio gasto, adquirira ama tonalidade quase 
branca e contrastava fortemente com o tom ocre do seu pescoo bronzeado. Molly nunca havia conhecido algum como fake Coulter. A maior parte dos homens com quem 
se dava usavam fatos de bom corte, incluindo o seu querido pai, j falecido. No mundo dos legcios, os homens bem-sucedidos vestiam-se de acordo com o seu estatuto.
      Mas, por estranho que parecesse, Jake Coulter aparentava um ar de mportncia e autoridade apesar das suas vestes despretensiosas. Isso devia-se  forma como 
ele se comportava, concluiu ela, e ao modo descontrado e confiante com que se relacionava com os outros. Era um tipo de homem que inspirava respeito, vestisse o 
que vestisse.
      Tentou visualiz-lo com um fato, mas a imagem no se ajustava. Era aqui que ele pertencia, em comunho diria com a terra e a vastido que o rodeava.
      Quando os seus olhares se cruzaram de novo, ficou incomodada ao descobrir que ele a estava a examinar com a mesma intensidade com que ela o examinava a ele.
       No me tinha apercebido que era to alto  disse estupidamente. Ele esboou um sorriso.
       E eu no percebi que era to baixa. Foi por causa dos saltos, acho eu. Devem ter uns bons centmetros.
       Estou apenas um pouco abaixo da mdia. O sorriso dele alargou-se.
       Se conseguir esticar-se. Mede  volta de metro e meio, no?
        Um metro e cinquenta e sete.  Molly sentiu uma onda de calor afluir-lhe  face. Tinham troado impiedosamente dela no liceu por ser baixinha, e isso tornara-se 
o seu ponto sensvel desde ento. Cruzou as mos sobre a cintura.  Se  preciso ter uma determinada altura para o trabalho, basta dizer, Senhor Coulter, que eu 
arrumo as minhas coisas e vou-me j embora.
        No tenho qualquer exigncia quanto  altura.  Jake olhou demoradamente para ela, o que a perturbou.  Nunca medi ningum aos palmos. As suas pernas vo 
desde o traseiro at ao cho, tal como as minhas. Acho que isso  suficiente.
      Mais uma vez ela teve a impresso de que ele a fitava com olhos demasiado penetrantes, e de que no havia nada que pudesse ocultar a este homem. Desejava cortar 
o contacto visual, mas no foi capaz. Por fim, ele desviou a ateno para a boca dela e os seus olhos tornaram-se azul--acinzentados. Molly olhou nervosamente para 
o outro lado, insegura e confusa. Ele olhava para a sua boca como se...
      Mudou rapidamente de opinio. Os homens jeitosos como Jake Coulter nunca se sentiam atrados por mulheres como ela. Era estpido considerar sequer essa hiptese. 
Devia parecer um estafermo com o cabelo todo emaranhado e os olhos congestionados de sono.
       Obrigada por me ter trazido o jantar, foi muito amvel da sua parte.
      Estendeu as mos para segurar na marmita, mas ele sorriu e comeou a andar. Aproximou-se da parede para acender a luz do tecto da cozinha e, a seguir, pousou 
a comida na mesa redonda de madeira que se encontrava no espao anexo onde comiam.
       Fao-lhe companhia enquanto come. Preciso de falar consigo.
      Molly sentiu um n no estmago. Sobre que assunto precisaria ele de falar com ela? O tom da sua voz no admitia rplica, mas ela tentou arriscar.
       No estou nas melhores condies quando acordo. Talvez seja melhor adiar a conversa para depois.
       Comer sozinha  mau para a digesto.
      Durante o seu casamento, Molly tinha tomado a maior parte das refeies sozinha. Rodney estava sempre demasiado ocupado com as suas mltiplas namoradas para 
passar tempo com ela.
       Estou habituada.
        Est?  Colocou o termo ao lado da marmita e lanou-lhe uma olhadela por detrs do ombro.  Uma rapariga bonita como voc no devia estar.
      Bonita? Sentiu novamente calor afluir-lhe ao rosto. Detestava que os homens lhe dessem piropos. Sabia que no eram sinceros e isso tinha o efeito perverso 
de piorar a sua auto-estima em vez de a aumentar.
      Olhou para o relgio. Eram quase oito horas.
      Quando Jake reparou que ela estava a ver as horas, disse:
       No se vai transformar numa abbora. Venha comer para que eu possa levar os pratos sujos e met-los na mquina  mas ao virar-se para trs reparou que ela 
tiritava de frio e esfregava os braos um no outro. Tirou os olhos de Molly e pousou-os na porta da rua.  Vou acender a lareira enquanto se senta. O ar da noite, 
aqui no campo,  muito frio para quem no est habituado a ele.
      Quando ia para a cozinha, Molly chocou com Jake que vinha em direco  porta. Bateu com fora no peito dele e quase caiu, mas Coulter agarrou-a pelos ombros.
       Est bem?
       Estou ptima  garantiu ela, tentando afastar-se.
       Tinha-me esquecido de como esta casa  pequena  disse ele, continuando a agarrar-lhe os braos.  No se consegue dar um passo sem encalhar em alguma coisa. 
Eu e o Hank estvamos sempre a cair por causa dos encontres que dvamos um no outro, quando morvamos aqui.
      Ele no a tinha feito propriamente cair, mas se a tivesse continuado a agarrar, Molly no sabia quanto tempo ainda se conseguiria aguentar nas pernas. Sentia 
a pele elctrica nas zonas onde ele lhe tocava e essa sensao despertava-lhe extremidades nervosas que ela j nem se lembrava que existiam.
       O que  isto?  perguntou ele, levantando a mo para lhe segurar o queixo.  Caiu?
      Ia dizer que no, mas o polegar de Jake roou numa zona dorida, fazendo-a lembrar-se da queda em que batera com a cabea no cho.
       Eu... hum... mais ou menos. No foi nada de importncia, nem sequer me apercebi de que me tinha aleijado.
      Jake voltou a passar o polegar ao de leve pela zona.
        apenas um pequeno arranho, mas pode deixar marca.  Levou o dedo at  boca dela. O toque suave do polegar dele na sua pele sensvel f-la respirar apressadamente. 
 O seu lbio inferior est tambm um pouco inchado.
      Molly no se conseguia mover, nem era capaz de pensar. Mesmo depois de Jake ter voltado a pousar a mo sobre os seus ombros, o olhar dele continuava fixo na 
sua boca como se a quisesse beijar. Ela teve medo de desmaiar se ele o fizesse.
      
      
     Captulo 5
      
      
      
      Jake Coulter era um homem que sabia lidar com mulheres. Bastava olhar para ele para Molly se aperceber disso. Ao beijar uma mulher era ele quem tomava o comando 
sem quaisquer hesitaes ou movimentos desajeitados. As suas mos e os seus lbios poderosos dominavam tudo. As mos dela tornaram-se punhos cerrados, aterrada pelos 
seus pensamentos e, o que era ainda pior, que ele os pudesse ler nos seus olhos. Que reaco mais estranha. Ela mal o conhecia.
      Sentiu outro arrepio, mas desta vez no foi por causa do frio. Jake agarrou-lhe os braos com mais fora, pressionando-lhe ligeiramente os ombros. Ele era 
capaz de a levantar do cho sem qualquer problema e ela imaginou por breves instantes a sensao que isso lhe causaria.
      Na sua noite de npcias, Rodney tinha-a levado ao colo at  entrada da casa, mas isso havia sido h dez anos, ela tinha menos treze quilos, e j quase se 
tinha esquecido por completo. Tinha batido com a cabea na ombreira da porta. Disso lembrava-se bem. E de que ele a pusera no cho assim que entraram em casa, mais 
interessado em beber champanhe do que em fazer amor com a noiva.
      Aquela recordao ressuscitou-lhe uma mgoa quase esquecida. A sua lua-de-mel durara muito pouco, apenas umas horas aps o casamento. Estava  espera de uma 
noite incrvel, cheia de romantismo, msica suave e paixo. Mas, em vez disso, tinha oferecido a sua virgindade a um bbado trapalho que, a seguir, tombara sobre 
ela como um cepo, ressonando-lhe aos ouvidos. O seu casamento tinha ido de mal a pior a partir desse momento.
      O seu problema com Coulter era por causa disso, concluiu ela. Tantos anos perdidos, roubados por um homem que nunca a amara nem to pouco a tinha desejado. 
No mais profundo do seu ser, num canto puramente feminino do seu corao, sentia-se enganada.
      Estava quase nos trinta anos, e embora muitas pessoas ainda a considerassem bastante jovem, no conseguia deixar de pensar que o tempo lhe estava a fugir.
      Qual seria a sensao de um beijo mgico ao luar?
      Qual seria a sensao de ser levada ao colo?
      Ia possivelmente morrer sem nunca ter sabido o que era a paixo. Passava bem sem poemas de amor e serenatas  janela do quarto. Se algum jamais trepasse  
sua varanda para lhe jurar devoo eterna, tambm no sentiria a falta.
      Mas, caramba, queria que um homem, alm do seu pai, lhe dissesse que era bonita e lhe desse flores antes que os seus ovrios definhassem. Pelo menos uma vez. 
Seria pedir demasiado?
       Depende do que quiser.
      Molly pestanejou. A sombra do rosto de Jake era projectada pelo feixe de luz que vinha da cozinha.
        Perdo?  perguntou ela, rezando para que no tivesse pensado em voz alta.
       O que seria pedir demasiado  repetiu ele.
      Ela voltou a pestanejar e fechou a boca. Devia ter serradura em vez de miolos.
       Nada. Estava a divagar. Eu bem lhe disse que no consigo pensar com clareza quando acordo.
      Jake esfregou as mos nos braos dela para a aquecer, e disse-lhe:
       Vou acender a lareira.
      Tinha acabado de atear um fogo e no havia dado por isso.
      Molly engoliu em seco. Bolas. Isto no est a correr bem. Como poderia ela trabalhar para um homem se no conseguia olhar para ele sem se lembrar que o tinha 
visto em tronco nu?
      Como se Jake Coulter se tivesse alguma vez interessado por ela? Mas que diabo estava ela a pensar? A sua tez era de um branco deslavado, linha os seios cados, 
a cintura larga, papos nas coxas e tanta celulite nas ndegas que estas pareciam gigantescas bolas de golfe.
      Dirigiu-se para a mesa. J chegava. No tinha nenhuma hiptese com os homens. Nenhuma, absolutamente nenhuma, nunca jamais em tempo algum. Quando conseguisse 
recuperar o dinheiro, ofereceria as malditas llores a si prpria e pronto. Encheria uma banheira inteira de flores se lhe apetecesse. Os machos da sua espcie podiam 
desaparecer.
      Deixou-se cair agradavelmente numa cadeira velha e gasta, sentindo o corao aos pulos enquanto tentava concentrar-se no chili. Mas na realidade, estava a 
tomar ateno a todos os barulhos que Jake fazia na sala, o rudo surdo da lenha e o som de jornais amachucados. Da a poucos segundos a lareira estava acesa.
      Jake tirou um fsforo da caixa que estava em cima da prateleira do fogo e, movendo rapidamente o pulso, passou-o pela costura lateral das aas calas de ganga. 
Molly nunca tinha visto ningum acender um fsforo nas calas. Tentou imaginar-se a fazer o mesmo e chegou  concluso e que pegaria fogo a si prpria ou morreria 
de frio antes de o conseguir cender.
      Observou-o, fascinada, a trabalhar, admirada pelo modo como ele se gachava to confortavelmente diante da lareira. Tudo o que tinha a ver am aquele homem  
todos os movimentos que ele fazia  era deliciosamente masculino.
      Deliciosamente? A palavra no lhe saa da cabea. Estava mais cansada o que pensava, concluiu. O seu corpo encontrava-se despeito, mas a ente estava ainda 
parcialmente adormecida.
      Jake olhou na direco dela, como se tivesse sentido os seus olhos sobre ele, e Molly voltou a concentrar-se no chili. Retirou-o do plstico am mos trmulas. 
O odor forte e quente do picante guisado de feijes carne picada chegou-lhe ao nariz.
      No tempo em que a vida lhe corria bem, ela no gostava muito de hili. Quer fosse feito em casa ou enlatado, era geralmente gorduroso e os alimentos gordos 
no lhe caam bem no estmago. Tambm no tinha ma especial predileco por carne. No conseguia tirar da cabea as imagens dos pobres animais que tinham morrido 
para a sustentar.
      No entanto, achou que essas consideraes no seriam entusiasticamente recebidas no Lazy J. Criar e vender vacas era parte integrante da ida de Jake Coulter.
       A comida no est boa?
      Molly olhou para ele admirada. Jake continuava de ccoras diante da lareira. A luz dourada tremeluzia na sua face, desenhando as superfcies sas e duras bem 
como os traos afilados das suas feies bem esculpias. Sob aquela luminosidade danante os olhos dele adquiriram o brilho a prata banhada pelo sol. Naquele momento 
ela achou que ele tinha o rosto de um anjo das trevas. Seria bom que no se esquecesse disso.
       A comida est ptima  amachucou o invlucro de plstico com mo e comprimiu-o fortemente com os dedos , eu  que ainda no estou bem acordada. Ele riu-se 
ligeiramente e indicou com um aceno de cabea o termo.
       Tem leite fresco mungido das Guernsey esta manh e perfeitamente elado. Talvez a faa abrir os olhos.
      Sem dvida que lhe faria abrir os olhos. Bebia leite meio-gordo em criana, mas depois de adulta passou a preferi-lo magro devido aos seus problemas de peso. 
Nunca havia provado leite cru em toda a sua vida e duvidava que gostasse. O leite gordo pasteurizado que tinha tomado em staurantes deixara-lhe sempre uma pelcula 
pastosa na boca.
      Porm, Jake Coulter estava a observ-la e ela sabia por experincia prpria que o melhor que tinha a fazer era no levantar ondas. Aqueles que as levantam 
costumam ficar presos nos redemoinhos que provocam.
      Desenroscou a pequena tampa do termo. O revestimento interior verde-claro estava acastanhado devido s incontveis vezes em que transportara caf. No estava 
verdadeiramente sujo  tentou convencer-se a si prpria , mas apenas manchado. Tirou a rolha, deitou um pouco de leite no copo e sentiu um sobressalto no estmago. 
Havia pequenas partculas a flutuar na superfcie do leite. Natas, quase de certeza, mas essa concluso no a tranquilizou. Pensou no alto teor de gordura que o 
leite continha e teve de fazer um grande esforo para o bebericar.
      Tal como esperava, o leite deixou-lhe uma espcie de pelcula dentro da boca. Engoliu-a e deu outro gole com grande determinao. Jake nunca teria ouvido falar 
em mau colesterol? Molly lia religiosamente os rtulos dos alimentos quando escolhia os artigos de mercearia.
       Ento?  perguntou ele.
       Ah, ...  aclarou a garganta. Sentia uma coisa viscosa pendurada no cu da boca.   ptimo. Nunca tinha provado leite cru.
      Ele ergueu as suas negras sobrancelhas.
       Com que ento  uma rapariga nascida e criada no campo, h?
      J era demasiado tarde quando Molly se apercebeu do seu erro. Algum que tivesse contacto com quintas e ranchos durante toda a sua vida teria bebido leite 
cru inmeras vezes.
       Apenas tenho muito cuidado com as calorias. O leite magro s tem 80 por chvena.
      Jake levantou-se sem qualquer dificuldade. A luz da lareira projectava a sua sombra pela sala, fazendo o contorno do chapu de cowboy dele quase tocar nos 
ps de Molly. Dirigiu-se para ela com passos lentos e cada vez que o taco das suas botas batia no cho os nervos dela descontrolavam-se. Santo Deus! Como Molly 
desejava que ele deixasse de olhar para ela daquela forma.
       Espero que no esteja a fazer dieta  disse ele friamente.
      Molly lanou-lhe um olhar incrdulo e Jake respondeu-lhe com aquele brilho nos olhos que ela achava to perturbador.
       Deixe-me ver. O seu peso no corresponde ao indicado nas tabelas para uma mulher da sua altura, por isso pensa que est gorda.  Sem esperar pela resposta, 
Jake abanou a cabea e acrescentou:  Essas malditas tabelas so para mulheres de compleio fsica mdia e, acredite em mim, no  o seu caso.
      Estaria ele a brincar com ela? Talvez fosse isso. Para alguns homens o desafio da conquista era irresistvel e dormiam com qualquer rabo de saias s para satisfazer 
os seus egos. Bem, se esse fosse o jogo dele, no podia contar com ela.
      Continuava a ouvir os seus passos. Uma pancada, um arrastar de ps... uma pancada, um arrastar de ps. Tinha tornado o andar dos cowboys numa arte, reconhecia-lhe 
esse mrito, marcando lentamente as passadas com as suas longas pernas e balanando ligeiramente a sua estreita anca. Molly tentou evitar o olhar dele, mas quanto 
mais ele se aproximava dela, mais difcil se lhe tornava. Por fim, a sombra de Jake envolveu-a.
      Viu-se obrigada a fixar os seus olhos nos dele, uma vez que no conseguia olhar para outro lado. Talvez fosse por causa do brilho que eles tinham. Estaria 
a tentar enerv-la? Era uma ideia assustadora, mas pensando bem, fazia todo o sentido. Durante a tarde havia tido a impresso de que ele duvidava da sua histria. 
Se tivesse vindo tirar nabos da pcara, ser-lhe-ia mais fcil obter informaes dela se a conseguisse desnortear.
       Sente-se pouco  vontade com os homens, no  verdade?  disse ele num tom divertido enquanto dava a volta  mesa para se sentar  frente dela.   assim 
com todos ou apenas comigo? No me lembro de alguma vez ter deixado uma mulher to nervosa.
      Talvez estivessem todas em estado de morte cerebral, concluiu ela.
       No estou nervosa. O que  que o faz pensar isso?
      Ele sorriu e puxou o chapu para trs para a observar melhor.
       No tem medo de mim, pois no?
       Por que havia de ter?
      Ele fez a cadeira oscilar para a frente e para trs assente nas pernas traseiras e enfiou os polegares no cinto, parecendo ainda mais largo de ombros.
       Estamos muito longe da cidade. Pensei que podia estar inquieta. No me conhece de lado nenhum e se eu tivesse ms intenes era capaz de estar metida num 
grande sarilho.
      Molly tentou molhar os lbios e esforou-se por engolir, mas a sua boca estava to seca que parecia cortia.
       Muito obrigada por me chamar a ateno para isso. Agora j tenho mais uma coisa com que me preocupar.
      Jake riu-se com ar envergonhado e baixou a cabea. Tinha um pedao de palha presa na copa do chapu. Quando voltou a olhar para ela, os seus olhos eram uma 
mistura de divertimento e remorso.
        S falei nisso porque queria que se sentisse  vontade. A minha me responde por mim se necessitar de uma testemunha abonatria.
       A sua me?
        Pode crer. Ningum conhece melhor um homem do que a me dele. Dir-lhe- que sou um cavalheiro, apesar da minha falta de verniz. Se no for verdade, queixe-se 
e pode ter a certeza que ela me vai esfolar vivo.
      Molly deixou sem querer escapar um sorriso. Ele piscou um olho e sorriu de orelha a orelha.
       No entanto, no acredite em mais nada do que ela lhe disser. Como sucede com muitas mes, tem uma lista dos meus defeitos e est sempre desejosa de os contar 
a quem a quiser ouvir.
       A lista  muito grande?
        mesmo enorme. Acho que comeou a tomar notas por volta dos meus cinco anos. Sou de ideias fixas, obstinado, perco a calma com facilidade e tenho uma grande 
falta de maneiras, segundo ela  piscou-lhe de novo o olho.  Gosta de dizer que para mim ter diplomacia  o mesmo que pregar uma grande descompostura. E eu no 
me canso de lhe responder que ser directo  uma virtude. Posso no ter muito jeito para fazer rodeios, mas comigo as pessoas sabem com o que podem contar.
       Isso  uma coisa boa.
       Ainda bem que pensa assim, porque tambm no tenciono estar com rodeios consigo.
      Molly sentiu um pequeno sobressalto no peito, junto  garganta. Era como se estivesse engasgada com um pedao de gelatina.
       No percebo o que quer dizer  respondeu ela.
       Vai perceber daqui a nada  disse Jake, fitando-a demorada e inquiridoramente. O msculo do seu queixo vibrava.  Sei que roubou o cavalo, Molly.
      Ela quase teve um ataque de corao.
       Por que diabo pensa isso?
      Embora ele estivesse a olhar para baixo, Molly conseguiu entrever um vislumbre de impacincia nos seus olhos.
       Eu no penso, eu sei. No merece a pena tentar enganar-me. Poupe-se a esse trabalho.
      Molly no fazia a menor ideia como ele tinha descoberto, mas no havia dvida de que sabia. At j lhe parecia ouvir a chave a rodar na fechadura.
       J...j me d...denunciou?  perguntou numa voz trmula que lembrava o sopro de uma cana.
      A impacincia desapareceu dos olhos dele to depressa como tinha chegado.
       Acha-me capaz de entregar uma senhora?
       Acho.
      Ele riu-se entre dentes e coou a testa.
       No tenho a menor inteno de a entregar. Dou-lhe a minha palavra.
      Com o corao ainda aos saltos, Molly perguntou-lhe:
       Como  que descobriu? Jake franziu os lbios.
       Mente muito mal.
        No, a srio, eu preciso de saber  olhou nervosamente para a porta.  Passou por aqui a polcia? Foi assim que descobriu? Eu sabia que no devia ter parado 
naquela rea de descanso. Com o espalhafato que o Sunset fez era impossvel que as pessoas no reparassem em mim.
      Ele suspirou e cruzou os braos.
       No passou por aqui nenhum polcia, Molly. Est completamente a salvo. Ningum a seguiu.  Jake fez uma pausa para conferir maior nfase s suas palavras. 
 Pelo menos por enquanto. Mas at quando acha que pode continuar escondida? No pode roubar um cavalo to caro como o Sunset e pensar que vai conseguir escapar-se. 
Estamos na era da electrnica. As comunicaes da polcia so extremamente rpidas e eles vo encontr-la, a nica dvida  quando.
      Molly sentiu-se maldisposta. O que ele dizia era verdade e ela sabia-o. Se permanecesse no mesmo lugar encontr-la-iam mais cedo ou mais tarde. Levou uma mo 
trmula ao estmago. Veio-lhe  boca um sabor a blis.
       Suponho que quer que eu me v embora  disse ela, endireitando-se na cadeira.  Est bem, eu compreendo. No quer envolver-se nos meus problemas e no o 
posso censurar por isso  deixou cair no cho a bola que tinha feito com o plstico onde a marmita vinha embrulhada e agarrou-se  borda da mesa para se levantar. 
 Ainda bem que no tirei nada dos sacos. No levo muito tempo para voltar a encher o carro...
      Ele inclinou-se para a frente e as pernas da cadeira bateram com tanta fora no cho que Molly estremeceu. Jake estendeu uma mo e agarrou-lhe o pulso:
       No vai a lado nenhum  disse suavemente.  Tire essa ideia da cabea.
      A mo dele parecia de ferro e a presso dos seus dedos no pulso dela era impiedosa. Olhou-o nos olhos, ao mesmo tempo que uma dzia de pensamentos terrveis 
se atropelavam na sua cabea, mas aquele que predominava dizia-lhe que ele tencionava mant-la ali contra a sua vontade.
       Sente-se  disse ele suavemente.
      Molly sentou-se virada para ele, com a boca aberta, esforando-se por respirar.
      Jake diminuiu a presso sobre o pulso dela sem deixar de a olhar nos olhos. Ao sentir que ele lhe abrandava o aperto, ela teve a tentao de dar um salto e 
fugir, mas lembrou-se da rapidez com que nesse mesmo dia Jake se tinha movido no cercado. Agarr-la-ia antes que ela conseguisse dar dois passos.
       Agora assustei-a.
      Ela abafou um riso histrico e por pouco no disse:
       Para isso ainda tem muito que aprender.
       No lhe vou fazer mal, Molly  a sua voz rouca revelava sinceridade.  Apenas a quero ajudar.
       Oh!  exclamou ela.
      O corao de Molly acalmou-se, recuperando o seu ritmo normal, bem, mais ou menos. No seria o primeiro homem a mentir-lhe. Ela no sabia se podia confiar 
nas suas palavras.
       No sei o que a levou a roubar o cavalo  prosseguiu ele.  Apenas posso fazer conjecturas. Mas sejam quais forem as suas razes, no lero a menor importncia 
quando a polcia a encontrar. Metem-na na cadeia e nunca mais sai de l.
      Para dizer a verdade, o mais provvel era que a metessem de novo na clnica, mas no valia a pena ser to minuciosa. Embora a sua estada em Haven Rest tivesse 
sido benfica, o stio era uma espcie de priso.
      Pensou no que Sam Banks, o seu terapeuta, iria dizer se a visse agora. No ia gostar. Roubar o cavalo no tinha sido uma jogada inteligente.
      Baixou a cabea e ficou, como que paralisada, a olhar para o tampo da mesa cheio de mazelas. No estava arrependida. Acontecesse o que acontecesse, tinha tomado 
a melhor deciso possvel e no valia a pena estar agora a culpar-se.
       Acho que precisa desesperadamente de um amigo, minha cara  disse Jake num tom de voz que era quase um sussurro.  No confia em mim?  arrastou lentamente 
o seu dedo at ao pulso dela.  Conte-me o que aconteceu. Eu ajudo-a a resolver o problema.
      Molly quase desfaleceu. Sentia-se aliviada por ele no lhe querer fazer mal fisicamente, mas era quase to mau como se quisesse. No lhe podia contar o que 
tinha sucedido, sobretudo porque ele nunca iria acreditar. Era uma loucura to grande que at a ela lhe custava a crer.
      No. Se lhe contasse a sua histria, ele iria automaticamente concluir que ela era louca, como sucedera com todos os outros. O marido dela, com quem estava 
casada h dez anos, no a iria internar se ela no tivesse mesmo um problema, no era verdade?
      Falso. Um homem que quisesse encobrir um assassnio e controlar uma grande herana seria capaz de tudo. Mas quem iria acreditar nisso? Jake certamente que 
no. Parecia o argumento de um filme de Alfred Hitchcock e o facto da sua prpria me se ter virado contra ela tornava a situao ainda pior.
      Ao v-la sentada com os lbios to fechados, Jake soltou um suspiro e libertou-lhe o pulso.
       Est bem  disse ele, encostando-se para trs na cadeira.  Ainda no est pronta para falar, compreendo-a e no a vou forar. Mas repare, Molly, de qualquer 
forma, mais cedo ou mais tarde ter de me contar. Se permanecer calada, quando os polcias a algemarem poder j ser demasiado tarde para eu fazer alguma coisa.
       No pode fazer nada agora  conseguiu ela balbuciar , absolutamente nada.
        Existem associaes de defesa dos animais que posso contactar. Basta darem uma simples olhadela ao cavalo para ficarem completamente revoltadas. Se fizer 
imediatamente uma denncia, tenho a certeza de que iro testemunhar a seu favor na polcia. Roubar um cavalo  um crime, isso  indiscutvel. Mas se praticou esse 
crime para proteger o pobre animal, j  compreensvel e eles iro defend-la. Tenho a certeza disso.
      Molly olhou para ele com os olhos arregalados.
       No lhes quer telefonar?  insistiu ele.  Ou, ento, deixe que seja eu a faz-lo. Sei que est com medo e que tem boas razes para isso, mas no pode permitir 
que o medo lhe tolde o discernimento. Quanto mais o tempo passar mais enterrada fica.
      Onde  que tinham estado as associaes de defesa dos animais esta manh?, teve ela vontade de gritar. Rodney ameaara voltar ao estbulo com uma arma e matar 
Sonora Sunset, mas quando o treinador ligou para a Humane Society a nica resposta que obteve foi uma estpida mensagem gravada. A polcia tambm no tinha servido 
para nada. No possuam instalaes para albergar animais maltratados, foi o que os polcias disseram ao treinador. Se o dono do animal voltasse com uma arma, enviavam 
um agente, nada mais podendo fazer at a Humane Society responder  chamada.
      Molly j no podia ouvir falar nas malditas associaes de defesa dos animais. No tinham socorrido Sonora Sunset quando ele mais precisava. Rodney entrara 
em fria por o cavalo ter perdido uma corrida. Quando o treinador a chamou ao estbulo e ela viu a crueldade com que o seu ex-marido chicoteara o garanho, no teve 
a menor dvida de que ele era capaz de voltar com uma arma e liquidar o cavalo. Que outra coisa podia ela fazer? Deixar que Rodney matasse o animal?
      No podia permitir isso. Fosse qual fosse o custo para si prpria, no podia pura e simplesmente permitir uma coisa dessas.
      Era demasiado tarde para as associaes de defesa dos animais intervirem. Ela, uma doente mental a quem recentemente haviam dado alta, encontrando-se ainda 
em perodo de observao e sob a tutela de um mdico, tinha roubado um cavalo de sessenta e cinco mil dlares. O que  que as pessoas iriam pensar? Molly sabia exactamente 
o que  que elas iriam pensar assim que Rodney contasse a histria  sua maneira.
        o seu ex-marido?  perguntou Jake.   dele que tem medo?
       Sim  respondeu ela numa voz cavernosa.
      Jake suspirou, esfregou os olhos e deixou cair os braos sobre a mesa.
       J no precisa de ter medo dele,
       No o conhece.
      Os olhos dele faiscaram.
       Uma coisa posso eu garantir. Esse sacana no lhe por a mo em cima. Primeiro ter de passar por mim, e se eu no lhe conseguir partir o focinho, encontrar 
uma fila de dez homens desejosos de lhe tratarem da sade.
      Ele pensava que Rodney lhe poderia bater. Molly teve vontade de corrigir o equvoco, mas isso dava azo a que ele lhe fizesse novas perguntas a que ela no 
desejava responder.
      Rodney no era uma ameaa  sua integridade fsica. Nunca o havia sido. Tendo em conta o estado deplorvel em que Sunset se encontrava, era lgico que Jake 
pensasse assim, mas o que Rodney lhe iria fazer seria, na realidade, bem pior. Se a encontrasse servir-se-ia da traio e da mentira para lhe desferir golpes.
      Molly no voltaria a subestimar o seu ex-marido. Nunca mais. Esperava que o Lazy J. lhe servisse temporariamente de santurio, mas era evidente que no podia 
continuar ali. Jake Coulter sabia o suficiente para se tornar perigoso. No podia correr o risco de ele se intrometer no assunto por conta prpria e chamar as autoridades 
nas suas costas, pensando que estava a fazer o que era melhor para ela.
      Tinha evitado que Sunset apanhasse um tiro. O cavalo encontrava-se agora so e salvo na posse de Jake. Era o melhor que ela podia fazer por ele.
      
      
    Captulo 6
    
      
      Ao colocar o p no primeiro degrau do alpendre da sua casa, Jake hesitou e olhou para trs perscrutando na escurido o local onde se encontrava a casa de madeira. 
No conseguia esquecer a expresso frentica que tinha visto nos olhos de Molly. Houve momentos, durante a conversa, em que ela lhe fizera lembrar um animal enjaulado 
procurando desesperadamente uma sada. E, agora, que a tinha deixado sozinha, receava que ela fugisse.
      Que iria ser dela nesse caso? Jake suspeitava que estava a fugir de um ex-marido abusador que tinha ataques de fria. Atendendo ao deplorvel estado de Sunset, 
o homem era mesmo perigoso. O que sucederia a Molly se o sacana a apanhasse sozinha  ele nem queria pensar nisso.
      Dirigiu o olhar para o Toyota, que ainda estava estacionado junto ao alpendre da casa de madeira. Sorriu com ar pensativo e voltou para trs. Temendo que o 
cavalo fizesse outra vez uma grande barulheira, escolheu um caminho longe do cercado e foi subrepticiamente at ao carro dela.
        Que raio de coisa trazes tu a?  perguntou Hank, quando Jake chegou a casa.
      Ao entrar no grande salo, deu uma olhadela ao objecto que tinha na mo.
       O que  que achas?
      Hank, reclinado no sof a beber uma cerveja fria, chegou-se para a frente e franziu as sobrancelhas:
       Parece um rotor.
      Jake colocou o objecto em questo sobre a mesa da sala que ele prprio tinha feito h uns meses e disse:
       Se parece um rotor, penso que deve ser um rotor.
       Onde  que o foste buscar?  perguntou Hank.
      O irmo mais velho retirou o chapu e p-lo tambm sobre a mesa.
       Ao lugar onde esto a maioria dos rotores  Jake alisou o cabelo com as mos, desfazendo o crculo deixado pelo chapu , ao distribuidor.
      Hank semicerrou os olhos:
       De quem?
       Tenta adivinhar.
      Jake dirigiu-se para a cozinha. Depois de um dia como aquele uma cerveja bem gelada vinha mesmo a calhar. O irmo levantou-se de um salto e foi atrs dele:
       Tu fizeste isso.
      Jake abriu de par em par a porta do velho frigorfico verde tropa que pedira emprestado aos pais e disse:
       Tinha de fazer alguma coisa para ter a certeza de que ela no se ia embora.
       Pensava que lhe tinhas dado um emprego e que ela ia ficar aqui a trabalhar para ns.
       As coisas mudaram.
       Porqu?
       Porque lhe disse que sabia que ela tinha roubado o cavalo. Uma expresso de espanto desenhou-se na cara morena de Hank. Jake acrescentou de imediato:
       Pensei que ela se iria sentir melhor se falssemos com franqueza, mas  evidente que o tiro me saiu pela culatra.  Retirou uma garrafa de cerveja da ltima 
prateleira, fechou a porta com o corpo e deitou a tampa da garrafa para o caixote do lixo que estava por baixo do lava-loua.  Tive medo que ela se pirasse, por 
isso arranjei uma maneira de a impedir.
      Hank esboou um leve sorriso. Jake humedeceu a garganta, bebendo ruidosamente um pouco de cerveja, e olhou para o irmo enquanto limpava a boca com as costas 
da mo.
       V l, desembucha! Bem vejo que ests mortinho para falar  disse Jake.
      O irmo abanou a cabea, bebeu um longo gole de cerveja e sentou-se. A cadeira, feita em casa, que escolheu, abanava, devido a ter uma perna mais comprida 
que as outras e ningum ter arranjado tempo para a consertar. Hank moveu-se para equilibrar o seu peso.
       Eu sei que mexer no carro dela foi uma cobardia  confessou Jake , mas no vi outra forma de a obrigar a ficar c. S de pensar que ela se pode ir embora, 
fico completamente louco.
       No te censuro por isso  concordou Hank.  Quem chicoteou aquele cavalo tem um parafuso a menos. Seria abominvel que tratasse uma mulher da mesma forma. 
 Balanou a cadeira, assente nas pernas de trs e lanou um olhar inquiridor a Jake.  Ela vai-se passar quando vir que o carro no arranca.
       S se descobrir que o responsvel fui eu. Os olhos de Hank revelavam divertimento:
       Voltaste a pr a tampa no distribuidor para que ela no d pela falta do rotor?
      A nica resposta de Jake foi um largo sorriso.
       Ests tramado se a senhora for um s da mecnica.
       De maneira nenhuma  respondeu Jake a rir-se, pondo-se a cavalo na cadeira para ficar diante do irmo.   bem provvel que nem sequer saiba medir o leo.
      Ainda Jake no tinha acabado de falar quando se ouviu um grande barulho na entrada da casa. Parecia que algum tinha aberto a porta da frente com tanta fora 
que esta batera na parede. Ele ps o ouvido  escuta e Hank olhou, perplexo, por cima do ombro. Um rudo de passos rpidos a baterem no cho da casa de entrada chegou 
at eles.
       Onde  que est o Jake Coulter?  ouviram gritar em voz estridente.
      Hank levantou as sobrancelhas bem alto e exclamou:
       Uh-oh!
      Jake estava a levantar-se da cadeira quando uma mulher pequena e furiosa entrou de rompante na cozinha. Ficou parada no umbral da porta com as mos em forma 
de punho, as pernas muito abertas e saltando chispas dos olhos.
       Onde est o meu rotor?  perguntou ela.
       O seu qu?  Jake fingiu que no tinha compreendido.
       O meu rotor!  gritou ela outra vez.  Como se atreveu a tir-lo?  Deu um passo em direco a ele, com ar ameaador.  Diga  sua me para acrescentar arrogante 
 lista dos seus defeitos. No tem o direito de tirar peas do meu carro. No tem o direito, est a ouvir?
      Molly tremia violentamente. Jake achou que ela estava muito mais alterada do que a situao requeria. Era verdade que ele se tinha excedido, no entanto no 
tinha causado qualquer dano permanente ao veculo.
      Olhou-a no fundo dos olhos e, alm de fria, viu neles pnico, o mesmo pnico que ele sentia sempre que algum tentava domin-lo. Perdia por completo a sensatez, 
a respirao comeava a faltar-lhe e lutava como um louco para se libertar.
       Molly, no exagere  disse ele, imprimindo um tom calmo  sua voz.
       No exagere?  retorquiu ela respirando com dificuldade.  Roubou-me o rotor e agora acusa-me de no ter bom senso? Quer manter-me aqui contra a minha vontade.
       Est a usar palavras muito fortes. Molly olhou para ele com ar agressivo:
       Quero a pea que falta ao meu carro.
       Est bem  ele ps as mos no ar , mas tenha calma.
       S me acalmo quando me devolver o rotor.  Deu outro passo em direco a ele.  Estou a falar a srio. Devolva-mo!
      Jake teve a sensao de que ia ser atacado por um ciclone do tamanho cie uma caneca de cerveja. Tudo indicava que ela ia pr as garras de fora e atirar-se 
aos seus olhos. Noutras circunstncias, ele teria achado a situao cmica, mas o olhar de Molly no tinha a menor graa. A rapariga no estava meramente zangada 
ou aborrecida. Estava furiosa.
      No momento em que ele se preparava para garantir que lhe ia devolver imediatamente o rotor, ela comeou a abrir as gavetas.
       Ningum me obriga a ficar onde eu no quero. Ningum! Puxou uma velha gaveta com tanta fora que as rodas se separaram das calhas. Ficou com a asa presa 
entre os dedos, mas o resto foi parar ao cho, batendo-lhe nas canelas. Molly deu um grito de dor ao mesmo tempo que o contedo da gaveta se espalhava por todo o 
lado.
      Durante um instante Jake ficou a olhar estupidamente para uma embalagem de preservativos que cara mesmo aos seus ps. De onde  que aquilo tinha sado? Lanou 
um olhar acusador ao irmo, que encolheu os ombros, negando implicitamente qualquer responsabilidade. Chegou  concluso que devia ter sido um dos empregados quem 
a colocara ali. Fantstico. Agora Molly ia pensar que eles eram uma cambada de tarados sexuais que fazia orgias na cozinha com azeite.
      Contudo ela no viu o preservativo, porque s tinha olhos para o rotor, que no estava l, mas que continuava a procurar com uma determinao que ele considerava 
preocupante. Largou aquela gaveta e foi abrir outra.
      Com a firme inteno de salvar a sua cozinha e as canelas de Molly, Jake agarrou-lhe o brao. Mal ele lhe tocou, ela voltou-se e assentou um punho pequeno 
e ossudo no plexo solar de Jake, fazendo com que o ar lhe escapasse do peito. Durante um segundo, a nica coisa que conseguiu foi levantar os ombros e arfar como 
um peixe fora de gua, olhando para ela totalmente espantado.
       No me toque.
      Est bem, ok, tentou ele dizer, mas as palavras no lhe saam da boca.
       Quero o rotor. D-mo agora ou ento...
       Eu dou-lho, Molly  disse ele finalmente.  Mas... preciso de um minuto.
        Quero-o j! Ou juro que roubo uma camioneta. Denuncie-me por isso. Faa-o!
      Jake dobrou-se com as mos na barriga e disse secamente:
       As chaves no esto nos veculos.
       Ento fao uma ligao directa ao motor!
      Hank encostou-se para trs, apreciando obviamente o espectculo:
       Nem sequer sabe medir o leo, h? Jake lanou um olhar feroz ao irmo.
       Cala-te, Hank  disse num fio de voz e, esforando-se para respirar, dirigiu de novo o olhar a Molly:
       Eu devolvo-lhe o rotor, mas primeiro tem de se acalmar. Ela ps as mos nas ancas:
       J! Quero-o j!
      Ele aclarou a garganta, ps-se direito e encaminhou-se para o corredor que conduzia ao grande salo. Durante o caminho tentou convenc-la a ficar:
       No devia ir-se embora, Molly. Aqui, pelo menos, est em segurana. No caso de se ver em dificuldades, h onze homens no Lazy J que a podem defender.
       Estou farta at  raiz dos cabelos de que me digam o que eu devo fazer! E no preciso que uma cambada de homens arrogantes e autoritrios tome conta de mim.
      No seu ntimo Jake sabia que era mais sensato manter a boca fechada, mas desde quando  que ele era sensato?
        Peo desculpa por chamar a ateno para o facto de fisicamente no poder competir com um homem. Se o seu ex-marido a encontrar quando estiver sozinha, que 
raio tenciona fazer?
       Esse problema  meu. Limite-se a entregar-me o rotor.
      Jake chegou ao p da mesa da sala e ficou a olhar para esta sem expresso. O rotor tinha desaparecido. Sabia muito bem que o havia deixado l. Para onde diabo 
teria ele ido? Havia uma palavra que no lhe saa da cabea  merda.
       Desapareceu!  Antes de falar j sabia que ela no ia acreditar que ele no o tivesse escondido.  Pu-lo mesmo aqui. Juro por Deus  inclinou-se para procurar 
debaixo da mesa.  Onde raios  que...?
       No me venha com essa!  gritou ela. Ele endireitou-se e ps as mos para cima.
       Molly, juro por tudo o que  sagrado que o deixei aqui  afastou-se para procurar o rotor debaixo do sof. Raios o partam.  Hank?  berrou ele.  Tiraste 
o maldito rotor daqui?
      Hank percorreu calmamente o corredor, encostou-se  ombreira da porta e sorriu pachorrentamente.
       Por que  que havia de tirar o maldito rotor? J tenho o meu.
       Isto no tem graa nenhuma  avisou Jake. O irmo cruzou os ps.
       Depende do ponto de vista, acho eu. Para mim  hilariante  respondeu Hank.
      Molly virou-se e emitiu um som to sibilante que parecia venenoso. Hank baixou a cabea educadamente e continuou:
       Tambm tenho muito prazer em a conhecer. Sou o Hank, a propsito
       O seu sorriso alargou-se , o irmo mais novo deste sacana arrogante. E para que conste, a arrogncia  apenas um dos seus muitos defeitos. A falta de maneiras 
ocupa um lugar destacado na lista, na minha humilde opinio. Ele podia ao menos ter-nos apresentado como deve ser.
       Eu s quero o meu rotor  gritou ela. Hank deitou uma olhadela  mesa.
       Ele deixou-o mesmo aqui em cima. No percebo como  que saiu daqui, a no ser que tivesse pernas.  Os seus olhos pousaram-se no chapu de cowboy. Jake, 
procuraste-o debaixo do teu chapu?
      Antes de Jake ir ver, Molly precipitou-se sobre a mesa e pegou no chapu pela copa, amachucando o feltro, cuidadosamente enformado, com os seus dedos agressivos. 
Jake esboou um esgar de dor. Os chapus de cowboy da marca Stetson no eram baratos e ele no era rico.
      Ali estava o rotor, no havia a menor dvida.
      Molly largou o chapu, agarrou na pea do carro, encostou-a  cintura, e saiu da sala como se estivesse a ser perseguida por todos os demnios do Inferno.
      Ao v-la sair, Jake sentiu-se envergonhado, por um lado, mas muito preocupado, por outro. Como ela j havia recuperado a pea do carro, no tinha dvidas de 
que se ia embora assim que pudesse, a nica questo era saber para onde ela iria. Ainda nesse mesmo dia lhe tinha dito que dispunha de pouco dinheiro. Para quanto 
tempo lhe daria? E que iria fazer quando o dinheiro acabasse? Encostar o carro  berma da estrada e dormir dentro dele?
      O garanho comeou a fazer barulho nesse preciso momento, os seus relinchos romperam o silncio da noite, mas foram enfraquecendo at atingirem a casa. No 
seu esprito, Jake via Molly passando a toda a pressa pelo cercado onde estava o cavalo, os seus passos levavam-na inexoravelmente para a casa de madeira e para 
a liberdade. Bastar-lhe-ia uns poucos segundos para colocar o rotor outra vez no carro. Podia partir dentro de cinco minutos.
      Hank, que ainda estava no corredor, perguntou-lhe:
       O que  que vais fazer, Jake?
      Ao ouvir a pergunta, voltou a si, embora a imagem de Molly a ser espancada continuasse s voltas na sua cabea. Pegou no chapu e p-lo sem se preocupar em 
ajeitar a copa.
       Acho que vou falar com ela. Se a puder acalmar, talvez a consiga convencer a ficar.
       Conversar... hum...  Hank acenou afirmativamente com a cabea.   uma boa estratgia. S  pena que no tenhas pensado nisso antes de roubar o rotor.
      Jake j ia a andar, mas quando ouviu a piada parou e virou-se para trs.
       Sabes uma coisa, Hank, um dia destes ainda algum se vai chatear com as tuas gracinhas.
      Hank sorriu.
       Achas?
      Jake encontrou Molly sentada no alpendre da casa de madeira. Tinha os braos  volta das pernas, a cara enfiada entre os joelhos e tremia como varas verdes. 
Ele sentiu-se mais encorajado ao ver que o rotor ainda estava ao lado dela no degrau. Teve esperana de que isso significasse que j no tinha tanta vontade de partir, 
mas achou que o mais provvel era que estivesse demasiado alterada.
      Quando se aproximou dela para apanhar a pea do carro, ela estremeceu e levantou bruscamente a cabea para o encarar.  luz da lua, o seu rosto parecia to 
branco como a neve acabada de cair e os seus olhos, duas esferas de mbar brilhantes, reflectiam emoes, que sobressaltaram o corao de Jake. Ela j antes tinha 
mostrado desconfiana em relao a ele e, agora, graas  sua estupidez, estava totalmente aterrorizada.
      Continuou ao p dela durante um momento, procurando a melhor forma de lhe pedir desculpa. Infelizmente, nunca havia tido muito jeito para falar. Era um problema 
que se agravava quando estava irritado, e naquele momento estava muito irritado, sobretudo consigo prprio. De todas as parvoces que podia ter feito, esta ultrapassava 
tudo.
      Incapaz de encontrar as palavras adequadas, dirigiu-se para a parte dianteira do carro, levantou o capo e dedicou-se ao trabalho de consertar a asneira que 
tinha feito. Concluda a tarefa, limpou as mos nas calas e voltou para o alpendre, temendo a conversa que se iria seguir. Devia-lhe um sincero pedido de desculpas 
e precisava de ser convincente.
      Quando se sentou ao lado dela no degrau, Molly afastou-se um pouco e encolheu-se. A sua postura era to defensiva que Jake se sentiu ligeiramente incomodado. 
A culpa era dele, apenas dele. O Lazy J ficava situado num local remoto. Na melhor das hipteses, qualquer mulher com cabea sentir-se-ia a pouco  vontade, mas 
graas a ele as circunstncias estavam agora longe de ser as ideais.
      Ficou a contemplar a escurido, sem saber o que havia de lhe dizer. Dado que no lhe ocorreu qualquer ideia brilhante, foi de uma simplicidade infantil:
       Peo desculpa pelo que fiz.
      No obteve resposta. Molly continuava enroscada, a tremer. Parecia to pequena e to s que teve vontade de a abraar. O desejo surgiu-lhe de forma inesperada 
e com tanta fora que o fez parar para pensar. O que  que lhe estava a suceder? Sempre tinha gostado de mulheres e apreciava a sua companhia, mas era a primeira 
vez que sentia uma to forte necessidade de proteger uma mulher que no pertencia  sua famlia.
       Por vezes, tenho o mau hbito de agir antes de pensar  prosseguiu ele cautelosamente.  Se quiser ir-se embora,  livre de o fazer, at a ajudo a pr as 
coisas no carro.
      Continuava a no haver resposta.
      Ele suspirou e esfregou os olhos. Raios me partam!
       Tem razo. Foi arrogante da minha parte pensar que sabia o que era melhor para si. Se pudesse voltar atrs no o teria feito.
       Eu tambm no  disse ela com voz trmula.  Custa-me a crer que o tenha agredido. Nunca agredi ningum. Nunca! No posso acreditar que o tenha feito.
      Jake abafou um sorriso, aliviado por ela, ao menos, estar disposta a lalar com ele.
       No me magoou.
      Molly endireitou-se e esticou os braos, pousando os cotovelos sobre os joelhos e apertando tanto as mos que estas se tornaram pequenos punhos.
       No suporto sentir-me presa. Fico louca.
      Ele desejava persuadi-la a abrir-se mais, mas preferiu ser cauteloso e obter novas informaes mais tarde.
       Ningum gosta de se sentir preso.
      Molly esfregou os braos com as mos, o que o levou a desejar ter um casaco para lho poder emprestar.
       Fui irracional. Perdi o controlo. No sei o que me deu.
      Sob o luar, os olhos dela eram grandes manchas luminosas na escurido e o seu rosto plido estava envolto por uma cintilante aurola de caracis rebeldes, 
que se haviam escapado da trana. Foi com custo que Jake reprimiu o desejo de lhe pegar no queixo com a mo e contornar a frgil linha da sua face com o polegar. 
Mesmo sem maquilhagem, ela era encantadora, e entristecia-o que no desse por isso.
       S os loucos  que fazem loucuras  disse ela em voz cavernosa.
        Bem, nesse caso, acho que somos ambos loucos. Roubar o rotor do seu carro para a manter aqui no foi o que se chama uma atitude racional.
      Ela olhou para ele espantada, com os olhos brilhantes das lgrimas no vertidas.
       Pelo menos, o senhor no foi fisicamente violento.
      Em termos comparativos, Jake considerava que a sua aco tinha sido pior. Ao fim e ao cabo, ela no o tinha verdadeiramente magoado.
       No se preocupe, Molly. J dei um ou dois socos, e no sou melhor nem pior por isso.
        No o devia ter agredido. Deve ter achado que perdi o juzo.  A aflio reflectia-se-lhe nos olhos.  Quem sabe? Talvez o tenha mesmo perdido.
      Jake pousou os braos sobre os joelhos, deixando as mos cadas e escutou uma coruja que piava na noite. Algures, no meio das trevas, um pequeno roedor trepava 
provavelmente para um esconderijo.
       Aceito as suas desculpas, se aceitar as minhas  disse ele com voz rouca.  Nunca pretendi irrit-la dessa maneira. Apenas a quis ajudar.  Fez uma pequena 
pausa.  Sabia que era provvel que se fosse embora e estava preocupado com o que lhe poderia suceder.
       No me sucede nada se tiver cuidado e no deixar que me encontrem.
       Vo acabar por encontr-la, Molly. No existe um lugar suficientemente longe onde se possa esconder durante todo o tempo necessrio para que a polcia nunca 
a descubra.
       Eu sei.  Molly esfregou a testa como se esta lhe doesse.  Apenas preciso de sete meses.
      Jake no compreendeu a resposta e perguntou-lhe:
       Porqu sete meses?
       Um determinado problema que me surgiu na vida j estar resolvido por essa altura  explicou.  Depois disso, ainda estarei metida num grande sarilho por 
ter roubado o cavalo, mas se agir rapidamente e jogar bem as minhas cartas as consequncias no sero assim to terrveis. Claro, a no ser que ele faa uma petio 
ao tribunal para obter mais um ano.
      Jake compreendeu que ela estava a falar mais para si prpria do que para ele e a revelar coisas que no pretendia, mas infelizmente a informao fazia pouco 
sentido.
       Uma petio ao tribunal para ter mais um ano para qu? No estou a compreender.
      Ela soltou um gemido.
        Eu sei que no. Peo desculpa. Mas acredite em mim, est bem? No posso contactar as autoridades em relao ao Sunset durante sete meses. Se o fizer, ele 
encontra-me e, se isso acontecer, estou feita.
       Ento, fique aqui durante esse perodo  animou-a Jake.  Sete meses no  muito tempo, se considerarmos as coisas no seu conjunto.
      Ela olhou-o com ar acusador.
       E deixar que chame a Humane Society nas minhas costas, achando que est a fazer o melhor?
      Ele estava  espera que ela lhe dissesse isso.
       Dou-lhe a minha palavra de que no o vou fazer. No o farei sem o seu conhecimento e a sua autorizao.
       Nunca lha darei.
        Porqu, Molly? No me pode contar ao menos isso? Envolver as associaes de defesa dos animais e t-las do seu lado seria uma jogada inteligente.
      Ela abanou a cabea e voltou a tremer.
       No, para mim no.
       Porqu? Duas cabeas sempre so melhores do que uma. Diga-me de que  que tem tanto medo. Talvez juntos possamos encontrar uma soluo.
      O rosto de Molly fechou-se e ela abanou outra vez a cabea.
      Jake bufou irritado. Chamar a Humane Society era o melhor que podiam fazer. Por que raio  que ela no percebia isso? Nenhum tribunal a condenaria a uma pena 
de priso por ter roubado aquele cavalo unicamente para o salvar.
       Pelo menos faa isto  disse ele suavemente.  Fique aqui. No se v embora para lugares que no conhece e onde no tem um nico amigo com quem possa contar.
      Quando ela se preparava para abanar outra vez a cabea, Jake acrescentou imediatamente:
        No vou chamar a Humane Society, Molly. Juro-lhe. No chamo ningum, a no ser que me pea. Pode ficar aqui como tinha planeado, sem perguntas, nem presses. 
O emprego continua a ser seu.
      Ela olhou-o com os olhos esbugalhados, assustados e muito inseguros.
       Como  que posso ter a certeza de que mantm a sua palavra? Jake sempre se havia orgulhado por ser um homem de honra e a pergunta feriu-o momentaneamente. 
Mas o medo que via nos olhos dela tornava impossvel que se sentisse ofendido. Na realidade, ela no podia conhecer o seu carcter. Era evidente que tinha muito 
a perder ao confiar nele, ao passo que ele no perdia nada se a trasse. Para alm do Lazy J, uma herana familiar que em tempos julgara perdida para sempre, Jake 
possua apenas um bem que para ele era precioso.
      Endireitando uma perna para poder levar a mo ao bolso da frente das calas, retirou esse bem. Segurou-o pela pesada corrente de ouro e disse:
        o relgio do meu av. Deu-mo quando estava a morrer e nunca mais me separei dele desde ento.  Olhou um instante para o relgio e, depois, sorriu pesarosamente. 
 Avariou-se h j algum tempo. Sei que o devia ter mandado consertar, mas no suporto a ideia de que a relojoaria o envie para uma oficina. Tenho medo que se perca.
      Pegou na mo de Molly, pousou nela o relgio e apertou-a.
       O que est a fazer?  perguntou ela suavemente.
        A coloc-lo sob a sua guarda  respondeu ele com voz rouca.  Quando se for embora do Lazy J, espero que mo devolva. Mas at esse momento, considere-o como 
uma garantia da minha palavra. Se eu no a honrar, fique com ele.
      Molly abriu a mo e tentou restituir-lhe o relgio:
       No  necessrio. Jake afastou a mo dela.
       No. Fique com ele em penhor da minha palavra. Alm deste rancho e das pessoas que amo, nada  mais precioso para mim do que este relgio. Se no cumprir 
a minha palavra,  seu.
      Levantou-se e contemplou o cu resplandecente de estrelas durante um momento. Pensou de novo no pequeno roedor, imaginou-o trepando loucamente para um esconderijo 
e cometendo, talvez, um erro fatal devido ao pnico. A coruja nocturna continuava a soltar pios, pronta para mergulhar sobre a presa. A nica salvao do roedor 
era manter-se muito perto do solo e nunca levantar a cabea.
        Pode ficar ou ir-se embora, Molly. Espero que decida ficar. Peo desculpa por ter tentado fazer essa escolha por si.  Olhou para ela.  Se decidir pr-se 
a andar, no se esquea de deixar o relgio em cima da mesa. Se o levar consigo, partir-me- o corao. Vai perceber porqu depois de ler a dedicatria.
      Jake no deu mais explicaes, indo-se embora com relutncia. A cada passo que dava, tornava-se-lhe cada vez mais claro que tinha deixado para trs um pedao 
dele prprio e que o podia perder ao raiar da manh.
      Por mais irracional que lhe parecesse, no sabia se estava a pensar naquele relgio da sua famlia ou na mulher que o segurara com as mos trmulas.
      
      
    Captulo 7
      
      
      
      Ficar ou no ficar, eis a questo. Molly descreveu um crculo  volta do velho sof de pele onde os seus sacos se amontoavam em pilhas desordenadas. No sabia 
se devia desfaz-los ou voltar a p-los no Toyota. O p picava-lhe as narinas, lembrando-a da limpeza que tinha de fazer na casa de madeira antes de arrumar as suas 
coisas. Se ia l ficar, era melhor apressar-se.
      Poderia ela confiar em Jake Coulter? Essa era a verdadeira questo com que se confrontava e a deciso sobre ficar ou ir-se embora dependia inteiramente da 
resposta que lhe desse.
      Olhou para o velho relgio que tinha na mo. A dedicatria inscrita no interior da caixa de ouro dizia: Para sempre, Matthew, meu amor, 6 de Junho de 1873. 
Hattie. Pela data Molly compreendeu que se tratava de um relgio de famlia que o av de Jake tinha anteriormente recebido do seu pai. No era de admirar que tivesse 
tanto valor para Jake. Se ele desaparecesse, a famlia Coulter perderia uma pea que considerava verdadeiramente preciosa.
      Molly apertou o relgio de ouro, que estava quente e hmido devido ao suor da sua mo. Jake tinha-o deixado  sua guarda. Se ele demonstrava tanta confiana 
nela conhecendo-a h to pouco tempo, por que no havia Molly de confiar um pouco nele?
      Pensou em Sam Banks, o seu terapeuta, e desejou desesperadamente poder telefonar-lhe sem correr o risco da chamada ser localizada. Durante a estada na clnica 
e ao longo dos ltimos cinco meses, desde que lhe deram alta, tinha sido a sua caixa de ressonncia e o seu nico amigo fivel, algum que podia contactar, de dia 
e de noite, se precisasse de falar. Embora tentasse no ser autoritrio, preferindo deix-la chegar s suas prprias concluses, conseguira sempre conduzi-la de 
modo a escolher o melhor caminho.
      Que lhe diria ele agora?
      Fechou os olhos e ouviu a voz suave do terapeuta sussurrando no interior do seu esprito:  No devemos estereotipar as pessoas  dissera-lhe um dia.  Antes 
de julgar um indivduo, d-lhe a oportunidade de demonstrar o que vale. Confiar nos outros com cautela, no  um erro, Molly, se o fizer com inteligncia.
      Noutra altura em que lhe expressara a sua preocupao por ser to m avaliadora do carcter das pessoas, Sam retorquira-lhe: Por que diz isso? Porque a Molly 
acreditou e confiou nas pessoas e elas traram-na? Uma vez que essa era precisamente a razo, ficou sem saber o que havia de dizer. Alm de ter sido trada por Rodney, 
tinha motivos para acreditar que o sogro, Jared Wells, que havia sido o melhor amigo e scio do seu pai, tambm estava metido na tramia. Existiam inclusive provas 
que implicavam Claudia, a nica me que conhecera. Como  que esperavam que ela reagisse perante isto?
      Perto do fim dessa sesso de acompanhamento, Sam colocou-lhe uma questo que lhe parecia perfeitamente adequada para pr a si prpria agora. Depois de tudo 
o que Rodney j lhe tinha tirado, iria permitir que o seu casamento tambm lhe roubasse a capacidade de confiar nos outros?
      S de pensar nisso tremeu de fria. O seu ex-marido j lhe tinha tirado tanta, tanta coisa  a juventude, a paz de esprito, a liberdade  e, suspeitava, o 
seu prprio pai. Iria deix-lo continuar a destruir todos os aspectos da sua vida? No, raios o partissem, no.
      Apesar da sua grande determinao, sentia o negrume do desespero a aproximar-se dela. S lhe faltavam sete meses para alcanar a linha da meta. Rodney perderia 
ento o seu poder como tutor legal e ela voltaria a entrar na Sterling and Wells, recuperando o lugar que era seu de direito atrs da secretria do pai. Teria os 
recursos financeiros necessrios para contratar advogados que paralisassem Rodney, caso ele tentasse novas jogadas em tribunal. Tinha estado to perto, to perto 
de recuperar a independncia. Mas por causa de um impulso pusera tudo em risco, at o plano que fizera para vingar a morte do pai.
      Graas  sua estupidez, Rodney podia de novo levar a melhor. Iria utilizar o episdio do roubo do cavalo a seu favor, apresentando-o perante um juiz como a 
prova irrefutvel da sua instabilidade emocional e incapacidade legal. At ela tinha de admitir que roubar um cavalo de corrida de sessenta e cinco mil dlares era 
uma loucura e lhe seria muito difcil convencer um juiz de que havia tido uma boa razo para o fazer.
      Sam Banks tinha-a avisado.
      No se meta em sarilhos, Molly, quer goste ou no, quer seja ou no justo, neste momento esta a ser examinada ao microscpio, tinha-lhe dito ele muitas vezes.
      Desde que sara da clnica, havia vivido como um peixe num pequeno aqurio, pensando duas e at trs vezes antes de fazer qualquer coisa. As outras mulheres 
recentemente divorciadas podiam deixar os empregos, mudar-se para lugares interessantes, voltar a estudar ou comear uma nova carreira. Podiam pintar o cabelo, vestir-se 
como adolescentes, fazer dietas loucas ou envolverem-se em relaes escandalosas por puro capricho. Ningum se preocupava em analisar as suas aces para saber se 
haviam procedido com bom senso ou mesmo se tinham alguma racionalidade. Mas Molly no gozava dessa liberdade. Antes de fazer fosse o que fosse, tinha de ponderar 
se isso estaria correcto aos olhos de um juiz.
      Num mundo perfeito, o poder de Rodney sobre a sua vida privada teria terminado no momento da declarao do divrcio, mas no existe um mundo perfeito, e o 
dela era o mais imperfeito de todos. O prprio facto de Sam a ter ajudado a obter o divrcio enquanto estava na clnica poderia ser usado contra ela. Rodney iria 
argumentar que ela era incapaz de tomar decises sensatas, no sabia o que fazia, e que o mdico tinha cometido um grave erro de avaliao. Iria tambm arguir que 
Molly continuava a precisar de algum, designadamente dele, para olhar por ela e pelos seus negcios. Outro ponto a favor dele era o facto da sua me adoptiva, mdica 
de profisso e, por isso, testemunha privilegiada, ser capaz de depor contra ela em tribunal.
      No tinha a certeza do que levava Claudia a agir dessa forma, se estava envolvida no esquema para tomar conta da firma ou se apenas fazia o que sinceramente 
considerava correcto. Molly unicamente sabia que a me tinha unido esforos com Rodney para que a interditassem e, a seguir, assinara os documentos necessrios para 
a internarem. Tinha visto a assinatura de Cludia nos papis com os seus prprios olhos.
      Essa descoberta fora a maior desiluso da sua vida.
      Mas as verdadeiras intenes de Claudia tinham pouca importncia. A realidade era que Molly havia sido despojada dos seus direitos. Os indivduos interditados 
por um tribunal so, em muitos aspectos, tratados como crianas at a sentena ser revogada. O tribunal designa uma pessoa como seu tutor legal. No caso de terem 
dinheiro, geralmente no o podem movimentar, sendo-lhes apenas atribuda uma quantia mensal para cobrir as despesas bsicas. A carta de conduo -lhes frequentemente 
retirada. No lhes permitem ter cartes de crdito e se possurem armas de fogo, tm de as entregar. A sua assinatura num documento legal no tem qualquer valor, 
a menos que o tutor designado pelo tribunal tambm aponha a sua. Em muitos aspectos, tornam-se numa espcie de no-pessoas, que no podem tomar decises sozinhas 
e cujos protestos no so escutados.
      No caso de Molly, a situao era ainda pior porque o marido e a me a tinham internado, pondo em questo no s o seu discernimento como a sua sanidade mental. 
Primeiro, despojaram-na dos seus direitos e, a seguir, prenderam-na.
      Na clnica, Sam Banks, o mdico que inicialmente vira como um inimigo, tornara-se no seu cavaleiro de armadura brilhante, transformando uma deteno que parecia 
atroz num perodo de convalescena. Ouvira pacientemente a sua extravagante histria, comeando a acreditar nela quando ningum o fazia. Mais tarde, defendeu-a em 
tribunal para que ela conseguisse o divrcio, atestando que todos os seus problemas se deviam fundamentalmente  sua relao disfuncional com um marido dominador.
      Sam Banks tinha sido o seu nico aliado num mundo que se havia tornado terrivelmente hostil para ela.
      At quela manh, tinha seguido os conselhos de Sam  letra, evitando todo e qualquer comportamento que pudesse ser negativo para a sua imagem. Mas agora estava 
tudo estragado. Pusera em risco todos os seus planos e colocara-se  merc de estranhos em quem no sabia se podia confiar.
      Abriu de novo a mo e observou taciturnamente o relgio que Jake Coulter lhe tinha entregado.  luz da lareira, a velha caixa de ouro parecia brilhar como 
se possusse uma chama interior, tal como o homem que a havia posto na sua mo. Era um indivduo estranho, pensou ela esboando um leve sorriso, convincente e dominador, 
mas que, por outro lado, parecia gentil e amvel.
      Tinha-lhe dado uma tbua de salvao, consciente ou inconscientemente, ao oferecer-lhe o lugar perfeito para se esconder durante algum tempo. A probabilidade 
de algum se lembrar de ir  sua procura num rancho era nfima. Se ficasse ali e tomasse precaues, era totalmente possvel que conseguisse passar despercebida 
durante o tempo que faltava at perfazer o ano de liberdade vigiada, adquirindo de dia para dia mais foras para enfrentar as batalhas que teria inevitavelmente 
de travar quando regressasse a Portland, no s para reivindicar os seus direitos, como para exigir que se fizesse justia em relao  morte do pai.
      Faltavam s sete meses para a procurao expirar, ficando legalmente livre do ex-marido e da me. Se nessa altura actuasse rapidamente, podia contratar um 
bom advogado e reclamar o controlo da firma antes de Rod-ney ter tempo de interpor recurso para prolongar a procurao. Sete meses apenas. Se Jake Coulter cumprisse 
a sua palavra, podia perfeitamente ficar ali escondida durante esse perodo.
      Meteu o relgio no bolso e aproximou-se dos sacos de plstico onde guardava os seus pertences. Tinha-se apaixonado pelo Lazy J assim que o vira, considerando-o 
o lugar ideal para a recuperao de Sunset. Por que no haveria ela de tambm l ficar? Era um local belo e tranquilo, to afastado dos outros por onde costumava 
passar, o que lhe transmitia uma
      sensao de isolamento e segurana. E aquela antiga e engraada casa de madeira tambm estava a comear a conquist-la. Tinha um ar intemporal que a acalmava 
de um modo que ela no era capaz de definir.
      Tomada a deciso, Molly lanou-se ao trabalho. Uma vez que tinha dormido durante a maior parte da tarde, no precisava de se deitar cedo. Graas a Rodney no 
tinha muitos bens para guardar. Se comeasse imediatamente, em menos de duas horas teria tudo pronto.
       medida que lavava as gavetas da cozinha e se dedicava a arrumar os utenslios que tinha trazido, lembrou-se do seu furioso ataque  casa de Jake. Ainda no 
conseguia acreditar que se tivesse portado to mal e, sobretudo, horror dos horrores, que houvesse chegado ao extremo de esmurrar o pobre do homem.
      Um sorriso involuntrio aflorou aos seus lbios. A expresso da cara dele tinha sido impagvel e, por um instante, ela sentira-se to livre. Embora desejasse 
poder desfazer o incidente, tinha de admitir que existia nela um lado perverso que havia gostado de se sentir totalmente descontrolada durante uns minutos. Que significaria 
aquilo?
      Sam dir-lhe-ia provavelmente que tinha libertado a ira que mantivera muito tempo reprimida e que Jake Coulter era simplesmente quem se encontrava  mo. A 
seguir, aconselh-la-ia a procurar formas mais salutares e menos repreensveis de dar livre curso aos seus sentimentos.
      Bem, dar socos numa almofada nunca lhe tinha dado a satisfao que sentira esta noite, mas tambm nunca havia tido a percepo de ter encerrado um diferendo, 
como sucedera com Jake. Ele pedira desculpas e ela tambm. Tinha sido muito reconfortante. Ao pensar nele, em vez de tremer descontroladamente de raiva, tinha vontade 
de sorrir. Peo desculpa pelo que fiz. Que palavras to simples ditas com arrependimento na sua voz rouca. Durante os dez anos em que estiveram casados, nunca ouvira 
da boca de Rodney um pedido sincero de desculpas.
      Satisfeita com a arrumao das gavetas da cozinha, Molly ps-se a limpar o p dos armrios. No dia seguinte iria comear a limpar a casa de Jake, tinha entrado 
com o p esquerdo, mas esforar-se-ia por lhe cativar a simpatia.
      Embora no tivesse tido tempo para a admirar, reparou que ele tinha uma casa encantadora, com impressionantes paredes interiores em madeira, um belo cho de 
carvalho e um conjunto eclctico de mveis feitos  mo a partir de toros. Iria varrer, esfregar e encerar at ficar tudo num brinquinho. Iria igualmente fazer tudo 
o que pudesse para colocar pratos saborosos e saudveis na mesa. Ele no se arrependeria de a ter contratado.
      Apenas desejava que Jake possusse alguns livros de receitas.
      Aps arrumar a cozinha, dirigiu-se para o quarto. Pendurou as calas e as camisolas no roupeiro e mordeu o lbio inferior. O seu guarda-roupa no era o mais 
apropriado para a vida no campo, mas teria de governar-se com ele.
      Virou-se para ir buscar outro saco, pensando que s l tinha roupa nterior, mas a aresta de uma coisa dura, que havia rompido o plstico, coou-lhe na perna. 
Enfiou uma mo no saco e tirou uma moldura dobrvel. A tristeza apoderou-se dela ainda antes de olhar para as duas fotografias, uma do pai e a outra de Sarah, a 
sua melhor amiga. Estudou os seus rostos, sentindo uma profunda mgoa e vergonha. Tinham passado bem mais de dez anos sobre a morte de Sarah e onze meses desde a 
do pai, nas o seu sofrimento mantinha-se vivo.
      Pousou a moldura na mesinha-de-cabeceira com as fotografias viradas para a cama para que fossem a ltima coisa que ela via antes de adormecer. Recordar os 
grandes erros ajudava uma pessoa a no os repetir. Olhar para o retrato sorridente do pai fazia-a igualmente lembrar-se de que tinha uma misso muito mais importante 
a cumprir do que pr ordem ia sua vida. O pai estava morto e se as suas suspeitas se confirmassem, Rodney Wells tinha puxado o gatilho da arma que o matara.
      No podia descuidar esse assunto, pensou, cerrando os punhos ao ponto de lhe doerem. Rodney havia de pagar por isso, nem que fosse a ltima coisa que ela fizesse. 
S ento seria capaz de enterrar definitivamente o pai e prosseguir a sua vida.
      Ouviu os relinchos de Sunset l fora. Eram desesperados. Foi at  janela e afastou as cortinas de renda para puxar o caixilho para cima. O ar frio da noite, 
impregnado do odor da floresta e dos prados ondulados das redondezas, envolveu-a, contrastando fortemente com o calor da lareira que lhe afagava as costas. Mais 
abaixo, junto ao riacho, as rs elevavam as suas vozes sob o luar, criando uma melodiosa cacofonia acentuada pelo assobiar ritmado dos aparelhos de rega dos campos.
      Molly respirou fundo, maravilhada com aqueles cheiros to diferentes dos que ela conhecia. L ao longe, ouviu um chacal uivando  lua e, mais acima, perto 
da casa principal, um co ladrando. O desarmonioso dueto levou Sunset a relinchar novamente.
      Embora piscasse os olhos para ver na escurido, no conseguiu vislumbrar o cavalo. No entanto, ps a cabea fora da janela na esperana de que Sunset a pudesse 
ver.
       Estou aqui, rapaz. No ests sozinho. Vou deixar a janela um pouco aberta para te poder ouvir se precisares de mim. Ningum te voltar a fazer mal, prometo-te.
      O garanho gemeu e relinchou suavemente, como se reconhecesse o som da voz dela.
      Fiz o que era certo, pensou. Acontea o que me acontecer, fiz o que tinha de ser feito e no penso mais no assunto.
      
       Molly?
      Uma voz masculina intrometeu-se nos sonhos de Molly.
       Molly, est a ouvir-me?
      Esforou-se por acordar, com medo de que se no o fizesse, dar-lhe-iam outra injeco. Outra no, por favor, outra no. Precisava de falar com eles, fazer 
com que acreditassem nela. Isso era-lhe impossvel com a cabea enevoada. No estava louca, tinha de lhes dizer. No estava louca, no necessitava de mais injeces.
       Molly!
      Acordou sobressaltada. Por instantes, olhou pasmada para o intrincado tecto de madeira de pinho, sem saber muito bem onde se encontrava. Depois, os acontecimentos 
do dia anterior vieram-lhe  mente.
      Truz... truz... truz. As pancadas secas e ritmadas, fizeram-na sentar-se imediatamente. Esfregou os olhos, a seguir semicerrou-os, encadeada pelos deslumbrantes 
raios de sol da manh, e deu um gemido. Algum estava a bater  porta. Jake Coulter? A propsito, que horas seriam?
      Deu uma olhadela ao relgio com olhos ramelosos, achou que devia estar avariado, e saiu aos tropees do quarto.
       J vou!  gritou ela.
      Ao chegar  sala de estar, pensou que podia no ser o seu novo patro quem batia  porta. Era bem possvel que a polcia a tivesse encontrado. Parou de repente 
e perguntou:
       Quem ?
       Jake.
      Reconhecendo a sua voz profunda, abriu desajeitadamente o ferrolho que, ao desengatar-se, fez um barulho semelhante a panelas de alumnio a chocarem umas com 
as outras.
      Uma mancha confusa, grande e azul, apareceu na porta. Mesmo meio a dormir, sentiu um aperto no estmago ao v-lo.
       Que horas so?  conseguiu perguntar.
       Seis  informou-a ele, naquela voz profunda e sedosa que ela to bem recordava.  Estamos atrasados.
      Molly tentou compor o cabelo:
       Atrasados?
      Ele riu-se ligeiramente:
       Sim,  tarde.
      Ela olhou outra vez para o relgio.
       Como  que podemos estar atrasados se ainda so seis da manh? Jake riu-se, deu um passo em frente e passou uma grande caneca de caf por baixo do nariz 
dela.
       Trago aqui uma coisa para a espevitar.
      Ela agarrou na caneca que ele lhe oferecia, sem disfarar a avidez. Nem sequer a viso de um corpo masculino bem musculado com mais de um metro e oitenta de 
altura era suficiente para a despertar sem a ajuda ie uma boa dose de cafena. Levou a caneca  boca, sorveu um pouco ie lquido e exclamou:
       Deus o abenoe!
      Ele voltou a rir-se entre dentes.
       No sabia se tinha possibilidade de fazer caf aqui. Eu no consigo abrir os olhos sem ele.
      Os olhos de Molly estavam a abrir-se a uma velocidade recorde.
       Meu Deus,  mesmo forte.
       No costumo ter tempo para mais de uma chvena, por isso carrego bem no caf.
      Ele devia ter deitado uma colher inteira l dentro. Molly deu mais um gole e aconchegou a caneca entre as mos.
      Jake entrou e fechou a porta. Sem se importar com o que ele podia pensar, Molly deu um passo para trs, mas a seguir teve vontade de bater em si prpria por 
estar a fazer figura de parva. No conseguia perceber por que  que aquele homem a perturbava tanto, mas o certo  que a perturbava.
      Vestia roupas idnticas s da vspera, a nica diferena era que a camisa de algodo e as calas de ganga azuis pareciam acabadas de lavar. O cabelo negro 
que lhe saa por baixo da aba do chapu de cowboy estava um pouco mais escuro devido  humidade do banho, via-se que havia acabado de fazer a barba, uma vez que 
tinha o queixo vermelho e brilhante do raspar da lmina, e o odor a madeira da sua gua-de-colnia misturava-se agradavelmente com os cheiros campestres que se lhe 
tinham colado durante o trajecto.
      Jake sorriu ao mesmo tempo que a observava da cabea aos ps.
       Costuma dormir com a roupa vestida?
      Molly deu uma olhadela s suas vestes amachucadas e sentiu a face ruborizar-se quando voltou olhar para ele.
       Isto s me acontece quando estou to cansada que adormeo sem perceber o que  que me sucedeu.
      Sentindo-se embaraada sob o olhar fixo dele, segurou a caneca com uma mo e voltou a alisar o cabelo com a outra. A trana estava parcialmente desfeita e 
tinha uma farripa de caracis de um castanho arruivado pendurada sobre um olho.
       Peo desculpa, devo parecer uma fria. Ontem fiquei acordada at tarde a desfazer os sacos.
       Est ptima.
      O olhar quente dele percorreu-lhe lentamente a face. Tinha uma forma de olhar para as mulheres que as fazia sentir-se bonitas, um talento, estava ela certa, 
que Jake havia exercitado com xito ao longo dos anos.
        Um pouco cansada e despenteada por ter estado a dormir, mas ontem teve um dia difcil.
      Determinada a manter-se imune aos seus comprovados dotes de seduo, pestanejou para obter uma viso mais ntida. Sentiu um bocejo na garganta, mas reprimiu-o.
      Jake puxou a manga ligeiramente para cima para consultar o relgio.
        Peo desculpa por a ter acordado a esta hora, mas aqui no Lazy J levantamo-nos com as galinhas. Esperava poder mostrar-lhe a casa e trocar impresses consigo 
sobre o que tem a fazer antes de dar incio ao meu trabalho. Costumo comear muito cedo.
      Molly perdeu a batalha que travava com o bocejo e voltou a pestanejar.
       No tem de pedir desculpa. A culpa  minha por ter ficado acordada at to tarde. Pode dar-me uns minutos? Preciso de tomar um duche rpido para abrir os 
olhos. A seguir pode contar comigo.
      Ele concordou de cabea.
       Est bem. Tenho vacas para mungir e ovos para apanhar. Chega-lhe meia hora?
      Ela reprimiu outro bocejo.
       Se me der trinta e cinco minutos, temos acordo.
      Ele fez um largo sorriso, o brilho dos seus dentes brancos era deslumbrante.
       Trinta e cinco, estamos combinados.
      Jake ia a sair, mas voltou para trs e agarrou um pedao de corda que tinha presa ao cinto.
       J me esquecia  tirou a corda e balanou-a  frente do nariz de Molly.  Tinha-lhe prometido um repelente de cobras.
      Passou por Molly para se dirigir  caixa dos toros. Desenhou meio crculo no cho com a corda, batendo com cada uma das suas extremidades na parede de madeira, 
e voltou para o p dela.
       Isto deve servir.
      Ela olhou para a corda com ar duvidoso.
       Isso serve para alguma coisa?
       Se alguma cobra entrar em casa no passa desta corda, garanto-lhe  respondeu Jake.
      O pequeno pedao de corda parecia totalmente inadequado a Molly, mas ele devia saber mais do que ela sobre o assunto.
       Obrigada. T-la aqui faz-me sentir mais aliviada.
        essa a ideia, faz-la sentir-se mais aliviada. Abriu a porta.
        Peo desculpa por j me ir embora, mas o trabalho espera-me e tenho de o fazer.
      Com olhos de sono, Molly viu-o sair para o alpendre. Depois da porta se fechar, deixou-se cair no velho sof de cabedal para acabar de beber o caf. Meia hora? 
Isso mal dava para abrir um olho. Deu um gemido e esfregou o rosto. H muito tempo que no tinha de se levantar cedo para ir trabalhar. O seu corpo estava em estado 
de choque. Nos ltimos cinco meses, tinham-na proibido de trabalhar e por isso, morta de tdio, oferecera-se como voluntria para colaborar na unidade peditrica 
do hospital durante as tardes. Ler Winnie the Pooh em voz alta e formar figuras imaginativas com pauzinhos flexveis no era suficiente para a preparar para os rigores 
de um emprego a srio.
      Levantar-se com as galinhas ia ser mesmo difcil.
      Trinta minutos mais tarde, Molly bateu  porta da frente da casa. Cada vez que respirava, formavam-se lufadas de vapor condensado. Deu uma olhadela a um grande 
termmetro em forma de relgio, que estava montado numa viga  sua direita. Dois graus? Estremeceu de frio, desejando ter tido o bom senso de trazer a parka. As 
mangas da sua ampla camisola de algodo agarravam-se-lhe  pele nas zonas que no tinha enxugado completamente depois do duche, e a trana, ainda por cima, fora 
feita com o cabelo molhado. Sentia-se um pingente de gelo.
      Ouviu vozes vindas do interior da casa e, a seguir, o forte bater de botas no cho de carvalho. Esperava ver Jake, mas quem lhe abriu a porta foi um homem 
seco e mais velho, com meia dzia de cabelos cinzentos e amigveis olhos verdes.
       Ol!  disse calorosamente.  Acho que deve ser a Molly  estendeu-lhe uma mo rugosa que no parecia muito limpa.  Sou o Levi.
      Ela tambm estendeu a sua, esperando o habitual aperto de mos.
       Tenho muito gosto em conhec-lo, Levi.
        No tanto como eu  respondeu ele, levantando-lhe e baixando-lhe a mo como se estivesse a dar  bomba.  Ouvi dizer que  uma biscateira extraordinria.
        Sou uma extraordinria...?  Molly interrompeu-se, engoliu em seco e repetiu:  Ouviu dizer que sou uma extraordinria qu?
       Mecnica  respondeu e, em vez de se chegar para trs para que ela pudesse entrar em casa, foi para junto da rapariga no alpendre e fechou a porta.  A minha 
Mandy tem uma incrvel dificuldade para se aguentar.
      Molly comeou a duvidar que falassem a mesma lngua. Ele agarrou-a pelo cotovelo e f-la dar meia volta:
       D solavancos como um cavalo, como se tivesse gua no depsito da gasolina, mas no tem nenhum buraco no motor e o combustvel  o adequado. Mudei todas 
as velas, e no serviu de nada  f-la descer as escadas.  Pus-lhe uma nova bomba de carburante, mas tambm no ajudou. O Jake, sabe,  um bom mecnico. A maior 
parte das vezes consegue resolver os problemas, mas esta semana nunca teve um buraquinho para vir aqui.
      Sem largar o brao de Molly, Levi dirigiu-se a uma decrpita carrinha Ford castanha com as jantes enferrujadas e o pra-choques preso por arames. Deu uma pancadinha 
no guarda-lamas da frente:
       Pode dizer-me o que  que ela tem?
      Era o seu primeiro dia de trabalho e Molly no queria chegar atrasada ao encontro com Jake, mas quando viu os olhos verdes de Levi cheios de ansiedade no 
foi capaz de lhe dizer que no.
       Bem  disse hesitante , acho que lhe posso dar uma olhadela.
      Chegou-se para trs para que ele entrasse na carrinha e ligasse o motor. O estrondo que se seguiu quase lhe rebentou os tmpanos, saa fumo negro daquele barulhento 
tubo de escape e, aps a exploso inicial, o motor entrou numa sucesso errtica de resflegos, tosses e vibraes. Molly inclinou a cabea:
       Parece-me que tem um problema com o distribuidor.
       A srio? Consegue arranj-lo?
      Ela olhou incrdula para ele. A maioria dos homens ria-se dos seus dotes para a mecnica. As mulheres tinham o seu lugar na sociedade e esse no era de certeza 
o cap de um automvel.
       Bem... hum...  sabia que devia deixar aquilo para depois, mas a expresso do homem era to suplicante que no teve coragem de o fazer.  Penso que posso 
tentar. Tem um estroboscpio?
      Levi saltou da cabina da carrinha com uma agilidade espantosa para um homem que parecia ter bem mais de sessenta anos. A sua camisa de trabalho de algodo 
vermelho estava impecavelmente limpa e tinha as mangas enroladas, precisamente a trs quartos.
       Temos quase todas as ferramentas mecnicas, mida. A ns o que nos falta  o know-how  lanou-lhe um sorriso.  Fico satisfeito por saber que vamos ter 
outro bom mecnico no rancho.
      
      De quanto tempo precisaria uma mulher para tomar um duche e se vestir?
      Jake soltou um suspiro e aproximou-se do fogo para encher uma terceira chvena de caf, o que nele era raro. Ali estava ele s sete e um quarto, e ainda no 
tinha comeado o dia. Quando Molly finalmente aparecesse, iam ter de chegar a um entendimento, ou seja, ele esperava que ela fosse pontual.
       Por que  que ests de to mau humor?  perguntou-lhe Hank, ao entrar em casa.  Parece que todos te devem e ningum te paga.
        A Molly est quarenta e cinco minutos atrasada. Ontem disse-lhe que aqui no se faziam planos de trabalho e acho que tomou as minhas palavras  letra.
      Hank deu uma risadinha.
       A Molly foi desviada.
       Por quem?
       Levi. Est a trabalhar na carrinha dele.
       No ests a falar a srio.
      O irmo mais novo tirou umas quantas bolachas dum prato.
       Se lhe quiseres dar uma palmada no rabo,  agora a melhor altura, mergulhou de cabea no cap e apenas se v o seu belo traseiro.
      A descrio de Hank excitou a imaginao de Jake, que pousou a caneca no louceiro e atravessou a casa em direco  porta. Ao chegar o alpendre viu que o irmo 
tinha descrito bem a situao. Molly estava inclinada, de cabea para baixo, sobre o velho radiador da carrinha de Levi e o rabo dos seus jeans apontava para o cu. 
Viam-se outras zonas o corpo dela alm do traseiro, mas esta era a parte que fixava e enchia olho masculino.
      Jeitosa.  medida que o seu olhar percorria aqueles contornos perfeitamente arredondados, desejou, e j no era a primeira vez, que ela usasse roupas que lhe 
moldassem o corpo.
      Molly escolheu aquele preciso momento para abanar o traseiro, exibindo um conjunto de curvas femininas que fizeram com que Jake arquesse as sobrancelhas. Agora, 
j no tinha tanta certeza de que as calas apertadas fossem uma boa ideia: Benny estava  entrada do estbulo com os seus olhos azuis fixos no rabiosque levantado 
de Molly e uma expresso idiota na face rugosa. Atrs dele encontrava-se Danno, o empregado mais novo de Jake, um rapaz ruivo de vinte anos com mais sardas e testosterona 
do que miolos.
      Ao descer as escadas e atravessar o ptio, Jake lanou um olhar reprovador aos dois empregados, obrigando-os a voltar  realidade. O mais velho, Benny, de 
trinta e seis anos, meteu um dedo por baixo do leno que tinha ao pescoo para o alargar, recomps-se, deu meia volta e dirigiu-se para o estbulo, chocando com 
Danny que decidira, subitamente, ir-se embora. Foi tal a confuso de braos e pernas que, por momentos, parecia que os dois estavam a danar o tango.
      Jake suspirou. Nem pensar. Umas calas ajustadas em Molly iriam prejudicar o rendimento laboral. Nos ltimos metros do percurso franziu o sobrolho, achando 
que era o gesto adequado s circunstncias. L porque ela tinha um traseiro fora de srie e mais curvas do que o mapa das estradas, isso no lhe dava o direito de 
o fazer esperar quarenta e cinco ninutos sem lhe dar a menor satisfao.
      Ao aproximar-se do pra-choques da carrinha olhou com cara de poucos amigos para um Levi muito sorridente e elevou a voz para que o ouvissem apesar do rudo 
do motor, que era agora muito mais suave.
        Contratei esta mulher para cozinhar e limpar, no para consertar camionetas  lanou uma olhadela ao relgio.  Combinmos encontrarmo-nos h quarenta e 
cinco minutos.
      Ao ouvir a voz de Jake, Molly apanhou um susto to grande que deixou cair o estroboscpio, bateu com a cabea no cap aberto da carrinha e quase tombou do 
pra-choques. Levi segurou-a, agarrando-lhe o traseiro, o que a fez dar um salto como se ele lho tivesse apalpado. Estava bastante atraente com aquele bluso azul 
emprestado, vrios nmeros acima do seu, baloiando no pra-choques amarelo amolgado, a tentar equilibrar-se.
       Senhor Coulter!  exclamou ela, esbugalhando os olhos castanho-dourados.  J passaram quarenta e cinco minutos?
      Ele tentou no se rir. Era difcil manter-se zangado perante o olhar horrorizado dela.
       Sem dvida que sim e eu tenho de trabalhar. Molly coou a cabea com a mo suja.
       No me apercebi de que tinha passado tanto tempo. Bati  porta s seis e meia em ponto. A srio.
      Uma vez que era o seu primeiro dia de trabalho e ele conhecia Levi, Jake decidiu mostrar-se condescendente. Disse para si prprio que a sua deciso de ser 
brando no tinha nada a ver com a expresso preocupada e apreensiva que via nos grandes olhos castanhos dela. Que lhe teria acontecido de to grave para ter os homens 
em to pouca conta? No a ia despedir por chegar uns minutos atrasada.
      Falou com ela num tom mais leve:
       O Hank disse-me que tinha sido apanhada.  Lanou um olhar ao empregado.  O Levi s vezes puxa-nos como se fosse uma rajada de vento.  A seguir suavizou 
o que tinha dito, piscando-lhe provocadoramente o olho:  Desta vez deixo passar, mas que isto no se repita, est bem?
      Molly voltou a coar a cabea, mas fez um trejeito de contrariedade ao reparar que a mo estava suja de gordura.
       Deve estar mesmo a acabar disse Jake.  V-se pelo som que a carrinha est a trabalhar melhor.
      Ela pegou no pano que estava em cima da tampa do radiador e limpou as mos:
       Era apenas o distribuidor  lanou um olhar doce a Levi , mas precisa de muito mais coisas. Os platinados tm de ser substitudos e a solda lquida que 
pe no radiador no serve. Experimente procurar nos ferros-velhos, Levi. Se encontrar um radiador, terei todo o prazer em o ajudar a mont-lo assim que tiver um 
dia livre.
        um anjo, menina Molly. Vou j  procura de um radiador.
      O velho cowboy ofereceu-lhe uma mo para ela descer e Jake observou a interaco entre os dois. Molly, hesitante e insegura, o velho, alheio  sua timidez. 
Levi Trump tratava todas as pessoas como se as conhecesse h muito tempo. Embora ela ainda parecesse tensa, Jake teve a impresso de que a sua governanta estava 
j muito perto de se tornar amiga do velhote. Se a intuio de Jake no estava errada, Molly precisava de um amigo e Levi, apesar de todos os seus defeitos, podia 
muito bem s-lo. Era suficientemente velho para que ela se sentisse segura com ele, mas no tanto que j se tivesse esquecido da insegurana dos seus trinta anos, 
quando tinha mais problemas do que solues.
      Jake voltou a dar uma olhadela ao relgio e as faces de Molly ruborizaram-se:
       Estou pronta.
       Espero bem que sim, j perdemos metade do dia  olhou para Levi e disse:  Julgava que tu e o Shorty estavam a mudar as linhas de pesca.
       Vamos j imediatamente.  Levi tirou o pano sujo das mos de Molly.  Agradeo-lhe sinceramente que me tenha arranjado a Mandy, mida.
       No foi nada de especial.  As faces de Molly ficaram ainda mais coradas quando despiu o casaco e o devolveu ao empregado de Jake.
       Fi-lo com todo o prazer.
      Levi, com o casaco ao ombro preso num polegar, acenou com a cabea e piscou um olho a Jake.
       Obrigado por me ter emprestado a cozinheira, patro. No entanto, tenho de o avisar de que  capaz de a ter contratado para o trabalho errado.
      Jake ficou um instante a ouvir o motor da carrinha a trabalhar.
       Talvez tenhas razo  concordou.
      Estendeu a mo para que Molly fosse  sua frente em direco  casa. Ela assim fez, oferecendo-lhe a agradvel viso do seu traseiro enquanto caminhava. Levantou-se 
vento e a camisola de algodo colou-se-lhe ao orpo, revelando uma cintura esbelta e umas ancas rolias que punham facilmente um homem de olhos em bico se continuasse 
a apreci-las por nuito mais tempo.
       Eu cheguei  porta mesmo s seis e meia, como tnhamos combinado  disse ela por cima do ombro , mas o Levi apanhou-me antes de entrar.
        Pelo menos, a Mandy ficou arranjada. O Levy passou a semana inteira a chatear-me para lhe dar uma olhadela, mas eu no tive tempo.
      Apressou o passo para ficar ao lado de Molly quando chegaram ao alpendre. 
       Ento, diga-me l uma coisa, como  que uma rapariga to bonita como a Molly se tornou num s da mecnica?
      Ela esbugalhou os olhos, sem que Jake percebesse se isso se devia ao piropo ou  pergunta.
       Agradeo ao meu pai os poucos conhecimentos que tenho. Gostava de carros antigos e fazia ele prprio todos os arranjos.
      Jake segurou-lhe no brao para subirem as escadas. Quando a anca de Molly roou na sua coxa, sentiu alguma resistncia da parte dela.
       Ento, comeou a interessar-se por carros antigos e aprendeu imenso sobre motores?
        Para dizer a verdade no gostava assim tanto de trabalhar com carros. Penso que sabia, mesmo quando ainda era adolescente, que era muito capaz de acabar 
sozinha e, pelo sim pelo no, queria possuir conhecimentos rudimentares de mecnica.
      Ele lanou-lhe um olhar penetrante:
       Porqu?
       A vida pode ser difcil para uma mulher sozinha se no perceber nada de carros.
      Jake libertou-lhe o brao quando entraram no alpendre.
        No  isso, queria saber porque  que pensava que ia acabar sozinha?
       Acha que foi s ontem de manh que acordei desengraada?
      Ao olh-la no fundo dos seus lindos olhos, Jake sentiu um aperto no corao pelo que no viu neles. O menor riso ou indcio de que ela estava a brincar. Molly 
achava-se sinceramente desengraada.
      Por mais que se esforasse, aquilo no fazia sentido. Era verdade que ela no era o seu tipo de mulher, mas isso no significava que no fosse bonita. Como 
 que Molly podia olhar para o seu rosto e no ver o que toda a gente via?
      Ter-lhe-iam dito que no era atraente? Muitas vezes, a imagem que temos de ns prprios  formada pelos comentrios cruis dos outros. Se lhe haviam dito que 
era feia, via uma mulher feia sempre que olhava para o espelho. Era to simples e triste como isso.
      No podia de maneira alguma voltar a dizer a esta rapariga que era bonita. Era o seu primeiro dia de trabalho e ela era a nica mulher no rancho. Se lhe desse 
demasiados elogios, era capaz de pensar que ele se estava a atirar a ela. Um homem numa posio de autoridade necessitava de ter cuidado com o que dizia e fazia 
ao lidar com uma subordinada.
      No ia dar azo a mal-entendidos dessa natureza se os pudesse evitar. Depois de lhe mostrar a casa e lhe explicar os seus deveres, dar-lhe-ia a lista dos artigos 
de mercearia de que precisavam, um cheque para pagar as despesas, um veculo para ela se deslocar e, a seguir, deix-la-ia governar o resto por sua conta.
      
      
      
      
      
    Captulo 8
      
      
      Passadas oito horas, Molly entrou na despensa e ficou a olhar para uma coleco de caixas trmicas que se encontrava arrumada nas prateleiras mais elevadas. 
As caixas eram de vrias cores, tinham espao para pouco mais do que um pacote de seis latas de soda e estavam todas sujas de terra. Que raio estariam elas a fazer 
ali?
      No tinha tempo para se preocupar com isso. A deslocao  cidade para comprar artigos de mercearia havia ocupado a maior parte da sua manh. Passara a tarde 
a limpar e a lavar roupa. J eram quase cinco horas e no queria pr o jantar na mesa depois da hora.
      Os nervos provocaram-lhe um n na garganta ao ir buscar os legumes. A quantidade necessria para fazer uma fritada para doze pessoas era impressionante. Com 
tanta gente para servir, teria de ir comprar produtos frescos quase todos os dias.
      Ficou satisfeita por poder contar com um fogo industrial que tinha um grelhador muito jeitoso e um forno gigante. Havia imensos utenslios de cozinha todos 
eles de tamanho industrial. Isso poupava-lhe a dor de cabea de ter de cozinhar em trs ou quatro tachos para conseguir a quantidade suficiente.
      Mordeu o lbio inferior enquanto pelava as cenouras. Nunca tinha sido uma cozinheira por a alm. O teriyaki que estava a fazer era um dos seus pratos preferidos, 
mas teve de lhe juntar frango porque achou que todos aqueles homens comiam carne. Queria comear por um prato que todos apreciassem. As primeiras impresses eram 
sempre muito importantes.
      Deus do cu! Por que teria ela aceitado este trabalho? Rodney detestava os seus cozinhados. No entanto, ali estava ela a fazer comida para onze homens. Ento, 
Molly, perdeste o juzo?
      Assim que lavou os legumes, foi pr o arroz ao lume. Deu uma olhadela ao relgio da parede. Mais uma das obras de Jake, a sua caixa era um trevo de quatro 
folhas, feito com ferraduras, e os ponteiros tinham sido construdos com pregos antigos. Era uma pea nica e ficava muito bem naquela casa rstica forrada a madeira, 
do mesmo modo que a velha barrica de Jack Daniel, que servia de mvel de lavatrio na casa de banho do andar de baixo. Molly nunca tinha visto uma casa construda 
desde os alicerces pelo seu prprio dono. As portas de grossas tbuas e os pormenores rudimentares das salas recriavam a maravilhosa simplicidade da poca dos pioneiros, 
dando-lhe a impresso de que havia recuado no tempo.
      O relgio assinalava cinco horas e dez minutos, por isso restavam-lhe apenas cinquenta minutos se quisesse servir o jantar s seis. Olhar para aquele estranho 
relgio acalmava-lhe os nervos. Jake Coulter parecia ser um homem simples, com gostos igualmente simples. Satisfazer-se-ia com qualquer coisa que ela cozinhasse 
desde que fosse comestvel. Era estpido estar to ansiosa.
      
      Jake estava a morrer de fome e pensava que os seus empregados tambm deviam estar. Nessa manh, no houve po para fazer sanduches e por isso tinham passado 
o dia inteiro a trabalhar, contentando-se com as bolachas e a manteiga de amendoim que comeram ao almoo. Os homens, que realizavam trabalhos fisicamente rduos, 
necessitavam de estar bem alimentados para conservarem as foras.
      Quando ele entrou, a casa cheirava divinamente a uma mistura de odores fortes e magnficos que lhe fizeram crescer gua na boca. Esfregou as botas no tapete 
da entrada para no sujar o soalho lavado. Ao passar pelo salo reparou com agrado que as mesas de madeira tinham sido polidas. Nesse momento vieram-lhe  memria 
as camadas de sujidade que se tinham acumulado por toda a casa e sentiu-se como se lhe tivessem retirado cem quilos de cima.
      Isto  fantstico, homem. Ter uma mulher  sua espera aps um rduo dia de trabalho, encontrar a casa arranjada e a brilhar e saber que ia provavelmente ter 
meias e cuecas lavadas no dia seguinte. Era suficiente para o fazer pensar em casar-se. No que ele achasse que o lugar da mulher era em casa ou que a sua nica 
funo na vida fosse satisfazer as necessidades do marido. Mas era certamente agradvel para variar. Normalmente chegava a casa to cansado que mal podia abrir os 
olhos e ainda tinha de cozinhar ou aquecer alguma coisa para o jantar.
      Antes de entrar na cozinha parou para pendurar o chapu num dos ganchos que tinha pregado na parede de madeira,  laia de cabide para casacos. A seguir, o 
seu nariz foi atrs de todos aqueles fantsticos cheiros at  cozinha. Comida  quente, saborosa e feita em casa.
       Morri e fui para o cu  disse ao cruzar a ombreira da porta.  Aqui cheira mesmo bem.
      Molly deu um salto quando ouviu a voz dele e afastou-se do fogo, o que o levou a arrepender-se de ter entrado em casa sem a avisar. Ela estava a mexer comida 
num tacho quando se assustou e uma espcie de massa saltou-lhe para a blusa. Puxou-a, tentando retirar aquela coisa h-nida e escaldante da pele.
      Raios me partam. Jake atravessou a cozinha a correr para ir buscar o pano da loua. A seguir, pousou-lhe a mo no ombro e limpou-lhe suavemente a blusa.
       Queimou-se?
       No, no. Foi s uma pequena picada.
      Molly empurrou-lhe a mo e ruborizou-se quando os olhares de ambOS se cruzaram. A Jake, os olhos dela lembravam-lhe invariavelmente caramelos, e no havia 
nada de que ele mais gostasse neste mundo. Quis convencer-se de que apenas estava esfomeado, mas no mais profundo do seu ser, sabia que o problema no era esse. 
Havia qualquer coisa nesta mulher que o atraa de um modo que no era capaz de definir, quanto mais compreender.
      Voltou a meter o trapo no lava-loua e deu um passo atrs.
        No pretendia assust-la. Como trabalho fora o dia inteiro estou habituado a falar alto e, por isso, esqueo-me de baixar o tom de voz quando entro em casa.
        No se preocupe.  O sorriso que ela tinha nos lbios no lhe chegava aos olhos.  Sei que est na hora de servir o jantar. No entendo porque reagi deste 
modo. Foi por ser a primeira vez, acho eu.
      Jake tinha a impresso de que no era preciso muito para a assustar. A sua prpria postura revelava uma tenso nervosa pronta a estalar a qualquer momento, 
uma vez que os seus ombros suavemente arredondados estavam rgidos e o corpo tenso. Sempre que olhava para ela, via como lhe era difcil manter as mos quietas, 
mexendo nervosamente na blusa com os dedos ou brincando com os botes.
      O normal seria pensar que ela tinha medo dos homens mas, aps a confrontao da noite anterior por causa do rotor, custava-lhe acreditar nisso. Estivera frente 
a frente com ele, pronta para a guerra. Conhecia muito poucas mulheres que tivessem coragem para enfrentar um homem feito.
      Era um enigma, esta rapariga, ansiosa e terrivelmente insegura em relao a si prpria em tantos aspectos, mas ao mesmo tempo capaz de mostrar uma fora e 
uma coragem que muitas pessoas no possuam. Este contraste fascinava-o e tocava-lhe o corao.
      Molly levou uma das suas mos  base do pescoo, movendo os dedos sobre o decote da blusa numa pequena dana. As madeixas de cabelo encaracolado, que se haviam 
escapado da trana, eram anis de mbar que lhe emolduravam o rosto. Jake alegrou-se ao descobrir que a toalha,  que havia atado  cintura como se fosse um avental, 
lhe apertava a camisola ablusada, realando a sua figura. E que figura ela tinha! A rapariga era bem fornecida. Possua uns belos e generosos seios, uma cintura 
esbelta e proporcionada, e umas boas ancas, fazendo-lhe imaginar o prazer que uma mulher assim to fofinha lhe poderia proporcionar.
      Se ela fosse sua mulher, sabore-la-ia primeiro e deixaria o jantar para mais tarde, bem mais tarde.
      Embaraado com a direco que os seus pensamentos estavam a tomar, pousou os olhos na longa mesa de tbuas de madeira, estilo mobilirio de exterior, com pernas 
cruzadas, que ele prprio tinha construdo com pedaos de lenha e polido com diversas camadas de poliuretano. No entanto, ela havia-lhe conferido algum requinte, 
colocando copos para gua e para vinho em todos os lugares. No centro de cada prato destacava-se um pedao do rolo de cozinha, elegantemente dobrado em forma de 
leque. Jake ficou a olhar para a mesa, pensando quanto tempo teria ela levado para fazer todas aquelas pregas to pequeninas.
       Eu sei  disse Molly, fazendo um gesto com a mo para abranger a mesa.  Deve parecer esquisito, mas s percebi que no tinha guardanapos depois de voltar 
das compras.
      Jake nunca tinha visto o papel do rolo de cozinha to bem arranjado.
       Quando se trabalha de sol a sol com vacas e cavalos sabe bem um pouco de requinte ao fim do dia.
       O requinte no  l muito, infelizmente. A prxima vez que for  cidade compro guardanapos e, tambm, argolas. Um prato sabe muito melhor se parecer agradvel 
 vista.
      Ele no tinha oramento para guardanapos de linho nem argolas, uma vez que ainda se encontrava em situao deficitria.
       O rolo de cozinha serve muito bem. Vamos ter vinho?  perguntou ele a Molly ao mesmo tempo que se questionava quanto este ltimo lhe teria custado.
       S um pouco de vinho branco barato.
      Jake compreendeu a mensagem barato, elogiando-a mentalmente pela sua capacidade de percepo.
       Vai ser um prazer  disse ele, mas receando que ela enriquecesse todas as noites a mesa com vinho cujo preo ele no podia pagar, acrescentou imediatamente 
, mas que isso no se torne num hbito.
       Ah, no. Eu apenas...  as pontas dos dedos dela percorreram a linha dos botes da blusa. Jake reparou que a sua pronta interveno com o pano da loua tinha 
evitado que se sujasse.   o primeiro jantar que fao aqui e queria que fosse especial.
      A sua simples presena j o tornava especial. O sorriso dela era to doce e hesitante, que lhe custava negar-lhe fosse o que fosse. Jake tinha a impresso 
de que a cozinha estava mais alegre com ela l, mais luminosa.
      Olhou  sua volta e notou que Molly havia posto tudo a brilhar. At via o seu reflexo nas portas do velho frigorfico.
       Um jantar de comida caseira j  especial  disse Jake. Olhou para o grande tacho que estava no fogo e perguntou:  O que  que est a cozinhar?
        uma surpresa.
       Bem, tenho tanta fome que era capaz de comer a sola dos sapatos  foi lavar as mos ao lava-loua.  No me deixe muito tempo em suspense.
      Molly passou os minutos seguintes a pr o arroz e a fritada em travessas. Entretanto, chegaram alguns homens. Quando foi servir o jantar, apenas restava um 
lugar vago ao fundo da longa mesa. Os homens iam-se endireitando  medida que ela passava por eles com uma grande tigela de arroz nas mos.
        Esta  a Molly - disse Jake a modo de apresentao.  Aqui  minha esquerda  e apontou com um dedo  esto o Skeeter, o Preach, o Shorty, o Benny, o Danno, 
o Tex, o Bill e o Nate. J conhece o Levi e o meu irmo Hank.
      Molly passou rapidamente os olhos pelo rosto deles, que ia desde muito idoso at bem jovem. Excepto Levi, que trazia uma camisa vermelha, estavam todos vestidos 
com blusas e calas de ganga azuis. Naquele mar de azul, as feies confundiam-se e ela depressa esqueceu os seus nomes. A nica pessoa que sobressaa, alm de Hank 
e Levi, era o rapaz  ruivo chamado Danno, que tinha tantas sardas que mal se lhe distinguiam os olhos cor de avel.
       Encantada por vos conhecer a todos  disse Molly, e virou-se para ir buscar a travessa com os legumes e a galinha.  Espero que gostem.  um dos meus pratos 
favoritos  ao ver que ningum se mexia, acrescentou:  Vou deitar leite nos copos de quem quiser e tambm h vinho. Entretanto, podem servir-se.
       Onde  que est o po?  perguntou Danno. Molly olhou para a mesa.
       Eu... hum... no pensei no po, Danno. Temos arroz.
       Arroz?  Danno deu uma olhadela  tigela.  Tem um ar esquisito. O que  que fez, cozinhou-o com soja?
         arroz integral  disse Jake, comeando a pr comida no prato , dizem que faz melhor do que o branco. Experimenta, Danno,  um ptimo substituto das batatas.
       Mesmo com batatas comemos sempre po  queixou-se Danno. Ela percebeu que o rapaz no ia ficar satisfeito sem comer po e foi a correr  despensa.
       No tenho carcaas. Isto serve?
      Os olhos de Danno brilharam ao ver o canto de um cacete.
       Serve muito bem  partiu quatro fatias e, a seguir, passou os olhos pela mesa.  Onde est a manteiga?
      Molly foi ao frigorfico e trouxe um spray, que era um substituto com o mesmo sabor, mas sem calorias nem gordura.
       Aqui tem.
      Danno agarrou no spray, ficou a olhar para ele durante um longo momento e, a seguir, disse:
       Que raio de coisa  esta?
      Todas as cabeas se viraram para ele. Fez-se silncio. Molly molhou os lbios.
       ... hum... manteiga em spray.  muito boa, no se d pela diferena em relao  verdadeira.
      O rapaz franziu as sobrancelhas.
       O que  que sucedeu  manteiga normal?
       No comprei nenhuma. Danno lanou um olhar a Jake.
       Desde quando  que compramos manteiga?
      Jake misturou um pouco de galinha e de legumes no arroz.
       Hoje  o primeiro dia da Molly, Danno. No tive tempo de lhe ensinar a fazer manteiga.
      Molly olhou assustada para o patro. Estaria ele  espera que ela fizesse manteiga?
      Este levantou os olhos do prato.
        Temos uma batedeira elctrica para fazer manteiga, no custa nada.
      No tinha qualquer interesse em aprender a fazer manteiga. As suas artrias estavam desobstrudas e pretendia mant-las assim. Alm do mais, havia alguns homens 
idosos na mesa que precisavam de controlar o colesterol. No iria permitir que algum tivesse um ataque de corao  frente do seu nariz, sobretudo se o pudesse 
evitar.
      Que bela inteno. Na realidade, sabia muito bem que ia fazer tanta manteiga que podia morrer afogada nela. Ia fazer tudo o que fosse preciso para lhes agradar, 
uma vez que precisava de conservar o emprego.
      Enquanto Molly andava  roda da mesa a servir o vinho, Danno barrou o po com a manteiga em spray, franzindo tristemente o sobrolho. Quando, por fim, deu uma 
dentada, fez um trejeito com a boca e perguntou:
       H geleia?
       Sim  respondeu ela, embora no conseguisse compreender que algum quisesse pr geleia naquele prato to condimentado. Correu outra vez para o frigorfico, 
comeando a pensar que participava numa prova de atletismo.
      Quando entregou o pequeno boio de Simply Fruit a Danno, este examinou o rtulo antes de retirar a tampa e, a seguir, espalhou quase todo o contedo sobre 
uma fatia de po. Dobrou-a ao meio e meteu-a na boca, a pingar geleia por todos os lados.
       Mmm.
      Molly decidiu naquele mesmo momento que ia passar a comprar geleia menos cara. Se o comportamento de Danno servia de exemplo, aqueles homens gostavam de quantidade 
e no de qualidade.
      Quando ocupou finalmente o seu lugar ao fundo da mesa, comeou a achar que a sua primeira refeio no Lazy J tinha ficado aqum das expectativas. Desdobrou 
o guardanapo, notando que apenas Jake se dera ao trabalho de pr o dele sobre as pernas. Os outros haviam colocado a sua folha de papel ao lado do prato. Molly esperou 
ansiosa que algum, alm de Danno, provasse a comida, mas o resto dos comensais olhava para ela com a mesma ansiedade.
      Foi ento que se apercebeu que todos estavam  espera que ela comeasse a comer.
       Ai, por favor, no esperem por mim  disse, sentindo-se cada vez mais nervosa. Vou levantar-me muitas vezes durante a refeio  ao ver que ningum na sua 
ponta da mesa lhe passava o arroz, foi ela prpria buscar a tigela, encontrando-a quase vazia.  Comam!  pediu-lhes.
      Durante um terrvel momento de angstia, em que esperou ansiosamente para ver a expresso dos homens ao provarem a fritada, Molly esqueceu-se por completo 
da tigela de arroz que tinha nas mos.
      Jake deu finalmente uma garfada, lanando um olhar aos seus homens para que o seguissem.
       Mmm, isto  delicioso, Molly  sorriu-lhe ao mesmo tempo que levantava o copo.  O vinho branco combina perfeitamente com o prato.
      Seguindo o exemplo do irmo, Hank comeou tambm a comer. Ao provar o vinho, sorriu abertamente para Molly.
        a primeira vez que usamos os copos de cristal. A nossa irm Bethany e o marido Ryan ofereceram um conjunto completo a Jake quando inaugurmos a casa.
       So encantadores  disse Molly.
      Ficara agradavelmente surpreendida ao descobrir um conjunto de copos de cristal de boa qualidade num dos armrios, tendo-se questionado sobre a sua origem. 
Jake no era homem para gastar muito dinheiro em artigos que no fossem essenciais.
      Hank, que parecia ler-lhe o pensamento, acrescentou com um sorriso:
       No so nada prticos  piscou-lhe o olho e esticou o dedo mindinho ao mesmo tempo que bebia mais um gole de vinho do fino copo de cristal.  O Ryan  rico, 
mas eu sinto-me completamente ridculo.
      Molly procurou a cara morena de Jake. A sua expresso enquanto comia era imperscrutvel. Apesar do elogio aparentemente sincero que fizera ao prato, ela continuava 
a achar que ele no estava totalmente satisfeito com o jantar. Formou-se-lhe um n na boca do estmago. Se perdesse o emprego, Sunset estava condenado, e ela tambm. 
S de pensar nessa hiptese sentiu o seu estmago encolher-se de ansiedade.
       Este vinho  bom  disse o homem de cabelo louro-arruivado, cjue dava pelo nome de Shorty.  O meu scio ficou  minha espera no alpendre. Chama-se Bartholomew, 
Bart para os amigos. Se sobrar alguma coisa do jantar, ele agradece.
       O seu scio ficou no alpendre?  Molly, que ia deitar arroz no seu prato, pousou a tigela e levantou-se da cadeira.  No h necessidade disso, Shorty. Arranjamos 
lugar para ele  mesa. Eu dou-lhe o meu.
      Jake levantou a cabea do prato:
       O Bart  um co, Molly. Pedi ao Shorty que a partir de agora o deixasse l fora. Acho que no ia gostar de o ver a andar no cho lavado.
      Shorty baixou a cabea, mas Molly ainda notou o ressentimento que havia nos seus olhos. Era evidente que at quele momento Bart tinha sido autorizado a entrar 
em casa.
      Embora nunca tivesse convivido muito com ces porque o pai era alrgico a eles, Molly no queria causar alteraes desnecessrias na rotina habitual do rancho. 
Por isso, foi abrir a porta de trs. Encontrou nos degraus a criatura mais feia, desgrenhada e suja que jamais tinha visto. O seu lado direito estava parcialmente 
pelado. Um dos olhos azuis do animal fitou-a desconfiado e curioso, mas o outro, nublado por uma mancha branca, olhou na direco contrria.
       Ol, Bart!
      Tomando o cumprimento de Molly como um convite para entrar em casa, o co levantou-se e atravessou o umbral da porta, metendo-se na cozinha. Ao v-lo a caminhar 
em direco a Shorty, reparou que ele no assentava uma das patas da frente no cho.
       Ai, no, ele est ferido!
      Todos os homens se viraram para ver Shorty examinar a pata do co.
       Outro maldito rabo-de-raposa  afirmou o idoso empregado.
        Onde raio  que ele encontrou um rabo-de-raposa?  perguntou Levi.  Ainda  muito cedo para eles, no ?
      Shorty deu uma pancadinha na cabea do co e mandou-o deitar-se. Quando se voltou para continuar a refeio, disse:
       Se houver um rabo-de-raposa num raio de cem milhas, ele encontra-o.
      Molly voltou para o seu lugar com a ateno concentrada no animal. Bart queixou-se e comeou a lamber a pata, claramente incomodado com o ramo que tinha encravado 
entre os dedos. O aperto no estmago que ela sentia devido aos nervos tornou-se mais intenso ao ver o sofrimento do co.
       No se devia tirar o rabo-de-raposa e desinfectar a ferida?  perguntou ela.
      Shorty disse que sim com a cabea.
       Vou j tratar disso, assim que acabar de jantar.
      Ela achou que a pata do co devia ser tratada primeiro, mas absteve-se de dizer o que pensava. Era importante que se desse bem com todos eles, e dar a sua 
opinio sem que esta lhe tivesse sido pedida no era a melhor forma de ganhar simpatias.
        O Bart est habituado a jantar ao mesmo tempo que as pessoas?  perguntou Molly.
      Shorty levantou os olhos do prato e acenou afirmativamente com a cabea.
       Sim, senhora. No tem comida especial. Come exactamente o mesmo que todos os outros.
      Molly olhou cptica para o co.
       Tenho a certeza de que no gosta de fritadas.
       Ns tambm no  interveio Danno  e temos de comer.
       Danno!  repreendeu-o Jake. A seguir, sorriu para Molly:  No d importncia ao que esse miudeco diz. Todos ns achamos o seu cozinhado delicioso.
      Levi apoiou-o:
       Sim, senhora. O jantar  mesmo bom.
      O homem de cabelo escuro e rosto rugoso, que se chamava Preach, pousou o copo de vinho para dizer:
       Tem o meu voto.
       velocidade que o arroz e os legumes desapareciam, Molly teve dvidas de que sobrasse alguma coisa para o pobre do Bart, por isso em vez de voltar para o 
seu lugar, foi fazer mais arroz. Podia tambm mexer uns ovos e mistur-los nele. Assim j tinha jantar para o co naquela noite.
       Para onde  que vai agora, Molly?  perguntou Jake.  Ainda nem sequer encheu o seu prato.
       Primeiro quero pr um pouco mais de arroz para o Bart. No podemos deixar o scio do Shorty  fome.
      Ouviu o som de uma cadeira a roar no cho seguido do bater dos taces de umas botas. Olhou  sua volta e viu Jake no extremo da mesa onde ela se sentava, 
deitando o que restava do arroz no seu prato.
       Eu fao isso  protestou Molly.
       Para isso  preciso que sobre alguma coisa  lanou-lhe um olhar divertido.  Parece que a sua fritada foi um xito.
      Molly desviou o olhar, receando que a sua expresso revelasse o contentamento que sentia. Exceptuando Danno, todos os outros pareciam ter gostado da comida. 
A proporo no era m.
      Depois de pr o arroz ao lume voltou para a sua cadeira com a inteno de jantar, embora no tivesse muito apetite. Apenas havia ingerido uma garfada quando 
Bart se queixou. Olhou para baixo, viu o co a lamber a pata e o seu corao encheu-se de pena. Achou que permanecer ali sentada, ignorando a aflio do animal, 
era uma crueldade.
      Ao ver o olhar do patro, que estava sentado na outra ponta da mesa, evitou interferir naquela que era claramente a ordem estabelecida das coisas. Shorty iria 
cuidar do co na altura devida, e Bart sobreviveria at l, sossegou-se a si prpria. Ela no tinha nada que se meter.
      Estava quase convencida quando Bart gemeu outra vez. Molly no conseguia pura e simplesmente ficar ali sentada, fingindo que no o ouvia.
       Desculpem-me por um instante  disse educadamente ao levantar-se da mesa para ir  casa de banho no andar de baixo.
      Jake suspirou quando Molly saiu da sala. Segundo as suas contas ela apenas tinha comido uma garfada. Nunca vira uma pessoa to ansiosa. Havia observado os 
rostos dos homens a comer como se disso dependesse a sua vida e ficara totalmente branca quando Danno criticou o jantar. Ele morria de vontade de lhe dizer que no 
tinha a menor inteno de a despedir. Cozinhar para tantas pessoas no era fcil, e j estava  espera que ela cometesse alguns erros  medida que se fosse adaptando.
      Sentiu-se aliviado quando Molly regressou  cozinha passados alguns segundos. Mas a sensao de alvio foi rapidamente substituda pela apreenso, uma vez 
que ela trazia uma garrafa de gua oxigenada, bolas de algodo e pinas. Era evidente que tencionava retirar o rabo-de-raposa da pata de Bart.
      Jake olhou preocupado para Shorty, com medo da reaco do velhote. Havia uma lei no escrita entre os cowboys segundo a qual o co de um homem s podia ser 
tocado, alimentado e comandado pelo seu dono. Estes indivduos achavam que a lealdade do co para com o dono diminua se recebesse influncias externas. Embora ele 
no estivesse de acordo com esta forma de pensar, respeitava o direito de Shorty a acreditar naquilo que quisesse. O seu velho empregado amava Bart e tratava-o bondosamente. 
A nica preocupao de Jake era que o co no viesse a sofrer por causa das excentricidades do seu dono.
      Desconhecendo que Shorty no permitia que ningum se metesse com o seu co, Molly ajoelhou-se ao lado de Bart e comeou a falar-lhe com meiguice. O animal, 
que no estava habituado  presena de mulheres nem  aproximao amigvel de estranhos, respondeu com pequenas rosnadelas de aviso. A rapariga, em vez de se mostrar 
assustada, apenas lhe falou mais carinhosamente.
      Na cabea de Jake soaram campainhas de alarme. Tinha a impresso de que a sua nova cozinheira percebia muito pouco de ces. Em circunstncias normais isso 
no seria um problema, mas Bart no era um co normal. Os ces que guardavam o gado eram to diferentes dos seus primos domsticos como a noite do dia.
        No te censuro por estares aborrecido  murmurou Molly para consolar o mal-humorado co de gado australiano.  No h nada pior do que um p ferido, pois 
no? Bem, no te preocupes, tiro-te esse maldito rabo-de-raposa em dois segundos e j te vais sentir melhor.
      Shorty parou de mastigar com as bochechas cheias de comida e olhou para Jake com os olhos esbugalhados. Hank tambm lanou um olhar aflito ao irmo.
       Cuidado, Molly  avisou Jake.  O Bart tem mau gnio e s vezes morde.
       Ah, de certeza que no  respondeu ela.  Tem um ar to amoroso.
      As rosnadelas do co no pareciam nada amorosas a Jake. Shorty virou-se na cadeira e olhou reprovadoramente para Molly, franzindo o sobrolho.
        O que  que est a fazer, menina? Este co  meu, j vou tratar dele.
      Sem que as suas esbeltas mos deixassem de dar pancadinhas carinhosas em Bart para o acalmar,  Molly olhou para cima e sorriu com os seus grandes olhos castanhos, 
que brilhavam sob a luz.   
        Penso que consigo tirar este rabo-de-raposa, Shorty. Continue a comer e aprecie o jantar enquanto ainda est quente. Eu no tenho muita fome e no me importo 
de interromper a refeio.
      O velhote endireitou os ombros e disse:
       O Bart no gosta que os estranhos lhe mexam. No ouve as rosnadelas dele?
        Ah, isto no so rosnadelas  Molly inclinou-se para o co que rosnava, imitando o cacarejar de uma galinha.  Ests apenas a falar comigo, no  verdade, 
Bart? Ests a contar-me tudo, no ? Pobrezinho. Eu sei que deve doer muito  deslizou a ponta de um dedo pelo focinho do co, sem aparentemente se preocupar com 
os seus dentes incisivos. Num tom de voz cantado, como se estivesse a falar com um beb, disse:  Eu tambm estaria de mau humor no teu lugar, claro que sim. A tua 
patinha est toda inchada. Aposto que passaste o dia inteiro com o rabo-de-raposa a espetado. U.
      A pata de Bart estava longe de ser uma patinha. Este co de guarda australiano era grande para a sua raa, um desvio em relao ao tamanho normal, que levara 
Jake a questionar vrias vezes a sua pureza. Mas o mais alarmante era o facto dos dentes arreganhados do co no serem pequenos. Ela podia ficar em mau estado se 
Bart decidisse mord-la.
       Molly, era capaz de ser melhor deixar o Shorty fazer isso  tentou convenc-la Jake.
       No me importo, a srio  insistiu ela.  Levo apenas uns segundos.
      Shorty virou-se completamente para trs na cadeira para poder olhar para a nova governanta. O velhote estava claramente admirado por Bart no ter ainda tentado 
arrancar-lhe um brao.
       Eu, se fosse a si, dava ouvidos ao patro e desistia, menina. O Bart  conhecido por morder de vez em quando.
      Molly analisou o co com o olhar e, a seguir, os seus lbios esboaram um sorriso beatfico. Jake conhecera muitas mulheres que fingiam ser doces e compreensivas, 
mas que mais tarde se revelavam pessoas egostas que no se preocupavam com as consequncias dos seus actos. No entanto, no achou que Molly estivesse a fingir. 
A bondade brilhava nela e, por muito sentimentalista que isso lhe soasse, chegava racionalmente  mesma concluso. No era possvel olhar para Molly e duvidar que 
ela tivesse um bom corao.
       Ele no me vai morder  garantiu ela a Shorty.  Sente-se apenas infeliz. E, quem no se sentiria no seu lugar?
      Aps esta afirmao, colocou a pata de Bart sobre o seu joelho e tentou agarrar o rabo-de-raposa com as pinas. Shorty estava boquiaberto. O co rosnou com 
maior ferocidade, mas no lhe serviu de nada. Molly ignorou o aviso. Jake levantou-se da cadeira e aproximou-se deles.
      Em vez de fincar os seus afiados dentes na pele tenra de Molly, Bart limitou-se a gemer, lanou um olhar resignado ao dono e lambeu o pulso da rapariga. Jake 
tranquilizou-se e piscou o olho a Shorty, que parecia ter acabado de levar um murro.
       No costumo deixar estranhos tocarem no meu co  disse o empregado.
        Faz muito bem  observou Molly, dirigindo um pequeno mas compreensivo sorriso ao idoso.  Pode haver quem lhe queira fazer mal. Li no jornal que no ms 
passado um homem andou a envenenar ces no jardim da cidade. No  horrvel? Ps arsnico em pedaos de carne picada. No consigo imaginar que algum seja capaz 
de fazer uma crueldade dessas, mas foi o que aconteceu. Para bem do Bart, precisa de ter cuidado.
      Shorty olhou, impotente, para Jake. A seguir, suspirou e deixou-se escorregar na cadeira, agachando-se ao lado de Molly. Ao observar a gentileza com que ela 
procurava o rabo-de-raposa, disse sorrindo:
       Ele tem um fraquinho por si, no h dvida.  Um minuto depois, acrescentou:  Sempre ouvi dizer que os ces so capazes de pressentir coisas em relao 
aos humanos que ns no conseguimos, como se tivessem a capacidade de farejar o bem e o mal numa pessoa. A minha me acreditava firmemente nisso. Tinha um velho 
coonhound que no ligava muito a estranhos. Mas quando esse co gostava de uma pessoa, a minha me confiava a sua prpria vida a essa pessoa.  Shorty aproximou-se 
para coar o co atrs das orelhas.  Acho que o Bart lhe est a dar uma boa carta de recomendao, menina Molly. Uma boa carta de recomendao, sem dvida.
      Molly ruborizou-se e olhou espantada para Bart.
        Tambm gosto de ti, fofinho. Se tomasses banho eras um rapaz muito jeitoso  passou a mo pela pelada lateral do co e voltou a procurar o rabo-de-raposa.
       Por que  que ele no tem pelo aqui, Shorty? Foi alguma ferida? Shorty suspirou.
       Uma vez, numa estao de combustvel, deixei-o na parte de trs da carrinha enquanto fui pagar  caixa. No momento em que o empregado ia pr gasolina no 
depsito, o Bart no gostou e entrou em fria. Quando l cheguei o estupor do homem tinha-lhe deitado gasolina por cima, mas s mais tarde, quando o vi a tremer 
e a morder-se a si prprio,  que percebi o que tinha sucedido. Nessa altura j estava muito queimado e o plo nunca voltou a crescer.
      Uma sombra de tristeza passou pelos olhos de Molly, escurecendo-os.
       Ai, que horror. Como  que algum  capaz de fazer uma maldade to grande?
      Shorty abanou a cabea.
       Como eu disse, o Bart s vezes  perigoso. Talvez tenha mordido o homem.
        Isso no  desculpa e o Bart no  perigoso  protestou Molly.
       Ele  querido  imitou o som de beijos junto ao nariz do co. H uns minutos atrs Jake ter-se-ia preocupado com o rosto dela, mas era evidente que aquele 
infecto co sabia reconhecer uma pessoa com um corao genuinamente bom.  Est aqui!  gritou ela triunfante. J o apanhei, Bart  mostrou as pinas ao co para 
ele as examinar.  No te sentes melhor agora, querido?
      Bart ignorou as pinas para ir lamber a face de Molly, o que a fez rir-se ao mesmo tempo que esboava um trejeito de desagrado.
       Ai, querido, tens mau hlito. A prxima vez que for  cidade trago-te uma escova e pasta de dentes para co. Vamos resolver esse pequeno problema.
      Shorty ergueu as sobrancelhas quase at ao cimo da testa.
       Pasta de dentes para co? Nunca ouvi falar nisso.
      Molly sentou-se ao lado das pinas e abriu a boca de Bart para lhe examinar os dentes.
        Vejam s este trtaro. No h dvida sobre isso. Se no tiver uma melhor higiene oral, vo aparecer-lhe cavidades daqui a pouco tempo.
       Os homens que estavam sentados  mesa trocaram olhares espantados uns com os outros enquanto ela falava  A pasta de dentes tem sabores agradveis para os 
ces. Vi anncios na televiso. O Bart vai adorar. Shorty no parecia muito certo disso:
       Hum, bem, logo se ver. No sabia que havia gente que lavava os dentes dos ces.
       Ns tambm lavamos os nossos  frisou Molly.
       Parece-me um trabalho desnecessrio, quando um bom osso resolve o problema.
       Tambm lhe vou dar ossos  Molly aplicou um pouco de desinfectante entre os dedos do p de Bart e a seguir olhou para Jake.  Eu pago tudo, no se preocupe.
      Desta vez o dinheiro era a ltima das preocupaes que ocupavam o esprito de Jake. Estava completamente fascinado a observar a interaco entre Molly, Shorty 
e o co. Normalmente era imprevisvel saber com qual dos dois era mais difcil lidar, o animal ou o velhote. No entanto, ela tinha metido ambos no bolso sem qualquer 
dificuldade.
       Posso lavar-lhe os dentes todos os dias, se me deixar, Shorty  ofereceu-se ela.  Sei que tem muito que fazer e eu no me importo de reservar algum tempo 
para isso.
      Shorty ficou a pensar no assunto durante um momento e, a seguir, acenou afirmativamente com a cabea.
       Acho que no lhe deve fazer mal. Seria verdadeiramente horrvel se os dentes dele se estragassem e pr dentes postios num co deve ser caro.
      Molly riu-se surpreendida.
        Tenho a certeza que seria.  Os olhos dela enterneceram-se ao contemplar o idoso.  Mas se isso existisse comprava-lhe alguns, no me diga que no comprava? 
Quando se trata deste co, fica todo derretido. Eu bem vejo.
       Acho que sim  concordou Shorty.  Ele tem de conseguir comer, no  verdade?
      Jake voltou a sentar-se para terminar o seu magro jantar, incrdulo, mas satisfeito por Molly j estar a fazer amizades com os seus empregados. Havia algo 
nesta mulher que amolecia os homens quando olhavam bem no fundo dos seus grandes olhos castanhos.
      O sorriso dele alargou-se ao pousar os olhos em Bart. Fosse qual fosse essa qualidade indefinvel parecia ter o mesmo efeito nos ces e nos homens.
      
      
      
    Captulo 9
      
      
      Depois do jantar, Jake arregaou as mangas para dar uma ajuda a Molly na arrumao da cozinha. Assim que ela se apercebeu das suas intenes ficou toda nervosa, 
com um rubor engraado nas faces, e tentou arrancar-lhe das mos a tigela do arroz.
        Eu fao isso, Senhor Coulter. Teve um intenso dia de trabalho e arrumar a cozinha faz parte das minhas atribuies.
      Para variar, Jake teria gostado que ela, ao menos uma vez, se dirigisse espontaneamente a ele pelo nome. Sem soltar a tigela, disse:
       Tambm trabalhou muito hoje. A casa est uma maravilha. J lho tinha dito?
      Os olhos dela brilharam de alegria.
       S lhe lavei a cara, mas amanh vou fazer uma limpeza a srio.
       Seja como for, sei que teve um dia duro e eu no me importo de a ajudar. Assim, ambos nos despachamos mais cedo.
      Ela largou finalmente a tigela.
       O dia foi mesmo longo. Era tudo novo para mim e levei muito tempo a fazer as coisas. Mas depressa entro na rotina, tenho a certeza.
      Jake esperava bem que sim. Molly tinha-se levantado e sentado tantas vezes durante o jantar que quase no havia comido. O que no significava que houvesse 
muito para ela pr no prato. Tanto ele como os seus homens tiraram apenas uma pequena poro, mas mesmo assim a comida mal chegava para todos.
      Como  que havia de lhe dizer que tinha de fazer uma maior quantidade de comida? Havia dado o seu melhor, e mostrara-se to preocupada com o resultado que 
ele tinha medo que uma crtica, por mais bem-intencionada que fosse, acabasse por ser prejudicial em vez de benfica. E tendo em conta que a diplomacia no era o 
seu forte, o mais provvel seria meter-se num grande sarilho.
      At tinha gostado do jantar. Mas havia trabalhado arduamente durante todo o dia, e o mesmo sucedera com os seus homens. Queimavam calorias quase  mesma velocidade 
que a comida lhes entrava na boca. Uma fritada podia ser ocasionalmente o prato principal, mas ela precisava de o enriquecer com mais protenas, de lhe juntar acompanhamentos 
fortes, e de nunca se esquecer de pr uma grande quantidade de po e manteiga fresca na mesa. Caso contrrio, ele e os seus homens iriam estar sempre com fome.
      Pelo menos ningum, excepto o co, havia tido a m educao de lamber o prato.
      Enquanto reflectia sobre o assunto, Jake ia passando os pratos por gua e colocando-os no lava-loua para serem lavados. Entretanto, Molly andava  volta dele, 
a levantar a mesa, a limpar o louceiro, a lavar o fogo e a arrumar as coisas. Tinha sido sempre muito exigente com a limpeza da cozinha, mas nunca limpara to minuciosamente 
como ela.
      Estava to nervosa que parecia ter dificuldades em fixar a ateno. Nunca sabia onde tinha deixado o pano. Dava voltas, abria as portas do armrio e ficava 
pasmada a olhar para elas, falando sozinha. Jake desejava que ela se acalmasse e deixasse de andar em seu redor antes que ambos tivessem um ataque de nervos.
      Quando a cozinha ficou to imaculadamente limpa como ela queria, Jake espreitou pela janela e, ao ver que j tinha cado a noite, ofereceu-se para a acompanhar 
a casa. Esperava que durante o percurso talvez surgisse uma oportunidade de lhe dizer que tinha de cozinhar em maior quantidade.
       Ai, no precisa de me levar  protestou Molly.  J sei o caminho.
          : Est escuro l fora e, com a dificuldade que tem para ver  noite, pode desorientar-se e perder-se. Ela riu-se.
       No vejo assim to mal  noite.
      Sabendo perfeitamente que Molly se sentia pouco  vontade com ele, esteve tentado a deix-la ir sozinha, mas lembrou-se que ela tinha falado em ursos na noite 
anterior. Encontrava-se totalmente fora do seu elemento naquele ambiente rural e no queria que ela se visse s e assustada no meio do escuro. Portanto, saiu da 
cozinha antes dela e encaminhou-se para a porta, detendo-se unicamente para ir buscar o chapu.
       Fico mais descansado se a vir entrar em casa.
      Hank, que se encontrava agachado diante da grande lareira de pedra, levantou os olhos dos jornais amachucados em que estava a mexer e disse:
       Molly,  melhor ir com ele. A semana passada vi pegadas de puma junto ao riacho.  um perigo quando eles se aproximam tanto da casa.
      Molly empalideceu.
       Pegadas de puma? Valha-me Deus!
      Jake desejou que Hank no tivesse aberto a boca. O perigo real de um puma atacar em qualquer ponto do rancho era verdadeiramente nfimo.
       No lhe d ouvidos, Molly. Os pumas raramente se metem com os humanos.
       Bolas. No foi h muito tempo que um puma atacou um mido que se encontrava numa fila, na piscina municipal.
       Isso no foi no Oregon  lembrou Jake ao irmo.
        Como se os pumas distinguissem os estados! E olha aquele, nos arredores de Lakeview, que atacou a carrinha dos correios. Isso foi no Oregon.
       Isso j foi h muito tempo e, pelo que sabemos, no passa de uma lenda. Nunca vi qualquer referncia a tal coisa nos jornais.
      Molly olhou preocupada para Jake.
       Se existe algum perigo, agradeo que no o escondam de mim. Fico um pouco nervosa, mas tomo precaues.
      Jake no a queria aos saltos cada vez que visse uma sombra.
       Os pumas raramente atacam as pessoas.
       A pobre senhora que estava a fazer jogging na Califrnia deve ter pensado o mesmo  intrometeu-se Hank , e a nica coisa que sobrou dela foi o fato de treino.
       Ai que horror  Molly sentiu um calafrio e esfregou os braos com as mos.  Que maneira horrvel de morrer.
       Nem por isso, para dizer a verdade. O puma deve ter-lhe partido a espinha com a fora do impacto.  Hank abanou afirmativamente a cabea, mostrando que percebia 
do assunto.   assim que eles matam. Assim  estalou os dedos.  Conseguiram apanhar o puma. Era uma fmea de apenas quarenta quilos, uma simples fmea com as suas 
crias. Mas o puma que ronda o nosso riacho  um camarada bem grande. V-se pelas suas pegadas.
      Jake lanou, por cima da cabea de Molly, um olhar feroz ao irmo.
       J te divertiste o suficiente, Hank? Assustaste a Molly. A partir de agora vai estar sempre com medo cada vez que puser um p fora de casa.
      Hank olhou maliciosamente para ela.
       Assustei-a, Molly?
        No, nem por isso. Eu apenas...  voltou a esfregar os braos.  Meu Deus! Onde eu vivo no h problemas com pumas.
      Jake no duvidava disso. Tinha a impresso de que ela vinha de Portland e os nicos pumas que se viam nas reas centrais da cidade estavam empalhados.
       Aqui tambm no  respondeu ele.
       No, que no h. E tm vindo a aumentar de ano para ano  assegurou Hank.  A sua populao cresceu demasiado e como esto muito habituados aos humanos tornaram-se 
afoitos.
      Jake era capaz de matar o irmo sem precisar de nenhum puma para isso. Apressou Molly para que ela sasse do salo, deixando Hank a vomitar dados alarmantes 
sobre os pumas.
       Um bom passeio para os dois  gritou Hank, com os olhos a brilhar.
      Assim que saram do alpendre, Molly parou abruptamente e aproximou-se de Jake. A escurido e o ar gelado da noite envolveram-nos. Ele sentiu-a estremecer. 
Ao olhar para ela reparou que examinava minuciosamente as escadas. A desconfiana que sentia em relao a ele parecia ter dado lugar a um medo ainda maior, ou seja, 
dos predadores de dentes aguados.
        verdade que os pumas conseguem saltar de uma altura de dezoito metros?
       medida que falava chegava-se cada vez mais a ele. Jake ps-lhe um brao  volta da cintura.
       No ligue ao que o Hank diz. Tem vinte e nove anos, mas parece ter dezasseis. Contar histrias horripilantes a uma rapariga bonita f-lo sentir-se muito 
homem.
      Ela deu uma risada nervosa.
       No respondeu  minha pergunta. Conseguem mesmo? Jake suspirou.
       Sim. De acordo com as estatsticas que li, conseguem. Mas nunca vi isso com os meus olhos. No nos devemos esquecer que essas estatsticas contm os dados 
mais impressionantes que se registaram at ao momento, por outras palavras, so as proezas dos superpumas. Os desta zona so todos fracotes.
      Uma coruja piou e Molly apanhou um susto de morte. Colou os ombros ao peito de Jake, ficando o mais prximo dele que era possvel sem se meter nas calas de 
ganga Wranglers que ele trazia vestidas. Jake apertou-a com mais fora. Ela contraiu-se ligeiramente, mas no fez o menor esforo para se afastar.
      Ao descerem as escadas em direco ao negrume profundo da noite, Molly esticou o pescoo, tentando ver por entre as sombras. Era to bom t-la aconchegada 
a si, sentir toda aquela suavidade feminina e as suas provocadoras curvas. Sempre que aumentava a presso dos seus dedos sobre ela, notava um estremecimento nos 
msculos laterais da rapariga, vindo-lhe ao esprito imagens do modo como ela estremeceria se lhe tocasse noutros stios.
      Quando ela fez um determinado movimento, um desses stios roou no n do seu polegar. Nunca antes o peso e o calor do seio de uma mulher lhe haviam parecido 
to tentadores. Como ele desejava sentir aquela generosa doura na sua mo, descobrir-lhe a forma, capturar-lhe o mamilo e pux-lo, ouvindo-a suster a respirao.
      Caramba. Ia matar Hank quando voltasse.
      J no namorava h muito tempo. Era esse o problema. Desde que montara o rancho, deixara de ter tempo para a vida social e agora o seu corpo estava a queixar-se. 
Era apenas isso, de certeza. Gostava de mulheres altas com pernas longas e uma silhueta que a sua me comparava s lonecas Barbie, no de mulheres baixas e agradavelmente 
rechonchudas que lhe podiam beijar o umbigo sem necessidade de dobrarem muito os joelhos.
      Mas que imagem to interessante.
      Embora no tivesse qualquer inteno de a pr em prtica, claro.
      Isto no era bom. Molly, com os seus grandes e sensveis olhos castanhos, no era o seu tipo. Ela tinha ancas. E, por outro lado, as mulheres com quem ele 
costumava sair usavam unhas postias, umas garras cor de sangue, compridas e perigosas. Detestava-as, mas isso no tinha impor-ncia.
      Ento, o que  que tinha importncia?
      Com Molly encostada a si daquela forma to tentadora, era-lhe totalmente impossvel saber. Apenas sabia que ela lhe fazia lembrar a me, em certos aspectos. 
Jake gostava da me, como era natural. Era uma das pessoas mais queridas deste mundo e ainda continuava bonita, embora estivesse nos cinquenta e muitos. Mas quando 
se tratava de desejo carnal, fosse o que fosse que recordasse a me devia ser evitado, uma coisa que s os homens conseguiam compreender, pensou ele.
      Mas Molly fazia-lhe indiscutivelmente lembrar Mary Coulter. Ambas possuam olhos grandes e ingnuos e sorrisos capazes de iluminar uma sala. Tambm tinham 
corpos parecidos, tanto uma com a outra eram caixas, curvilneas e fofinhas. Pertenciam a um tipo de mulheres que pareciam ter sido feitas para acariciar crianas.
      As mulheres desse gnero tambm tinham muitos filhos porque os seus maridos no conseguiam resistir  tentao que elas eram.
      Que raio estava ele a pensar?
      De repente, as mulheres de anca estreita, busto generoso e pernas longas j no lhe pareciam to atraentes. Queria-as pequenas, fofinhas ...  melhor parar, 
Jake.
      Com algumas mulheres podia deixar-se levar pelo impulso provocado por uma atraco repentina sem qualquer problema, mas Molly no era uma delas. Quando a olhava 
nos olhos via-lhe o corao, e que magoado e ferido que ele estava! Jamais se perdoaria se a fizesse sofrer e, por outro lado, ele nunca tinha sido um homem que 
permanecesse muito tempo com a mesma mulher. Gostava de pensar que isso se devia ao facto de ainda no ter encontrado a pessoa certa. E se estivesse enganado? E 
se isso significasse que Molly era a mulher certa?
       Obrigada por me acompanhar  ela levantou a cabea, preocupada, ao passarem por baixo de um rvore no limite do ptio , agradeo-lhe imenso.
      Jake sentiu-se tentado a exagerar o perigo dos pumas, mas ele j no era um adolescente cheio de hormonas e h muito tempo que o medo tinha deixado de ser 
uma das suas armas de seduo.
       Molly, nenhum puma a vai atacar por estas bandas. Acha mesmo que eu lhe ia ocultar uma coisa dessas, se houvesse algum perigo?
      Ela fitou-o com os seus grandes e inquietos olhos, que brilhavam ao luar.
       O Hank acha que o perigo  real.
       O Hank  um idiota! Jake fez uma careta.  No  propriamente um idiota. Um oportunista seria uma melhor descrio. Ele exagerou a histria dos pumas porque 
sabia que eu a ia acompanhar a casa. Pensou que me estava a fazer um favor.  Lembrou-se do seu propsito de no lhe fazer demasiados elogios, mas j era tarde. 
 Voc  uma mulher muito bonita e olhe para si agora, colada a mim como uma bola de manteiga num biscoito.
      Molly endireitou-se imediatamente e a preocupao desapareceu dos seus olhos.
       Ento, ele estava a fazer de alcoviteira?
      Jake teve pena que o corpo macio dela deixasse de estar colado ao seu, mas resignou-se a soltar a cintura da rapariga.
        Ele no fez isso por mal.  muito brincalho e no leva nada a srio.
      Molly cruzou os braos.
       O senhor e eu. J viu uma loucura maior! O que havia de to louco nisso?
      Ele podia beij-la loucamente. E o que iria ela dizer, ento?
      Molly apressou o passo, obrigando-o a andar desajeitadamente para a conseguir acompanhar. Mais  frente havia um arbusto que chegava at ao joelho, situado 
no limite da zona irregularmente relvada, e ela ia mesmo direito a ele. Jake segurou-lhe o cotovelo no preciso momento em que a rapariga estava a chocar com o arbusto.
       Arbusto isolado  sua frente  disse ele, obrigando-a contorn-lo.  Como  que se orienta de noite, mida? Os morcegos so cegos, mas tm radar.
       Quem me dera t-lo!  sempre assim escuro no campo?
      Jake passou a segurar-lhe o cotovelo com a mo esquerda, agarrando-lhe a cintura com a direita. Desta vez ela teve um sobressalto, como se ele a tivesse picado 
com um alfinete. Quase a soltou. Era bvio que a rapariga no gostava que lhe tocassem se no estivesse com medo. Pacincia. No queria que ela tropeasse em qualquer 
coisa no meio da escurido e se magoasse, que era provavelmente o que iria suceder se a deixasse solta.
      Ela caminhava tensa e afastada dele, tentando sem xito manter alguma distncia entre os seus corpos. Jake agarrou-a com mais fora e adoptou um andar uniforme, 
medindo as suas passadas para acompanhar os passos mais curtos de Molly. Ela ajustava-se bem a ele, as suas formas generosas e macias amoldavam-se ao seu corpo duro 
e direito. Gostava de a sentir junto a si e, mais uma vez, deu consigo a desejar poder explorar todas aquelas curvas rechonchudas.
      Olhou para o cu e disse:
       J viu isto?
      Era um estratagema antigo, muito usado, mas deu resultado. Ela olhou para cima, exclamou de admirao e baixou as defesas.
        incrvel Nunca tinha reparado que havia tantas estrelas.
       Aqui consegue v-las melhor, sem as luzes da cidade que lhes ofuscam o brilho,  s isso.  Jake no acrescentou que estava muito mais encantado com o brilho 
dos olhos dela.
      Sunset relinchou ao senti-los aproximarem-se, o seu relincho parecia menos aterrorizado do que na vspera, mas ainda no era uma mensagem de boas-vindas.
       Fez-lhe alguma visita hoje?  perguntou Jake. Molly riu-se, o tom era indiscutivelmente nervoso.
        Cumprimentei-o antes e depois de ir s compras, mas no posso dizer que lhe tenha feito uma visita. Foge para o canto oposto quando me aproximo dele e no 
sai de l at me ir embora.
      Empurrando-a levemente com a mo, Jake conduziu-a em direco ao cercado. Sunset relinchou e empinou-se. O luar deslizava pelas zonas brilhantes do seu plo 
negro, onde no tinha feridas, e a brisa levantava-lhe a crina, que cintilava  volta do seu pescoo arqueado como se fosse de prata esmaecida.
       Foi isto que ele fez? Ela abanou a cabea.
       No. Limitou-se a protestar e dar umas voltas. Penso que teve medo que eu entrasse no cercado.
      Jake duvidou que ela houvesse compreendido o significado daquele comportamento. Se o cavalo no relinchou zangado, nem se empinou quando a viu perto dele, 
era muito bom sinal. Depois de ter visto Molly com Bart no se admirava que o garanho confiasse instintivamente nela. Havia pessoas com um dom natural para os animais.
      Jake tambm tinha jeito para lidar com eles. Era um talento que aproveitara muito bem, uma vez que ganhava bom dinheiro a treinar cavalos.
      Sunset ainda lhe era hostil, mas o animal tinha acabado de chegar. Ele era um homem e a recordao das chicotadas ainda estava fresca na mente do cavalo. Jake 
estava absolutamente confiante de que iria fazer progressos dentro de poucos dias. Apenas necessitava de ser persistente e ter pacincia.
      Quando chegaram  vedao, decidiu continuar a envolver Molly com o calor do seu brao. Ela tremia ligeiramente, no sabia se por causa do ar gelado ou do 
contacto dele. Mas no caso de ela ter frio, achou que era prprio de um cavalheiro aquec-la com o seu corpo, j que no se tinha lembrado de trazer um casaco.
      Sorriu para os seus botes. A verdade era que gostava de a ter perto. Sentia-se bem com ela ao lado, mas isso no fazia o menor sentido. Era um homem de uma 
altura imponente. O cimo da cabea dela no lhe chegava aos ombros mesmo com saltos de oito centmetros, mas calada com sapatos de tnis era definitivamente o que 
ele considerava deficiente em altura.
      Nunca tinha visto tantas curvas concentradas num metro e cinquenta e oito.
      Sentia as costelas dela sob a palma da sua mo, o seu generoso revestimento de carne macia e a sua sedosa pele malevel e quente. Pelo que ele podia ver, no 
estava demasiado recheada, tendo apenas o suficiente para a tornar rolia.
      Por que diabo faria ela dieta?
        O que foi?  perguntou subitamente Molly, tentando examinar Sunset no meio da escurido.  Passa-se alguma coisa com ele?
      Ao compreender que se tinha trado, retesando o corpo, Jake decidiu relaxar-se e desviar o pensamento para terrenos menos perigosos.
       Ele est ptimo. Jake olhou para ela.  Consegue v-lo?
        Sim, consigo... mais ou menos. No muito bem, para dizer a verdade.
      Ele curvou-se, com gestos teatrais, para ficar ao nvel dos olhos dela.
       Ser que a luz aqui em baixo  mais fraca?
      Molly riu-se e inclinou ligeiramente a cabea para trs:
        Duvido que aqui em baixo seja pior do que noutro lugar qualquer.
      Jake achou que a vista era muitssimo mais bonita l em baixo. Nunca em toda a sua vida desejara tanto roubar um beijo. Aquela boca, que sem qualquer batom 
era naturalmente rosada e brilhante ao luar, e aquele lbio superior franzido estavam mesmo a pedir-lhe que os saboreasse.
      Se ela fosse outra mulher, Jake teria agido sob o impulso. Aos trinta e dois anos, quase trinta e trs, j tinha passado por aquela situao vezes sem conta 
e, com a maturidade, perdera o receio que anteriormente poderia ter tido em relao ao sexo oposto. Um beijo amigvel no tinha qualquer significado e, se levasse 
a mais qualquer coisa, tambm no costumava significar muito. Estava habituado a sair com mulheres que sabiam com o que contavam. Desde que lhes desse tanto prazer 
como aquele que recebia, no lhes ficava a dever nada, e elas tambm no esperavam mais dele.
      Porm, Molly era diferente. Sentira isso desde a primeira vez que a tinha visto e essa impresso inicial no s se havia mantido como reforado. No se tratava 
de uma rapariguinha inexperiente e tmida. Os seus olhos revelavam uma sabedoria duramente adquirida atravs de experincias amargas. Mas, apesar disso, era vulnervel. 
Quando a beijasse, se alguma vez a beijasse, nada seria fcil.
      Endireitou-se e falou com o garanho. Sunset relinchou e empinou-se, cheio de nervos, ao ouvir o tom forte da voz de Jake.
       Quando  que comea a trabalhar com ele?  perguntou Molly. Jake olhou para ela, duvidando que a rapariga conseguisse ver-lhe claramente o rosto.
       J estou a trabalhar com ele  voltou a pr-lhe o brao por cima, notando que desta vez no estremeceu nem ficou tensa.  Hoje j fui vrias vezes ao cercado, 
sentei-me a um canto e deixei-me l ficar at ele se acalmar.
       Chama a isso trabalhar com ele?
        No pode ser de um dia para o outro, Molly. E chamo mesmo, porque de acordo com o meu mtodo de treino, isso  trabalhar com ele, sendo talvez at a parte 
mais importante. No gosto de impor a minha vontade a um animal. Pode-se fazer, e at  fcil, digo-lhe j. Mas o que  que se ganha com isso? Sunset sabe muito 
bem que se encontra numa posio desvantajosa, que eu posso usar um chicote ou um aziar e fazer o que quiser com ele. Acha que o devo convencer dessa forma?
      A expresso dela suavizou-se ao examinar o cavalo.
       Ento est a tentar que ele se v acostumando lentamente a si.
        isso mesmo. J o aterrorizaram demasiado. Agora vamos andar devagar, um passo de cada vez, at ele no ter tanto medo de mim. Para isso tem de me ver repetidamente. 
Ao rondar o seu cercado, estou a habitu-lo  minha presena. Quando conseguir aproximar-me sem que ele se zangue, ser o momento de passar  fase seguinte.
       E como  essa fase?
      Jake procurou os olhos dela, que brilhavam como se fossem duas doses gmeas de whisky caro iluminadas pelo luar.
        O primeiro passo vai ser aproximar-me ainda mais dele. Quando ele aceitar essa aproximao, chego-me ainda mais perto at se habituar a mim e me deixar 
toc-lo com as mos.
       E depois?
       Trato dele, mesmo que nessa altura as feridas j tenham fechado.
       Porqu?
      Jake ficou um momento a pensar, tentando encontrar as palavras certas para explicar aquilo que para ele era instintivo.
       Porque fechadas ou no, as feridas continuam l.
      Um som quase imperceptvel saiu do fundo da garganta de Molly ao mesmo tempo que dizia que sim com a cabea. A pena que sentia pelo cavalo emanava dela em 
ondas, suscitando em Jake uma melancolia to grande que at chegava a doer-lhe.
        Com uma pessoa conseguimos muitas coisas usando as palavras, mas um cavalo apenas compreende algumas ordens elementares e o tom da nossa voz. Temos de comunicar 
com ele de outra forma, sobretudo atravs de aces. Necessito de dizer ao Sunset que lamento o que lhe aconteceu, que conheo todo o sofrimento por que passou e 
que o quero ajudar.
      As lgrimas cintilavam nos lindos olhos dela.
       Quem me dera tambm lhe poder dizer isso. Jake apertou-a com mais fora.
      J o fez, mida. Ao traz-lo para c, disse-lhe isso. Algures, no meio da confuso que lhe vai na cabea, penso que sabe que foi voc quem o salvou. Quando 
estiver curado no me admirarei nada se confiar mais em si do que noutra pessoa qualquer.
       Por que acha isso?  perguntou ela nervosa, no parecendo satisfeita com essa possibilidade.
      Jake reprimiu um sorriso.
       Disse que ele no relinchou cheio de medo nem fez fitas quando hoje o veio ver? Apenas protestou e deu umas quantas voltas?
       Sim.
       Isso significa que no tem medo de si como tem de mim, e que j comea a confiar instintivamente em si.  provvel que sinta que voc se preocupa com ele. 
Pelo menos,  o que eu penso.
       Acha mesmo isso?
      A expresso do rosto dela revelava uma tal mistura de esperana e pavor que ele teve mesmo de sorrir.
        Sim, acho. Ser depositrio de uma confiana to grande assim  uma coisa muito especial. Espero que compreenda a honra que isso significa e que a use para 
o ajudar de todas as formas que puder.
       Como  que o hei-de ajudar?
       Pode comear passando algum tempo com o Sunset todos os dias. D umas voltas ao cercado onde ele est durante mais ou menos meia hora e fale com ele. O que 
disser tem pouca importncia,  pelo tom de voz que expressa os seus sentimentos. Mostre-lhe que se interessa por ele e que est aqui por sua causa. O Sunset est 
muito assustado neste momento.
        Sim  concordou ela num fio de voz. Endireitou os ombros e olhou para o garanho por entre o negrume da noite.  De certa forma, ele assusta-me.
       De certa forma?  Jake achou que isso era muito pouco.
        Ele  to grande e torna-se to agressivo quando est assustado  acrescentou ela.  No sei se serei a pessoa ideal para o ajudar.
       Isso vai mudar com o tempo. Daqui a pouco j se vai sentir  vontade com ele.
       Ai, no sei. Prefiro v-lo a si a trabalhar com o cavalo.
       E o que  que consegue com isso? Cada vez que aquele chicote o atingiu, o orgulho e a dignidade do animal sofreram um golpe, e essas feridas no se iro 
curar at que isso seja aceite e se faa alguma coisa para mitigar o seu sofrimento. Como treinador posso lev-lo at metade do caminho, mas s algum que o ame 
pode percorrer com ele o resto o percurso.
      Os olhos de Molly tornaram-se de novo brilhantes. Estremeceu, engoliu em seco, desviou o olhar e disse:
       Eu no o amo. No  isso. Apenas tenho pena dele.
      Jake no acreditou absolutamente nada naquelas palavras. O simples facto de ter roubado o garanho para o proteger, significava que a afeio que sentia por 
ele era muito forte e profunda, muito mais do que simples lealdade, mesmo que ainda no se tivesse apercebido disso.
        Vamos ver como as coisas correm. Os cavalos, e muitos outros animais tm a peculiaridade de serem eles a escolher os seus prprios lonos. Compramo-los e 
dizemos que so nossos, mas o corao de uma criatura no pode ser adquirido. O Sunset ir escolher a quem dar o seu amor, e se for a si, voc no poder fazer 
nada quanto a isso.
       Por outras palavras, ele vai ser o meu cavalo quer eu queira quer no?
       Temo que sim.
      Jake examinou o perfil dela, achando que Sunset era capaz de no ser a sua nica conquista. Alguma coisa estava a acontecer dentro de si. Sentia-o sempre que 
olhava para Molly. Tinha a estranha sensao de que isso era absolutamente normal, de que havia estado  espera dela durante toda a sua vida adulta. Era um sentimento 
que se tornava mais forte cada ez que se encontrava com ela.
       Estou to satisfeita por ter trazido o Sunset para aqui.
       E eu por vocs terem vindo  disse ele na sua voz rouca.
       Farei o melhor que puder  prometeu ela com alguma hesitao.
       Embora me faa nervos estar ao p dele, irei tentar.
      Jake no duvidava disso. Coragem era o que no lhe faltava. Alis, at achava que ela no tinha a menor ideia de quanto era forte.
       Vai ser um longo e rduo percurso  avisou ele , mas tudo o que vale a pena  feito com esforo.
       O Sunset vale a pena.  O olhar dela tornou-se distante.  Como eu gostaria que o tivesse visto como ele era antes. Era magnfico  sorriu tristemente.  
Tinha um esprito intrpido, e bastava olhar para ele para se perceber que havia nascido para correr. Deu tudo o que tinha pelo Rodney. Deu-lhe literalmente tudo.
      Rodney. Finalmente o sacana tinha nome.
        to triste ver o Sunset assim  sussurrou ela.  Gostava tanto do Rodney e fez tudo o que pde para lhe agradar, mas nada do que fizesse era suficiente 
para ele.  Pousou os punhos fechados sobre a travessa da vedao.  Quando fazemos tudo o que podemos, quando damos o nosso melhor a algum e nunca  suficiente, 
isso afecta-nos. Afecta-nos no mais profundo de ns prprios e nunca mais voltamos a ser os mesmos.
      Estas palavras tocaram o corao de Jake, que compreendeu que ela no se referia apenas ao cavalo. Havia demasiado sofrimento na sua voz.
       Nada satisfazia o Rodney. Acho que isso quebrou o nimo do Sunset muito antes das chicotadas o terem feito.
      Jake teve vontade de a envolver nos seus braos, de a aconchegar junto a ele. Tinha um ar to triste e parecia to desesperadamente perdida.
      Com as palavras dela ainda a ecoarem na sua cabea, Jake compreendeu que no podia criticar o seu desempenho na cozinha. Tinha feito o melhor que sabia, dado 
tudo que tinha para dar. Seria infame dizer-lhe, mais uma vez, que o seu melhor no tinha sido suficiente.
      Alguns minutos mais tarde, Molly correu o ferrolho da porta da casa de madeira. Do exterior chegava-lhe o som das botas de Jake ao baterem nas tbuas do alpendre 
e nas escadas. Quando o rudo deu lugar ao silncio, virou-se e encostou-se  porta. Estava exausta. Parecia-lhe que uma eternidade tinha passado desde as seis da 
manh e que todos os segundos haviam galopado a grande velocidade.
      Esfregou os olhos e dirigiu-se para a casa de banho para se preparar para dormir, as suas articulaes cansadas protestavam a cada passo que dava. Sob a luz 
forte do candeeiro do tecto, o seu reflexo no espelho tinha um ar plido e extenuado. Evitou olhar para o rosto ao desfazer a trana e comeou a escovar o cabelo 
como fazia ritualmente todas as noites. Que este estivesse brilhante j no a preocupava e h muito que tinha deixado de o usar solto. Era to terrivelmente encaracolado 
e indomvel que lhe tapava a face.
      Quando, no decorrer do seu ritual, escovava pela quinta vez o cabelo, ouviu uma pancada na porta. Pousou a escova e voltou para a pequena sala de estar. Todo 
o dia estivera inquieta com a possibilidade de a polcia a poder encontrar ali, por isso perguntou, cheia de medo:
       Quem ?
       O Jake.
      Aquela voz profunda era inconfundvel. Molly foi a correr abrir o ferrolho, perguntando-se por que diabo teria ele voltado para trs. Ao abrir a porta inquiriu-o 
sobre aquilo que mais a preocupava:
       Aconteceu alguma coisa ao Sunset?
        No, no, ele est ptimo. Eu apenas...  Jake vislumbrou uma silhueta na escurido, atrs da ombreira da porta, ficando calado a contempl-la.
      Mooly examinou a cara dele no escuro, tentando, sem xito, decifrar-lhe a expresso.
       E ento?  insistiu ela.
       Desculpe. Foi o seu cabelo, nunca o tinha visto solto.
      A mo dela voou em direco  nuvem de caracis que se tinha formado por cima do seu ombro direito.
       Agora ficou a perceber porqu.
       Quase no a reconheci.
      Ela puxou para trs uma grossa madeixa de cabelo.
       Talvez porque no me conseguia ver.
       Vejo-a perfeitamente.  Jake encostou um ombro  porta, expondo o rosto  luz do velho candeeiro de p alto que se encontrava junto  janela. Os seus olhos 
azuis percorreram lentamente o cabelo de Molly e, a seguir, pousaram-se na sua face.  Meu Deus! Faz ideia de como  bonita?
      Molly resistiu  vontade de olhar para trs para ver se estava mais algum na sala.
      Jake levantou ligeiramente o chapu sem tirar os olhos do rosto dela.
       Uma vez que sou o seu patro, tinha prometido a mim prprio que no ia falar sobre isso. Mas, caramba, o que  bom  para se ver. Tem um cabelo maravilhoso, 
e esconde-o numa trana? Podia ficar embriagado s de olhar para si.
      Molly soltou uma risada nervosa.
       O seu cabelo  exactamente da cor do whisky escocs  acrescentou Jake, continuando a examin-la , do muito caro.
      Molly afastou o cabelo com a mo. Algumas pessoas tinham ocasionalmente dias em que no faziam nada do cabelo, mas no caso dela tinham sido todos os dias da 
sua vida. Nos primeiros anos do seu casamento, havia cometido o erro de o usar curto, o que a fazia parecer muito gorda, uma espcie de verso feminina do palhao 
Boz. Rodney ameaara divorciar-se se ela voltasse a aproximar-se de um salo de beleza.
      Jake assobiou baixinho.
       Bolas. Eu tenho olhos na cara e vi que voc tinha traos bonitos, mas no imaginava que fosse to bela.
      Molly achou que devia ter adormecido em p e estava a ter um sonho louco.
       Bem... o que  que quer, Senhor Coulter?
       Raios me partam se me consigo lembrar.
      No parecia ter muita pressa em recuperar a memria, uma vez que continuava encostado  ombreira da porta a observ-la.
       Espero que no seja importante  disse ela.
       Claro que , seno eu no tinha feito todo este caminho para voltar aqui  sorriu subitamente e abanou a cabea.  Recomponho-me daqui a um minuto.  Endireitou-se 
e entrou em casa, fechando a porta atrs dele.  Peo desculpa pela minha atitude, mas a sua transformao  tremenda.
      Ela afastou de novo o cabelo.
       Tremenda  a palavra exacta.  escusado dizer que nunca uso cor-de-rosa. Consegue imaginar como eu ficaria de cor-de-rosa?
      Jake esboou um ligeiro sorriso ao mesmo tempo que a percorria lentamente com o olhar.
       Ficaria fantstica. Detesta o seu cabelo, no  verdade?
       Detestar  pouco. Odeio-o.  muito amvel ao dizer que  da cor do whisky, eu sempre o associei a lama avermelhada.
      Ele riu-se ligeiramente.
        Acho que voc  a sua pior inimiga, Stir-Houston, e que no iria acreditar que era bonita, mesmo que fosse coroada Miss Amrica.
        Nunca me ir ver num concurso de fatos de banho. Todos aqueles projectores a incidirem nas minhas coxas brancas? Os juzes ficavam cegos.
      Jake abanou outra vez a cabea e, a seguir, estalou os dedos.
       J me lembro por que  que voltei. Tem algum despertador? Posso emprestar-lhe um dos nossos.
       Eu tenho um.
        Ainda bem.  Enfiou os polegares no cinto sem tirar os olhos de cima dela, como se no conseguisse acreditar na sua transformao.  Bem...  recuou um 
passo em direco  porta.   melhor ir-me embora para a deixar dormir.
        O dia aqui comea cedo. Levantamo-nos com as galinhas, e tudo o resto.
      Logo a seguir foi-se embora e Molly ficou novamente a olhar para a porta fechada. Perplexa, tocou com a mo no cabelo. Depois correu o ferrolho e voltou para 
a casa de banho para terminar a sua higiene nocturna.
      Quando se voltou a ver ao espelho no resistiu a fazer um longo e severo exame a si prpria, uma coisa que raramente sucedera desde o divrcio. Bonita? Deslizou 
a ponta do dedo pelo osso do nariz e, a seguir, contornou a linha do queixo. Era a mesma cara de sempre que olhava para ela.
      Enquanto estudava o seu reflexo, teve a estranha sensao de que no conhecia a mulher que estava  sua frente. Era uma coisa que lhe acontecia com frequncia 
nos ltimos tempos, por isso raramente se detinha a olhar para o espelho.
      As suas feies comearam a perder nitidez, tornando-se menos definidas a cada momento que passava. Olhou e tornou a olhar, sentindo as fontes latejarem ao 
ritmo do seu corao. As madeixas de cabelo, encaracoladas e cor de lama avermelhada, pareciam ondular-se e deslizar como ima cobra  volta do seu rosto, tapando-o 
cada vez mais.
      Chega, Molly.
      Espalmou a mo no espelho, respirando de forma irregular e coberta de suor. Uma voz montona sussurrou dentro da sua cabea: Molly, Molly, o que  feito de 
ti?
      O drama  que ela j no sabia. Jake Coulter havia-lhe chamado bonita. Mentiras, tudo mentiras. Molly Sterling Wells no era bonita. Sabia por experincia 
prpria que era feia, to feia que o marido a achara repugnante e procurara outras mulheres logo no incio do seu casamento.
      Tapou o rosto com as mos, odiando Jake por lhe estar a fazer aquilo, pretenderia ele apenas ser amvel? Ou estaria a divertir-se  sua custa?
      No tinha a menor ideia sobre as intenes dele, mas de uma coisa estava certa: no queria entrar no jogo.
      No lhe foi fcil adormecer naquela noite. Transformou a almofada numa bola e depois esticou-a completamente, sem conseguir arranjar uma forma de ficar confortvel. 
Deu voltas na cama e deitou-se de costas com as pernas e os braos abertos. A seguir, virou-se e revirou-se de novo. Os lenis enrolaram-se-lhe nas pernas, apertando-lhe 
a parte inferior do corpo como uma camisa-de-foras. Detestando aquela sensao, deu pontaps at se libertar deles, acabando a tiritar de frio quando o ar gelado 
a envolveu.
      Por fim caiu no sono e comeou a sonhar, as imagens surgiram-lhe confusas, como se fossem cenas desconexas.
      Era de noite. Rodney, sentado  beira da cama, abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e tirou uma revista. Folheou-a e ficou de olhos vidrados, contemplando fotografias 
de mulheres nuas.
        Para que  que precisas disso?  perguntou Molly, nervosa. Deu uma olhadela s imagens brilhantes da revista. As mulheres eram belas e os seus corpos perfeitos. 
 Eu no chego para ti?
       Preciso de um estmulo visual,  s isso. Um gajo tem de carregar as baterias de alguma forma.  Sem deixar de olhar para as fotografias daquelas mulheres, 
comeou a acariciar-se. Quando ficou suficientemente excitado, apagou a luz e abraou-a.  Abre o roupo e faz-me feliz, querida  sussurrou.  Puxa os mamilos para 
cima com as mos, gosto deles pequeninos, firmes e doces.
      Comeou a chupar-lhe os seios, fazendo sonoros rudos de suco. Molly queria morrer, porque sabia que ele estava a imaginar que ela era outra pessoa. Era 
por isso que tinha fechado a luz, para no ter de a ver. Aquilo nunca mais parava. Cada vez que ele lhos chupava, ela estremecia e tinha vontade de vomitar. Era 
como se a sua pele se estivesse a virar do avesso.
      De repente, ele agarrou-lhe no mamilo com os dentes, mordendo-o com fora suficiente para a magoar e, a seguir, largou-o, como se o sabor dela fosse horrvel.
        como chupar a teta de uma vaca.
      Molly revirou-se na cama. Estava a sonhar. Aquilo no era real. Tinha-se visto livre dele. No era real. Necessitava de acordar. Mas no conseguiu, e o sonho 
mudou.
      Estava a vestir-se para ir para o emprego, Rodney entrou no quarto.
       Se no fizeres qualquer coisa rapidamente, as tuas mamas vo chegar-te aos joelhos. Eu pago a operao. No fales nisso  tua famlia, mas faz a operao. 
No gostas de mim? No me queres agradar?
      No fazia outra coisa a no ser tentar agradar-lhe. Caminhava como ele queria, vestia-se como ele queria, falava como ele queria, ria-se como ele queria, at 
pensava como ele queria, tudo para salvar um casamento que no merecia a pena ser salvo. Ela j no sabia quem era, excepto que era a mulher de Rodney. Mas, agora, 
ele queria que um cirurgio lhe retalhasse o corpo. Que lhe diminuisse os seios, que lhe diminusse a barriga e que lhe fizesse lipoaspirao nas coxas. A lista 
das suas queixas no parava de aumentar. S de pensar na operao, Molly ficava doida. O corpo era a nica coisa que lhe restava, a nica coisa que ainda era sua. 
E, agora, ele tambm queria que ela o modificasse.
      Talvez no fosse bonita. Talvez no fosse desejvel. Talvez fosse simplesmente feia. Mas o corpo era dela, no dele. Se fizesse a operao, ela tornar-se-ia 
propriedade sua. Seria o objecto que Rodney Wells havia criado.
       No vou fazer a operao, Rodney. Os olhos dele chispavam.
       No? Bem, talvez no queira passar o resto da minha vida casado com uma vaca gorda. Amo-te, Molly, mas isto ultrapassa o que se pode pedir a um homem. Podias 
consertar-te. Ao recusares-te ests a mandar-me embora.
      Escolheu deliberadamente um vestido que sabia que ele detestava e ti-rou-o do cabide.
       Ento, o que  que ainda ests a fazer aqui? Vai-te embora, Rodney. Eu j no me importo.
       No ests a falar a srio. Mais nenhum homem te vai querer. E o que  que vai ser de ti?
       Morro como uma mulher feliz. 
      A cena alterou-se.
      Ela estava deitada na cama, doente, horrivelmente doente.
       No quero mais comprimidos, Rodney. Pem-me muito tonta e fazem-me nuseas. Por favor, no me ds mais comprimidos.
      Ele levantou-lhe gentilmente a mo.
       Querida, no sejas difcil. Quero ajudar-te. Engole-os. Que boa menina.
      Agora estava a cair num redemoinho de tons negros e cinzentos. L estava Rodney, ajoelhado no cho ao lado dela, com o rosto desfigurado pela dor.
        Oh, minha querida! Oh, meu Deus! H quanto tempo ests aqui? Molly? Molly, consegues ouvir-me?
      Tentou responder, quis responder, mas a sua lngua parecia ter-se desligado do crebro. Os comprimidos. Eram os comprimidos que lhe estavam a fazer mal. Agora 
tinha a certeza, mas estava demasiado drogada para lho poder dizer.
      Rodney levou-apara a cama. Tinha uma ideia vaga dele a deitar comprimidos na palma da mo. Cerrou os dentes, determinada a no os engolir desta vez. No, no 
e no. Eles  que eram o problema. Como era possvel que ele no visse o que os comprimidos lhe estavam a fazer? Era verdade que a ajudavam a dormir, mas acordava 
cheia de vmitos e no conseguia pensar com clareza.
      As sombras voltaram a rodopiar  sua volta.
      Rodney estava sentado na cama, ao seu lado.
       Querida, tenho aqui uns papis da firma que preciso que tu assines  disse-lhe ao mesmo tempo que a ajudava a endireitar-se. A seguir, colocou-lhe uma caneta 
na mo.  Segura-a, amor. Muito bem.  assim que eu gosto da minha menina.
      Tentou olhar para os documentos, mas tinha a viso to nublada que no foi capaz. Quase no conseguia fixar a cara de Rodney. O pai tinha-a ensinado a nunca 
assinar um papel sem o ler primeiro, mas agora o pai estava morto e ela tinha herdado a metade da firma que era dele. Tinha de ser responsvel, uma boa mulher de 
negcios, como ele a havia treinado para ser. Conseguia lembrar-se de ter dito isso a Rodney, No tinha a certeza quando, mas recordava-se perfeitamente de o ter 
feito. Ento, porque  que ele insistia em trazer-lhe os papis para assinar?
       Assina esta maldita coisa  gritou ele furioso.  Sou o teu marido, raios te partam. Estou farto deste disparate. Assina a merda dos papis!
      Molly pensou que ele lhe ia bater. Em dez anos de casamento, nunca lhe havia levantado a mo. Mas agora estava ali diante dela com o punho erguido. Tentou 
desesperadamente concentrar a ateno em Rodney, mas via dois em vez de um, e at trs. Qual daqueles punhos a iria atingir? Enquanto olhava para ele, lutando para 
aclarar a viso, compreendeu que no conhecia o marido. A capa de bondade tinha desaparecido, revelando o monstro que estava por baixo dela.
       Se no confias no teu prprio marido, em quem  que vais confiar? perguntou-lhe, enfurecido.
      O medo fez com que o sangue de Molly se lhe gelasse nas veias. No podia confiarem ningum, absolutamente em ningum. Apercebia-se agora disso.
      Agora, quando j era demasiado tarde.
      
      
    Captulo 10
      
      
      
      Jake Coulter no era um homem fcil de evitar. Na manh seguinte, depois de se despachar dos pequenos-almoos, Molly foi  sala das mquinas para aprender 
a utilizar o separador de leite. Ainda mal tinha olhado para ele quando ouviu ranger uma tbua do cho, atrs dela. Virou-se e viu o seu novo patro junto  porta. 
A roupa que ele trazia, e que Molly j considerava ser o uniforme do rancho, camisa de algodo azul e calas de ganga azuis desbotadas, tornavam-no terrivelmente 
atraente, uma vez que o tom azul deslavado lhe realava a pele queimada pelo sol e os robustos ombros.
       Necessita de ajuda?  perguntou ele pachorrentamente.
      O tom profundo da sua voz bastava para pr os nervos de Molly em franja.
       Acho que consigo descobrir como funciona. Ele chegou-se ao p dela.
        Deite o leite no reservatrio e, a seguir, s precisa de rodar o interruptor. A mquina faz tudo sozinha: filtra o leite separado para aquele reservatrio 
e canaliza as natas para aqui.  muito mais fcil do que estar a desnatar com uma colher grande.
       Parece-me muito simples  respondeu Molly, levantando o balde de vinte litros cheio de leite. Este era mais pesado do que ela esperava.  Meu Deus! Coitadas 
das pobres das vacas que tm de carregar com isto.
      Jake riu-se e ajudou-a a segurar o balde.
       J pensei o mesmo vrias vezes.
      Perfeitamente consciente da proximidade dele e do facto da sua mo esquerda roar nela, Molly concentrou-se em deitar o leite no reservatrio para poder sair 
dali. Depois, colocou o balde vazio na pia muito grande da sala das mquinas para o lavar mais tarde.
        Obrigada por me ter ensinado a mexer nesta coisa. Sei que tem muito que fazer.
       No se preocupe, vou tambm mostrar-lhe como funciona a batedeira.  uma pena ter de deitar fora as natas. Nos ltimos dias no tive tempo para fazer manteiga.
       Tem a certeza que tem tempo agora? Eu acho com toda a franqueza que consigo desenvencilhar-me sozinha.
       No merece a pena se posso ensinar-lhe a mexer nisso em apenas dois minutos.
      Os dois minutos j iam numa hora e Jake ainda estava a ajudar Molly a lavar e esterilizar o equipamento. Falara praticamente sem parar durante todo o tempo 
em que trabalharam, revelando um talento extraordinrio para o monlogo. Ela atribuiu isso ao facto de ele trabalhar tantas horas sozinho. Os animais eram a nica 
companhia de muitos rancheiros durante a maior parte do dia.
       Como  que aprendeu a separar leite e fazer manteiga?  perguntou ela.
       Eu criei-me aqui. No nesta casa, claro. A casa da minha famlia ardeu por completo h cinco anos, por isso tive de a reconstruir. Mas o isolamento  o mesmo. 
Imagine o que era ter de conduzir at  cidade para que nunca faltasse leite no frigorfico para seis crianas. Os meus pais compraram uma vaca leiteira e o resto 
veio atrs.
       Pensei...  Molly olhou pensativa para a floresta que bordejava o ptio atravs da janela, situada por cima da pia.  Pensei que estava a comear a vida 
neste rancho. Disse-me alguma coisa acerca de o ter recuperado, mas achei que tinha compreendido mal.
       No compreendeu mal. O meu pai faliu e perdeu o Lazy J h cerca de nove anos. O homem que o comprou no fez nenhum seguro para as moradias e quando a casa 
ardeu, no teve dinheiro para a reconstruir. Os cincos membros da sua famlia tiveram de ir morar para a casa de madeira. O preo da carne tambm se afundou por 
essa altura e ele nunca conseguiu recuperar financeiramente. Quando no Vero passado lhe fiz uma proposta, aproveitou-a com ambas as mos.
      Os olhos de Jake tornavam-se mais escuros  medida que falava, reve-lando-lhe muito mais do que ele pensava, revelando-lhe que amava este pedao de terra. 
Era mais do que um rancho para ele, era a sua herana. Molly deu uma olhadela s rvores, incapaz de imaginar a histria que cada pedao de relva encerrava aos olhos 
de Jake.
       Brincou naquele ptio em criana? Ele fez um largo sorriso.
       Eu nasci aqui, portanto era nele que eu brincava. Molly olhou-o com ar inquiridor.
       Nasceu aqui. Os seus pais viviam aqui nessa altura,  isso que quer dizer?
       No, quero dizer que nasci mesmo aqui. O meu pai estava l fora a tratar do gado, e no o avisaram de que a minha me tinha entrado em trabalho de parto 
a tempo de a poder levar para a cidade. Teve de ser ele a fazer o parto.
      Molly levou a mo  cintura.
       Ai, meu Deus!
      Ele encolheu os ombros.
       O meu trisav iniciou o rancho e quatro geraes de Coulters, incluindo a minha, nasceram nesta terra. Aps sobreviver ao meu nascimento a minha me decidiu 
que os hospitais eram desnecessrios e teve os cinco filhos seguintes com a ajuda do meu pai e de uma parteira.
      Molly no podia imaginar que algum quisesse dar  luz em casa, embora nunca tivesse tido a oportunidade de fazer essa escolha. Rodney havia-lhe prometido 
filhos mas, como era habitual nele, nunca cumpriu a sua palavra. Como era filha nica, sempre desejara ter uma grande famlia. Resignar-se a no ter um nico filho, 
para j no falar de meia dzia, tinha sido uma das maiores mgoas da sua vida, to grande como a dor causada pela morte do pai.
       O que foi?  perguntou Jake suavemente.
      Ao compreender que a sua expresso se tinha tornado triste, Molly esboou um sorriso forado e abanou a cabea:
       No foi nada.
      Ele estudou-lhe o olhar durante um longo momento e, a seguir, pousou os olhos na loua que estava a lavar.
       H-de t-los. Ainda  nova.
      Molly ficou boquiaberta. No podia acreditar que ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Jake lanou-lhe um olhar divertido.
        Uma alma gmea sabe reconhecer outra  foi a explicao que lhe deu.  Eu tambm quero ter filhos. Como sou o mais velho de seis irmos, sempre desejei 
ter uma famlia numerosa, e ainda por cima ns os rapazes tnhamos idades to prximas uns dos outros que a nossa me mal teve tempo para respirar entre cada um. 
 Uma expresso sonhadora surgiu-lhe nos olhos.  A minha irm teve uma criana na semana passada. Um rapazinho. No tenho palavras para descrever o que senti a 
primeira vez que lhe peguei ao colo. Fez-me tanto desejar ter tambm um, que quase me vieram as lgrimas aos olhos.
       O senhor?  perguntou ela incrdula.
      Jake atirou para trs a cabea e riu-se. Quando o ataque de riso lhe passou, disse:
       Sim, eu. Por que  que isso a surpreende tanto? No acha que a maioria das pessoas quer ter filhos algum dia?
       A maioria dos homens no. Na realidade no querem. Penso que apenas dizem isso porque  o que as mulheres gostam de ouvir.
      Esta resposta f-lo desatar outra vez a rir.
       No estou a armar aos cucos. Apenas digo que devo ser uma excepo. Quero ter filhos, e no imagina quanto.
      Era uma expresso sua conhecida. Sentindo-se subitamente nervosa, foi montar a batedeira para estar ocupada. As peas eram um autntico puzzle e Jake, ao v-la 
confusa, veio ajud-la. Com um aperto na garganta causado por emoes que no conseguia nem queria definir, Molly olhou fixamente para o antebrao dele, observando 
como o seu tendo se mexia cada vez que dobrava o pulso, fascinada pela forma como a luz se reflectia na penugem negra que cobria a pele hmida e bronzeada dele.
       Est a ver?  perguntou Jake suavemente, depois de montar a batedeira.  Quando tudo parece irremediavelmente embrulhado, acontece qualquer coisa e as peas 
encaixam-se  piscou-lhe o olho.  Depois de um divrcio, muitas pessoas sentem-se derrotadas e sem futuro, Molly.  natural, mas com o tempo isso passa.  Tocou 
com a ponta de um dedo molhado na ponta do nariz dela.  Quando menos esperar, vai aparecer-lhe algum. E, assim que ele pousar os olhos em si, vai ficar totalmente 
perdido.
      Molly j no acreditava no amor para toda a vida. Sentindo impresses em stios cuja existncia ignorara durante anos, olhou para o seu rosto moreno louca 
de desejo.
      O timbre veemente da sua voz inundava-a de calor e essa reaco causava-lhe um susto de morte.
      Baixou a cabea para evitar os olhos dele, conseguindo arranjar foras para dizer numa voz animada:
       Bem, isto est pronto. Acho que o melhor  voltar para o trabalho. Ainda no arranjei tempo para elaborar uma lista das coisas que tenho para fazer, mas 
penso que vai ficar maior do que eu quando a acabar.
       Desculpe-me pelo que lhe vou dizer, mas isso no  muito difcil.
        feio troar dos defeitos dos outros.
       A falta de altura numa mulher no  um defeito. Muitos homens acham que isso  atraente. Eu sou um deles.
      Jake levantou a tampa da pia. A gua fez um rudo gorgolejante ao sair em espiral pelo cano abaixo. Molly esforou-se para se concentrar nesse barulho. Era 
real. Jake Coulter no. Era apenas um desejo do seu tonto corao de mulher que jamais se poderia concretizar.
       Antes de comear as limpezas, temos de falar sobre os almoos.  Ele conduziu-a at  despensa, parando  porta para que ela entrasse primeiro. Apontou para 
as pequenas caixas trmicas que estavam nas prateleiras de cima e disse:  Num rancho nem sempre  possvel virmos almoar a uma determinada hora. Portanto,  mais 
prtico levarmos o almoo numa caixa trmica e com-lo no campo ou em qualquer outro lugar onde estivermos. Temos pequenos pacotes de gelo azul no congelador. Mantm 
a comida fresca mesmo num dia quente. Sei que vai ser uma maada, fazer o pequeno-almoo e o almoo to cedo, mas por outro lado, tambm a deixa livre durante o 
resto do dia para fazer tarefas domsticas, e ainda algum trabalho extra l fora.
       Ah! Eu fartei-me de pensar para que serviriam aquelas caixas trmicas. Achei que algum aqui no rancho tinha aces na Coleman.
      Jake riu-se.
        So almoadeiras muito prticas. Podemos coloc-las na caixa de uma camioneta ou at-las a um cavalo, e no nos preocuparmos mais com elas.
      Isso explicava a razo por que todas as caixas trmicas estavam to sujas de terra. Molly decidiu esfreg-las com um produto abrasivo e fazer o que pudesse 
para as manter limpas a partir de agora.
       O que  que pretendem para o almoo?
        Sanduches, batatas fritas, aperitivos, bolos. Nada de especial. Tenha apenas o cuidado de dar muita comida a cada um dos homens. Eles matam-se a trabalhar.
      Molly anotou mentalmente que tinha de pr duas sanduches em cada caixa trmica. Pensando que a conversa com Jake estava terminada, encaminhou-se para a porta, 
mas ele bloqueou-lhe o caminho com toda a sua corpulncia, inclinando-se ligeiramente para ela ao mesmo tempo que apoiava uma das suas mos sobre uma prateleira 
adjacente. Teve a sensao de que as paredes de madeira se aproximavam dela e o ar se tornava difcil de respirar.
       H mais alguma coisa que me queira dizer?  perguntou ela. Os perturbadores olhos azuis dele pousaram-se no seu cabelo.
       Est outra vez de trana.
       Sim. H algum mal nisso?
       No.  um estilo adequado e higinico para a cozinha  disse Jake com um brilho malicioso nos olhos , mas quando no est a cozinhar, detesto v-la esconder 
uma coisa to bonita.  Esticou o brao por cima dos ombros dela para agarrar a trana e puxou-a para a frente, fazendo deslizar os seus fortes dedos at  sua ponta, 
que batia precisamente no seio de Molly. Esboou um sorriso ao mesmo tempo que movia o polegar para cima e para baixo sobre o elstico da trana.  No consigo deixar 
de pensar em si com ele solto.
      O roar dos ns dos dedos dele sobre o bico do seu mamilo f-la contrair-se. Embora no estivesse certa de que o contacto era intencional, afastou-lhe a mo 
e agarrou ela prpria a trana.
       O cabelo solto na cozinha  anti-higinico  disse Molly.
      Ele encolheu os ombros e contornou-lhe levemente o queixo com a ponta do dedo.
       Talvez, mas iria ser fantstico olhar para si.
      Sem lhe dar tempo a encontrar uma resposta, Jake virou-se e saiu da despensa. Molly ficou a olhar para onde ele tinha estado, ainda com a trana na mo. Quando 
teve a certeza de que se havia ido embora levou a mo ao queixo, sentindo-se estranhamente tonta. Era uma sensao semelhante  que tinha em criana depois de andar 
de carrossel. Iria ser fantstico olhar para ela? Por um lado, tinha vontade de se rir, mas por outro, como ela desejava acreditar nele.
      
      Jake. Nos dias que se seguiram, Molly tinha a impresso de que o ia encontrar a cada esquina. Ao entrar de manh na casa principal, ele j estava  sua espera 
na cozinha e insistia em tomarem juntos uma chvena de caf antes de comearem as respectivas terefas.
      Durante estes encontros improvisados, bombardeava-a com perguntas amigveis numa bvia tentativa de a conhecer melhor. Dado que se mantinha fiel  sua palavra 
e no a pressionava com nenhuma questo sobre o seu passado, Molly no se importava. Vistas bem as coisas, trabalhava na casa dele e era compreensvel que quisesse 
saber o mximo que pudesse sobre ela.
       Gosta de algum desporto?  perguntou-lhe uma manh.
        Gostava de golfe e jogava quase todos os sbados com o meu pai  respondeu ela imediatamente.  Nunca fui muito boa,  verdade, mas divertamo-nos muito.
       No tem mal nenhum ser-se um jogador mdio, se o jogo nos der prazer.
      Ser um jogador mdio no era suficiente para Rodney. O golfe era um jogo de gente rica, pensava ele, e a habilidade de cada pessoa reflectia a sua origem social. 
Os desempenhos modestos dela constituam um embarao para ele.
       Bem, acho que a paixo no era assim muito grande. Com a idade perdi o interesse e deixei de jogar.
       Com a idade? Depois de se casar, quer voc dizer?
      Uma sensao gelada de vazio apoderou-se do corao de Molly.
       Sim, depois de me casar. Noutra manh, Jake perguntou-lhe:
       Ento, Molly, diga-me uma coisa, qual  a sua estao do ano preferida?
       Tenho de dizer que  o Outono.
       Ah!  Ele sorriu e acenou afirmativamente com a cabea.   uma estao extraordinria. 
        Adorava as cores brilhantes das encostas e a frescura cortante do ar.  Ela sentiu-se um pouco envergonhada, mas acrescentou:  No entanto, era das festas 
que eu mais gostava, quero dizer, dos preparativos, dos encontros, de fazer todas as decoraes.
      Jake sorriu, dando a entender que estava de acordo com ela.
       Qual  o perodo festivo de que mais gosta?
       Hum..., essa  difcil. Gostava muito do Halloween e do Thanksgiving, mas acho que o Natal era sempre especial.
       Aqui h sempre neve no Natal. Nada  mais bonito do que as luzes de Natal reflectidas nos montculos de neve acumulados pelo vento.
      Na mente de Molly surgiu uma imagem da casa dele brilhando alegremente, tanto por dentro como por fora, com as luzes de Natal. No centro via-se Jake, agachado 
junto a um gigantesco pinheiro, com um menino de cabelo escuro a seu lado. Nesse momento, foi-lhe muito fcil imaginar-se a si prpria no aconchego daquele lar, 
mas abandonou imediatamente essa ideia.
      
      Numa outra manh, encontrou-o sentado  mesa da cozinha a ler um romance.
       O livro  bom?  perguntou Molly enquanto despia a parka verde.
      Jake interrompeu a leitura.
        policial, mas nada de extraordinrio. O enredo  bastante fraco.
       Ah!  f de romances policiais? Ele disse que sim com a cabea.
       Gosta de ler?  perguntou-lhe ele.
        Costumava estar sempre com a cabea enfiada num livro  respondeu.
      Ele sorriu.
       Qual  o seu gnero preferido?
      Molly ruborizou-se. Pendurou o casaco numa cavilha e foi para a cozinha.
       Quando era nova, era doida por histrias de amor.
       Ah!  Um brilho malicioso surgiu-lhe nos olhos.  Foram as histrias de amor que nos trouxeram a todos a este mundo. Por que  que deixou de ler?
      Ela franziu o nariz.
       Rodney achava que os romances que eu lia me criavam expectativas irrealistas sobre a nossa relao.
      Os olhos dele tornaram-se ainda mais maliciosos:
       Parece-me que o bom do Rodney tinha medo de no estar  altura. Isso era um eufemismo. Sentindo-se pouco  vontade com o rumo da conversa, Molly comeou 
imediatamente a fazer os preparativos do pequeno-almoo, esquecendo-se de tomar caf com ele. Assim que comeou a pelar as mas para a salada de frutas que servia 
sem falta todas as manhs, Jake foi encostar-se ao louceiro.
       Posso fazer-lhe uma pergunta?
      Molly j estava habituada a este jogo de perguntas e respostas.
       Claro. Avance.
       Por que  que se refere a si prpria no passado?
      Ela ficou a olhar para ele, perplexa, sentindo uma impresso fria e horrorosa, como se tivesse uma garra a apertar-lhe o peito. A cozinha tornou-se artificialmente 
luminosa, as luzes do tecto encandearam-na e as aplicaes cromadas dos aparelhos adquiriram um brilho ofuscante.
      A voz dele soou-lhe muito longnqua quando acrescentou:
       Gosto de a ouvir falar das coisas que lhe agradavam no passado, no me leve a mal, mas tambm gostava de saber como voc  agora.
       Como eu sou agora?  repetiu ela, estupidamente.
       Sim, agora. Sei que adorava ler e que gostava de jogar golfe. Mas, quais so as coisas que lhe interessam agora?
       Sou a mesma pessoa. No mudei.
       H quanto tempo  que no l uma histria de amor?  perguntou Jake suavemente.
      Tinha sido h nove anos, mas Molly recusava-se a admiti-lo.
       H bastante  acabou por dizer.
       Quando foi a ltima vez que jogou golfe? Encolheu os ombros  guisa de resposta.
      A expresso de Jake revelava preocupao.
       Quantos anos durou o seu casamento, Molly?
      Uma dor lancinante oprimiu-lhe a cabea, e a sensao gelada que tinha no corao alastrou a todo o corpo. Onde  que tu ests, Molly? O que  feito de ti? 
Aquela vozinha assustadora que troara tantas vezes dela quando se olhava ao espelho, no se calava dentro da sua cabea enquanto fitava os olhos de Jake Coulter. 
Vislumbrou os seus antigos sonhos j mortos naquelas profundezas azuis e teve vontade de fugir dele. Mas no podia. O rancho de Jake tinha-se tornado no seu nico 
santurio.
       Por que  que me faz essas perguntas? Ele procurou-lhe o olhar.
       Porque a quero conhecer melhor.  Jake cruzou os braos frouxamente sobre o peito.  No como era, mas como  agora.
      Ela abanou a cabea.
       Isso  um disparate  disse numa voz que at a ela lhe soava falsa.  Eu sou a mesma pessoa.
       ?  Jake deixou a pergunta pairar no ar durante um momento e, a seguir, sussurrou:  Molly  pronunciou o nome dela suavemente e inclinou-se para lhe segurar 
no queixo com a mo. Abalada pela confuso de pensamentos que a invadiam, olhou para ele, sentindo-se cada vez mais assustada, incapaz de afastar a impresso de 
que ele estava a abrir portas no seu esprito que ela provavelmente nunca mais poderia fechar.
       Desculpe, mida  disse ele numa voz rouca , no tive inteno de a perturbar.
      Como poderia Jake no a perturbar ao fazer-lhe aquelas perguntas to inquietantes? Quem s tu, Molly? Ela j no sabia. Era como se alguma coisa dentro de 
si, alguma coisa muito vital, tivesse sido obliterada. Dias antes, ele tinha-lhe dito que toda a gente se sentia assim aps um divrcio e que ela iria ultrapassar 
isso com o tempo. No entanto, no estava de acordo. Dentro dela no havia feridas a sangrar que necessitassem de ser curadas. Apenas existia vazio, um vazio horrvel.
      Jake afagou-lhe a face com o polegar.
       Desculpe  sussurrou.  Esquea o que eu disse. Endireitou-se e olhou para o relgio:
       Tenho de me pr a andar. As vacas no se ordenham a elas prprias.
      Ao ouvir o bater dos taces das botas dele no cho de carvalho, Molly deixou a ma parcialmente pelada deslizar-lhe pelos dedos entorpecidos. A ma caiu 
na saladeira, fazendo um pequeno rudo seco, e rolou para o lado. Durante o tempo em que estivera com ela no mo, a sua polpa madura j tinha comeado a escurecer 
em certas zonas. Racionalmente sabia que a descolorao se devia a algum tipo de reaco qumica que se dava quando a frutose estava exposta ao ar. Mas, emocionalmente, 
associou-a s primeiras fases da decomposio. Se permanecesse exposta durante demasiado tempo, tudo o que possua de bom, de doce e de sadio iria apodercer.
      Jake parou junto  porta de trs para ligar o rdio, escolhendo uma estao que dava canes antigas. Deu-se a casualidade de naquela manh estarem a passar 
por ordem decrescente os maiores xitos dos anos oitenta. A primeira cano, que Molly j quase tinha esquecido, havia sido precisamente uma das suas preferidas 
no tempo em que andava no liceu.
      Quando ouviu Jake sair e fechar a porta, ficou a olhar para o vazio, paralisada e lavada em lgrimas. H oito anos que no escutava aquela cano.
      Nessa tarde, quando foi cumprir a sua hora obrigatria com Sunset, Molly viu Jake a brincar com um cavalo beb na zona de pasto adjacente. Tinha notado, desde 
que estava no rancho, que ele raramente trabalhava com o gado, preferindo dedicar a maior parte do seu tempo ao programa de treino dos cavalos.
      Esboou um sorriso ao v-lo roar uma manta de sela pelo corpo do jovem animal. A maioria das pessoas ro-la-iam umas quantas vezes e pronto. Jake no. Repetiu 
o processo vezes sem conta, agitando ocasionalmente a manta perto do focinho do potro, o que assustava o pequenote.
      Cerca de quinze minutos mais tarde, ele saltou a vedao de travessas e dirigiu-se a ela, trazendo a grossa manta de l ao ombro presa por um polegar.
       O que  que esteve a fazer?
      Ele riu-se de orelha a orelha. Mesmo quela distncia os seus olhos eram de um azul ardente.
       O que viu foi o exerccio 101, roar com a manta. Ela riu-se.
       Estou a ver.
      Jake aproximou-se cada vez mais, dando longas passadas com aquele seu jeito pachorrento de andar, e disse:
        Um homem atrs de si com uma manta pode ter intenes sinistras.
      Molly no tinha dvidas que sim, sobretudo se esse homem se movesse to rapidamente como Jake Coulter. Dirigiu novamente o olhar para O potro, que agora brincava 
na relva, encantado por se ver novamente livre.
       Ento, est a ensinar o rapazinho a no ter medo?
         isso mesmo.  Juntou-se a ela na vedao e tirou o chapu. O seu cabelo escuro estava amachucado no stio onde o chapu lhe apertava a cabea. Passou 
os seus fortes dedos pela cabeleira e recolocou o chapu na cabea.
        Todas as criaturas tm instintivamente medo de alguma coisa.  Jake olhou pensativo para ela.  A nica forma de vencer o medo  enfrent-lo uma e outra 
vez at conseguirmos olhar sem temor para o que antes nos assustava.
      Molly evitou olhar para ele. Embora j o conhecesse melhor, continuava a achar que ele entrevia nos seus olhos mais do que ela lhe queria mostrar.
        uma forma de ver interessante.
       E correcta  acrescentou Jake.
      Ela mordiscou a parte interior do lbio e disse:
       O medo nem sempre  infundado. Por vezes, aquilo que receamos poder fazer-nos mesmo muito mal se no o evitarmos.  Arrependeu-se imediatamente do que tinha 
dito. E ainda mais arrependida ficou quando olhou para ele e descobriu que a examinava com a testa franzida.
       Por vezes  disse ele suavemente , no h a menor razo para ter medo. Se temer uma coisa e no a enfrentar, nem que seja uma s vez, como poder saber 
se o seu temor  verdadeiro ou imaginrio?
      Moly endireitou-se, deixando de estar apoiada na vedao.
       Boa pergunta  disse ela, cruzando os braos sob o peito e olhando fixamente para Sunset. A seguir, na esperana de mudar o tema da conversa, disse:  Est 
mais  vontade connosco. J reparou?
      Com um leve sorriso nos seus grossos lbios, Jake aproximou-se dela para contemplar o garanho.
       Ainda fica nervoso quando entro no cercado. O perodo de namoro vai levar mais algum tempo.
       O perodo de namoro?  assim que lhe chama?
      Os olhos brilhantes dele encontraram e prenderam os dela.
        Um passo em frente e outro atrs. A maior parte do treino dos cavalos  uma espcie de namoro, em que se vai lentamente perdendo a timidez e o medo at 
se construir uma relao de confiana. O Sunset teria preferido no entrar no jogo, mas est encurralado e no tem outra soluo. Com o tempo vai descobrir que sou 
mais teimoso do que ele e acabar por aceitar o inevitvel.
      Molly tambm se sentia encurralada e tinha muitas vezes a impresso de que ele estava a jogar o mesmo jogo com ela. Um passo em frente e outro atrs. Mas com 
que finalidade? Era um homem bonito e viril que podia escolher as mulheres que quisesse. O que o levaria a perder o seu empo com algum como ela?
      Teve vontade de lhe dizer que a sua situao era muito diferente da de Sunset, que podia ir-se embora a qualquer momento, mas ao mesmo tempo que isso lhe passava 
pela cabea viu que no era verdade. Estava ali presa, por agora, bem agarrada pelas algemas de veludo de uma segurana que no encontraria em nenhum outro lugar.
      Deu uma olhadela ao relgio.
       Meu Deus, no dei pelo tempo passar. Tenho de ir fazer o jantar.
       E eu tenho ainda dois cavalos para examinar antes de dar o dia por terminado.
      Enquanto se dirigia para casa, Molly sentia o calor dos olhos dele sobre ela. As costas ardiam-lhe, o traseiro ardia-lhe. Apetecia-lhe voltar-se e dizer-lhe 
que deixasse de olhar para ela. Mas em vez disso, apressou o passo, ansiosa por entrar em casa. Ao chegar  porta, olhou rispidamente por cima do ombro, mas o destinatrio 
da sua crtica havia desaparecido.
      Ele no a tinha estado a observar. Era tudo imaginao sua.
      Entrou lentamente em casa, pensando se tudo o resto tambm era fruto da sua imaginao. Talvez estivesse a fazer uma tempestade num copo de gua, vendo segundas 
intenes em coisas que ele dizia e fazia sem reparar.
      Era apenas isso, concluiu com algum alvio. No podia ser outra coisa. Jake Coulter estava to longe daquilo a que podia aspirar que era ridculo pensar que 
ele olhasse sequer duas vezes para ela, quanto mais conceber esquemas para a seduzir.
      
      
       noite, quando Molly acabava o trabalho, Jake levava-a sempre a casa. Desta vez decidira andar bem depressa. Embora pudesse ser unicamente fruto da sua imaginao, 
o comportamento do homem deixava-a nervosa. O seu olhar to penetrante parecia ver demasiado. Ela tinha segredos que no podia revelar. Precisava de ter cuidado 
e o melhor que linha a fazer era manter distncia.
      Para sua infelicidade, ele fez um desvio pelo riacho em vez de a conduzir directamente a casa.
       Para onde  que vamos?  perguntou ela.
      Jake sorriu, o brilho dos seus dentes ao luar era de um branco-azu-lado.
        Achei que seria bom darmos um pequeno passeio para descontrair.
      Era a ltima coisa que ela queria fazer, mas a fora com que Jake lhe segurava o brao no admitia discusso.
       Espero que no v para muito longe. Esta noite estou cansada.
       Vai descansar melhor depois de uma boa dose de ar fresco.
      Ao chegarem ao riacho, Molly ficou to encantada com aquela beleza tenebrosa que se esqueceu dos seus receios. Uma brisa murmurava nos altos pinheiros um som 
melodioso e surrealista. Raios de luar cobertos de neblina cintilavam entre os ramos oscilantes e faziam a gua parecer prata derretida que se derramava sobre as 
rochas. Perto deles, algumas rs, assustadas com a sua presena, calaram-se, mas outras, mais abaixo, erguiam as suas vozes numa formidvel cacofonia.
       O que  que acha do coaxar das rs?
      Molly reprimiu um sorriso, surpreendida pela forma como este homem conseguia to facilmente derrubar as suas defesas. Viera to determinada a no falar com 
ele naquela noite, e ali estava ela quase a iniciar uma conversa sobre rs, imagine-se!
       No fao a menor ideia. Talvez estejam a conversar umas com as outras.
      Ele ps-se  escuta.
       Acha que as que tm vozes estridentes so meninas? Molly inclinou a cabea para ouvir melhor, tentando no se rir.
       Talvez.
        Ser que os rapazes esto a sussurrar palavrinhas amorosas aos ouvidos delas e  assim que uma menina r se ri?
      Ela desmanchou-se. No se conseguiu aguentar.
        Palavrinhas amorosas? Este coaxar no me parece muito romntico.
       Talvez tudo dependa de quem est a falar e de quem est a ouvir. Molly suspirou e apertou melhor a parka. Ele olhou para ela:
       Tem frio, mida?
       Um pouco. Deixou-a espantada ao pr-lhe um brao  volta da cintura.
       Tenho muito calor para dar. E foi o que ele fez. O calor que irradiava do seu possante corpo envolveu-a. A pulsao de Molly acelerou-se. Por mais que tentasse, 
no conseguia sentir-se descontrada ao p dele. Jake era demasiado... tudo... demasiado grande, forte, belo, encantador. Desde o primeiro dia que despertara a sua 
imaginao e a fizera desejar coisas que no tinha nada que desejar.
       Em que est a pensar?  perguntou ele.
       Para dizer a verdade, em nada.
      Ele virou-se para ela, os seus olhos brilhavam  luz da lua.
       Em nada, Molly? Ou no me quer contar nada?
      Ela afastou-se dele e tapou a boca com a mo, fingindo bocejar.
        Desculpe. Estou mais exausta do que pensava. Podemos ir para casa agora?
      Jake sorriu ligeiramente, o seu ar indulgente mostrava que tinha adivinhado os pensamentos de Molly.
        Claro  segurou-lhe no brao, ajudando-a a subir a margem do riacho  Tenha cuidado ao passar por esses rochedos.
      Quando Molly ia dizer que os via muito bem, prendeu-se-lhe um p e tropeou. Ele impediu-a de cair, segurando-a com uma das mos  volta da cintura e a outra 
espalmada no estmago dela. Com um n na garganta que no a deixava respirar, Molly levantou a cabea e olhou para ele. Jake retirou lentamente o brao com que lhe 
segurava a cintura, mas a sombra do seu chapu impedia-a de lhe ver a expresso.
      Embora perturbada pelo contacto das mos dele, que haviam estado perigosamente perto da parte inferior do seu peito, ela recuperou a compostura e voltou a 
andar, muito atenta ao modo como ele lhe segurava o brao. Caminhava to depressa que a sua anca roava de vez em quando na coxa dele.
       Vai apagar algum fogo?  perguntou Jake.
      Chegaram nesse preciso momento ao alpendre da casa de madeira e ela no precisou de lhe responder. Afastou-se e subiu apressadamente os degraus. Quando atingiu 
o cimo das escadas, virou-se para lhe agradecer por a ter trazido a casa, mas apanhou um susto de morte ao v-lo mesmo atrs de si.
       Oh!  exclamou ela, levando a mo ao peito.  Assustou-me. Ele riu-se ligeiramente.
        No  preciso muito para isso. Corrija-me se estou enganado, mas acho que a perturbo.
        Que disparate, Senhor Coulter. Porque  que havia de me perturbar?
       O meu nome  Jake.
       Sei muito bem disso.
       Ento porque  que no me trata pelo nome?
       Porque o senhor  o meu patro.
      O rosto moreno de Jake franziu-se num largo sorriso, as linhas que sulcavam as suas faces pareciam to negras como se fossem tinta sob aquela luz fantasmagrica. 
O cheiro dele a couro, a feno e a homem envolveu-a. Estremeceu e esfregou os braos com as mos.
       Todos os meus outros empregados me tratam pelo nome.
        Isso  l com eles. Eu prefiro manter as coisas em termos mais profissionais.
       Sente-se assim mais segura?
      Molly no sabia o que havia de dizer, o que o fez sorrir de novo.
       No tenho a menor dvida, eu perturbo-a  examinou lentamente o rosto dela, como se procurasse uma resposta na sua expresso. Molly rezava para que ela no 
a conseguisse encontrar.  Porqu, Molly?
      Ela molhou os lbios e engoliu em seco.
       No sei bem porqu. Depresso ps-divrcio, talvez.
      Jake tocou com a ponta da bota numa tbua do alpendre e ps as mos nas ancas.
       O Rodney era violento consigo? Ela ficou a olhar para ele.
       De portas para dentro, quero eu dizer  segurou-lhe o queixo com a mo.   por isso que no se sente  vontade comigo, porque nunca sabia o que esperar 
dele?
        O Rodney nunca me maltratou fisicamente. A razo por que no me sinto  vontade consigo no tem absolutamente nada a ver com isso. Alis, nem sequer penso 
em si dessa maneira.
      Jake roou o seu polegar pelo lbio inferior dela, ao mesmo tempo que esboava um sorriso desafiador.
       Ai, no?
       No, claro que no.
      Ele diminuiu a presso do seu polegar, tornando-a numa suave carcia que lhe deixou o lbio a arder.
       Talvez seja melhor comear a pensar  disse-lhe na sua voz rouca.
      Molly, incapaz de falar, ficou a v-lo descer os degraus e embrenhar-se na escurido. Dada a dificuldade que tinha para ver  noite, Jake era uma sombra que 
estava continuamente a desaparecer.
      Molly respirou fundo e expeliu demoradamente o ar, fechou os olhos e esfregou outra vez os braos, sentindo um frio que lhe vinha de dentro, do mais profundo 
do seu ser. As rajadas de vento nocturno que entravam no alpendre atravs do beiral pareciam sussurrar: Molly... Molly. Ps um
brao  volta da viga mestra que se encontrava no cimo das escadas e encostou a testa  madeira. Molly... onde ests tu? Estremeceu e cerrou os dentes. Talvez Rodney 
tivesse razo e ela estivesse louca. As pessoas normais no ouviam vozes no vento.
      Agarrou-se mais  viga, porque necessitava de apoio, e encontrou consolo na sua solidez. Fazia-lhe lembrar Jake, o seu enorme corpo, esguio e robusto quando 
ele a encostava a si, e sentiu um aperto sufocante na garganta. Abraou-se  viga e permaneceu agarrada a ela, desejando com todas as suas foras que esta tambm 
a pudesse abraar.
      
      
      
    Captulo 11
      
      
       Sobrou alguma coisa dos ovos mexidos com arroz que a Molly fez para o co?
      Jake virou-se de repente com a boca cheia de bolachas, para localizar o seu irmo no escuro. Eram quatro da manh e no esperava que algum j estivesse acordado 
quela hora. Os empregados levavam sempre muito tempo a recuperar-se das diverses nocturnas de sbado, e ele e Hank costumavam ficar exaustos, uma vez que tinham 
de fazer todo o trabalho sozinhos durante o fim-de-semana.
       O que  que ests a fazer aqui to cedo?  perguntou Jake.  Pensei que hoje dormisses at mais tarde.
      O irmo veio ter com ele caminhando descalo e silenciosamente, o seu cabelo escuro estava despenteado e o peito desnudo. Tinha corrido o fecho das suas calas 
de ganga, mas o boto estava desabotoado.
       Quem  que consegue dormir? O jantar da noite passada era digno da orao de agradecimento antes das refeies do cowboy Levis?
      Jake detestou ter de morder o isco.
       E qual  a orao de agradecimento antes das refeies do cowboy Levis?
       Temos trs feijes para ns os quatro, damos graas a Deus por no sermos mais.
      Jake riu-se ligeiramente.
       No foi assim to pouco.
       Foi pouqussimo. Se Deus quisesse que os pimentos fossem recheados, tinha-os feito assim. E que raio de sopa era aquela que ela nos deu?
       Minestrone.
       Era to pouco espessa que a podia ter bebido por uma palhinha. Estou a morrer de fome. Levei a noite inteira a virar-me e revirar-me sem conseguir dormir.
      Jake fez deslizar at ao irmo o pacote de manteiga de amendoim que estava sobre o louceiro para que ele se servisse:
       A Molly est a esforar-se. Reparaste no Bart a noite passada? Ontem  tarde ela deu-lhe banho e encheu-o de aftershave. Cheirava to bem que quase lhe dei 
um beijinho.
      Hank riu-se entre dentes.
       Passei por casa quando a Molly lhe estava a dar banho. Ela estava molhada dos ps  cabea e a casa de banho parecia ter sido atingida por um furaco.
       Ela  mesmo amorosa.
        Isso eu no discuto  concordou Hank.  Mas o facto dela ser amorosa no enche as nossas barrigas, Jake. Tens de falar com ela. Desde que te conheo nunca 
te vi morder a lngua.  Pegou na faca da mesa e barrou uma bolacha com manteiga. Meteu-a na boca, mastigando-a vrias vezes, engoliu-a, e disse:  Mas, agora, s 
o Senhor Tacto. No podias ter escolhido pior altura para seres diplomata.
       No  fcil aprender a cozinhar para tantas pessoas, mas vai conseguir apanhar-lhe o jeito em pouco tempo.
      Hank meteu outra bolacha na boca com ar pensativo.
       Gostas muito dela, no gostas? Jake pensou bem antes de responder:
       Sim, gosto.
        uma coisa sria?
      Mais uma vez, Jake levou algum tempo a pensar na resposta antes de dizer:
       Nunca senti nada to srio por ningum  respondeu suavemente.
       E isto est a crescer dentro de mim, sabes? H algumas mulheres que, quanto mais as conhecemos, menos atraentes se tornam, mas a Molly  sempre encantadora. 
A forma como escova os dentes do Bart, por exemplo. Ele coopera muito pouco, mas ela escova-lhos na mesma. E est sempre a fazer-nos pequenos mimos, para ser agradvel. 
Cose botes, coloca remendos nas calas de ganga, pe pequenas surpresas nas nossas almoadeiras. Nunca lhe pedi nada disso,  tudo iniciativa dela.
       As passas polvilhadas com alfarroba foram c uma surpresa, isso  verdade.
      Jake deu um suspiro.
         a inteno que conta. Ela quer que nos alimentemos de forma saudvel. No a podes culpar por isso.
       No a estou a culpar. S estou  cheio de fome.  Hank retirou outra bolacha.  Leite com cereais e fruta  curto para um pequeno-almoo.
        Olhou para trs por cima do ombro.   por isso que no acendes a luz, porque tens medo que ela a veja e perceba que ests acordado, a andar s voltas pela 
cozinha?
        No a quero ofender. Se passarmos um pouco de fome durante mais alguns dias no vamos morrer por isso.
      Hank meteu mais uma bolacha na boca.
       Fala por ti. Gostava de saber de onde  que ela veio.
       Penso que de Portland.
        Portland?  Hank tinha passado por l h poucos meses.  Ai, espero que no nos d aquela porcaria de salada de plantas campestres.
       O que  uma salada de plantas campestres?
        exactamente o que parece, plantas colhidas no campo. Folhas de dente-de-leo e coisas no gnero.
       Ests a gozar.
        a grande moda nos restaurantes caros de l. Gente da cidade.  impossvel compreend-los.  Hamk encolheu os ombros e abanou a cabea.  Levaram-me oito 
dlares por essa merda. Digo-te que podamos fazer uma fortuna se as deixssemos crescer nos pastos e as cobrssemos  pea.
       Oito dlares por plantas do campo?
       Tudo no menu tinha preos separados.
        la carte  afirmou Jake.
         la roubo na estrada, melhor dito. O jantar custou-me mais de trinta dlares e tudo o que me deram foi uma nfima dose de costeleta de primeira qualidade 
e um molhe daquilo que as vacas comem. Nem po, nem batatas. Eu quase morri de fome.
      Jake riu-se.
       Fazes-me lembrar o Danno.
      Nesse momento abriu-se a porta de trs e ambos deram um salto com medo que pudesse ser Molly, mas quem eles viram foi Levi.
        Ol  disse ele, ao mesmo tempo que entrava e fechava a porta devagar  O que  que temos aqui? Uma conveno?
      Jake suspirou e fez deslizar o pacote de manteiga de amendoim at ao empregado.
       Estamos a tapar os buracos do estmago, Levi. Se foi isso que te fez levantar cedo, podes servir-te.
      Mais tarde, nessa mesma manh, Jake reuniu os homens no estbulo para distribuir as tarefas da semana que estava a comear. Segunda-feira de manh costumavam 
sentar-se na mesa da cozinha e ele dizia a cada um deles o que tinha de fazer enquanto tomavam caf, mas naquele dia Jake tinha feito tudo para os tirar de casa. 
A julgar pelas suas expresses contrariadas, o fim-de-semana no lhes havia acalmado os nimos. Jake temia que eles armassem um motim e no queria que Molly presenciasse 
as exploses.
       Que raio de coisa nos deu ela ao pequeno-almoo?  perguntou o magricela e sempre esfomeado Danno.
       Crepes  explicou Hank.  Panquecas francesas finas.
       Os franceses que as comam.
      Jake suspirou, tirou o chapu, olhou inexpressivamente para a sua sopa e voltou a coloc-lo na cabea.
       Cavalheiros, temos todos de ter um pouco de pacincia. Ela serviu-os um pequeno-almoo muito bonito. Pensem no trabalho que teve ao partir os morangos para 
os apresentar em forma de flores.
       Aquelas panquecas eram to finas que se podia ler o jornal atravs elas, e s nos deu quatro a cada um  queixou-se ao patro o homem mais calmo do grupo, 
Preach.  Tenho tanta fome que at era capaz de comer rs com elas ainda a coaxar. A beleza no enche a barriga de um homem.
      Nate, um jovem bem-aparentado de vinte e cinco anos com um sorriso encantador e que gostava de provocar, riu-se ao comentar:
       Se a beleza enchesse a barriga de um homem, Preach, pnhamos a Molly em cima da mesa e esqueciamo-nos da comida.
      Ao ouvir aquelas palavras Jake ficou furioso. Olhou fixamente para Nate e disse:
       Aquele que tocar na Molly, nem que seja s com um dedo, ter de haver-se comigo. Compreenderam?
      Nate arqueou as sobrancelhas e respondeu:
       Acho que o patro foi suficientemente claro.
        Sejam educados ao falarem com ela e tirem o raio do chapu da cabea quando o fizerem.
      Hank colocou a mo no brao de Jake.
       Ele s estava a brincar. Jake libertou o brao.
        Neste rancho h certos limites que no podem ser ultrapassados este  um deles: ela  uma senhora, no  uma galdria como as que vocs encontram ao sbado 
 noite nos bares. Merece ser tratada com respeito por todos, sem excepo, caso contrrio no se admirem com o que vos possa acontecer. Nate arqueou ainda mais 
as sobrancelhas.
       Hoje est muito susceptvel, patro. Nunca faltei ao respeito a uma senhora e o patro sabe disso.
       Espero bem que no faltes.
      Apesar da fria que ardia dentro dele, Jake tinha conscincia de que estava a exagerar. A observao de Nate tinha sido ligeiramente grosseira, nas o rapaz 
no pretendera ofender. Respirou fundo para se acalmar, questionou-se sobre o que se estava a passar com ele e tentou suavizar a sua atitude:
       A Molly  uma mulher bonita e se no reparssemos nisso no seramos homens  examinou o grupo com um olhar implacvel.  Comportem-se com boas maneiras 
quando estiverem ao p dela, que no tero qualquer problema comigo.
      Todos os homens concordaram com a cabea.
      Jake pegou no clipboard, deu uma olhadela s suas notas e comeou a atribuir a cada um dos homens os trabalhos que tinha de fazer durante a semana. Quando 
o ltimo empregado se foi embora, Hank lanou-lhe um olhar severo e disse:
       Peo desculpa pelo que te vou dizer, mas por muito que tu gostes da Molly, contrataste-a para fazer um trabalho. Se o resultado no for satisfatrio, ou 
a pes na linha ou lhe ds um pontap no traseiro. Os homens tm de comer.
      Jake cerrou os dentes com toda a fora e, a seguir, respondeu:
       Eu vou tratar do assunto.
       Quando? Estamos todos a morrer de fome.
       No vo enfraquecer por causa dela.
       Talvez no, mas o meu trabalho tem-se ressentido, e hoje vai suceder o mesmo. Depois de um pequeno-almoo de panquecas transparentes podes ter a certeza 
que nos voltou a embrulhar almoos minsculos, s duas sanduches para cada um e, ainda por cima, com maionese magra.  Hank fez uma careta.  Onde  que ser que 
ela compra aquelas porcarias de trigo integral? As batatas fritas sabem a serradura.
       Acho que as compra numa loja diettica.
       Bem, odeio-as. Todos as odiamos. Nem o Bart as consegue comer.
       Eu disse que ia tratar do assunto.
      Jake ouviu a porta da frente da casa abrir-se e fechar-se. Inclinou-se para espreitar pela porta do estbulo e viu Molly a descer os degraus. Assim que chegou 
ao ptio, ela foi buscar um grande ramo retorcido que tinha, obviamente, deixado junto ao alpendre. Ao v-la cruzar o ptio em direco ao riacho, ele seguiu-a com 
o olhar, cheio de curiosidade.
        fantstico  murmurou Hank.  Deu-nos panquecas transparentes ao pequeno-almoo e agora vai dar um passeio matinal. Se for colher plantas campestres eu 
vou-me embora.
       No te podes ir embora. s co-proprietrio.
        No pus nenhum dinheiro aqui. A nica coisa que c deixo  o meu suor.
      Jake suspirou sem tirar os olhos da sua cozinheira. Vestia uns jeans largos e uma ampla blusa de algodo branca, que lhe davam um aspecto adorvel, ao contrrio 
do que ela julgava. Atravessou o riacho em bicos dos ps, pisando delicadamente as rochas e, a seguir, dirigiu-se para a floresta, batendo com o ramo da rvore nos 
arbustos como se os quisesse esmagar.
       Que diabo estar ela a fazer?  perguntou Hank. Jake observou-a durante mais alguns segundos.
       No fao a menor ideia.
       Seja o que for que ela estiver a fazer, d a impresso de que est a matar cobras.
      Cobras? Jake lembrou-se da conversa que haviam tido sobre cobras cascavis no dia em que ela tinha chegado.
       Oh, caramba!
       O que  que foi?  perguntou Hank, olhando para o irmo.
       Est a bater no mato para espantar as cobras.
        O qu?  Hank aproximou-se da porta para ver melhor. Ria-se tanto que os ombros lhe tremiam.  Quem  que lhe disse para fazer semelhante coisa?
       Fui eu.
       Ests a gozar.
       No era para ela fazer assim  Jake observou Molly dar uma vergastada numa salva. Riu-se e abanou a cabea.  Disse-lhe para bater com um pau no mato  continuou 
a observ-la.  Ora bolas, depois de ter posto a corda diante da caixa dos toros achava que o problema das cobras estava resolvido.
       Puseste uma corda diante da caixa dos toros? Para qu?
       Para intimidar as cobras. Hank semicerrou os olhos.
       Isso  uma historieta antiga que os homens contavam s suas mulheres, mas que no serve para nada.
       Ambos sabemos disso, mas ela no. Serviu para a acalmar, misso cumprida.
      Hank voltou a olhar para Molly. Um sorriso malandreco enrugava o seu rosto moreno.
       Achas que vai sobrar algum arbusto quando ela acabar o passeio? Jake atirou o clipboard contra a barriga do irmo. Hank segurou as notas com o corao aos 
pulos.
       Onde  que vais?
      Sem abrandar o passo, Jake respondeu-lhe.
       Vou ensinar-lhe a bater no mato e, a seguir, ter uma conversa com ela sobre a comida.
       Diz-lhe que gostamos de batatas, de montes delas!  gritou-lhe Hank.
      Jake gemeu e acenou afirmativamente com a cabea. No era uma tarefa que ele desejasse fazer. Ao chegar ao riacho ainda ouviu o irmo berrar:
       E de biscoitos caseiros tambm!
      
      O sol infiltrava-se por entre os ramos dos pinheiros amarelos do oeste, os seus raios estavam repletos de partculas que brilhavam sob a luminosidade da manh 
como se fossem prolas em p. O odor a baunilha dos troncos das rvores, o almscar da salva e o cheiro do solo bolorento da floresta, coberto com incontveis camadas 
de folhas em decomposio, penetraram nas narinas de Molly. Respirou fundo, achando a manh absolutamente resplandecente e considerou-se afortunada por a poder desfrutar 
durante um momento.
      Ao embrenhar-se na floresta, teve a impresso de mergulhar num conto de fadas ou de recuar no tempo e voltar  poca dos pioneiros. Deixando-se momentaneamente 
levar pela fantasia, recordou os inumerveis romances sobre ndios que havia lido durante o seu primeiro e nico ano na faculdade. Imaginava sempre este tipo de 
cenrio quando lia a histria de uma bela herona branca que se via frente a frente com um perigoso guerreiro mestio de pele escura.
      Riu-se, preparada para bater num arbusto que se encontrava no caminho, quando sentiu o rudo seco de um galho a estalar atrs dela. Virou-se com o corao 
aos pulos e o ramo em riste.
        Vai-me atacar com essa coisa ou posso aproximar-me?  ouviu perguntar numa voz profunda com laivos de divertimento.
      Quando Molly viu que era Jake quem estava a mover-se entre as rvores, respirou aliviada, levou a mo ao pescoo e deixou cair o ramo.
        Senhor Coulter, pregou-me um susto de morte. Pensei que fosse um puma.
      Os cintilantes olhos azuis de Jake pousaram-se no rosto dela:
         Disse-lhe que podia dar passeios durante o dia sem grande perigo.
       A palavra-chave foi sem grande perigo.  Os dedos de Molly deslizaram at ao ombro ao mesmo tempo que a sua pulsao voltava ao lugar.
       A agitar o ramo daquela maneira nenhum puma no seu juzo perfeito se ia meter consigo. Tinha um ar temvel.
      Quem parecia temvel era ele, to alto e to moreno, com a camisa colada aos seus amplos ombros e as calas de ganga azuis deslavadas envolvendo-lhe as longas 
e musculadas pernas. Molly tentou imagin-lo com uma simples tanga e uns moccasins. A imagem que surgiu na sua mente era suficiente para lhe provocar palpitaes.
      Era extremamente estpido da parte dela pensar nele dessa forma, claro. Mas, por qualquer razo, no conseguia evit-lo.
       O que foi?  perguntou Jake, cujos olhos continuavam buscando os dela.
      Molly percebeu que estava especada a olhar para ele.
       Nada. Estou apenas surpreendida de o ter encontrado aqui. Pensei que estivesse a trabalhar.
       Nunca estou demasiado ocupado para dar um passeio com uma rapariga bonita.
      O seu problema com ele devia-se em grande parte a isto, concluiu. No s agia como se ela fosse bonita, como lho dizia, e isso tornava-lhe difcil manter a 
noo da realidade.
      Molly desconfiou do motivo por que Jake a tinha seguido.
       Se est aborrecido por eu ter feito um intervalo, asseguro-lhe que sa apenas por alguns minutos  deu uma olhadela ao relgio.  Comecei a trabalhar antes 
das cinco e so oito e meia. Pensei em dar um pequeno passeio, mas devia ter falado consigo primeiro para lhe pedir autorizao.
      Durante um momento, que lhe pareceu interminvel, Jake olhou-a fixamente nos olhos. A seguir, os seus lbios firmes esboaram um pequeno sorriso.
       No vim passar-lhe uma descompostura por ter feito um intervalo, Molly.
       Ah!  Ela brincou nervosamente com os botes da sua blusa e, a seguir, ps a mo na cintura. Queria mesmo que ele deixasse de olhar para ela daquela maneira. 
 Ento, por que foi?  Descobriu rapidamente outro motivo.  Sei que os crepes estavam um pouco duros. Para a prxima vez fao-os mais tenros.
      Ele levantou a aba do chapu. Para a ver melhor, pensou Molly. Um raio de luz esgueirou-se por entre os ramos de uma rvore, fazendo reflexos na cara bronzeada 
dele.
       Por que  que s consegue pensar que eu vim aqui para lhe dar um raspanete seja l pelo que for?  perguntou Jake suavemente.
      Molly estudou a pergunta.
       Porque no consigo ver outra razo para me ter seguido.
      Ele abanou a cabea e esboou um sorriso mais aberto que, no entanto, no lhe chegava aos olhos, onde Molly era capaz de jurar ter vislumbrado alguma tristeza 
antes dele os desviar. Permaneceu um momento a contemplar a floresta com ar pensativo.
       Talvez tenha vindo aqui para lhe dizer que foram os melhores crepes que alguma vez comi. Passou-lhe isso pela cabea?
       Achei-os um pouco duros.
       Estavam deliciosos  emendou-a ele.  Todos lamberam o prato.
        possvel que o tenham feito apenas por educao.  Molly, extremamente nervosa, espetou a ponta afiada do ramo no solo.  Se no  para se queixar dos 
crepes ou para me pregar uma descompostura por ter feito um intervalo que me seguiu, ento por que foi?
       Vim dar um passeio com uma rapariga bonita  sorriu e os sulcos que se lhe formaram nos cantos da boca eram mais profundos do que momentos atrs!  No se 
importa de ter companhia, pois no?
       No, acho que no...
      Molly interrompeu-se quando Jake se aproximou dela e lhe tiroi o ramo das mos, enfiando-o num arbusto.
       Essa  a minha vara para afastar as cobras.
       Acha que as cobras desta zona so to grandes como as pites? Bater no mato com um ramo to grande vai deix-la estourada.  Dobrou-se para apanhar um mais 
fininho.  Este  mais apropriado.
       Com esse no mata cobra nenhuma.
        O nosso objectivo no  matar cobras. Apenas as queremos afugentar.  Pegou-lhe na mo, fazendo-a andar a um passo bem mais rpido do que aquele que a tinha 
trazido at ali. A palma da mo e os dedos dele, ao envolverem os seus, pareceram-lhe incrivelmente fortes e quentes.  medida que caminhavam, Jake ia dando pequenas 
pancadas nos arbustos, como um cego faz com a bengala.   isto que precisa de fazer  disse ele, entregando-lhe o ramo.  Todas as cascavis que existirem num raio 
de um quilmetro e meio iro sentir as vibraes e fugir. Se caminhar num bosque muito espesso, pode ser um pouco mais agressiva e, de vez em quando, bater com fora 
num arbusto. Mantenha os ouvidos bem abertos para escutar qualquer zumbido e veja onde pe os ps. O mais provvel  nunca encontrar uma nica cobra.
      Molly olhou para ele com dvidas. Jake riu-se e deu-lhe uma pancadinha debaixo do queixo.
        Confie em mim, est bem? No precisa de dar cabo de todos os arbustos que encontrar.
       Hum.
      Ele roou o polegar pelos ns dos dedos de Molly e esta sentiu uma espcie de ardor a subir-lhe pelo brao. Bateu numa salva com um pouco mais de fora do 
que ele lhe dissera ser necessrio.
       Pelo sim, pelo no  foi a explicao que deu.
        Continue assim, esfalfe-se. Nunca mais vai querer dar um passeio. Fica com os braos doridos durante dias.
      Ao ver que os seus braos comeavam a estar cansados, Molly decidiu seguir o exemplo dele e passou a dar pequenas pancadas nos arbustos.
       Tem a certeza que isto chega?
        Positivo. As mordidelas das cobras-cascavis no so mortais. Se no conseguir arranjar um antdoto, o mais provvel  sentir-se extremamente mal. Por vezes, 
h pessoas que tm complicaes secundrias e morrem, mas um adulto saudvel sobrevive quase sempre.
       Se no morrer da mordidela, morro de ataque de corao. Ele riu-se.
       Tem muito medo delas, no tem?
       Sou a maior cobarde que possa imaginar quando se trata de cobras. At as do jardim me fazem alterar o ritmo cardaco. No entanto, no tenho nenhum medo das 
aranhas, e quando era pequena apanhei um rato e fiz dele o meu animal de estimao, por isso tambm no me assustam. Mas quero as cobras e todos os rastejantes bem 
longe de mim.
      Jake segurou-lhe mais fortemente na mo. Um gesto de amizade, nada tais do que isso, concluiu Molly. Se sentia um formigueiro subir-lhe pelo rao, era problema 
seu. Desejava que ele lhe soltasse a mo para que pudesse pensar com clareza.
        Sabe distinguir um pinheiro amarelo do oeste de um pinheiro de lodgepole?  perguntou ele, subitamente.
      Molly deixou de dar pancadinhas no mato para olhar para as rvores que a rodeavam.
       A casca dos pinheiros amarelos do oeste  cor de canela e a dos lodgepole no  da mesma cor?
        Nem todos os pinheiros amarelos do oeste ficam cor de canela, muitos deles so castanhos.
       Ento, como  que os distingue?
        Pelas agulhas.  Esticou-se para puxar o ramo de uma rvore e proximou-o do nariz dela.  Os amarelos do oeste tm trs agulhas por ramo e os lodgepole 
unicamente duas.
       Ah!
      Jake sorriu-lhe e ondas elctricas propagaram-se por todo o seu corpo.
       Consegue reconhecer um junpero com os olhos fechados? Ela ficou um momento a pensar.
       No, no posso dizer que consiga.  pelo cheiro? Ele disse que sim com a cabea.
       A que  que eles cheiram?
       A chichi de gato. Molly desatou a rir-se.
       No pode ser.
      Os inquietos olhos dele cruzaram-se com os dela.
       Acha que eu lhe ia mentir, mida?
      Ainda ela estava a pensar numa resposta quando Jake comeou a dissertar sobre a natureza, explicando-lhe uma srie de coisas acerca dos esquilos dourados que 
eles viam passar, voltando-se depois para as doninhas, a seguir para os veados e finalmente para os ursos-negros.
        Se encontrar um urso devo levantar os braos e falar com ele? - perguntou Molly incrdula.  H algum tema de conversao que eles prefiram?
      Jake olhou-a de esguelha.
       Quer aprender a defender-se na floresta ou no?
       Claro que quero.
       Ento, deixe-se de sarcasmos.  Jake voltou a apertar-lhe a mo com mais fora. Desta vez Molly achou que apenas o fazia para que ela compreendesse que estava 
a brincar.  Os ursos vem muito mal  prosseguiu ele.  Se estiver no caminho deles, tem de lhes fazer ver que no  outro urso. Ao levantar os braos fica mais 
alta e o facto de falar ajuda a distingui-la dos outros animais. Mantenha-se firme, estabelea contacto visual e diga-lhe: Ol, urso! Como  que ests hoje?
       E isso  suficiente para eles se irem embora?
       A maior parte das vezes . H ursos-negros excntricos, claro, mas so raros. Os grizzlies so outra histria, mas no h grizzles nesta zona.
       S para minha informao, o que  que eu devo fazer se encontrar um grizzly?
       Ser extremamente educada.
      A resposta apanhou Molly desprevenida, dando-lhe uma vontade de rir to grande que se engasgou e espirrou. A seguir, ruborizou-se.
       Desculpe. H anos que no me acontecia isto. Jake olhou para ela com olhos meigos.
       No pea desculpa. Acho que foi a primeira vez que a vi descontrair-se e rir com vontade.
       Eu no me ri, eu espirrei. Isso acontecia-me muitas vezes, mas depois aprendi a controlar-me.
       Por que  que aprendeu a conter-se?
        Porque...  Molly ia dizer que no era prprio de uma senhora mas, no momento em que as palavras se formavam na sua mente, ouviu o eco da voz de Rodney: 
 No voltes a rir-te dessa maneira diante dos meus amigos.  humilhante para mim ter uma mulher que espirra em pblico como uma porca velha e gorda.  O meu marido 
achava que era desagradvel e eu deixei de o fazer, foi apenas isso.
      Ele franziu levemente as sobrancelhas e, a seguir, encolheu os ombros.
       Cada um  como , penso eu. At acho essa maneira de rir muito engraada.
       Acha engraada a forma como eu espirro ao rir-me?
        mais um risinho abafado e feminino do que um espirro.
      Ele conduziu-a por entre duas rvores, contornando a seguir uma rea coberta de salvas. Molly admirava, pelo canto do olho, o modo como ele se movia, mexendo 
um pouco os ombros cada vez que balanava a sua anca esbelta. Equilibrava-se muito bem, assentando solidamente os taces das botas no cho sempre que dava um passo.
       Pois a mim o que me incomoda  aquele riso que soa a falso  disse ele, retomando o fio da conversa.  Detesto quando as mulheres guincham muito alto a rirem-se. 
Ao fim de alguns minutos comeam a dar-me arrepios na espinha.
      Molly tinha ouvido mulheres a rir-se daquela maneira e percebeu exactamente o que ele queria dizer:
       Bem, pode ficar descansado. Eu no guincho. Ele olhou-a de soslaio.
       No? Alguns homens iriam considerar isso um desafio.
      Ela olhou para ele espantada. O brilho impressionante dos olhos de Jake toldava-lhe o raciocnio. Incapaz de encontrar uma resposta, decidiu fingir que no 
tinha percebido. Suspirou e olhou em redor.
       Ah, veja! Que lindas flores!
      Ele conduziu-a at quelas flores de um rosa profundo.
       So cravinas prematuras  disse, ao inclinar-se para apanhar uma. Quando se endireitou, agarrou-lhe a mo, puxou-a para perto dele e ps-lhe a flor junto 
ao rosto.  Tal como eu pensava  afirmou, com a sua voz rouca.  O cor-de-rosa no choca com o tom do seu cabelo  colocou-lha atrs da orelha.  Ficaria linda 
de cor-de-rosa.
        Descobri que as cores neutras combinam melhor com a minha tez.
        Com cores neutras quer dizer branco, castanho e bege?  Voltou a conduzi-la atravs da floresta.  A sua tez  cremosa, minha senhora. Pode usar a cor que 
lhe apetecer. Acho que tem a pele mais bonita que alguma vez vi.
      Molly decidiu que chegara a altura de pr um travo aos elogios dele antes que cometesse alguma estupidez, como comear a acreditar no que ale dizia.
       Jake, eu acho que...
       Que diabo! Ser que ouvi bem. Chamou-me Jake? Ela voltou a suspirar.
       Em relao ao tema de eu ser bonita.
       Qual  o problema?
        muito amvel da sua parte, mas no me sinto bem consigo a fazer-me elogios constantemente.
       No os fao constantemente. Umas quantas vezes, no mximo.
       Mas eu preferia que no os fizesse nunca.
       Porqu? Se  por ser o seu patro, isso no  justo. Tenho olhos na cara,  um pouco difcil no reparar no que est  frente do meu nariz. Mas nunca deixei 
que isso interferisse na nossa relao profissional.
       Nunca insinuei que o tivesse feito.
       Ento, qual  o mal de eu lhe dizer que  bonita?
      Molly apertou os lbios, procurando a melhor forma de se explicar:
       No tem nada a ver com o facto de ser meu patro. Nada. Mas eu sei que est apenas a ser simptico, e isso para mim  mais embaraoso do que lisonjeiro.
      Fez-se silncio. Andaram alguns metros at ele finalmente abrir a boca:
       Acha que estou apenas a ser simptico?
      Neste momento, Molly arrependeu-se de ter falado. Jake perguntou-lhe numa voz firme:
       Quem foi que lhe disse que no era bonita, Molly?
       No foi preciso ningum dizer-me. Vejo-me todos os dias ao espelho.
       No se deve ver l muito bem. Voc  uma mulher bonita e eu no sou o nico homem a achar isso neste rancho.
      Ela revirou os olhos.
       Por amor de Deus!
       No acredita em mim?
       Claro que no.  muito amvel ou muito cego. Sei que no sou grande coisa no que respeita  aparncia.
       No  grande coisa?
      Jake deteve-se subitamente, mas Molly, que tinha a mo entrelaada na dele, continuou a andar, puxando-lhe o brao, at parar de saco. Surpreendida, virou-se 
para trs, empunhando o ramo de enxotar as cobras na mo que tinha livre.
       Vai bater-me com isso?  perguntou ele suavemente.
       Deus me livre, claro que no  baixou o ramo.  Porque iria eu fazer uma coisa dessas?
       Porque vou fazer isto.
      Puxou-lhe a mo com fora, atraindo-a para si. Molly, que foi apanhada de surpresa, desequilibrou-se caindo sobre o peito dele. Jake envolveu-a nos seus fortes 
braos e baixou a cabea. No momento seguinte estava a beij-la. Sem pedir autorizao, a sua boca maravilhosamente firme e mvel tomou, pura e simplesmente, posse 
da dela.
      Era... oh, meu Deus... era..., ela no conseguia pensar claramente. Tinha o corao aos pulos, os nervos descontrolados e as pernas bambas.
      A boca dele era dura, hmida, quente e esfomeada. Agarrou a parte debaixo do queixo da rapariga, fez-lhe presso sobre as articulaes e forou-a a abrir os 
dentes. A seguir, introduziu a lngua bem fundo na boca dela e saboreou-a como se fosse uma iguaria culinria e ele estivesse a morrer de fome.
      Molly tentou respirar, mas no conseguiu. Procurou de novo ordenar as ideias, mas tambm no teve sorte nisso. O peito dele roava-lhe os seios, fazendo com 
que os seus mamilos se tornassem rijos e ardessem de desejo, o que lhe provocava um estremecimento no mais profundo do seu ser.
       Meu Deus  murmurou Jake quando afastou a sua boca da dela para respirar. Os olhos dele mergulhavam nos dela, e o seu hlito, que tinha o odor do caf, derramava-se 
pelo rosto de Molly.  Onde  que est o ramo? Acho que  melhor bater-me com ele antes que eu v mais longe.
      Ela no fazia a menor ideia do stio onde o ramo teria ido parar. Quanto a ir mais longe era a maior loucura que se poderia imaginar. Tentou dizer-lhe isso, 
mas o primeiro som que lhe saiu da boca foi abafado pelos lbios dele, que se pousaram novamente sobre os seus. Desta vez, Jake agarrou-lhe na trana para lhe inclinar 
a cabea para trs e mant-la quieta. A seguir, com um hbil movimento dos dedos, retirou o elstico que a segurava, libertando o cabelo e apanhando-o com a mo.
       s bonita  sussurrou impetuosamente junto aos lbios dela.
      Depois de a ter beijado de uma forma que fez desaparecer todos os pensamentos racionais da cabea de Molly, intensificou o ataque, inclinando os joelhos de 
modo a que o seu baixo-ventre ficasse encostado ao dela.
      Molly soltou um gemido dentro da boca de Jake. As pernas j no a conseguiam suster. Ele colocou uma das suas mos por baixo do traseiro dela e chegou-a ainda 
mais a si. Molly sentia a excitao dele, pressionando-a onde ela estava mais sensvel, e essa presso ascendente da ganga e do homem provocava-lhe ondas de prazer 
que lhe percorriam todo o corpo.
      Nunca em toda a sua vida tinha desejado o que quer que fosse com tanta intensidade como ele a fazia desej-lo. Era como se fosse uma avalanche, que lhe cortava 
a respirao e lhe punha a cabea a andar violentamente  roda. Queria sentir as mos dele sobre ela, sentir a boca dele sobre os seus seios com a mesma nsia com 
que agora lhe devorava os lbios. Ah, como o queria!
      Percorreu os ombros dele com as suas mos, deleitando-se com aquele conjunto de carne e msculos vibrantes que ondeava por baixo da sua camisa. Apertou as 
mos com fora para resistir  vontade de lha rasgar e sentir a sua pele. O Jake dos olhos azuis que parecem lasers. No podia acreditar que ele a estivesse a beijar. 
Essas coisas no sucediam a Molly Sterling Wells.
      Nunca um homem a tinha envolvido nos braos e lhe havia devorado a boca.
      Nunca um homem havia deslizado as suas mos pelas costas dela, fazendo-as subir depois pela parte lateral do seu corpo para lhe tocar febrilmente nos seios.
      Cada vez que o polegar dele roava nos seus mamilos por cima das vrias camadas de roupa que ela trazia vestida, o choque fazia-a gemer.
      Jake largou-lhe a boca, cobrindo de beijos a curva do pescoo dela  medida que a ia percorrendo, os seus dentes e a sua lngua faziam maravilhas na pele de 
Molly, aquecendo-a e enchendo-a de frio ao mesmo tempo. Ela sentia humidade entre as pernas, as dobras da sua carne palpitavam e a abertura vaginal estremecia em 
espasmos sedentos daquela virilidade que a esmagava.
      Queria-o.
      Como se Molly lhe tivesse transmitido toda a fora do seu desejo atravs dos poros da sua pele, Jake envolveu-a subitamente nos braos e levantou-a do cho. 
Surpreendida, ela soltou um grito e pendurou-se ao pescoo dele enquanto a transportava para junto de uma rvore. Ele encostou-a ao tronco, ensanduichando-a entre 
o seu poderoso corpo e aquela rvore robusta ao mesmo tempo que a sua boca esfomeada e persuasiva lhe continuava a encher o pescoo de beijos.  Molly  sussurrou 
ele , enrosca as tuas pernas nas minhas ancas.
      Ela estremeceu, arrastada por aquela gigantesca onda de desejo que a obrigava a fazer o que ele lhe pedia. Quando cerrou as coxas em torno dele, Jake puxou-a 
para cima e Molly apercebeu-se vagamente que ele suportava o seu peso com a parte inferior do corpo. Jake serviu-se rapidamente das suas mos, agora livres, segurando-lhe 
os seios com as suas poderosas palmas e empurrando-os para cima at os rijos mamilos dela sobressarem claramente na roupa e se tornarem alvos fceis da sua boca.
      Agarrou fortemente um deles com os dentes, beliscando-o levemente e puxando-o depois. Um choque de puro prazer atravessou Molly, que soltou um grito. As suas 
mos que mais pareciam garras deitaram o chapu dele ao cho, abrindo caminho atravs da sua espessa cabeleira. Jake respondeu apoderando-se com a sua boca quente 
do mamilo de Molly, com roupa e tudo.
      O brusco puxo esmagou-a. As sensaes que a dominavam faziam-lhe estremecer e sacudir os msculos como se fosse uma marioneta puxada por cordas. Apertou fortemente 
as mos, arrepanhando os cabelos dele. Parecia-lhe que estava a ser engolida por um turbilho.
       Jake? Ele deslocou-se para cima, beijou-lhe as plpebras, contornou-lhe o arco das sobrancelhas com os seus lbios sedosos ao mesmo tempo que a sua profunda 
voz se transformava num sussurro acariciador:
       Meu Deus, s to bonita, Molly. Se me pedires para parar, eu paro. Mas no peas, por favor, no peas, por favor.
      Molly apercebeu-se de que as hbeis mos dele lhe desabotoavam a blusa e que os seus dedos calejados a abriam.
      Raios de sol danavam-lhe na face e na parte superior do peito, aquecendo-a, em total contraste com as frias carcias do ar matinal. Ela contraiu-se, tornando-se 
subitamente consciente de que ele estava  beira de lhe desnudar os seios e de descobrir todas as suas imperfeies sob aquela luminosidade implacvel.
      Tetas de vaca, havia-lhes chamado Rodney.
      Ainda agora, morria de vergonha ao recordar-se. Abriu de repente os olhos, e com o sangue a gelar-se-lhe nas veias, fixou Jake. A luz do Sol batia-lhe no espesso 
cabelo negro e pintalgava-lhe o queixo voluntarioso. Era to bonito, muito mais jeitoso do que Rodney em todos os aspectos. Santo Deus. O que  que ela estava a 
pensar? Se no tinha chegado para Rodney, como poderia estar  altura das expectativas de Jake?
      Imaginou a expresso do rosto moreno dele ao ver os seus seios cados e as suas coxas brancas e flcidas. Uma fria e terrvel vergonha apoderou-se dela, fazendo-a 
compreender que no podia continuar.
      No podia, no podia de forma alguma.
      No momento em que ele se preparava para lhe abrir o suti, libertando-lhe os seios, Molly cruzou a blusa sobre eles. Surpreendido pela sbita resistncia dela, 
Jake lanou-lhe um olhar ardente de paixo, enquanto a expresso do seu rosto se endurecia.
       O que foi?  sussurrou ele.
      Agarrando a blusa com fora, Molly lanou a cabea para trs.
       Eu... eu no... no quero fazer isto. No sei o que  que me aconteceu. Eu no quero mesmo fazer isto.
      Ao sentir os olhos de Jake pousados na sua face, ela compreendeu que ele estava  espera de uma explicao mais convincente. Mas o que lhe poderia ela dizer, 
que tinha vergonha que ele a visse, medo que sentisse repugnncia dela e se fosse embora, como Rodney tinha feito vezes sem conta?
      Lgrimas no vertidas escaldavam-lhe os olhos.
       Peo-te desculpa, Jake. Se pensares que no passo de uma provocadora e me odiares por isso, no te vou criticar. Mas eu... eu simplesmente no consigo fazer 
isto. Desculpa-me.
      Molly sentiu que a tenso o estava a abandonar. No ficaria admirada se ele desse um passo para trs e a deixasse cair da rvore. Se o fizesse no ficava zangada. 
Uma mulher j feita no deixa um homem avanar para, a seguir, sem razo aparente, o repudiar. Era cruel e indesculpvel.
      Em vez de se ir embora e a deixar cair, Jake continuou a segur-la com a fora das suas ancas. Ouviu-o respirar fundo de forma irregular e, a seguir, fazer 
um som sibilante, semelhante ao sopro de uma baleia.
       Desculpa  repetiu ela com voz trmula.
      Ele continuou a respirar da mesma forma durante mais algum tempo. Depois, segurou-lhe no rosto com as mos e obrigou-a a olhar para ele. Os seus olhos estavam 
da cor de ao derretido, o azul lmpido habitual havia-se turvado com o choque. Parecia extremamente furioso, mas a gentileza com que os dedos dele tocaram na sua 
pele, f-la compreender que, por razes que a ultrapassavam, a sua raiva no era contra ela.
        No peas desculpa  disse ele em voz grave.  O que  que fizeste para pedir desculpa?
       No devia ter deixado as coisas chegarem to longe.
      Ele riu-se ligeiramente e encostou a sua testa  dela, fazendo com que os seus olhos e as suas feies morenas se confundissem na viso de Molly.
       No acho que a culpa seja unicamente tua  disse Jake, endireitando-se para que ela pudesse deslizar pela rvore. Quando os ps dela bateram no cho, os 
seus tnis prenderam-se ao n de uma raiz, tornando-a mais alta e aproximando o seu rosto do dele.  Se bem me lembro  prosseguiu Jake , fui eu que me atirei a 
ti e no o contrrio.
      Ela tentou devolver-lhe o sorriso, mas os seus lbios trmulos no quiseram cooperar. Ele murmurou qualquer coisa incompreensvel e baixou a cabea para lhe 
mordiscar levemente o lbio inferior, ao mesmo tempo que lhe contornava as mas do rosto com os polegares. Assim que os lbios firmes e sedosos dele roaram os 
dela, Molly perdeu de novo a capacidade de pensar com clareza e largou a blusa para se agarrar com fora  camisa dele.
       Meu Deus!  sussurrou ele.  Nunca me senti assim. O que  que me estar a acontecer?
      Molly no sabia o que lhe estava a acontecer a ele, mas tinha a certeza de que ela havia perdido a cabea. Quando Jake se afastou, o calor ardente que viu 
nos seus olhos deixou-a sem a menor dvida de que ele sentia o mesmo que ela, e isso parecia-lhe ainda mais incrvel. Ele desejava-a. Teve imensa vontade de lhe 
perguntar porqu. O que  que um homem to bonito como Jake Coulter poderia ver numa mulher como ela?
       Acho que est na altura de te levar a casa  disse ele na sua voz rouca enquanto se dobrava para apanhar o chapu , seno ainda sou capaz de quebrar a minha 
regra de ouro.
       E que regra  essa?  perguntou ela.
      Jake sacudiu o chapu numa perna das calas, colocou-o muito bem sobre a cabea e olhou para ela com os olhos a brilhar:
       Achar que no, significa talvez.
      Voltou a aproximar-se da rapariga e pousou os olhos na sua ainda desabotoada blusa. Quando lhe tocou, Molly afastou-lhe as mos.
       Eu abotoo-a  insistiu ela.
      Jake observou-a durante um momento a abotoar atrapalhadamente os botes e, a seguir, foi dar-lhe uma ajuda.
       Fui eu que os desapertei, por isso posso ajudar-te a aboto-los.
      Molly tremia tanto que acabou por desistir, permitindo-lhe que acabasse de abotoar a blusa. Os seus nervos avivavam-se cada vez que os ns dos dedos dele roavam 
no seu peito e os seus seios suspiravam para que ele lhes tocasse de novo. Engoliu em seco e fez tudo o que pde para no olhar para ele.
      As mos de Jake detiveram-se no ltimo boto.
       Molly?
      Embora ele tivesse pronunciado o seu nome suavemente, o tom continuava a ser irresistvel. Ela levantou a cabea. No momento em que os seus olhares se cruzaram, 
Molly compreendeu que no podia desviar os seus olhos dos dele, mesmo que a sua vida dependesse disso. A ternura que viu nos olhos de Jake quase fez com que as lgrimas 
brotassem nos dela.
       s bonita  disse ele suavemente.  Desde o cimo da tua cabea at  ponta dos teus ps, s simplesmente bonita, e se algum alguma vez te disse o contrrio, 
era um grande mentiroso.
      
      
    Captulo 12
      
      
      
      Quando Jake regressou da floresta, Hank ainda estava no estbulo. Uma gua de raa quarter horse estava quase a parir e Hank tinha-se oferecido para passar 
o dia inteiro ao p dela.
       Como est a White Star? perguntou Jake.
        Bastante bem.  Hank fechou a porta da zona do estbulo que fazia de maternidade, situada mais  frente no corredor, e veio ter com Jake junto  entrada 
principal.  Est um pouco mais adiantada. Para no ter surpresas, voltei a tapar-lhe a cauda. No entanto, ainda no eliminou o tampo de muco cervical. Na minha 
opinio ainda vai levar mais um ou dois dias.
       A gua est muito agitada? Hank disse que sim com a cabea.
       Isso  sempre um sinal. Devemos continuar de olho nela para no termos uma surpresa.
       Como  que foram as coisas com a Molly?  perguntou Hank.
       No foram.
       O que  que queres dizer com isso? Falaste com ela ou no?
       No.  Jake esticou os braos na porta de uma das divisrias que davam para a frente, e olhou com tristeza para a gua amarelo-acinzentada que estava l. 
 No fui capaz, Hank.
      O irmo aproximou-se dele. Aps acalmar-se, perguntou-lhe:
       O que  que aconteceu?
      Jake esfregou o rosto com as mos e pestanejou. Tinha acontecido muito mais do que ele pretendia.
       Assim que Molly me viu, comeou a tentar adivinhar o que  que tinha feito de mal  olhou para o irmo.  Acho que o ex-marido deu cabo da sua auto-estima. 
 praticamente inexistente, eu no podia dar-lhe mais um golpe.
      Hank apertou os lbios.
        O que  que eu hei-de fazer? Sei que necessito de falar com ela, mas quando tento, penso nas toalhas de papel lindamente dobradas e vejo-a a correr  volta 
da cozinha atrs de Bart com a pasta de dentes na mo.
      Hank sorriu arrependido.
        Eu fiquei mais impressionado com as flores que ela fez com os morangos e ps em cima das panquecas transparentes. Aquilo custou-lhe tempo e esforo.
       Obrigadinho pela ajuda. Hank riu-se ligeiramente.
        Estava apenas a tentar ser compreensivo.  O ar de divertimento desapareceu-lhe do rosto e esfregou as mos.  Percebo o que queres dizer, Jake. Ela pode 
no estar a fazer exactamente aquilo que ns precisamos, mas no  nenhuma preguiosa. Alis, tem-se esfalfado bem. J encontraste saquinhos perfumados nas tuas 
gavetas?
      Jake puxou para cima o decote da T-shirt e cheirou-o.
       Ento  por isso que cheiro como uma puta francesa. Pensava que era por causa do detergente da mquina ou coisa do gnero.
       Npia. O Bart no  a sua nica vtima. Est a obrigar-nos a todos a cheirar bem.
       Acho que isso no nos vai matar.  A voz de Jake tornou-se estranhamente grossa e spera.  Ir critic-la quando ela se est a esforar tanto... no sei... 
quando olho para aqueles grandes olhos castanhos, no consigo.
      Hank fez rodar os braos para distender os ombros e voltou a encos-tar-se  porta.
       Talvez precises de utilizar uma tctica totalmente diferente.
       Como por exemplo?
        O que  que me dizes se, em vez de criticarmos os seus cozinhados, a fssemos ajudar e lhe mostrssemos como queremos que as coisas sejam feitas?
       Seria o mesmo que lhe dizermos que ela no  capaz de cozinhar.
       No, no seria. Ns gostamos da maioria do que ela faz, o problema  a quantidade. O truque  sermos subtis. Tens de aparecer na cozinha antes das refeies 
e dizer que lhe vais ensinar a fazer os pratos tpicos de um rancho, de que todos ns gostamos muito. Ela  boa observadora, vai notar que pes uma quantidade muito 
maior e o nosso problema fica resolvido. E, alm disso, vai aprender a cozinhar umas quantas coisas novas, tais como molho de carne e biscoitos caseiros.  Hank 
entusiasmou-se com o tema.  Eu posso apanh-la antes dela comear a fazer o almoo umas quantas manhs. Digo-lhe que tenho tempo livre e a quero ajudar.
       Tempo livre s cinco da manh?
       Pode ficar um pouco desconfiada, mas  melhor do que critic-la libertamente.
       Achas que ajud-la na cozinha  a melhor soluo? Hank disse que sim com a cabea.
       A quantidade de comida que ela nos tem embrulhado para o almoo no  suficiente. Eu vou buscar maionese a srio e fao quatro sanduches para cada um de 
ns em vez de duas. Ela vai reparar que as doses so maiores e, quando as caixas trmicas voltarem vazias, ir compreender que necessitamos de mais comida. Tambm 
ajudava se pudesses ir s compras com ela, pelo menos uma vez. Se me aparecerem de novo flocos de cereais dietticos, eu vomito.
      Jake ficou algum tempo a pensar na sugesto.
       Sabes uma coisa,  capaz de dar resultado.
       D resultado, se fizeres a coisa bem feita.
      Jake esfregou os olhos e, a seguir, acenou afirmativamente com a cabea.
       Est bem, vou tentar. Embora isso signifique roubar horas ao meu trabalho para a ajudar na cozinha.
       Achas que algum se vai queixar? Todos podemos fazer trabalho extra durante uns dias para te compensar. Para conseguirmos mais comida fazemos tudo!
      Jake teve a sensao de que lhe tinha sado um peso de mil quilos de cima dos ombros. Pelo menos, um dos seus problemas com Molly estava em vias de ser resolvido.
      Hank mudou de posio para encarar o irmo de frente.
       H mais qualquer coisa que te est a preocupar. Queres contar-me o que ?
      Jake contraiu-se.
       Por que  que achas isso? Hank procurou os olhos de Jake.
       Conheo-te, Jake, ns somos irmos. A mim no me enganas. Jake desviou o olhar.
        pessoal.
       V l, Jake, desembucha. Se no te podes abrir comigo, vais abrir-te com quem?
       Com ningum  respondeu Jake bruscamente.
       Ah! Tem a ver com a Molly. Bem, ningum te pode acusar de seres um gabarolas.  isso?
      Jake olhou o irmo com ar reprovador e afastou-se da porta. A seguir, virou-se e saiu do estbulo sem dizer uma nica palavra. Havia coisas de que ele no 
podia falar, nem sequer com o irmo. Os segredos do corao eram de natureza ntima, e a certeza que Molly tinha de ser feia era precisamente isso, um segredo do 
corao.
      Jake decidiu pr de lado o seu problema com Molly durante alguns dias e deix-lo amadurecer. Precisava de tempo para pensar e ela de tempo para digerir o encontro 
que haviam tido na floresta. Parecia-lhe que o melhor era afastar-se e deixar as coisas correrem o seu curso, sem interferir nelas.
      O plano era bom, mas a situao no lhe era favorvel. Assim que naquela noite ps um p na cozinha, compreendeu que no ia funcionar. No instante em que Molly 
olhou para ele, as faces dela adquiriram um alarmante tom vermelho.
      Jake ainda teve esperana que fosse uma coisa passageira. Sentou-se para comer, fazendo tudo o que considerava necessrio para fingir que no tinha acontecido 
nada, mas Molly ocupou o seu lugar habitual no outro extremo da mesa, ignorando-o de uma forma muito ostensiva.
       Como  que lhe correram hoje as coisas, patro?  perguntou algum para desanuviar o ambiente.
       Bastante bem. E a vocs?
      Fez-se silncio. Jake, que esperava uma resposta, levantou os olhos do prato e encontrou todas as cabeas voltadas para Molly. Olhou na mesma direco e descobriu 
a sua cozinheira e governanta a deitar uma autntica montanha de arroz no prato.
      De repente, Molly ficou paralisada fitando a colher que tinha na mo, sem perceber muito bem como  que l havia ido parar. A seguir, reparou na quantidade 
de arroz que tinha servido a si prpria e as suas faces voltaram a ruborizar-se. Quando olhou  sua volta e viu todos os olhares fixos nela, o rubor propagou-se 
ao resto do seu rosto, que adquiriu um tom de rosa ainda mais brilhante.
        Peo desculpa, estava distrada  explicou em voz suave, mas nervosa, ao mesmo tempo que comeou a tirar arroz do prato para a travessa.  Meu Deus, onde 
 que eu tinha a cabea?
      Jake sabia exactamente onde ela tinha a cabea. Era evidente que os homens percebiam que se havia passado alguma coisa desagradvel entre ele e Molly. Nove 
pares de olhos acusadores estavam virados para ele. Apesar de nas costas da rapariga se queixarem energicamente sobre a quantidade de comida que lhes dava, todos 
se tinham afeioado a Molly e tomavam uma atitude quase to protectora como a de Jake em relao a ela.
      Ele no os censurava. Molly preocupava-se com todos como se fosse uma espcie de me galinha, facto que ele comprovou ao olhar em seu redor. A manga da camisa 
de Shorty tinha uma linha de pontos no local onde ela lhe havia remendado um rasgo. Por insistncia de Molly, Levi tinha posto um penso rpido numa sobrancelha 
para tapar o arranho que fizera a trabalhar com arame farpado. Tex cheirava intensamente ao leo com que ela lhe esfregava o ombro todas as noites para lhe aliviar 
as dores que a bursite lhe causava. Bill, que raramente tinha dinheiro para ir ao barbeiro por causa da penso que pagava ao filho, apresentava um novo corte de 
cabelo. Em suma, no havia um nico homem no grupo que no tivesse, de alguma forma, beneficiado da sua bondade. At a vida do co tinha melhorado desde que ela 
chegara.
      Jake esforou-se para engolir o arroz pegajoso que lhe enchia a boca. Um pouco depois, deitou outra olhadela a Molly, que cortava um pedao de galinha com 
a cabea inclinada sobre o prato. Uma vez que raramente comia carne, o prprio facto era um sinal do quanto estava perturbada. .
      A deciso de pr de lado o seu problema com Molly revelara-se impraticvel.
      Sabia que tinha de falar com ela. Havia coisas que se podiam deixar como estavam e outras no. Era bvio que esta se enquadrava na segunda categoria.
      Molly rodopiava  sua volta, atarefada a levantar a mesa e a passar os pratos por gua antes de os colocar na mquina, evitando o olhar dele. Quando Jake lhe 
dizia alguma coisa, ela murmurava uma resposta breve, sem que se produzisse qualquer troca de palavras que no fosse estritamente necessria entre ambos.
       Eu posso ir para casa sozinha esta noite  informou-o ela quando a cozinha ficou pronta. Foi buscar uma lanterna que estava no cimo do frigorfico e, sem 
sequer olhar para trs, saiu da cozinha, detendo-se apenas  entrada da porta para ir buscar a parka.  No  assim muito longe e eu j no tenho medo dos pumas.
      Jake achou que os pumas tinham passado para segundo plano perante um perigo muito maior, ou seja, ele prprio. Seguiu-a at ao cabide, de onde tirou o seu 
bluso Wrangler, deixando l o chapu. Algumas manobras eram mais fceis de executar se um homem no levasse chapu.
      Molly olhou para ele admirada quando o viu a vestir o bluso.
       Eu disse que podia ir para casa sozinha.
        Eu ouvi  respondeu Jake, aproximando-se dela para a ajudar a pr a parka. Sentiu-a estremecer quando passou o dedo por baixo da gola para lhe desprender 
a trana.  O que podes fazer e o que vais fazer so duas coisas diferentes.
      Jake no conseguiu dizer mais nada, porque ela atravessou o salo e foi direita at  porta. J no alpendre, e com a porta fechada atrs deles, virou-se para 
o enfrentar. Levantando com ar desafiador o seu pequeno queixo, olhou-o com os seus grandes olhos a brilharem sob os raios de luar que batiam obliquamente no beiral 
do alpendre.
       Molly, sei que ests muito zangada comigo  comeou ele a dizer.  Podamos conversar?
       Eu no estou zangada contigo  disse ela com nervosismo.  Estou furiosa comigo, o que  muito diferente.
       Porqu?
      A lanterna balanava nas mos de Molly.
       No quero falar sobre isso, Jake. Gostava que fingssemos que esta manh no existiu.
      Jake teve a impresso de vislumbrar lgrimas nos olhos de Molly antes dela se virar para descer os degraus. Ficou a olhar para a rapariga durante uns instantes. 
Se o balano errtico da luz da lanterna dela servia de indicao, as coisas ainda iam ficar pior antes de poderem comear a melhorar. Suspirou, enfiou as mos nos 
bolsos e desceu os degraus trs a trs. Quando chegou ao ptio arrancou a grande velocidade, alargando as passadas para a apanhar.
      Molly virou-se ao ouvir os passos de Jake atrs dela. Desta vez a sua voz passou de nervosa a extremamente trmula, tornando-se mais esganiada a cada entoao. 
Pelo som, Jake compreendeu que ela estava a travar uma batalha com as lgrimas e que a ia perder.
       Queres deixar-me em paz?  gritou ela.
       Acho que precisamos de falar.
       Ns no precisamos de falar. Para qu? Para tentares convencer-me de que sou bonita e me sentir menos ridcula?
       Ridcula? Porqu?Fui eu quem comeou, no tu. Se algum se deve sentir ridculo, sou eu.
      A luz da lanterna descrevia um grande arco  volta dos ps de Molly, ao mesmo tempo que ela balanava o brao para trs e para a frente contra as pernas.
       No quero falar sobre esse assunto. Neste momento nem te quero ver perto de mim. Ser que no percebes isso?
      Ele percebia muito bem, mas no compreendia porqu. O pnico que viu nos olhos dela dizia-lhe que fugir seria provavelmente a sua prxima reaco. Tinha de 
resolver o assunto naquele mesmo momento, porque se o deixasse para o dia seguinte, era possvel que ela j se tivesse ido embora.
       Por que  que no me queres perto de ti?  perguntou ele.  Podes explicar-me porqu?
        bvio, no ?
       Ai, Molly  disse Jake na sua voz rouca , que raio  que ele te fez?
      Ela levantou de novo o queixo, apenas a ligeira tremura do lbio inferior a traa. No seu rosto os olhos eram grandes manchas de mbar iluminadas pelo luar, 
mas agora a nica coisa que Jake via neles era sofrimento. Um sofrimento to profundo que ultrapassava as prprias lgrimas.
      Aproximou-se dela com o nico propsito de a envolver nos seus braos.
       No!  disse ela.
       No, o qu?
       Simplesmente no  repetiu Molly.  Sei que tambm te sentes mal e ests a ser simptico por quereres fazer-me sentir melhor, mas isso s vai piorar as coisas.
       Que coisas?
      Dos lbios de Molly saiu um murmrio de frustrao e os seus olhos fecharam-se com muita fora,
        Qual  o teu jogo, Jake? Seja ele qual for, no estou disposta a jog-lo.
       No estou a fazer nenhum jogo, Molly. Por que  que pensas isso? Ela lanou-lhe um olhar acusador.
       Porque nada disto faz o menor sentido,  essa a razo. Somos ambos adultos. No podes pr uma pedra sobre o assunto e continuar a vida como se nada tivesse 
acontecido?
       Mas aconteceu.
       Sim, infelizmente  ela suspirou e inclinou a cabea para trs para contemplar o cu.  Sabes qual , na minha opinio, o problema? s demasiado gentil para 
o teu prprio bem, e tambm para o meu.
       Obrigado pelo elogio, j  alguma coisa.
      Ela riu-se suavemente, um riso sem qualquer humor e com laivos de amargura.
       Insensato, mas gentil.
       Oh!
      Molly soltou um suspirou e encarou-o.
        Lamento diz-lo, mas  verdade. No deves andar por a a beijar mulheres s para que elas se sintam melhor.  perigoso.
       Ah, estou a ver. Devo beijar as mulheres para que elas se sintam pior.
      Ela revirou os olhos.
       No sejas deliberadamente idiota.
       Oh! Outra vez. Jake inclinou a cabea e coou o queixo.  Molly, acho que necessitamos de voltar ao princpio e esclarecermos por que  que eu te beijei?
       O que  que h para esclarecer? Deste-me um piropo, eu no acreditei em ti, e com o teu desejo insensato de quereres fazer-me sentir bonita, beijaste-me 
para provares que tinhas razo. Infelizmente para ti, e para mim tambm, o tiro saiu-te pela culatra. Foste atacado por uma divorciada fogosa, no me rejeitaste 
para no ferir os meus sentimentos e perdeste o controlo da situao  suspirou e tirou a sua mo da cintura para sacudir uma madeixa de cabelo que se tinha soltado 
da trana.  Mas graas a Deus recuperei o juzo a tempo.
      Jake teria preferido que no o houvesse recuperado. Tudo isto poderia ter sido evitado se ela se tivesse deixado levar pela paixo. No estaria agora a encolher-se 
para esconder aqueles magnficos seios, tinha a certeza disso.
       Quero que saibas  prosseguiu Molly  que no te culpo de nada. Sei que os homens se excitam com facilidade, sobretudo depois de passarem meses a fio a trabalhar 
no duro, sem satisfazerem devidamente as suas necessidades fsicas, como  o teu caso. Eu atirei-me a ti. Houve contacto entre os nossos corpos. No foste capaz 
de te controlar fisicamente e a partir de a, deu-se uma reaco em cadeia.  Encolheu os ombros.  Foi um infeliz mal-entendido e nada mais. Peo imensa desculpa 
pelo que fiz. Agora tudo o que desejo  esquecer-me do que aconteceu.
       Ento, j conseguiste perceber tudo o que se passou, no foi? Ela evitou olhar para ele.
       Praticamente. Teres vindo atrs de mim surpreendeu-me um pouco. Receio que a ideia absurda de que as coisas correro melhor se me beijares outra vez te esteja 
a passar pela cabea. O plano no  bom.
       Porqu?
        Porque tu s...  suspirou e depois gesticulou como se quisesse apagar aquelas palavras  no interessa.
        Porque eu sou o qu?  insistiu ele.  Detesto frases deixadas a meio.
       Demasiado atraente  murmurou ela.
       Desculpa?
       Ouviste-me muito bem.
       Achas-me atraente, Molly? Ela semicerrou os olhos.
       No, acho que s um autntico co. Por que  que julgas que sucedeu aquilo esta manh? Pensas que eu reajo assim com todos os homens que me beijam?
      Jake cruzou os braos para no lhe tocar.
       Peo a Deus que no. Eu sou possessivo.
      Ela voltou a revirar os olhos. A seguir, deu meia volta e foi-se embora, aos gritos:
       Vou para casa agora mesmo. Fim da discusso. Jake foi atrs dela. Ao apanh-la, disse:
       Ouvi o que tinhas para dizer, por isso  justo que tambm me ouas a mim.
        Fala depressa, porque quando chegar  porta, vou entrar em casa e tu no s bem-vindo.
      Jake agarrou-lhe o cotovelo para a fazer andar mais devagar.
       Em primeiro lugar eu no beijo mulheres para ser amvel. Nunca o fiz, nunca o farei e tambm no foi o que aconteceu hoje. Beijei-te porque era o que eu 
queria fazer desde o momento em que te vi.
       Oh, inventa outra.
       Eu no te interrompi com comentrios sarcsticos, portanto no me interrompas  obrigou-a a parar e virou-se para examinar o seu rosto fatigado.  Em segundo 
lugar, sinto-me ofendido com a insinuao de que me excito muito facilmente e estou to sexualmente carenciado que qualquer corpo quente me serve.
      Ela olhou para ele assustada.
       Eu no quis dizer isso.
       Ainda bem, porque eu no me deito com qualquer uma.
       Ah!
       Ao contrrio do que certas pessoas pensam, nem todas as decises dos homens so tomadas em funo do que tm entre as pernas. Santo Deus.  Apontou para 
a floresta com o polegar.  No sei o que  que se passou ali. Combusto espontnea, seria a melhor descrio para o que sucedeu. Apenas te quis beijar, e sem saber 
como, tinha-te encostado a uma rvore.
       No me recordes isso.
        Como  que achas que eu me sinto? Costumo tratar as mulheres com respeito. S te conheo h pouco mais de uma semana e j estava praticamente a fazer amor 
contigo. E em plena luz do dia, nem mais nem menos.
       Precisas de me recapitular tudo tintim por tintim? Tambm no foi um dos meus melhores momentos.
      Ele ignorou esta observao.
       No tenho nada contra a natureza e a luz do dia. No me compreendas mal. Mas estvamos muito perto da casa.
      Molly tapou os olhos com a mo:
       Oh, meu Deus!
       Podia ter passado algum e ver-nos naquela situao. Ela gemeu de novo.
       Estava completamente transtornado.
       Eu tambm  disse ela num fio de voz.  Peo imensa desculpa, foi por minha causa.
       Por tua causa?  Jake puxou-lhe a mo para lhe destapar os olhos, agarrou-a pelos ombros e inclinou-se para a olhar bem de frente.  Ningum tem culpa, Molly. 
Aconteceu simplesmente. s uma mulher bonita e muito doce. Nunca um beijo me havia provocado um efeito to rpido e to devastador em toda a minha vida.
       J voltaste outra vez ao mesmo.
       J voltei outra vez ao qu?
       A dizer que sou bonita. Tens de parar com isso.
        Porqu? Ests com medo de comear a acreditar em mim? E, por que no? Acreditaste no Rodney.
       Vamos deixar o Rodney de fora.
       No o podemos deixar de fora.  devido s suas mentiras que estamos a ter estes problemas agora.  Ela tentou falar, mas Jake ps-lhe um dedo sobre os lbios 
para a calar.  Molly, confias em mim?
      A rapariga franziu o nariz.
       Esquece-te do que aconteceu esta manh  insistiu ele.  Antes disso, confiavas em mim?
       Estou aqui, no estou?  disse ela, tocando com os lbios no dedo dele.  Se no confiasse em ti j me tinha ido embora h muito tempo.
       Ainda bem. Nesse caso, d-me quinze minutos. Molly pestanejou e fitou-o com ar srio.
       Para qu?
       Quero apresentar-te a uma pessoa.
       A quem?
        uma surpresa. Ds-me os quinze minutos?
        Acho que sim  respondeu ela hesitante , mas apenas se me prometeres que te vais comportar como deve ser.
      Jake dirigiu-a para a casa de madeira, segurando-a firmemente pelo brao. Molly olhou perplexa para ele com a luz da lanterna a balanar  sua frente.
       Pensava que me ias apresentar a uma pessoa.
       E vou.
      Quando chegaram ao alpendre, Jake arrastou Molly pelas escadas acima to depressa quanto as curtas pernas dela lhe permitiam. A seguir, abriu a porta com os 
ombros, esticou-se para acender o candeeiro e fez Molly entrar em casa  frente dele, empurrando-a suavemente. Depois de fechar a porta, deu uma olhadela ao relgio, 
pondo-o diante do nariz da rapariga para que ela visse as horas.
        Quinze minutos  repetiu ele  e confiana absoluta em mim. Prometo que no te vais arrepender.
       J me estou a arrepender  disse ela, quando Jake lhe agarrou o brao e a levou para a casa de banho.  O que  que ests a fazer? No h aqui ningum para 
me ser apresentado.
      Ele f-la entrar  sua frente naquele local escuro.
        Acaba de chegar  respondeu Jake, acendendo a luz do tecto. Encadeada com a luminosidade, Molly semicerrou os olhos para conseguir ver. Ainda a sua viso 
no se tinha normalizado j Jake a havia colocado diante do espelho e comeado a desfazer-lhe a trana. Quando ela o tentou deter, ele impediu-a com os braos, dizendo: 
 Confiana, lembras-te?  Depois de lhe ter soltado o cabelo, ordenou:  Fica aqui. No te mexas.
       Ests a pr-me muito nervosa.
      Jake abriu a porta do pequeno armrio da casa de banho. L dentro havia toalhas que ele tinha deixado para as visitas. No se interessou por nenhuma das que 
estavam mais acima e foi buscar a toalha cor-de-rosa que se encontrava no fim da pilha. A seguir, procurou entre os artigos de higiene pessoal colocados na ltima 
prateleira e escolheu uma escova que tinha alguns fios de cabelo cor de whisky, presos nos duros filamentos da cerda.
      Ele foi para trs dela e sorriu-lhe no espelho.
       No te quero enervar. Atura-me s mais um segundo, est bem?
      Depois de colocar a toalha na borda do lavatrio e prescindir da lanterna, tirou-lhe a parka e atirou-a para o lado. No momento seguinte, comeou a escovar-lhe 
os cabelos. Pareciam fios de seda a escorrer-lhe por entre os dedos, os caracis pegavam-se s suas mos, manifestando-lhe um carinho muito maior do que a dona deles 
alguma vez lhe havia demonstrado. Jake viu no espelho o ar perplexo dela.
       No estou to louco como pareo.
      Os olhos de Molly tornaram-se mais escuros ao fixar o seu reflexo.
        No consigo aguentar isto  disse ela, trmula.  No consigo mesmo.
      Jake notou uma nota de pnico na voz dela. Examinou-lhe o rosto, que perdera toda a cor. O suor brilhava-lhe na testa.
      A seguir, fixou a ateno nos olhos dela. Nunca em toda a sua vida vira algum com um ar to perdido. As mos dele ficaram imveis. No local onde os seus pulsos 
roavam os ombros de Molly, sentia a respirao dela rpida e pouca profunda.
       Molly  sussurrou ele. Olhou para baixo e viu que a rapariga se tinha agarrado s bordas do lavatrio com tanta fora que os ns dos seus dedos se haviam 
tornado brancos.  Querida, o que  que se passa?
      Um estremecimento agitou o corpo dela. Os seus olhos assustados procuravam os dele no espelho.
        No consigo aguentar isto. Sei que  estpido, mas...  incapaz de falar, cerrou as plpebras com toda a fora.  No consigo, pura e simplesmente.
      Jake pousou a escova e agarrou Molly firmemente pelos ombros.
       O que  estpido?
       Nada  disse ela, exausta.
       Explica-me, Molly  insistiu ele.
       Vais achar-me louca.
      Ele massajou-lhe os msculos endurecidos dos ombros, descrevendo movimentos circulares com o seu polegar.
       No, no vou. Juro que no vou. Explica-me.
         que...  ela contorceu o rosto, a sua respirao tornou-se entrecortada  quando me olho ao espelho, no me consigo encontrar. A pessoa que est no espelho... 
 algum que eu no conheo.
      Jake pousou a face sobre a cabea de Molly. A dor que lhe trespassou o corao foi to grande que quase o impedia de respirar.
        s isso?  perguntou ele, fazendo um grande esforo para esboar um sorriso.  Querida, isso sucede a toda a gente de vez em quando.  natural.
       Isto  diferente  insistiu ela.  Sinto-me vazia por dentro. A pessoa que eu era j no est l.
      Jake suspirou e abraou-a, deslizando as mos at  cintura dela. O facto de Molly no ter tentado afastar-se, revelava-lhe at que ponto ela estava perturbada.
       No  nada disso  garantiu-lhe ele.  Tu ests l, mida. Confia em mim. Apenas te sentes perdida e confusa neste momento.  Jake examinou o plido reflexo 
dela, sorrindo levemente  medida que observava cada ngulo da sua face. Foi ento que compreendeu que todos os traos de Molly se encontravam indelevelmente gravados 
no seu corao.  Vejo quem tu s a toda a hora num nmero infindvel de pequenas coisas, e os outros tambm vem o mesmo. s a pessoa com melhor corao que eu 
conheo. Se no acreditas em mim, pergunta ao Bart. A vida dele nunca foi to boa. Ou pede a opinio do Sunset. Pode dizer-te umas quantas verdades sobre ti prpria, 
por exemplo, que tens mais coragem no teu dedo mindinho que muita gente no corpo inteiro.
      Ela abriu os olhos e fixou-o com expresso incrdula.
       Eu no sou corajosa.
       Infringiste a lei para salvar aquele garanho. Acredita em mim, mida,  preciso coragem para isso.
       No tive outra soluo. O Sunset era capaz de acabar abatido.
       Muitas pessoas no se teriam importado com isso, pelo menos no ao ponto de arriscarem a sua pele. Por mais voltas que ds, foi um acto corajoso.
      Um ligeiro tom rosado surgiu nas faces de Molly. Jake sorriu-lhe no espelho. A seguir, inclinou-se para colocar o seu rosto ao nvel do dela e disse-lhe:
       Independentemente de todas as tuas qualidades interiores, gostaria que visses a Molly que eu vejo. Acho que nunca olhaste para ela ou j no olhas h muito 
tempo.  Segurou-lhe no queixo com o dedo em forma de gancho, levantando-lhe o rosto em direco  luz.  Quero que olhes de verdade para cada um dos teus traos, 
Molly. Esquece-te de tudo o que te disseram at hoje e olha de verdade.
      Os olhos de Molly fixaram-se no seu prprio rosto.
       Tens o cabelo mais bonito que eu j vi. Jake levantou uns quantos caracis com a palma da sua mo e virou-os para a luz.  Repara como eles brilham. J 
puseste um copo de whisky diante de uma chama? O teu cabelo  assim, tem a cor do whisky iluminado pelo fogo.  Ele continuou a mover o pulso at Molly olhar para 
o jogo de luzes que se formavam no seu cabelo.   bonito, Molly. No concordas comigo?
      Ela engoliu em seco e a sua garganta manifestou-se, fazendo rudos,
       A forma como o movimentas sob a luz torna-o bonito  anuiu ela,
       No  nada que se parea com os reflexos que ele faz quando o tens solto e mexes a cabea.  o mesmo que contemplar remoinhos de fogo lquido.
      Deixou o cabelo escorregar-lhe da palma da mo e voltou a concentrar-se no rosto dela.
       Agora os teus olhos  disse ele com um sorriso.  Olha para esses olhos.
      Ela fez o que ele lhe sugeriu.
       So quase da mesma cor do teu cabelo e tm um brilho lindo. Conquistaram-me assim que te vi. Foi a primeira coisa que reparei em ti, os teus maravilhosos 
olhos.
      Esses olhos fitavam-no agora perplexos.
       Reparaste nos meus olhos?
       Sem dvida. Mesmo sem risco ou sombra para os fazer sobressair, destroem coraes.
      As faces dela ruborizaram-se.
       Isso  um disparate.
      Jake deitou uma olhadela ao relgio.
       Ainda tenho dez minutos para dizer disparates.  Virou ligeiramente o rosto dela.  Agora o nariz.  No conseguiu reprimir um sorriso ao olhar para ele. 
  pequeno e perfeitamente direito, excepto mesmo na ponta onde  um pouco arrebitado. Como  que algum pode encontrar algum defeito num nariz como este? O meu 
tem o dobro do tamanho e ainda por cimo  adunco.
       No  nada adunco.
      Ele sorriu e piscou-lhe um olho.
       Discutimos isso mais tarde. Agora, vamos deixar o teu nariz perfeito para nos concentrarmos nas mas do rosto bem modeladas.  Percorreu-lhe a parte inferior 
da bochecha com o dedo.  Ouvi dizer que as artistas de cinema arrancam os molares para ficarem assim.
       Ests a brincar comigo.
       Achas que eu te ia mentir?  Deslizou o polegar at ao lbio inferior dela.  E olha-me para esta boca? To rosada e sem um nico vestgio de batom. Na segunda 
noite que c passaste morri de vontade de te roubar um beijo.
       A srio?
      Ele riu-se baixinho.
       Ainda bem que no o fiz. J chegou o sarilho em que me meti esta manh.
      Molly baixou a cabea, as suas pestanas negras tombaram-lhe sobre as faces como se fossem fios de seda.
       No  apenas o meu rosto, Jake. Sou toda eu.
       Vamos agora para l.
      MoUy olhou horrorizada para ele.
       Ai, isso  que no vamos. Ele piscou-lhe o olho.
        No te vou desnudar nenhuma parte do corpo, juro. Apenas te quero mostrar uma coisa.
       O qu?
      Jake aproximou-se de Molly para lhe desabotoar a blusa, mas ela agarrou-lhe as mos.
       Disseste que no me ias desnudar nenhuma parte do corpo.
       E sou um homem de palavra. Tem calma.  Desabotoou o segundo boto, depois o terceiro e, ainda, o quarto.  S quero meter a gola para dentro e abrir um 
pouco a blusa.
       Isso  desnudar uma parte do corpo.
       Nesse caso estou sempre a ver partes do corpo desnudas no centro da cidade  respondeu ele.  As mulheres usam decotes deste tamanho todos os dias.
       Elas so elas e eu sou eu.
        Sim, mas tomaram elas ser como tu.  Olhou intencionalmente para o generoso colo que se formava por cima do decote em V da blusa.
       Os teus seios so lindos, Molly.
        So grandes e descados  informou-o ela com a voz entrecortada.
       F-los descair para o meu lado e vais ver o que  que sucede  colocou-lhe a toalha sobre o peito, formando um decote generoso.  Aqui est  sussurrou ele. 
 Podes usar e abusar desta cor.
      Ao olhar para cima ela ficou paralisada. Jake sorriu:
       O que  que choca aqui?  perguntou ele.  O cor-de-rosa  a sua cor, minha senhora. Basta ver o brilho desta pele.  Percorreu o bordo da toalha com um 
dedo, perfeitamente consciente que esse contacto a fazia estremecer.  Se isto no  a perfeio, ento o que  a perfeio?   disse ele com a sua voz rouca.  
E o cor-de-rosa faz um contraste fantstico com a tua pele, faz-me lembrar morangos com natas.
      Tirou-lhe a toalha e atirou-a para o lavatrio. A seguir, pousou as mos na cintura de Molly e, sorrindo para ela por cima da sua cabea cheia de caracis, 
disse:
       Molly, apresento-te a Molly, uma das mulheres mais bonitas que os meus olhos alguma vez viram.
      Uma nova onda de rubor afluiu s faces dela. Os olhos de ambos cruzaram-se no espelho.
       Nenhum homem solteiro teria resistido a beijar-te esta manh. Talvez devesse pedir-te desculpa por me ter descontrolado, mas no te vou pedir. F-lo-ei outra 
vez se tiver metade da oportunidade, por isso considera-te avisada.
      Ela baixou a cabea e ficou a olhar para a torneira.
      Jake consultou o relgio.
       Ainda tenho sete minutos. Uma vez que te pedi para confiares em mim, vou comportar-me e no te beijarei de novo esta noite. No entanto, no serei comedido 
com as palavras e vou dizer-te umas quantas coisas que so capazes de te perturbar e at fazer com que me odeies um pouco. Mas so coisas que precisas de ouvir, 
por isso vou arriscar.
      Agarrou-se com fora s bordas do armrio da casa de banho e inclinou-se para cheirar o cabelo dela. Os odores do champ, do sabonete e de Molly penetraram 
na sua cabea, deixando-o um pouco tonto.
       Tens uns seios fantsticos  disse Jake e sentiu-a mais tensa.  Vou dizer-te outra vez. Tens uns seios fantsticos, perfeitos.
        No os viste  murmurou ela com nervosismo, tentando mudar de posio, uma vez que estava ensanduichada entre o corpo dele e o armrio.
      Jake bloqueou-lhe o caminho com o brao.
        No te vais embora, Molly. No te vais embora enquanto eu no acabar.
      Ela olhou-o no espelho com ar fatigado.
       No me faas isso.
       No te fao o qu? Apenas te estou a dizer a verdade.  evidente que no  o tema de uma conversa educada, mas ns passmos a fase da educao quando estivemos 
encostados quela rvore esta manh. Altura em que, devo acrescentar, tive os teus seios nas minhas mos e os beijei atravs da tua blusa  piscou-lhe outra vez 
o olho.  Podes dizer a ti prpria que eu no sei o que est por baixo da tua roupa, mas sou obrigado a corrigir-te, conheo-o pelo tacto.
       Conhece-lo pelo qu?
        Pelo tacto  levantou a mo e roou os seus dedos uns nos outros.  Estes dedos sabem reconhecer uns seios fantsticos quando lhes tocam.  Ficou um momento 
a estudar o rosto dela.  Era capaz de apostar que foi o velho Rodney quem te disse que o teu corpo deixava muito a desejar.
      Ela desviou imediatamente o olhar.
       Bem me pareceu. Jake agarrou-se com fora  borda do armrio.  No conheo esse homem, mas basta-me ver o que ele fez ao seu cavalo e  sua mulher para 
saber que  um bandalho.
      Molly voltou a lanar-lhe um olhar perplexo, ao qual ele respondeu com um grande sorriso.
       Um bandalho mentiroso  corrigiu Jake.  s uma mulher pequena e deliciosamente rolia. Queres ouvir a minha descrio dele? Acho que  um merdas como homem, 
ainda pior como marido e um sacana de um mentiroso em toda a acepo da palavra, se me permites a linguagem, no quis que a mulher lesse histrias de amor para no 
lhe criarem expectativas irrealistas. Isso cheira a complexo de inferioridade por todos os lados. Acho que ele fez tudo o que pde para te sentires feia porque isso 
lhe dava maior controlo sobre ti. Devia ter medo que descobrisses que te tinhas casado com um falhado e o trocasses por um homem de jeito. Jake endireitou-se.
        Eu, no caso dele, punha-me a ler os teus livros sempre que os apanhasse  mo, para aperfeioar as minhas qualidades e agradar-te. Vou dar-te um segundo 
aviso.  Deslocou-se em direco  porta. J comprei uns quantos.
      Molly virou-se para ele.
       O que  que tu compraste? Ele olhou-a bem nos olhos.
       Romances de amor. J li trs quartos do primeiro.  Fez um longo sorriso.  Tudo o que posso dizer  que aprecio a tua forma de pensar.
      
      
      
    Captulo 13
      
      
      Depois de Jake se ter ido embora, Molly voltou-se para ver o seu reflexo no espelho. Tocou com as mos no cabelo, ficando a olhar para aquele monte de caracis 
indomveis, de que nunca havia gostado e tinha acabado por odiar depois de se casar com Rodney. Mas, agora, aps ter escutado o tom potico com que Jake descrevera 
a beleza do seu cabelo, comeava a questionar-se se o devia usar solto. Talvez ele tivesse razo e fosse um dos seus pontos fortes em vez de fracos.
      Pegou na toalha que Jake tinha deixado no lavatrio, colocou-a sobre o peito e examinou-se com ar avaliador. Seria possvel que tivesse passado uma dcada 
inteira a esconder o melhor que tinha? Sempre havia gostado de cor-de-rosa, mas Rodney convencera-a de que a fazia parecer muito corada. Aproximou a amachucada toalha 
do rosto, inclinou-se para o espelho e contornou as faces com um dedo. Por mais que se esforasse, no encontrou o menor sinal de que a sua tez se estivesse a tornar 
encarniada. Talvez Rodney lhe tivesse mentido durante todos estes anos, tal como Jake afirmava.
      Segundo este, o cor-de-rosa era a cor que melhor lhe ficava. Embora ele no lho tivesse chegado a dizer, Molly compreendeu que Jake desejava que ela deixasse 
de usar tons neutros e fosse um pouco mais ousada na sua maneira de vestir. Uma imagem de si prpria com calas de ganga justas e uma blusa de malha cor-de-rosa 
escandalosamente colada ao corpo surgiu-lhe na mente. A simples ideia de expor o seu corpo daquela forma fez com que as suas faces se ruborizassem de vergonha.
      Tons avermelhados, pensou ela ao ver-se to rosada. Sempre corara com muita facilidade, por calor, esforo ou vergonha. Talvez os conselhos de Rodney se devessem 
a essa tendncia para se ruborizar por tudo e por nada. O cor-de-rosa das suas faces no chocava, nem se tornava demasiado intenso ao lado da toalha. Ou seria que 
no? Jake tinha associado o contraste a morangos com natas.
      Rodney  Jake. Jake  Rodney. Em qual deles  que devia acreditar? Quem tinha razo e quem no tinha? Ao ponderar a questo, uma dor lacinante apoderou-se-lhe 
das fontes. No sabia em quem acreditar, deveria dar ouvidos a Jake ou continuar a vestir-se e a pentear-se como era at agora, ou seja, como Rodney lhe sugerira?
      Nesse momento, a sua dor de cabea tornou-se insuportvel. Santo Deus. Era a pura verdade; ela continuava a viver dentro das pautas que Rodney lhe havia traado. 
Todas as peas de roupa do seu armrio tinham sio escolhidas de acordo com os conselhos dele. Roupas largas, que dissimulem as formas e cores neutras, recomendara-lhe 
sempre, No tens corpo ou tez que permita usar outra coisa. Era por sua causa que no se maquilhava, com medo de parecer uma prostituta. Era por sua causa que 
usava aqueles sapatos com plataformas enormes, que ela detestava, para parecer mais alta. J nem sequer se ria com naturalidade por causa dele.
      No era de admirar que no fosse capaz de se reconhecer quando se olhava ao espelho. Molly levou a mo ao pescoo ao tomar conscincia de um facto ainda mais 
alarmante. Agora, em vez de seguir as regras de Rodney, estava a pensar seriamente em obedecer s de Jake.
      Abalada, deixou-se cair no cho da casa de banho, sem saber o que pensar. Apenas uma coisa lhe parecia clara naquele momento. H dez anos, havia feito todos 
os esforos para agradar a Rodney, vestindo as roupas que ele preferia e penteando-se como ele gostava. Agora, aps ter passado por um casamento infernal e conseguido 
sair dele, estava a dar ouvidos a outro homem e quase a fazer o mesmo.
      Cerrou os punhos sobre os joelhos com toda a fora. Estava to farta, terrivelmente farta de que lhe dissessem o que tinha de fazer. Se lhe apetecesse rapar 
a cabea e usar um bodysuit de spandex cor de prpura brilhante, ningum tinha nada a ver com isso. Deixara de ligar  opinio de Rodney e no ia comear agora a 
governar a sua vida de acordo com as regras de Jake Coulter. Estava sozinha, tinha quase trinta anos e vivia num pas livre. Ningum tinha o direito de lhe dizer 
como se havia de comportar, o que tinha de fazer ou o aspecto que devia adoptar.
      Daqui em diante, ia fazer o que lhe apetecesse e mandar todos para diabo.
      Levantou-se e virou-se para ver o seu reflexo no espelho. Cabelo. Era a nica coisa que conseguia ver. O seu pequeno rosto mal aparecia no meio daquele caos.
      Abriu a porta do armrio, tremendo violentamente, e procurou com frenesim uma tesoura. Quando a encontrou, voltou para o lavatrio, agarrou numa madeixa de 
caracis e cortou-a com raiva, deixando o cabelo apenas com cerca de cinco centmetros de comprimento. Tesourada, te-sourada, tesourada. Aqui tens, Jake Coulter. 
Tesourada, tesourada, ela no era uma ovelha estpida, que podia ser empurrada, espicaada e conduzida. Talvez devesse comear a usar batom vermelho-vivo e brincos 
espalhafatosos que lhe chegassem at aos ombros. Por que no?
      Quando j no havia mais caracis para cortar, sentiu-se totalmente exausta. Deixou a tesoura escorregar-lhe dos dedos e cair no lavatrio, juntamente com 
a toalha e as madeixas cortadas do seu cabelo. Obrigou-se a si prpria a olhar para o espelho, com medo de se ver. No momento em que contemplou o seu reflexo, os 
olhos inundaram-se-lhe de lgrimas.
      Rodney no havia mentido. Ela parecia o palhao Boz.
      
      
       A Molly est atrasada  disse Hank, mal-humorado.
      Jake limitou-se a sorrir e encheu a sua segunda caneca de caf.
       Sim,  verdade.
       Ela nunca se atrasa  frisou Hank.  No tens medo que lhe tenha acontecido alguma coisa?
      Jake riu-se ligeiramente.
       Est aqui, est a chegar.
       Ia ajud-la a fazer sanduches.
      Jake afastou-se da cafeteira. A seguir, levou a caneca fumegante aos lbios e bebeu um pequeno e demorado gole de caf, olhando para o irmo por cima da borda 
da caneca de porcelana.
       No podemos assust-la logo no primeiro dia. Por que  que no vais mungir as vacas e recolher os ovos?
       E tu, vais ajud-la a fazer o pequeno-almoo? Jake disse que sim com a cabea.
       E que tencionas fazer?
       Um pequeno-almoo  moda do rancho com todos os acompanhamentos  respondeu Jake.
       Biscoitos totalmente caseiros?
       Sim.
       Batatas fritas e molho de carne? Jake sorriu de orelha a orelha:
       Sim.
       Bacon, salsichas e ovos?
       Provavelmente algum fiambre tambm  garantiu-lhe Jake. Hank, que j estava quase a babar-se, foi  sala das mquinas buscar o cesto dos ovos e o balde do 
leite.
      Quando Molly saiu da casa de madeira, reparou que estava uma coisa no alpendre, junto ao umbral da porta. Olhou para baixo e ficou perplexa ao encontrar um 
livro brochado e um ramalhete de cravinas. Agachou-se para ver melhor. As delicadas flores estavam atadas com uma velha tira cabedal. Jake.
      As lgrimas faziam-lhe arder os olhos. Exceptuando o pai, nenhum homem lhe tinha oferecido flores, nem sequer o homem com quem havia estado casada dez anos. 
Com as mos a tremer, segurou o ramalhete e aproximou as flores das narinas para cheirar o seu delicado odor. Ao imaginar Jake caminhando pela floresta, envolto 
na penumbra que antecede a aurora, para colher aquelas flores, as lgrimas que lhe ardiam nos olhos tornaram-se num dilvio.
      Com a mo livre, bateu com fora na face, zangada consigo prpria por ser to emocional. Era um simples ramalhete de flores que no tinha custado nada a Jake. 
Algumas mulheres recebiam requintados ramos de belssimas rosas todos os dias e no desatavam a chorar por causa disso. Mas este ramalhete com os caules das flores 
atados com uma tira de pele parecia-lhe muito mais especial do que qualquer ramo elaborado por uma florista. Jake havia dedicado uma boa parte do seu tempo a apanhar 
flores, tendo-as a seguir atado e feito, ele prprio, a entrega. Molly nunca fora uma pessoa de lgrima fcil, mas agora chorava como se fosse uma torneira que se 
abria e fechava sozinha. Por mais que pestanejasse, no conseguia evitar que novas lgrimas lhe chegassem aos olhos.
      Jake tinha sido to amoroso. Flores. V-las trouxe-lhe  memria recordaes maravilhosas do seu pai. Estava sempre a fazer-lhe surpresas. pequenos mimos, 
como ele lhes chamava, que eram muitas vezes flores colhidas no jardim. Nada particularmente caro, na realidade. De manh, acordar, encontrava um copo de gua com 
rosas em cima da mesa-de-cabeceira ou um ramalhete de amores-perfeitos sobre a almofada, junto ao seu rosto. Era uma forma encantadora de acordar e, sobretudo, de 
comear o dia, sabendo que o pai a amava de um modo especial. Depois de se casar nunca mais tinha encontrado surpresas agradveis sobre a sua almofada, apenas as 
manchas das lgrimas que havia chorado acordada  espera que o marido deixasse os braos de outra mulher e voltasse para casa. Desejara que Rodney lhe oferecesse 
flores, pelo menos uma vez, mas ele nunca o havia feito.
      Ao lembrar-se disso, Molly compreendeu que essa havia sido a principal razo por que se esforara tanto para lhe agradar. Estivera sempre em competio com 
rivais desconhecidas pelo seu afecto, e tinha cado no erro de acreditar que a culpa era dela e que podia conquistar o amor do marido se se esforasse muito. Alterara 
a sua aparncia e o seu comportamento para parecer mais sofisticada. Embora o processo tivesse sido lento, acabou por se tornar to diferente do que era que j no 
conseguia conhecer a pessoa em que se havia transformado.
      Sorrindo tristemente entre as lgrimas, Molly cheirou de novo as cravinas e pegou na brochura. No se surpreendeu ao ver que era uma histria de amor. Tinha 
dito a Jake que antigamente gostava de as ler, e ele estava de uma forma subtil a recordar-lhe isso, no para a tornar na mulher que ele queria que ela fosse, mas 
simplesmente para que voltasse a ser ela prpria.
      Gostava de saber como voc  agora, havia-lhe dito Jake. Nessa altura a pergunta perturbara-a tanto que se tinha ofendido por ele a ter feito. Nos dias que 
se seguiram, sentiu-se muitas vezes encurralada, pensando que ele estava a fazer um jogo cruel com ela, para a seduzir, no porque verdadeiramente a quisesse, mas 
unicamente porque ela estava  mo.
      E agora isto.
      Molly suspirou, apertando o livro contra o peito, e viu o que devia ter compreendido desde o incio. Jake Coulter no se parecia nada com Rodney Wells. Era 
a anttese dele praticamente em todos os aspectos, a nica semelhana consistia no facto de ambos serem do sexo masculino.
      Ao passar a mo pelo cabelo, desejou ter pensado duas vezes antes de o cortar. Aps dez infindveis anos, um homem tinha-lhe dito que era bonita, e ela, em 
vez de agradecer o elogio, atirava-lho  cara.
      Jake ia odiar o que ela tinha feito a si prpria e ficar, provavelmente, furioso. Ao cortar o cabelo estava-lhe, pura e simplesmente, a dizer que a opinio 
dele no lhe interessava. Ele no era estpido e ia compreender a mensagem. Mas depois de encontrar as flores e o livro, Molly j no tinha a certeza se era essa 
a mensagem que lhe queria transmitir. Que grande problema!
      
      Jake questionava-se se Molly iria novamente trazer o cabelo apanhado naquela horrorosa trana. Por um lado, no desejava influenci-la demasiado. Tinha a impresso 
que ela havia sido to condicionada pelo ex-marido que ficara farta de presses para o resto da vida. Mas, por outro, uma boa parte dele ansiava v-la cortar as 
amarras, libertar o esprito, literalmente, soltar o cabelo e mandar a opinio dos outros para o diabo.
      Ele estava a imagin-la com aqueles caracis fabulosos a carem-lhe em tumultuosas cascatas sobre os ombros, quando a ouviu entrar em casa. Sorriu todo satisfeito, 
sem se virar. A ltima coisa que queria era que Molly pensasse que estava  espera de a ver com o cabelo solto. Se por acaso o trouxesse assim, iria fingir-se surpreendido. 
A seguir, recompor-se-ia e ench-la-ia de elogios, dando a entender que a ideia tinha sido dela.
       Ol  ouviu Molly dizer, por detrs dele.
      A sua voz era fraca e trmula. O sorriso de Jake alargou-se. Conhecia suficientemente bem as mulheres para perceber quando estavam ansiosas por ver a forma 
como ele reagia  sua aparncia. Deu um ltimo gole no caf e virou-se lentamente com a inteno de no a decepcionar.
      Porm, no momento em que a viu, engasgou-se. O caf subiu-lhe pelo nariz, desceu-lhe pela traqueia e um forte rudo sibilante saiu-lhe pela boca. Molly esbugalhou 
os olhos e levou a mo ao cabelo, com ar aflito.
       Deus do cu  disse ele, com voz spera, ao conseguir finalmente espirar.  Que raio  que tu fizeste?
      Molly ficou lvida. Olhou para ele com uma minscula madeixa de cabelo entre os dedos sem lhe dar qualquer explicao. Verdade seja dita que ele tambm no 
precisava de nenhuma. Na noite anterior no se tinha poupado a esforos para lhe demonstrar que achava o cabelo dela maravilhoso e, agora, este havia desaparecido. 
J tinha sofrido muitas desfeitas na sua vida, mas esta batia todos os recordes.
      A primeira reaco de Jake foi de fria, que rapidamente se transformou numa profunda mgoa. A seguir, sentiu-se simplesmente atnito. Ela estava ... linda. 
A pequena coroa de caracis cor de mbar enfeitava suas fontes e as mas do rosto, criando uma moldura perfeita para as uas delicadas feies. O corte estava mal 
feito e noutra pessoa qualquer teria ficado mal, mas aquele estilo descuidado e despenteado era perfeito para ela, dando-lhe um ar atrevido que a tornava adorvel.
      Jake recomps-se, pousou a caneca de caf no louceiro e aproximou-se lentamente dela, sem conseguir afastar os olhos do seu rosto. Ela mexeu-se, afastou o 
cabelo com ar constrangido e baixou a cabea, como se tivesse vergonha que ele a visse.
       Estou arrependida  disse num fio de voz.  Sei que fiz uma estupidez e que estou horrvel.
      Jake descreveu lentamente uma volta em torno de Molly. Ele detestava enganar-se e detestava ainda mais admitir que se tinha enganado.
       No sejas parva, acho que o corte  engraado.  Mal acabou de dar arrependeu-se da palavra que havia escolhido. Engraado era insuficiente, fantstico, 
por outro lado, poderia parecer suspeito. O que  que um tipo poderia dizer? Que era amoroso? Isso era uma palavra feminina ele sentir-se-ia ridculo.  Eu... hum... 
 Parou diante dela.  Fica-te muito bem, a srio. Embora pensasse que o preferia comprido, ainda gosto mais de te ver assim.
      Molly afastou outra vez o cabelo. A luz reflectiu-se nos rebeldes fios cor de mbar e Jake teve vontade de lhes tocar com as prprias mos.
       Est bem  disse ela.  No precisas de mentir para no ferires os meus sentimentos. Sei que estou horrvel. Talvez v a um cabeleireiro para acertar o cabelo.
      Jake gostava dele irregular e despenteado.
       Nem penses nisso. Nenhum cabeleireiro neste mundo  capaz de pr o teu cabelo mais bonito.
      Molly olhou para ele desconsolada.
       Cresce muito depressa. Fica comprido sem eu dar por isso. Ele riu-se e segurou-lhe no rosto com as mos.
       Eu no disse que o teu cabelo no tinha salvao, Molly. O que eu quis dizer foi que no se pode melhorar o que j  perfeito.
      Uma expresso de incredulidade apoderou-se dos maravilhosos olhos dela.
       Quiseste dizer que gostas mesmo deste corte?
       Gosto mesmo muito. Pensava que o teu cabelo era lindo comprido, mas ainda gosto mais de o ver assim.  Segurou-lhe no queixo com o polegar e levantou-lhe 
o rosto em direco  luz.  No sou um perito em penteados, mas o cabelo curto faz-te sobressair os olhos e chama a ateno para a tua cara.
       Oh!
      Jake teve de sorrir.
        Quando se possui traos to bonitos como os teus, isso  uma vantagem.
      Ela lanou-lhe um olhar desconfiado.
       Achas mesmo que os meus traos so bonitos?
      Jake, que continuava a segurar no rosto dela, pensou que nunca tinha visto uma mulher to bela e doce. Ao olhar para Molly, no compreendeu como pudera alguma 
vez achar atraentes aquelas raparigas louras e ruivas de longas pernas e montes de maquilhagem. Ela era tudo o que ele sempre havia desejado, mas fora demasiado 
estpido para o entender.
       Acho, sim  sussurrou na sua voz rouca.
      
      Durante o resto do dia, cada vez que se lembrava do novo penteado de Molly, Jake no conseguia deixar de sorrir. Ela tinha-se tornado na mulher mais imprevisvel 
que ele jamais conhecera. O que viria a seguir, saltos de agulha e meias pretas de rede? Esperava que no. Mas, por outro lado, tinha-se enganado em relao ao cabelo. 
O mais certo era ficar sem respirao ao v-la com meias pretas de rede. Provavelmente o melhor que ele tinha a fazer era no se intrometer e deixar que fosse ela 
a criar a sua prpria imagem.
      No preciso instante em que esta ideia lhe passou pela cabea, compreendeu que havia tido um momento de genialidade. Claro que ele no se podia intrometer. 
A rapariga havia sido pressionada vezes de mais. J no me consigo encontrar, sussurrara-lhe ela na noite anterior. Tinha a impresso de que isso se devia ao facto 
de Molly se ter apagado para agradar ao marido. Jake no queria cometer o mesmo erro.
      Estava na altura de ela descobrir quem realmente era e no precisava da sua ajuda para isso. Ao fim e ao cabo, ia aceit-la sem pestanejar, quer calasse meias 
de rede ou trajasse um hbito de freira. No tinha a certeza do momento em que isso se dera, nem to-pouco como havia sucedido, mas estava loucamente apaixonado 
por ela. Assunto encerrado, no havia como voltar atrs.
      Em termos racionais, Jake sabia que tudo tinha acontecido demasiado depressa e que provavelmente tambm no fazia grande sentido, amor e o casamento eram demasiado 
importantes para que um homem inteligente os abraasse sem pensar duas vezes. A sensatez recomendava esperar e ver no que davam as coisas. No entanto, no lhe parecia 
sento proceder dessa maneira em relao a Molly. Uma vez que ela estava foragida  justia, Jake tinha a impresso de que lhe restava pouco tempo, e este se podia 
esgotar de um momento para o outro, perdendo todas as possibilidades de ficar com ela se no agisse com rapidez.
      No podia deix-la escapar-se-lhe por entre os dedos. Estava quase fazer trinta e trs anos. Desde que tivera maturidade suficiente para empreender que o amor 
e o sexo eram coisas completamente diferentes, havia esperado encontrar, algum dia, a mulher certa. Se agora deixasse fugir esta oportunidade era muito provvel 
que no voltasse a encontrar algum como Molly durante o resto da sua vida.
      Nessa noite, aps ter feito um jantar sob a superviso de Jake, que, segundo ela, era suficiente para alimentar e obstruir as artrias de metade da populao 
de Crystal Falis, Molly foi limpar a cozinha. Jake, como sempre, arregaou as mangas para a ir ajudar, ocupando o seu lugar habitual no lava-loua. Ele lavava e 
ela enxugava.
       Tenho a impresso de que os homens que conheceste no ajudavam muito no governo da casa  disse ele.
      Molly guardou um prato no louceiro.
       O meu pai ajudava sempre quando a pessoa que tratava da cozinha estava de folga.
       Ento, tinhas uma pessoa para tratar da cozinha?
      Ela olhou-o com desconfiana, tendo vislumbrado um brilho nos olho de Jake antes dele voltar a concentrar-se no tacho que estava a esfregar.
       Tu tambm tens uma pessoa para tratar da cozinha  referiu ela.
       Mas eu tambm tenho um rancho e muitas bocas a quem dar de comer, o que a torna numa necessidade em vez de um luxo. Ambos sabemos que o teu pai no possua 
um rancho de gado. Sou capaz de aposta que nunca estiveste num rancho ou numa quinta em toda a tua vida.
      Molly sentiu as faces a arder, envergonhada por todas as mentiras e meias verdades que lhe tinha contado. Agora que ele lhe recordava isso, no sabia o que 
lhe havia de responder.
       Peo desculpa, Jake  murmurou ela.
       De qu?
       De ter mentido. Posso dizer-te que no tenho esse hbito. Ele sorriu.
       Apenas fizeste o que achaste que tinhas de fazer.
      Sem saber o que havia de dizer, Molly retirou uma frigideira do escorredor de loua.
       Bem  pensou ele em voz alta.  Se   durante a infncia tinhas uma pessoa s para tratar da cozinha, o teu pai devia ser rico?
       Vivia bem. No era bilionrio nem nada do gnero.
       Isso j permite fazer muitas conjecturas. Era, ento, milionrio?
      A pulsao de Molly acelerou-se e os seus dedos ficaram entorpecidos, difceis de mover. Se respondesse  questo ele poderia facilmente descobrir a sua verdadeira 
identidade. No existiam muitos milionrios no Oregon e ela j havia reduzido consideravelmente o mbito da pesquisa ao dizer-lhe que trabalhava numa firma de investimentos. 
Olhou preocupada para Jake, achando que, ao fim e ao cabo, tudo dependia de saber at que ponto podia ou no confiar nele.
      Porm, as coisas no eram assim to simples. Embora tivesse chegado  concluso de que Jake nunca a iria magoar deliberadamente, a ignorncia dele a seu respeito 
era total e ela no se atrevia a elucid-lo. A sua liberdade e o futuro de Sunset estavam em jogo, bem como o seu desejo de que se fizesse justia em relao  morte 
do pai. Como reagiria Jake se lhe dissesse que tinha sado recentemente de um hospital psiquitrico e que ainda estava sob vigilncia mdica?
      Noutras circunstncias era capaz de correr um risco calculado e contar-lhe tudo. Mas o seu caso era especial, no era uma mulher divorciada como as outras. 
At que um juiz decidisse em contrrio, a sua vulnerabilidade aterrorizava-a. No momento em que havia sido declarada interdita estava casada com Rodney, e este fora 
designado seu tutor pelo tribunal. Por causa da firma e das implicaes comerciais da derivadas, o advogado de Rodney tinha conseguido manter o status quo aps 
o divrcio, alegando que o futuro financeiro de Rodney e Molly, bem como todos os seus bens conjugais estavam em perigo. Nessa altura ela ainda se encontrava na 
clnica. Qual era o juiz digno desse nome que iria reconhecer a uma doente internada num hospital psiquitrico o direito de governar-se a si prpria, quando estavam 
em jogo milhes de dlares e o futuro de um imprio financeiro?
      Portanto, Rodney podia j no ser seu marido, mas ainda tinha poder sobre ela. Era Rodney quem racionava o dinheiro que ela recebia todos os meses dos cofres 
da empresa, e tambm Rodney quem tinha acesso a todas essas contas e podia contratar os melhores advogados. Ela nem sequer tinha possibilidade de pagar a um advogado 
menos conceituado e, mesmo que conseguisse arranjar um, que advogado no seu juzo perfeito aceitaria represent-la? Havia imposies jurdicas que nenhum advogado 
podia ignorar. Representar um indivduo legalmente interditado dava azo a uma srie de dificuldades e possveis infraces legais que eles preferiam evitar.
      O que j acontecera uma vez podia repetir-se e, se ela o esquecesse, mesmo que por um instante, o seu futuro estaria comprometido. S de pensar nisso sentiu 
uma onda gelada de pnico atravess-la. Rodney odiara Sam Banks, o mdico que se tinha tornado o seu maior defensor. Se o ex-marido e a me a conseguissem internar 
outra vez numa instituio psiquitrica, era muito improvvel que a voltassem a pr na clnica onde ela possua um aliado. Oh, no! Iria ser entregue a estranhos, 
a indivduos predispostos a no acreditarem em nada do que ela dissesse.
      Aps ter sado da clnica, tentara obter uma ordem judicial que limitasse os poderes de Rodney, e tudo o que havia conseguido fora uma pancadinha nas costas. 
Em suma, os loucos no eram tomados a srio e a polcia no dava a menor credibilidade ao que ela dizia. Assdio? Perseguio? Legalmente, no tinha onde se apoiar.
      Jake no fazia a menor ideia da confuso em que a vida dela se havia ransformado. Podia sentir curiosidade e fazer umas quantas chamadas telefnicas s pessoas 
erradas. Se algum rumor sobre as suas pesquisas chegasse aos ouvidos de Rodney ela seria provavelmente localizada. Nesse caso, tudo poderia acontecer, e de certeza 
que no seria nada de agradvel.
       Est bem  disse ele, a rir-se, quando a relutncia de Molly em responder-lhe se tornou bvia.  Acho que a pergunta no foi justa. Vamos esquecer isso. 
Portanto, o teu pai ajudava-te na cozinha nos dias de folga da cozinheira. Era assim que lhe chamavam, cozinheira?
       Por que  que achas que no era um homem?
      Ele riu-se de novo, salpicando-a com espuma de detergente.
       Sou um cowboy reaccionrio que pensa que a ERA3  uma empresa mobiliria. No sejas desmancha-prazeres.
      Molly teve de sorrir. Jake estava muito longe de ser machista.
       Sim, chamvamos-lhe cozinheira.
       E o Rodney tambm ajudava na cozinha?
       No ajudava.
       Nunca?
       Nunca. Isso era trabalho de mulher, ponto final. Jake esboou um grande sorriso e piscou-lhe o olho.
       Tal como eu disse, um bandalho.
      Uns minutos mais tarde, Jake foi lev-la a casa. Como muitas vezes sucedia, fez um desvio pelo riacho. Molly quase cedeu ao impulso de o seguir mas, depois, 
pensou melhor e deteve-se.
       Acho que esta noite vou renunciar ao passeio.
      Ele virou-se e olhou para ela com ar inquiridor. Iluminado pelo luar, parecia to alto, poderoso e belo que Molly s conseguiu manter essa deciso com alguma 
dificuldade. Apetecia-lhe mesmo esquecer-se do bom senso e agarrar a oportunidade com ambas as mos.
       Cobarde  disse ele suavemente. Ela no usou de rodeios.
        Sim, receio que o seja.  Sentindo subitamente frio, Molly encoclheu-se e aconchegou-se melhor na parka,. J te disse na noite passada, Jake. Sinto-me 
muito atrada por ti. E tu deste-me um aviso, se bem te lembras. Estou apenas a segui-lo.
      A aba do chapu dele projectou uma sombra no seu rosto. Aqueles olhos azuis eram to luminosos que at brilhavam na penumbra.
       Tens medo que eu te beije?
       E no s.
      Jake encontrava-se numa pequena encosta, com um p ligeiramente mais elevado do que o outro, e a sua longa perna dobrada. Ps as mos nas ancas e comeou a 
estud-la como se ela fosse um complicado puzzle.
       Molly, nunca acontecer nada entre ns que tu no queiras que acontea. Sabes isso, espero eu.
       Sim, bem,  esse o problema, no ? Nem sempre queremos o que  bom para ns  inclinou a cabea.  Pensei muito hoje, Jake. No confio na minha capacidade 
para te dizer que no uma segunda vez.
        bom ouvir isso.
      Ela riu-se e, a seguir, gemeu, erguendo de novo o olhar para a cara morena de Jake.
       No estou interessada nuns momentos de erotismo. Desculpa, sei que no  uma atitude moderna. Mas no sou o tipo de mulher que se entretm com sexo ocasional 
e sai ilesa da experincia.
       Nunca pensei que o fosses e sexo ocasional tambm no  o que eu pretendo. Os meus sentimentos por ti no tm nada de ocasional.
      Molly teve de sorrir.
       Acho que tu e eu no definimos ocasional da mesma maneira. Sei que muita gente, hoje em dia, tem aquilo a que chama relaes significativas com pessoas de 
quem gosta, fora do casamento, mas eu no sou assim.  Encolheu os ombros e engoliu em seco.  No tenho a certeza de muitas coisas neste momento, mas isso eu sei 
em relao a mim prpria. Sou uma pessoa de tudo ou nada. Quando dou o meu corpo a um homem, dou-lhe igualmente o meu corao. Acho que  uma forma tonta de pensar, 
mas no podemos mudar aquilo que somos.
       Ests a ouvir-me rir? Acho que  uma maneira de ser encantadora.
       Sim, bem, as mulheres que no levam estas coisas to a srio divertem-se muito mais, tenho a certeza. Gostava de ser um pouco como elas  respirou demoradamente 
para se tonificar.  Se por um minuto pensasse que podia ter um caso contigo e, a seguir, conseguisse ver-te ir embora sem que isso me partisse o corao, era para 
j. Mas iria ficar magoada, to certo como dois e dois serem quatro, porque me apaixonaria por ti. Sei que me apaixonaria. Por isso, vou ser uma rapariga sensata 
e desejar-te boa noite.
      Virou-se para se ir embora mas, quando estava a dar o segundo passo, a voz suave dele f-la subitamente parar:
       Molly.
      Ela lanou-lhe um olhar por cima do ombro.
       No te vs embora.  Jake no se tinha movido, mas mesmo na penumbra ela conseguia sentir o poder de atraco dos seus olhos.  Ests  espera de um anel 
e promessas?  isso? Se for, tenho o maior prazer em oferecer-tos.
        Oh, Jake  murmurou Molly, to comovida por aquela proposta que teve vontade de chorar.
       Estou apaixonado por ti. Casar-me-ia contigo num abrir e fechar de olhos. Se achas que estou a fazer bluff, pe-me  prova.
      Ela suspirou e abanou a cabea.
        O casamento tambm no  uma soluo para mim. Sou incompreensvel, no ?  Enterrou o salto do sapato na terra.  Tens sorte. No me conheces h tempo 
suficiente para assumires uma obrigao dessas.
       Conheo de ti o que preciso de conhecer.  A sua voz revelava uma certeza absoluta.  s uma pessoa maravilhosa, Molly. Percebi isso no momento em que te 
vi.
      Ela esbugalhou os olhos.
        A srio. Quando te vi, to pequenina, a tentar tirar as rodas do Toyota da lama e com o reboque do cavalo atrs de ti, pensei: Aqui est uma mulher com 
um corao do dobro do tamanho dela. E sabes uma coisa? Demonstraste-me que eu tinha razo. Todos os homens do rancho esto um pouco apaixonados por ti, incluindo 
o velho Bart. Eu apenas estou muito mais apaixonado do que os outros.
      Molly fixou os olhos nas rvores que se encontravam mais afastadas do riacho, onde os ramos dos pinheiros se recortavam num cu de veludo azul-escuro. Imaginou 
que eram bailarinas executando um gracioso ballet em que as estrelas pareciam os diamantes dos seus delicados diademas.
       No quero mais amarras. Estou livre pela primeira vez em dez anos, Jake, e pretendo permanecer assim. So tantas as coisas que tenho vontade de fazer, sabes? 
 Pensou na sua carreira interrompida e nos seus sonhos esquecidos. Sabia que alguns deles jamais seriam recuperados, mas outros ainda podiam renascer. Mais importante 
ainda, tinha de conseguir que se fizesse justia em relao  morte do pai para que ela pudesse continuar a sua vida, deixando-o descansar em paz.  H coisas que 
tenho de fazer. Sei que no compreendes. Quem me dera poder explicar-te! Apenas te digo que preciso de resolver alguns assuntos na minha vida e que nunca me poderei 
comprometer contigo, ou com qualquer outra pessoa, enquanto no os tiver solucionado como eu quero.
        Nesse caso, deixa-me ajudar-te. O casamento  uma sociedade, querida, no uma priso.
       Talvez no seja para os homens, talvez no seja para muitas mulheres, mas para mim foi.
       No ir voltar a ser.
       Sim,  possvel que no. No mais profundo do meu ser ainda existem vestgios da Molly que eu fui outrora. Eu era uma catlica convicta, aposto que nunca 
deste por isso?
       No tenho nada contra os catlicos.
       No ests a perceber o que eu digo. No aceitava o divrcio. Estava presa num casamento, que era um pesadelo, com um homem que se estava sempre a aproveitar 
do facto de eu me considerar ligada a ele por um sacramento. Nunca mais volto a meter-me noutra.
       Ligada por um sacramento  repetiu ele.  Que carga to pesada! Molly duvidava que ele tivesse a menor ideia de como era pesada.
        como estar enterrada viva sob quinhentos quilos de gelo. Jake subiu vagarosamente a margem do riacho.
       Jamais irei interferir nas tuas liberdades pessoais, Molly.
       Nunca vais ter essa possibilidade  disse ela suavemente. Comearam a caminhar juntos com passo lento. Jake meteu as mos at ao fundo dos bolsos das calas.
       Ento, como  que ficamos?
        Amigos. Se voltares a tocar-me com segundas intenes, j no me encontrars aqui na manh seguinte quando acordares. Deixo o teu relgio em cima da mesa 
e, assim que conseguir arranjar um trabalho, enviar-te-ei todo o dinheiro que puder para pagar as despesas do Sunset. Mas tu no me voltas a pr a vista em cima.
       No me ds nenhuma margem de manobra para negociar  disse ele com um riso amargo.
       No tenho essa inteno. Isto no  negocivel.
       No quero que te vs embora, Molly.
       Acabaste de ouvir os meus termos.
      Jake parou, tirou as mos dos bolsos, pousou-as sobre as ancas e olhou para a rapariga de uma tal forma que o corao dela deu um pequeno pulo no peito.
       So tambm os meus  respondeu ele suavemente.  Vou respeitar as tuas condies... durante uns tempos. No vejo qualquer mal em sermos bons amigos antes 
de nos tornarmos amantes. No me importo. Compreende apenas que eu quero mais, e vai chegar um dia em que te vou pedir mais.
       Nesse dia vou-me embora.
      Ele sorriu-lhe abertamente, fazendo com que os pulos do corao dela se transformassem em saltos mortais.
       Veremos.
       Nunca mais permitirei que um homem controle a minha vida. Jake encolheu os ombros, sem se perturbar com a afirmao dela.
       Por mim, tudo bem. No  controlo que eu desejo. Vejo o casamento como uma sociedade em partes iguais. A minha mulher ser uma scia, no propriedade minha.
        o que todos dizem at a tinta da certido de casamento secar. Ele riu-se ligeiramente.
       Isso  uma viso arcaica. Sabes em que ano estamos? Molly enfiou as mos nos bolsos do casaco e cerrou os punhos.
       Gato escaldado de gua fria tem medo.
       Estou a ver que no vai ser fcil  disse ele. Ela suspirou.
       Ouviste alguma coisa do que eu disse? Apenas estou interessada na tua amizade.
      Os dentes de Jake brilharam sob o luar ao fazer-lhe um largo sorriso.
       Enquanto s quiseres isso, ser s isso que ters. No entanto, este acerto no me ir impedir de tentar convencer-te a mudar de ideias.
      Como se tivesse lido os pensamentos da rapariga, Jake acrescentou:
       Sem te tocar, nem que seja com um dedo, claro. A menos que queiras que o faa.
      Molly descontraiu-se um pouco. Podia continuar perto de Jake desde que ele no a beijasse ou tentasse qualquer coisa do gnero. Mesmo que por vezes tivesse 
muita vontade que ele o fizesse, mas esse seria o seu segredo.
       Muito bem. Ento, temos acordo?  perguntou-lhe ela. Os olhos dele brilharam maliciosamente.
       Sem a menor dvida.
      Ela ficou com a impresso de que Jake estava a achar a situao muito divertida. Ele estendeu-lhe a mo.
        Por que  que no selamos o nosso acordo com um aperto de mos?
      Molly j no estava muito certa sobre o que tinham acordado. No entanto, tirou a sua mo do bolso para apertar a dele. Os longos dedos de Jake envolveram os 
seus. O polegar dele traava, ao de leve, crculos na parte de trs do pulso dela, enviando-lhe pequenos sinais de alarme pelo brao acima.
       Est bem  disse Molly, estupidamente. O sorriso de Jake alargou-se.
       Agora, que j temos um acordo, vens dar um passeio comigo?
      Ele continuava a acariciar-lhe o pulso, o que para Molly no era um bom pressgio. Ser que Jake sabia que o contacto dos seus dedos lhe provocava contraces 
no interior do corpo? Molly tinha a terrvel sensao que sim.
       Anda  incitou-a ele com voz rouca.  Vem dar um passeio comigo. Confias em mim, no  verdade?
      Molly engoliu em seco, a boca pareceu-lhe simultaneamente spera e pegajosa. Confiava nele. Exceptuando o pai, nunca confiara tanto num homem, mas por outro 
lado...
       Acabei de aceitar as tuas condies  recordou-lhe Jake.  Apenas amizade. Qual  o problema?
       Nenhum. Acho que nenhum  respirou fundo para arranjar coragem e concordou com a cabea.  Est bem. Por que no?
      Sem nunca a soltar, Jake virou-se e colocou a mo dela sobre o seu outro brao. A seguir, levou-a de novo para junto do riacho. Enquanto caminhava ao seu lado, 
Molly deu consigo a lembrar-se de um conto da sua infncia.
      Bem-vinda  minha casa, disse a aranha  mosca.
      
      
      
    Captulo 14
      
      
      Durante os dias que se seguiram, Molly comeou a sentir que Jake estava a tecer uma teia mgica, envolvendo-a cada vez mais nos seus fios de seda. Era como 
se ele se tivesse apercebido do vazio que existia dentro dela e decidido preench-lo com uma dose diria de mimos.
      Quase todas as manhs, ao sair de casa, encontrava uma prenda  porta. Umas vezes era uma bela pedra ou a pena de uma ave selvagem, noutras eram flores. Uma 
manh ele deixou-lhe um ramalhete de trevos-dos-prados, que acabou por ser a surpresa de que ela mais gostou, uma vez que simbolizava tudo o que Jake Coulter era 
e representava, um homem to terra-a-terra e natural como o terreno onde havia nascido.
      O seu hbito de lhe deixar presentes insignificantes fazia-lhe lembrar de tal modo o pai, que a levava a v-lo com outros olhos e a compar-lo com Marshal 
Sterling. Jake no se parecia nada com o seu pai. Em termos comportamentais os dois homens estavam a anos-luz um do outro. No entanto, havia semelhanas que Molly 
no podia negar, possuam qualidades profundas e verdadeiras que os distinguiam de todos os outros omens que ela conhecia.
      Quando White Star pariu, Jake insistiu para que Molly assistisse ao parto. Este revelou-se a experincia mais espantosa que ela alguma vez presenciara, seguindo-se-lhe 
um ritual destinado a criar laos afectivos denominado impregnao que ela jamais iria esquecer.
      Na primeira hora de vida do potro, ajudou Jake a insensibilizar o recm-nascido em relao a uma srie de estmulos que, caso contrario, o iriam assustar mais 
tarde. Simularam que lhe punham ferraduras e manusearam todo o seu corpo. Quando finalmente permitiram que o potro se pusesse de p, coube a Molly a honra de lhe 
colocar o primeiro cabresto.
       De certeza que ele no se ir lembrar disto  observou ela.
       Os recm-nascidos precoces foram programados pela natureza para criarem laos afectivos com as suas mes e quaisquer outras criaturas que se encontrarem 
perto deles durante a primeira hora de vida, da o instinto de manada. Necessitam dele para sobreviverem no mundo selvagem. Por isso, ele vai, de alguma forma, lembrar-se 
de todas as experincias que teve hoje e ficar muito mais predisposto para confiar nas pessoas.  Jake roou o cabo de uma vibrante mquina de tosquiar pela anca 
do potro.  Durante as prximas semanas, vamos repetir isto tudo umas quantas vezes para que ele interiorize melhor as lies. Aos trs meses, este rapazinho vai 
deixar calmamente que lhe preguem as primeiras ferraduras nos cascos, no se ir assustar com o cabresto, as rdeas ou um ligeiro peso no lombo, e vir ao nosso 
encontro assim que nos vir, desejoso que o cocemos atrs das orelhas. Quando tiver idade para ser montado, aceitar tranquilamente a transio, visto que foi preparado 
para ela desde que nasceu.
      Examinando o corpo esbelto e musculado de Jake, Molly disse:
       Se domasses o cavalo  moda antiga perderias muito menos tempo, no  verdade? Porque  que fazes a impregnao?
      Ele franziu as sobrancelhas enquanto pensava na resposta.
       Domar  a palavra-chave da tua pergunta, e significa exactamente o que quer dizer, que o esprito do cavalo vai ser domado. Umas vezes isso  feito com suavidade, 
outras no. J treinei cavalos dessa e desta forma. Consegue-se obter um ptimo cavalo usando mtodos antiquados, mas quem nos diz que esse animal no poderia ter 
sido excepcional?  Encolheu os ombros. J viste um aziar, Molly?
      Molly abanou a cabea, o que levou Jake, que se encontrava com ela na zona da maternidade, a conduzi-la a um local situado na segunda metade do corredor central 
do estbulo.
       Isto  um aziar  disse ele, apontando para um aparelho pendurado na parede, que fez lembrar a Molly um enorme quebra-nozes. Indicando a sua ponta circular, 
Jake explicou:  Esta parte  presa ao nariz do cavalo. A dor que provoca obriga o animal a concentrar-se unicamente nela, permitindo que o treinador faa quase 
tudo o que quiser s outras partes do seu corpo.
      Molly estremeceu.
       Que horror!
      Jake riu-se ligeiramente.
       Nem por isso. Necessidade  a palavra correcta quando se est a trabalhar com um animal possante que pode transformar uma pessoa em picadinho.  Retirou 
o aziar da parede.  s vezes, para bem do prprio cavalo, temos de utilizar um aziar.  Aproximou a ponta circular do rosto dela.  Normalmente,  menos perigoso 
do que um sedativo  baixou subitamente o tom de voz , por isso fixamo-lo na pele tenra, a meio da zona que fica entre o lbio superior e o nariz, fazemos o que 
 necessrio e, a seguir, libertamos a presso.
       A que concluso  que queres chegar? Ele esboou um longo sorriso.
       A uma questo, no a uma concluso. Tendo em conta que o aziasr  extremamente incmodo, se no for mesmo doloroso, se tu fosses um dos meus cavalos, querias 
que utilizasse habitualmente um aziar quando trabalhasse contigo?
       Claro que no.
      Jake riu-se um pouco e voltou a pendurar o aziar na parede.
       Chegmos  mesma concluso. Uma vez que a impregnao torna muito mais fcil tratar e lidar com um cavalo, dispensando em muitos casos o recurso ao aziar, 
merece todo o tempo e esforo que lhe dedico.
        Gostas muito dos teus animais, no  verdade?  perguntou ela suavemente.
       Sim, gosto muito. Prefiro ganhar a amizade deles a domin-los. Molly nunca havia conhecido ningum como Jake Coulter e duvidava que pudesse encontrar outro 
igual a ele. Era um caso extraordinrio, secundo ela, um indivduo raro cuja profunda bondade a surpreendia com ama nova manifestao sempre que passava algum tempo 
com ele.
      Anda comigo, dizia-lhe pelo menos uma vez por dia. Parecia um passatempo to inofensivo, a mera aco de pr um p  frente do outro e estabelecer uma conversa 
amigvel. Mas Molly rapidamente descobriu que Jake no tinha nada de simples e que, na sua companhia, aquilo que carecia absolutamente banal tornava-se de repente 
muito perigoso.
       Falmos das cores que achas que te ficam melhor  disse ele ao meio da tarde , mas, se bem me lembro, nunca me disseste qual  a tua cor preferida.
      Em adolescente, Molly havia decorado o quarto em vrios tons de malva e forrado as quatro paredes com um papel cujo motivo eram rosas. Praticamente todas as 
peas de roupa que usava nessa altura eram cor-de-rosa ou continham alguma pincelada dessa cor. Quando fez dezoito anos, 3 pai at lhe comprou um carro cor-de-rosa 
cujas chaves vinham num chaveiro em resina com um minsculo boto de rosa no seu interior.
       J no tenho preferncia por uma cor em particular  respondeu ela.
       Oh, diz l.
      Como  que lhe podia explicar que, de h uns anos para c, aquilo de que ela gostava deixara de ter importncia para si prpria?
       Gostava de cor-de-rosa  acabou por confessar.
       Outra vez o verbo no passado  repreendeu-a ele.  Ainda gostas de cor-de-rosa, Molly?
        Tenho tendncia para me exceder com as coisas de que gosto, o cor-de-rosa pode tornar-se uma cor muito berrante se exagerarmos, e eu nunca fui moderada.
      Ele riu-se ligeiramente.
       E a vida  isso, moderao? E qual  o mal de usares cores berrantes, se gostas?
      Ela sentiu os membros contrarem-se-lhe.
       Nenhum, acho eu. Mas com uma cor forte como o cor-de-rosa cor-re-se o risco de ter um ar piroso.
       Piroso? Jake fez uma expresso de pretenso horror.  Que Deus nos livre!
      As faces de Molly ardiam.
       O Rodney detestava ver-me de cor-de-rosa e agora tu est a rir-te porque aprendi a ser moderada. Homens. Por que  que no me deixam em paz?
      Jake sorriu pensativamente.
       No me estou a rir de ti, Molly, e ficava muito feliz se te visse usar a cor ou estilo de que gostas, fosse ele qual fosse. Estou apenas preocupado porque 
continuas renitente.
       Renitente em relao a qu?
        A seres tu prpria.  Aproximou-se dela para lhe tocar nos caracis.  Adorei o que fizeste ao teu cabelo. Sabes o que  que isso significa?
       No, e o que ?
        Que deves seguir os teus instintos. Dizes que aprendeste a ser moderada, mas a mim parece-me que te ests a reprimir. No te quero influenciar, acho que 
deves fazer as tuas prprias escolhas. Mas no  isso que est a suceder. Onde  que est a dose moderada de cor-de-rosa na tua vida? Mesmo que o cor-de-rosa no 
te ficasse bem, qual era o mal de decorares o teu espao nessa cor?
       Amanh vou pintar a casa de madeira de cor-de-rosa. Ele riu-se e abanou a cabea.
       Est bem, diz gracinhas. Toros de madeira cor-de-rosa era capaz de ser excessivo. At eu tenho de concordar com isso. Mas podias enfeit-la usando esse tom.
       O cor-de-rosa no combina com a dignidade tranquila.
       O mundo segundo Rodney?
      Molly levantou a cabea e olhou em frente. Desejava que ele mudasse o tema da conversa. Falar sobre Rodney punha-a mal-disposta, mas Jake nunca evitava os 
assuntos que a perturbavam, pelo contrrio, rebuscava e pressionava-a at ela se descuidar e falar de mais.
      Desta vez, ele alterou o passo para se colocar atrs dela e agarr-la pelos ombros.
       Olha para aquilo  disse ele num tom invulgarmente forte.
       Para o qu?  perguntou Molly, olhando, cheia de nervos, para as rvores com receio de ver um urso ou um puma escondidos na floresta.
        Para o cu  sussurrou ele junto ao seu ouvido. Quando ela virou a cabea para cima, Jake apertou-lhe os ombros com mais firmeza.  Olha para este pr do 
Sol, Molly. J alguma vez viste uns tons to espantosos de cor-de-rosa na tua vida?
      Molly teve dificuldade em acreditar que nunca tivesse reparado no pr do Sol por si prpria. Jake tinha razo. Era simplesmente de cortar a respirao.
       Oh! Que maravilha  murmurou ela.
       Achas que Deus  piroso?
      A pergunta apanhou-a desprevenida e ela espirrou de tanto se rir.
       No, claro que no.
       Parece-te que Ele  moderado?
      O cu era uma autntica paleta de tons de rosa, to belos e to perfeitos que custava a acreditar que fossem reais.
       No, no me parece que seja moderado  respondeu ela, tensa.
       Parece-te que Ele tem falta de dignidade? Molly riu-se sem querer.
       No.
        Ento?  Jake pousou o queixo no cabelo de Molly, para observar o cu juntamente com ela.  Acho que o Rodney, o bandalho, est enganado. Completamente 
enganado. O cor-de-rosa  uma cor linda e muito digna, e o sacana no era capaz de reconhecer uma coisa pirosa mesmo que ela corresse atrs dele e lhe mordesse o 
traseiro.  Massajou-lhe os ombros, libertando a ltima rstia de tenso que ela ainda tinha nos msculos.  Deixa de reprimir-te. Esquece a moderao. Esquece a 
abnegao. Celebra a vida e toma banho em cor-de-rosa se te apetecer. No faz mal nenhum.
      Numa outra ocasio, Molly havia confessado a Jake que no tinha gosto nenhum e se submetia sempre  douta opinio do marido para se vestir.
        Quem disse que no tinhas gosto para te vestires?  perguntou Jake.
      Molly puxou pela memria e, ao faz-lo, comeou a doer-lhe a cabea, uma dor aguda, concentrada mesmo atrs dos olhos.
       O Rodney  admitiu ela tensa.
       Ah! Jake riu-se secamente.  Quem foi que o elegeu o guru da moda deste sculo?
       Ele prprio  sussurrou ela.
        Hum!  Foi tudo o que ele disse, mas pronunciou a palavra com tanto asco, que no foi preciso dizer mais nada.
      
      Dois dias mais tarde Molly foi  cidade comprar artigos de mercearia e lmpadas fluorescentes para Jake. Quando caminhava pelo passeio em direco ao estabelecimento 
que vendia artigos elctricos, passou por uma loja de roupa e viu uma lindssima blusa cor-de-rosa na montra.
      Parou subitamente para a admirar. No se lembrava de alguma vez ter desejado tanto comprar uma coisa. No sabia bem porqu, mas via naquela blusa a sua libertao. 
Era ela, a Molly que se havia perdido, era exactamente o tipo de roupa que teria adorado quando andava no liceu.
      Claro que nessa altura pesava menos seis quilos e era uma rapariga magra com um peito bastante grande. Mas agora que estava na casa dos vinte, tinha a cintura 
mais grossa e as ancas tambm mais largas. Aquele tipo de blusa era capaz de j no lhe ficar bem.
      Apesar das suas dvidas, Molly entrou na loja. Uma empregada loura e bonita saiu de trs da caixa registadora. Tinha um vestido azul-marinho debruado a vermelho 
e sandlias finas da mesma cor. O cabelo, que lhe chegava aos ombros, estava perfeitamente arranjado por cabeleireiro. Molly achou-se desengraada e sem elegncia 
ao comparar-se com ela.
       Ol  conseguiu ela dizer, e acrescentou, apontando para a montra:  Reparei naquela blusa cor-de-rosa quando ia a passar, mas agora que estou mais perto 
vejo que no  o meu gnero nem a cor que me fica bem.
      A rapariga loura sorriu.
       Acha que no?  dirigiu-se a uma estante e tirou uma blusa cor-de-rosa igual  que estava na montra. Encostou-a a Molly e sorriu maliciosamente.  Est enganada. 
Fica-lhe mesmo bem.
      Molly deu uma olhadela ao preo que estava na etiqueta. Custava quase quarenta dlares. Tinha gasto menos de duzentos dos mil dlares que trouxera de Portland, 
mas mesmo assim, queimar quarenta numa coisa to frvola no era sensato. Ao passar os dedos pela malha lembrou-se de que ainda no h muito tempo teria gasto o 
triplo sem pestanejar. Podia agradecer a Rodney as suas actuais dificuldades financeiras.
      Ai, como isso a enfurecia. Subitamente, aquela blusa cor-de-rosa era o que ela mais desejava neste mundo.
        um pouco cara  disse Molly. A empregada riu-se.
       No para os preos actuais. Faa um pequeno gosto a si prpria. Pelo menos experimente-a.
      Molly no conseguiu resistir. Sorriu e despiu a parka. Quando a outra mulher viu a sua roupa, ergueu as sobrancelhas e perguntou-lhe:
       Perdeu peso?
      Por um momento, Molly no conseguiu compreender por que razo ela lhe fazia aquela pergunta. Mas ao olhar para si, viu que as suas calas de caqui lhe danavam 
na anca como se fossem a lona de uma tenda e que a blusa podia servir de tnica a uma grvida.
       Sim, perdi  mentiu ela.  Nada me serve.
       Estamos a fazer uns grandes saldos  disse a empregada, piscando-lhe maliciosamente o olho. Antes de Molly conseguir protestar, j estava na prateleira dos 
jeans.  No so giros?  perguntou a balconista ao mesmo tempo que se virava para verificar o nmero de Molly, tirando um par deles, a seguir.  Estes esto a metade 
do preo.
      Cinquenta por cento de desconto era uma ptima oportunidade para quem tivesse dinheiro para a aproveitar, o que no era o seu caso. No parava de dizer isso 
a si prpria enquanto a empregada a conduzia ao provador. Deixando Molly a experimentar a roupa com a porta entreaberta, a mulher continuou a trazer-lhe diversos 
artigos para ela provar.
       Isto vai ficar-lhe maravilhosamente  dizia ela, ou:  Isto foi feito mesmo para si.
        Neste momento -me impossvel adquirir um novo guarda-roupa  insistiu Molly, sem ter a certeza de quem estava a querer convencer, se era a empregada ou 
ela prpria.
        Qualquer mulher que tenha perdido todo esse peso merece um novo visual!  foi a resposta da empregada.
      Molly sabia que devia ir-se embora, mas provar toda aquela roupa nova dava-lhe tanto prazer que no conseguiu resistir. A rapariga loura no tinha a menor 
ideia do passado dela, por isso os elogios que fazia ao modo como a roupa lhe assentava no se destinavam a aumentar-lhe a confiana em si prpria. E o melhor de 
tudo era que ela tinha bom gosto. Qualquer pessoa que no fosse cega via isso pela forma como ela estava vestida: a loura podia ter sado da capa de uma revista.
      Sem saber muito bem como, Molly escolheu montes de roupa. Apesar dos grandes descontos, sabia que a soma deveria ser astronmica. Era preciso estar completamente 
louca para considerar sequer a hiptese de gastar tanto dinheiro quando no tinha a menor possibilidade de o repor. Tudo o que ganhava no rancho destinava-se ao 
cuidado e treino de Sunset.
       Eu no posso de maneira nenhuma comprar tudo isto  confessou ela.
      A rapariga louca piscou-lhe o olho.
       Venha c. Vamos fazer as contas na calculadora e ver por quanto lhe fica.
      O total ultrapassava seiscentos dlares, com saldos e tudo. Molly deu uma olhadela  roupa que tinha ainda no corpo, uns jeans justos e uma elegante camisola 
vermelha. Sentia-se muito estranha com aquilo, era uma indumentria que no lhe passaria pela cabea vestir h menos de uma hora, mas gostava de se ver com o seu 
novo aspecto, que a transformava como que por magia, deixando de ser a antiga e desengraada Molly para se tornar numa mulher vistosa, atrevida e at um pouco sensual, 
apesar de rechonchuda.
       Eu no posso mesmo comprar esta roupa. A empregada voltou a piscar-lhe o olho.
        Eu no costumo fazer isto, mas para si vou abrir uma excepo. Tenho vinte e cinco por cento de desconto por trabalhar aqui e vou tir-lo do total. Assim 
j fica mais aceitvel?
      Molly mal podia acreditar no que ela lhe estava a oferecer.
       No trabalha  comisso?  perguntou  empregada.
       Sim, mas tive uma boa semana graas aos saldos. E, olhe uma coisa, para que  que serve trabalhar num stio destes se no puder eu prpria ter uma satisfao 
de vez em quando? No  todos os dias que consigo renovar completamente a imagem de uma pessoa  inclinou-se para Molly e sorriu com ar conspirativo.  No usei 
o meu desconto durante o Inverno. A bruxa velha, que  a dona desta loja, consegue preos em conta.  Endireitou-se e percorreu Molly com os olhos.  Fica to bem 
com esta roupa. Essa  a minha melhor comisso.
      Molly deixou a loja com tantos sacos, que quase no os podia transportar, vendo-se obrigada a ir p-los na camioneta antes de se dirigir  loja de artigos 
elctricos. Trazia vestida a sua velha roupa e quando viu o seu reflexo nos vidros das lojas, encolheu-se de vergonha. A nova Molly estava na camioneta de Jake e 
a actual mal podia esperar o regresso a casa para se meter nela outra vez.
      
      Quando nessa noite Jake entrou na cozinha, os olhos quase lhe saltaram das rbitas. Molly estava junto ao fogo, mas no se parecia nada com a Molly que ele 
conhecia. Vestia umas calas de ganga justas e uma camisola de um vermelho-vivo que se colava aos seus grandes seios. A tenso arterial de Jake subiu repentinamente, 
sem que ele conseguisse perceber o que lhe tinha sucedido.
      No momento em que a rapariga se virou completamente para ele, Jake ficou boquiaberto. Com os diabos. Se ele tinha tanta dificuldade em fechar a boca, como 
iriam reagir os seus homens? Ela fazia crescer gua na boca. Todas as deliciosas curvas do seu corpo estavam  vista.
      Ele sabia que ela era espectacularmente bem feita, mas nem nos seus maiores desvarios imaginara que fosse to curvilnea. Grandes no era a melhor descrio 
para os seus seios. A camisola tinha um pequeno decote, mas nuns seios to generosos como os dela, um pequeno decote j mostrava bastante.
      O olhar de Jake dirigiu-se para a sua esbelta cintura, que dava lugar a maravilhosas ancas arredondadas e coxas bem cheias. At quele momento, nunca se havia 
apercebido da elasticidade da ganga.
       No podes usar isso.
      Jake arrependeu-se de ter aberto a boca assim que a fechou. Seria que... Santo Deus, ela no via como estava? Tinha um corpo que fazia um homem imaginar cenas 
escaldantes entre lenis de seda. Ele havia-lhe sugerido um pouco mais de cor no seu guarda-roupa, no peas coladas ao corpo de fazer cortar a respirao.
      Ser que no percebia que era a nica mulher naquele rancho e vivia no meio de um grupo de homens fogosos? Mesmo os mais velhos ainda tinham algum fogo nas 
veias. Os mais jovens podiam ter ideias e, se as tivessem, o passo seguinte era tentar seduzi-la. Jake era capaz de matar o primeiro que se atrevesse a fazer-lhe 
um comentrio grosseiro.
      Reparou que Molly estava completamente lvida. Durante um longo momento permaneceu paralisada a olhar para ele com os olhos esbugalhados de aflio. A seguir, 
baixou a cabea e murmurou:
        Acho que  um pouco exagerado  deu um puxo  camisola.  Tens razo, Jake. Peo desculpa. No sei no que estava a pensar. Podes... hum... olhar pelo jantar 
enquanto eu vou mudar de roupa.
      Jake tinha vontade de bater nele prprio, mas primeiro necessitava de descalar aquela bota.
       Molly, eu no quis dizer que te ficava mal. O rosto dela continuava a denotar aflio.
       Tu ests fantstica.  Jake quis imediatamente acrescentar demasiado fantstica. Merda. Ela no estava a acreditar nele, como bem demonstrava a sua palidez 
e a expresso magoada que lhe via nos olhos. Ele no tinha pretendido ferir os sentimentos dela.  Eu fiquei... hum... apenas fiquei espantado quando te vi, foi 
s isso.
       Est bem.  Os olhos dela estavam muito brilhantes, fazendo Jake suspeitar que se encontrava  beira das lgrimas. No entanto, riu-se e fez-lhe um sorriso 
resplandecente.  No era minha inteno assustar ningum quando comprei esta roupa.  Encolheu os ombros.  No devia ter dado ouvidos  empregada da loja. Bem 
te tinha dito que o meu gosto para me vestir era atroz.
      Antes de Jake se conseguir repor e pensar em alguma coisa para lhe dizer, ela saiu disparada da cozinha, sem sequer parar no cabide dos casacos para tirar 
a sua parka, de to perturbada que estava.
      Quando Hank entrou pela porta de trs, encontrou Jake junto ao fogo a mexer o frango e a praguejar como um carroceiro.
       O que  que se passa?
       Tudo! Jake entregou o garfo ao irmo.  Toma conta do frango, est bem? Tenho de ir consertar os estragos que fiz.
       Ainda ontem consertaste a vedao e ficou ptima.
       No estou a falar desses estragos. Raios me partam, Hank. Desta vez lixei tudo. Quando a Molly arranjou finalmente coragem para comprar roupas novas, eu 
magoei-a.
        Por que  que fizeste isso? Se h algum que precise de roupas novas  ela.
      Jake passou a mo pelos olhos.
       Ela trazia umas calas de ganga e uma camisola.
       E qual  o problema?
        O problema  como ela fica dentro delas. E a camisola  de um vermelho-vivo.  Jake apontava inutilmente para o peito.  Com todos os diabos, no a posso 
deixar andar assim pelo rancho. Os homens no vo conseguir tirar os olhos dela.
       Olhar no tira pedao.
       E se algum deles decidir que olhar s no chega?  retorquiu Jake.  Mato-o. Nem sequer me dou ao trabalho de discutir.
      Hank levantou a tampa da caarola para ver o frango.
       Hum, parece-me que ests a criar fantasmas onde eles no existem. A Molly  perfeitamente capaz de pr na ordem quem lhe faltar ao respeito. Tem confiana 
nela, ela saber resolver a situao.
      Jake rangeu os dentes. Molly no era capaz de pr ningum na ordem. Por um lado, era demasiado bondosa para magoar fosse quem fosse e, por outro, demasiado 
insegura em relao a si prpria.
       Ests com medo que algum invada o teu terreno, mano?  perguntou Hank suavemente.
       Isso  um golpe baixo. Sabes muito bem que nunca fui ciumento.
       At hoje nunca gostaste suficientemente de uma mulher para sentires cimes  frisou Hank.  E o que  que me dizes de todas aquelas raparigas que trazias 
para aqui com os ombros  mostra e cales que deixavam muito pouco espao para a imaginao? Nunca te aborreceste por os homens olharem para elas.
       Isso era diferente. Elas sabiam com o que contavam.
       E a Molly no sabe? No brinques comigo. Ela j foi casada. Tenho a certeza que ela sabe perfeitamente que os meninos no vm de Frana, e foi sem dvida 
por isso que comprou uns jeans e uma camisola que, alis,  uma indumentria muito modesta comparada com os dois remendos presos por fios que eu vi algumas das tuas 
amigas desmioladas usarem.
       Nunca sa com desmioladas. Hank riu-se.
        Exibicionistas, ento. Lembras-te daquela loura, a Vernica, acho que era o nome dela, que em Setembro do ano passado se bamboleava por aqui com saltos 
de agulha e cales curtssimos? Quando se inclinava via-se-lhe tudo. Os homens metiam-se com ela e tu nem sequer pestanejavas.
      A presso arterial de Jake voltou a subir.
       Onde  que queres chegar?
        Quero apenas deixar bem claro que, comparado com isso, umas calas de ganga e uma camisola no so assim to ousadas, mesmo que coladas ao corpo. Somos 
todos maiores e vacinados. Se no formos capazes de nos controlar, ento todos merecemos uma boa tareia, e de certeza que no  por culpa da Molly.
      Jake j no o podia ouvir. Hank nunca tinha estado apaixonado e, por isso, no compreendia absolutamente nada. Tirou a parka de Molly do cabide. Embora estivessem 
no incio da Primavera, fazia muito frio depois de cair a noite e ele no queria que ela se constipasse.
       Volto j.
      Ao sair de casa, sentou-se no alpendre. Agarrou a parka de Molly entre as mos, apertou o seu forro de nylon contra o rosto e aspirou o doce odor dela que 
persistia no tecido. O seu cheiro f-lo pensar em flores silvestres e sol, um perfume to modesto como ela. Ciumento? Raios partissem Hank por dizer isso. Jake nunca 
tinha sido possessivo. Se uma mulher queria estar com ele, estava com ele e pronto. Se ela depois se interessasse por outro, no tinha problemas em lhe dizer adeus 
sem qualquer trauma, isso no o afectava. No era ciumento.
      Apertou o casaco com mais fora contra a face, repetindo aquela ideia feita para se convencer de que era verdade. Apenas no queria que Molly se metesse numa 
situao desagradvel. Estava ali sozinha e ele era o seu patro. Isso tornava-o responsvel por ela, no tornava?
      No, no tornava. Jake sabia que se estava a enganar a si prprio. Por mais que lhe custasse reconhecer, Hank tinha razo. Estava morto de cimes e a ficar 
extremamente possessivo. Sentia a fria crescer dentro dele ao imaginar outros homens a devorarem Molly com os olhos. Pior ainda, no mais profundo do seu ser, uma 
parte dele prprio tinha medo que ela encontrasse outra pessoa. Era uma possibilidade assustadora.
      Ele amava-a, caramba. No a queria perder para um imbecil que no a soubesse apreciar ou tratar como ela merecia.
      Levantou-se suspirando. Necessitava de falar com ela. No fazia a menor ideia do que lhe havia de dizer, mas tinha de encontrar uma forma de desfazer o equvoco 
que havia criado.
      Molly no lhe respondeu quando bateu  porta da casa de madeira. Jake bateu outra vez. Voltou a no obter resposta. Achando que no podia piorar as coisas 
mais do que elas j estavam, entrou.
       Molly?
      Ouviu uma respirao ofegante e o barulho de movimentos no quarto. Cerrou os dentes, atirou a parka dela para cima do sof e foi direito  porta do quarto, 
que estava aberta. Encontrou-a diante do armrio com a camisola vermelha sobre o peito. Estava a mudar-se.
      Jake por pouco no deu meia volta, mas depois baixou a cabea e ficou a olhar para o cho.
        Importas-te de voltar a vestir a camisola para que possamos conversar?
       No h nada para dizer. D-me um minuto. Estou mesmo a sair.
       H muita coisa para dizer.
      Jake levantou a cabea. O montculo de malha vermelha comprimido contra os seus seios fazia sobressair a perfeio da sua pele. Os caracis cortados de Molly 
pareciam lato fundido  luz do candeeiro do tecto. E os seus olhos, oh meu Deus, que olhos! Tinham escurecido devido  mgoa que Jake sabia ter-lhe causado. Desde 
que a conhecia sempre vilipendiara Rodney, mas quem era o sacana agora?
       Devo-te uma desculpa  disse ele com voz velada.  Ficas linda com essa roupa, Molly, e eu mereo uma tareia por te ter feito pensar o contrrio.
      Ela baixou a cabea. Pelo modo como os seus dedos acariciavam a camisola, Jake compreendeu como esta era importante para ela. Lembrou-se de lhe ter dito que 
o casamento com ele no seria uma priso, que nunca iria violar o direito que ela tinha a ser ela prpria.
      Se escolher a sua prpria roupa no fazia parte desse direito, o que faria ento?
       Ai, Molly, minha querida, peo-te desculpa. Molly abanou a cabea.
       Parece-me que no percebes.  Voltou a olh-lo de frente.  Estou a mudar de roupa por uma nica razo, s o meu patro e estou de servio.  Levantou o 
queixo trmulo.  Nos meus tempos livres, vestir-me-ei como me apetecer  apertou a camisola mais fortemente contra o peito , e se no gostares o problema  teu.
      Ao olh-la nos olhos, Jake compreendeu que a tinha interpretado mal. Alm de mgoa havia tambm uma forte dose de clera neles. Teve vontade de sorrir. A indignao 
de Molly era muito bom sinal, dando-lhe a entender muito mais do que ela imaginava, dizia-lhe concretamente que estava a comear a curar-se e a encontrar-se de novo 
a si prpria.
       Compreendo  respondeu ele cautelosamente.
       No, no compreendes nem nunca provavelmente irs compreender. No podes compreender.  A sua laringe andava para cima e para baixo  medida que tentava 
engolir em seco.  Nunca tiveste um dono.
      As palavras que ela proferiu deixaram-no muito impressionado. Era assim que tinha sido o seu casamento?
        Antes de me divorciar nem sequer podia votar em quem queria  acrescentou ela logo a seguir , a no ser que estivesse preparada para mentir, e como de 
certeza j reparaste, minto muito mal. Se o Rodney descobrisse que lhe havia desobedecido fazia-me a vida num inferno durante dias, por vezes at semanas, dependendo 
da gravidade da minha infraco.
       Oh, Molly!  sussurrou ele.
       No fazes ideia do que era  prosseguiu a rapariga numa voz tensa e trmula , absolutamente nenhuma ideia. Durante dez anos fiz tudo o que pude para lhe 
agradar.  Cerrou o punho e bateu fortemente com ele no peito.  Tinha apenas dezoito anos quando nos casmos. Ele era mais velho do que eu e parecia to sofisticado. 
Sempre que estava descontente com qualquer coisa a culpa era minha. Eu era o problema. Por conseguinte, era eu quem tinha de mudar. Aps algum tempo isso torna--se 
uma ideia fixa. Ca numa armadilha sem dar por isso e da a pouco j nem sequer pensava no que estava a fazer.
      Jake no sabia o que havia de dizer.
       Talvez esta roupa no me fique bem. Talvez me fique horrivelmente mal. Mas sabes uma coisa, Jake?
      Ele quis negar estas duas afirmaes, mas ao sentir que ela necessitava de desabafar, limitou-se a dizer:
       O qu?
       Isso no tem importncia, o que interessa  como eu me sinto. Ele no podia estar mais de acordo.
       A partir de agora  continuou ela , as coisas vo mudar.  Tirou a mo da camisola para bater com ela no peito.  De hoje em diante, vou fazer o que quero. 
Se no gostares da minha roupa, pior para ti. Se no me ficar bem, pacincia. Quando no estiver a trabalhar visto aquilo que me apetecer.  Molly lanou-lhe um 
olhar de desafio.  Nas horas em que estiver de servio, respeito as tuas preferncias, mas no meu tempo livre, ningum tem nada a ver com o meu aspecto.
      Jake limitou-se a concordar com a cabea. Ela estava a lutar pela sua liberdade, tentando desesperadamente voltar a ser independente e definir-se a si prpria. 
Molly tinha medo de cair na armadilha de lhe querer agradar, como fizera com Rodney, e encontrar-se outra vez na mesma situao.
      Ao compreender isso, Jake viu-a sob uma nova perspectiva. No admirava que se mostrasse relutante em assumir um novo compromisso em termos emocionais. Tinha 
acabado de se divorciar. Ele era um homem franco e directo com uma forte personalidade. Era absolutamente natural que Molly temesse ser de alguma forma controlada 
por ele.
      Jake no tinha a menor inteno de a controlar. Havia tentado dizer-lhe isso, mas agora chegara a altura de passar das palavras aos actos. Coou o queixo, 
consciente do ligeiro som que os seus dedos faziam ao raspar a sua barba incipiente.
        Veste-te como quiseres depois do trabalho, Molly, acho que tens esse direito.
        o que eu vou fazer  disse ela com ar determinado. Jake no conseguiu evitar um sorriso.
       Posso dar-te uma sugesto?
       Claro. No significa que eu a v seguir, mas diz o que quiseres,
       Se fosse a ti, usava essa roupa j agora. Ela olhou para ele desconfiada.
       No h normas de vesturio no rancho. Tu s tu. Veste-te como te apetecer.
       Mas tu no gostas...
       Nunca disse isso  interrompeu-a ele.  Gosto muito dessa roupa e ficas linda com ela. Demasiado at.
      Molly franziu tanto as suas delicadas sobrancelhas que elas se uniram. Ele aclarou a garganta e escolheu as palavras que ia dizer:
       No pus objeces  roupa por no gostar dela. Para dizer a verdade gosto at muito, tenho  medo que todos os outros homens sejam da mesma opinio. Em suma, 
tenho alguns cimes.  Engoliu em seco.  V bem, estou cheio de cimes.
       De quem?
       De toda a gente e de ningum em particular.  Ao ver os olhos dela cheios de perplexidade, acrescentou:  Sei que  uma estupidez, mas  o que sinto. No 
quero que os outros homens olhem para ti.  O que estava a dizer era to absurdo que lhe fez subir uma onda de calor ao pescoo. Esfregou as fontes, tentando encontrar 
uma melhor forma de se exprimir, mas no foi capaz. No havia explicao racional possvel para o modo como se sentia.  Sei que estou errado, e peo desculpa por 
ter agido antes de me aperceber da verdadeira natureza do sentimento que me dominou. A minha nica desculpa  ter sido a primeira vez que me senti assim. Com o tempo, 
tenho a certeza que vou saber lidar com isto.
      Nos olhos de Molly a perplexidade dera lugar  incredulidade.
        verdade  disse ele bruscamente, indicando a camisola com a cabea.  Estavas to bonita, Molly, que quase fiquei sem respirao ao olhar para ti. Achei 
que se isso me aconteceu a mim, tambm iria acontecer a alguns dos outros homens. Por muito que isso me custe admitir, senti-me ameaado.
       Ai, por favor.
       No estou a mentir, juro. No mais profundo de mim prprio, tenho medo de te perder se os outros homens te comearem a cortejar. No sou assim to irresistvel.
      Ao raspar a sola da bota no cho, reparou como os tacos estavam limpos. Depois de todas as horas que ela passava a trabalhar na casa dele, Jake no conseguia 
compreender como  que ainda conseguia ter tempo para limpar a casa de madeira. Mas isso no era de admirar, uma vez que tambm tinha dificuldade em entender como 
 que ela arranjava tempo para dar banho e lavar os dentes a Bart, remendar a roupa e preocu-par-se com todos eles, como fazia. Em suma, era uma mulher espantosa 
cuja principal qualidade estava em pensar sempre nos outros antes dela prpria.
      Nesse momento viu que havia sacos de plstico em cima da cama e que de um deles saa a manga de uma linda blusa amarela. Percebeu que ela tinha ido s compras 
e que os jeans e a camisola no eram as nicas peas que havia trazido. Lembrou-se do brilho dos olhos dela quando se virou para o ver na cozinha, como levantou 
o queixo e endireitou as costas. Pela primeira vez em muito tempo sentia-se bonita e ele deixou-a de rastos em apenas dois segundos.
      Jamais voltaria a cometer o mesmo erro.
      
      Alguns minutos mais tarde, Molly estava no alpendre a enxugar as suas mos suadas nas novas calas de ganga. Do interior da casa chegaram-lhe vozes, entre 
as quais se distinguia o tom profundo de uma que ela conhecia particularmente, Jake. Tinha-a convencido a vestir a camisola, no por ter acreditado minimamente que 
ele achasse que esta lhe ficava bem, mas apenas porque era o que ela queria.
      A rapariga que se casara com Rodney Wells era demasiado jovem para saber quem realmente era. Durante dez infindveis anos tinha caminhado sem rumo e nunca 
havia oposto resistncia s mudanas porque no se apercebera de que estava a ser destruda. Era a Sra. Rodney Wells e nesse papel encontrara uma definio para 
si prpria, que lhe parecia suficiente.
      Mas agora o casamento tinha chegado ao fim e ela via-se confrontada com a necessidade de fazer as suas prprias escolhas. Devia ser algum por direito prprio, 
mas na realidade no o era. Sem Rodney para a orientar, tinha de pensar por si prpria e isso era assustador.
      Agora, encontrava-se numa encruzilhada por causa de uma insignificante camisola vermelha que havia comprado de forma impulsiva. No entanto, para ela no era 
uma simples camisola. Tinha soltado um grito de revolta naquela loja de roupa feminina, quebrado todas as regras de Rodney e gasto praticamente os seus ltimos tostes 
nisso. No podia desistir agora, porque se o fizesse Rodney sairia vitorioso.
      Ao abrir a porta da casa de Jake e atravessar a entrada, Molly teve a horrvel sensao de que o seu destino estava a ser decidido. Ps um p  frente do outro 
a caminho da cozinha. Pelas vozes que escutou compreendeu que a maioria dos homens j tinha regressado do trabalho. Esquecera-se do casaco na casa de madeira, por 
isso todos eles a iriam ver com a nova roupa quando entrasse na cozinha.
      Imaginou gritos de surpresa e sobrancelhas erguidas. Parecia-lhe que as tripas se lhe enredavam num apertado n, to grande era a sua humilhao. Tinha o rosto 
vermelho-vivo e a impresso de que a sua pele encolhera subitamente e se tornara demasiado pequena para o corpo.
      Deteve-se  entrada da cozinha. Jake, que acabava de deixar o fogo, foi o primeiro a v-la, fazendo-lhe um sorriso de boas-vindas. Embora tivesse apreciado 
este gesto, foi a expresso que viu nos olhos dele que lhe deu coragem, um brilho que lhe parecia dizer: Chegaste at aqui, no pares agora.
      Com os braos rgidos, cados ao longo do corpo deu um novo passo e, a seguir, mais outro. Danno, que estava sentado  mesa, olhou para cima. As suas sobrancelhas 
ruivas ergueram-se e os seus olhos cor de avel percorreram-na lentamente. Seguindo o olhar dele, Nate virou-se para tambm a ver.
       Uau!  exclamou Nate.  O que  que lhe aconteceu? Molly engoliu em seco.
       Eu... hum... fui s compras.
      Nate avaliou-a demoradamente dos ps  cabea com uns sorridentes olhos azuis a mostrarem aprovao.
       Nunca um cheque foi to bem gasto. Est linda! Levi acrescentou:
       Est mesmo, querida. O vermelho  a sua cor. Shorty interveio a seguir:
       Bem, est to bonita como uma cachorrinha sarapintada.
      Uma vez que Shorty adorava ces, Molly decidiu tomar as suas palavras como um elogio. Os outros homens acenaram afirmativamente com as cabeas e sorriram, 
mas no houve mais comentrios. Ento, era s isso? Onde estavam os gritos de espanto e as opinies negativas? Foi ajudar a fazer os ltimos preparativos para o 
jantar, sentindo-se entorpecida e embaraada. Todavia, o tema da conversa rapidamente mudou para uma discusso sobre o treino dos cavalos e a sua nova indumentria 
foi esquecida.
      Quando comeou a servir o pur de batata, Jake veio ajud-la a segurar no pesado tacho. No momento em que levantou a cabea, ele olhou-a no fundo dos olhos 
e, a seguir, envolveu-a lentamente com o olhar. Ao terminar a sua avaliao, sussurrou-lhe num tom rouco ao ouvido:
       No sei quanto  que essa roupa custou, mas valeu todos os cntimos que gastaste. Ests mesmo linda.
      
      
      
    Captulo 15
      
      
      No dia seguinte, j eram seis e meia da manh quando Jake foi tomar duche, e um quarto para as sete quando agarrou na roupa para se vestir. Ainda meio a dormir 
e completamente grogue por ter passado metade da noite  volta de um cavalo castrado que sofria de espasmos do diafragma, tambm chamado soluos, bocejou e tentou 
abrir e fechar os olhos para acordar, ao mesmo tempo que pegava num par de calas de ganga lavadas.
      Que raio seria aquilo? Havia uma coisa no bolso da frente das suas calas Wranglers. Ao meter l a mo, os dedos de Jake tocaram num objecto que conhecia muito 
bem: o relgio do av. O sangue gelou-se-lhe nas veias. Molly tinha prometido devolver-lho se decidisse ir-se embora. E, agora, o relgio aparecia misteriosamente 
no bolso de uns jeans lavados, onde ele de certeza o iria encontrar.
      Calou as botas praguejando entre dentes. Agarrou numa camisola e saiu disparado do quarto sem sequer a vestir. Desceu as escadas imaginando-a a conduzir na 
estrada, sem rumo fixo. Sabia que lhe restava muito pouco dinheiro e no tinha stio para onde ir. Pior ainda, ela receava que a polcia andasse  procura do seu 
carro. Que lhe teria passado pela cabea? Raios. Necessitava de a encontrar antes que ela se afastasse demasiado, de a convencer de que no precisava de se ir embora. 
T-la-ia assustado ao contar-lhe que tinha cimes? Talvez o tom ditatorial com que lhe dissera no podes usar isso lhe tivesse recordado Rodney. Deus do cu. Se 
o filho da me a encontrasse sozinha... Jake interrompeu a sua linha de pensamento, temendo imaginar o que lhe poderia acontecer.
      Tinha as chaves da camioneta penduradas num gancho, na cozinha. Atravessou a casa a correr enquanto se vestia, e quando l chegou ainda tinha uma manga por 
enfiar.
       Jake? Meu Deus, onde  o fogo?
      Ele parou to subitamente que as suas botas at patinaram. Molly encontrava-se junto ao fogo, a esfregar uma pea do bico elctrico. No momento em que ele 
pronunciou o nome dela, uma fatia de po saltou da torradeira, fazendo-a dar um pulo. Molly gesticulou com a mo:
       O meu pequeno-almoo. O teu est no forno para no arrefecer. O Shorty e o Levi falaram-me do cavalo doente. Graas a Deus, ofereceram-se para me ajudar 
na cozinha esta manh.  Voltou a montar o bico do fogo.  Guardei-te ovos, bacon e panquecas. Pareciam crianas numa loja de doces e eu era a cozinheira s ordens 
deles.  Molly sorriu.
       No  que eu me importe, eles ajudaram imenso.
      Jake sentiu a tenso abandonar por completo as suas costas. Nunca em toda a sua vida tinha gostado tanto de ver uma pessoa. Ela trazia a linda blusa amarela 
que ele vislumbrara na vspera e as mesmas calas de ganga. O algodo amarelo roava na sua pele como se o sol brilhasse nela. O decote arredondado era bastante 
fundo, revelando a tentadora elevao dos seus seios. Achou-a to jovem, bonita e doce que o corao se lhe encheu de ternura.
      Enfiou o outro brao na manga da camisola e disse:
       Pensei que te tinhas ido embora. Ela olhou-o perplexa.
       E para onde  que eu ia?
      Jake no se conseguiu conter e atravessou a cozinha em trs passadas, dizendo:
       No penses em ir-te embora, ests a ouvir-me, Molly?  Levantou-a nos braos.  Pregaste-me um susto de morte.
      Ela soltou um guincho de surpresa no momento em que os seus ps deixaram de estar assentes no cho. Ele sentiu o pano molhado que Molly tinha na mo roar-lhe 
na nuca quando ela se agarrou ao seu pescoo.
        O meu relgio. Puseste-o nas minhas calas e eu pensei que te tinhas ido embora.  Jake aproximou-a dele, sentindo-se to aliviado por a ter ali, s e salva, 
que teve vontade de a apertar com toda a fora.
       No vais para lado nenhum, menina. Tira essa ideia da cabea.
       Mas, Jake, eu...
       Estou a falar a srio. Desmonto a porcaria do Toyota e espalho as peas por todo o rancho. Ficas aqui e acabou-se.  Encostou a face  linha do pescoo de 
Molly, encantado com o cheiro dela, uma mistura de perfume, talco e essncia feminina que era exclusivamente sua. Sol e flores silvestres. Deus do cu, como a amava. 
E esse amor tornava-se mais intenso de dia para dia, era at assustador gostar assim tanto de uma pessoa.  No h discusso.
        No estou a discutir  disse ela, com um riso trmulo.  No te devolvi o relgio por estar a pensar em ir-me embora. Pelo menos nos tempos mais prximos.
      Jake ficou paralisado.
       No ests a pensar?
      Ela inclinou a cabea para trs, tentando ver-lhe o rosto.
       No. Apenas j no preciso de o ter comigo e achei que tu gostarias de o reaver. Um relgio de famlia como esse  insubstituvel.
      Ele endireitou-se para a olhar nos olhos:
       Era a tua nica garantia em como eu iria cumprir a minha palavra e no contactar as autoridades. Entreguei-to como penhor, lembras-te? Se no pensas em ir-te 
embora, ento por que  que mo devolves?
      Agarrando-se aos ombros de Jake, Molly chegou as costas para trs para manter alguma distncia entre o peito dele e o dela. O pano molhado, que ela continuava 
a segurar na mo direita, batia por baixo da manga de Jake, mas ele no se importava com isso. A nica coisa que lhe interessava era o facto de ela estar ali, de 
a poder envolver nos seus braos e a proteger, se fosse necessrio.
      Ela era tudo o que ele sempre tinha desejado. Absolutamente tudo.
       J no preciso da garantia. A tua palavra basta-me.  Um brilho esclarecedor surgiu-lhe nos olhos.  Compreendi isso. s um homem que cumpre as suas promessas.
      A expresso de Molly disse-lhe mais do que ela pretendia. Ele no era o nico que estava apaixonado.
        Obrigado. Foi uma das coisas mais bonitas que alguma vez me disseram.
      Desejava tanto beij-la. As recordaes daquele dia na floresta rodopiavam na sua mente, a doura com que ela lhe havia correspondido, a forma como se agarrara 
a ele sem opor a menor resistncia. A menos de um metro de distncia, ali estava a bancada da cozinha a chamar por ele, oferecendo um cenrio ideal para outro momento 
de seduo. Os homens j tinham ido trabalhar. Eles estavam sozinhos em casa. Podia coloc-la na borda da bancada e beij-la at ela perder a noo das coisas e, 
a seguir, tirar-lhe a roupa. Ansiava por beijar os seus belos seios, mas desta vez sem duas camadas de tecido sobre os mamilos, e ouvi-la arfar de prazer. E, Deus 
do cu, como ele desejava afagar-lhe o umbigo desnudo. At conseguia sentir o doce calor da pele dela atravs das suas calas de ganga.
        Pensei que... no sei... talvez tivesses resolvido ir-te embora por alguma coisa que eu disse ontem te ter ofendido.
       No me ofendeste a esse ponto.
      Jake comeou a achar que estava a fazer figura de parvo, mas custava-lhe solt-la, agora que a tinha de novo nos seus braos.
       Promete-me uma coisa.
       O qu?
       Que nunca te irs embora sem me avisares, acontea o que acontecer?
       Se me for embora, aviso-te  disse ela solenemente.
       Prometes-me?
       Prometo. Pelo menos, informo-te antes de partir.
      E, nessa altura, ele iria fazer tudo o que lhe fosse possvel para a impedir, pensou cheio de determinao.
       Peo desculpa por te ter assustado  afirmou ela.  No sabia que explicao te havia de dar quando te entregasse o relgio, por isso ontem de manh quando 
estava a tratar da roupa, meti-o no bolso das tuas calas lavadas porque sabia que nesse stio o irias encontrar de certeza.
      Molly tinha sido muito explcita. A tua palavra basta-me. O facto de ela confiar tanto nele tinha para Jake um significado to grande que no era capaz de 
o exprimir em palavras. Chegou-se finalmente para trs, laando um olhar saudoso  bancada e, a seguir, soltou-a, deixando-a deslizar ao longo dele at os ps da 
rapariga tocarem o cho. A suavidade dela a roar no seu corpo vigoroso quase lhe fez perder o controlo.
      Mas ele era um homem paciente e havia coisas pelas quais valia a pena esperar. Quando fizesse amor com esta mulher, queria que tudo fosse perfeito.
      
      Aps ter arrumado a cozinha e feito o governo da casa, o que a manteve ocupada at bem depois do meio-dia, Molly foi lavar as janelas, uma tarefa que tinha 
estado a adiar relativamente a outras mais prementes. Estava na parte de fora da casa, com metade da zona inferior dos vidros j limpos, quando ouviu Jake dizer:
       Alto! Calma, rapaz.
      Sentiu um sobressalto no corao, porque no momento em que escutou a voz dele percebeu que estava a trabalhar com Sunset.
      Molly desceu a escada e contornou silenciosamente a esquina da casa para observ-los. O homem e o cavalo estavam imveis, um diante do outro, como dois pugilistas 
 espera do toque da campainha. At quela altura, Jake tinha-se sentado sempre calmamente a um canto do cercado. Excepto no primeiro dia, nunca mais tentara aproximar-se 
do garanho.
      Fascinada, Molly subiu os degraus e debruou-se no corrimo do alpendre para os ver. Acariciada pela brisa da tarde, conseguia ouvir as inflexes do tom da 
voz de Jake mas no era capaz de compreender tudo o que ele dizia. Sunset ergueu as orelhas, depois resfolegou e abanou a cabea. Jake sorriu e continuou a falar.
      Aps uns instantes, ela desistiu de tentar compreender com exactido o que ele dizia. No eram as palavras que interessavam. O modo no ameaador como se posicionava 
diante do cavalo era eloquente e o seu tom de voz dizia tudo.
      Sunset estava nervoso. Os msculos dos seus flancos tremiam e baixava a cabea, um sinal de subservincia equina, de acordo com o que Jake lhe tinha explicado. 
Ao olhar para o homem, Molly achou que ela tambm se renderia se estivesse na pele de Sunset. Jake era alto, forte e preparado para tudo, um adversrio temvel, 
sem dvida alguma.
      Continuando a dar mostras de confiana ao cavalo, Jake aproximou-se dele devagarinho. Aquela tarde magnfica e quente convidava muito mais a preguiar ao sol 
do que a lavar janelas. Molly pensou no vidro meio limpo que tinha largado abruptamente e disse para si prpria que devia voltar ao trabalho. No entanto, o fascnio 
que sentia pelo homem, pelo cavalo e pelos laos que estavam  beira de se formar entre ambos fizeram-na sentar-se num degrau.
      Aps observar Jake durante um momento, compreendeu que ele ia tocar em Sunset. Com o olhar fixo e o corao aos pulos, Molly colocou os braos  volta das 
pernas. Jake tinha a cabea inclinada, o que lhe ocultava ligeiramente o rosto, e os seus braos abertos. Quando levantou a mo para tocar no pescoo de Sunset, 
o garanho estremeceu desde o peito at s ancas e o seu resfolego tornou-se num relincho queixoso.
       Eu sei  ouviu Jake dizer.
      E, a seguir, comeou a tocar no pescoo do cavalo, roando levemente com a palma da mo no seu pelo negro e brilhante. Molly susteve a respirao.
       Eu sei  disse ele de novo , mas no faz mal, Sunset. J passou, ningum te vai fazer mal outra vez.
      Sunset relinchou e moveu-se. Jake colocou a sua mo por debaixo do pescoo do cavalo, aproximando-se dele at ficarem ombro com ombro. O animal afastou-se, 
como se este contacto lhe fosse insuportvel. Jake deixou-o ir-se embora, mas virou-se para no o perder de vista. Depois de dar vrias voltas ao cercado, Sunset 
parou e voltou-se para encarar Jake de frente.
      E este recomeou o processo desde o princpio.
      Uma hora mais tarde, Molly continuava ainda aninhada no degrau a observ-los. H muito que perdera a conta das vezes que Jake se tinha aproximado e tocado 
no garanho para depois o deixar ir-se embora. Nunca conhecera ningum com tanta pacincia. Dava um pequeno passo em frente e um gigantesco passo atrs. Ele havia-lhe 
dito uma vez que o treino dos cavalos se assemelhava muito a um namoro e agora ela via que isso era verdade. Jake no parecia preocupar-se com o facto de no estar 
a fazer qualquer progresso, contentando-se em repetir os mesmos passos tantas vezes quantas as que fossem necessrias.
      Os olhos de Molly inundaram-se de lgrimas. Jake. Recordou-se de todos os ramalhetes e pequenas surpresas que ele lhe deixara  porta da casa. Tinha a consola 
da lareira cheia de lindas pedras, penas coloridas e flores secas. Mimos sem importncia, dizia-lhe ele sempre com um encolher de ombros quando ela lhe agradecia. 
Mas Molly no estava de acordo, aqueles mimos sem importncia significavam tudo para ela.
      Ele era diferente de todas as pessoas que ela conhecia. Encantador de cavalos ou apenas um homem, isso deixara de lhe importar. Quando a via aproximar-se de 
Sunset, quase conseguia sentir a sua gentileza e preocupao. Tinha um dom especial, uma capacidade para ultrapassar barreiras e tocar no corao dos outros  qual 
nem mesmo um aterrorizado cavalo podia resistir.
       Chega aqui abaixo, Molly  gritou ele subitamente.
      Ela endireitou-se imediatamente. No se tinha apercebido de que Jake sabia que ela estava ali.
       Anda, Molly  chamou-a de novo.
      As pernas dela estavam entorpecidas e foi com dificuldade que se levantou do degrau. Quando chegou ao cercado, Jake j tinha saltado por cima da vedao e 
estava c fora  sua espera. Sorriu ao v-la aproximar-se.
       Viste como  que se faz, agora  a tua vez.
       Ai no, eu...
      Ele segurou-lhe no queixo com a ponta dos dedos e olhou-a bem nos olhos.
       Disseste-me esta manh que confiavas na minha palavra, no foi?
       Sim, claro, mas...
       Ele no te vai fazer mal. Dou-te a minha palavra.  Como  que podes ter a certeza?
      Jake libertou-lhe o queixo e virou-se para o cavalo.
       Sinto-o.
        Sentes?  Molly teve vontade de rir, mas a seguir lembrou-se de todas as vezes que o vira no campo a trabalhar com cavalos. A comunicao silenciosa que 
parecia estabelecer-se entre ele e um cavalo no se podia explicar pelos padres normais, mas era absolutamente real.
      Molly procurou-lhe o olhar, com todos os sentidos alerta. Confiana. Tinha jurado nunca mais confiar cegamente em ningum.
       Durante todo o tempo que estive a trabalhar com ele, vi-o a olhar na tua direco. Este cavalo corteja-te, mida.
      Molly engoliu em seco. Confiava em Jake de uma forma que jamais teria imaginado possvel no dia em que chegara, mas no sabia se essa confiana ia ao ponto 
de colocar a sua vida nas mos dele.
      Tremia tanto que mal conseguiu saltar a vedao. Sunset tambm no ajudou nada. No momento em que ela invadiu o seu territrio, comeou a protestar e a dar 
passos para o lado. Molly, que estava empoleirada na parte de dentro da cerca, olhou por cima do ombro para o cavalo, convencida que este a iria pisar no preciso 
momento em que pusesse um p no cho.
       Ele est s a falar contigo  assegurou-lhe Jake.
       O que  que ele est a dizer?  perguntou Molly, com voz estridente.
      Jake pousou os braos sobre as travessas da vedao e olhou para o cavalo.
       Est a dizer que j estava na altura de o vires visitar. Est farto de esperar por ti. No  mesmo coisa de mulher levar tanto tempo para tomar uma deciso?
      Molly no acreditou nem por um segundo que Jake soubesse o que o cavalo estava a pensar, mas animou-se ao ver um brilho divertido nos olhos dele. Embora pudesse 
ter algumas dvidas sobre Jake, sabia que era um homem bom e gentil. No se estaria a rir se achasse que ela corria perigo.
      Confiana. Tudo se resumia a isso. Quando se tratava de homens, confiar no lhe era fcil. No momento em que havia acordado de um torpor induzido por drogas 
e se vira numa clnica psiquitrica, tinha perdido toda a f na natureza bondosa dos machos da sua espcie.
      E, agora, aqui estava ela, novamente numa encruzilhada. Jake pedia-lhe que lhe confiasse a sua segurana, possivelmente at a sua vida. Se ele estivesse enganado 
 meu Deus, se ele estivesse enganado  nunca seria capaz de fugir com a rapidez necessria para que o cavalo no a ferisse gravemente.
      Os ps de Molly tocaram no cho. Ela engoliu em seco. Era a nica coisa que conseguia fazer para no se agarrar com tanta fora  vedao, mal se aguentava 
nas pernas quando se virou para olhar de frente para o cavalo.
       Tem a c-cabea levantada  disse ela com voz trmula.  No est subserviente.
       No  Jake concordou suavemente.  Olha s para isto.
      Molly olhou e quase molhou as calas. O garanho relinchou, moveu a sua enorme cabea e bateu na terra com a pata da frente.
       Oh, meu Deus!
       Querida, ele no tem medo de ti. Olha para ele. Fez uma das maiores demonstraes de boas-vindas que eu j vi. Est apenas a dizer-te ol.
       Oh!  Molly engoliu em seco com dificuldade.  Ol, Sunset.
      O garanho soltou uns rudos, levantou uma pata e com a cauda bem erguida deu duas voltas, descrevendo um oito, no seu canto do cercado. Ao parar, relinchou 
e voltou a mover a cabea.
       Molly  sussurrou Jake.  Vai ter com ele.
      Ela procurou s cegas agarrar-se a vedao que estava atrs de si... no conseguiu.
       Eu... hum... talvez seja melhor esperar que ele venha ter comigo.
       Vai devagarinho. Tu viste-me. Sabes como .
        mais ou menos como se andasse de lado?
       Se quiseres, mas penso que no  necessrio. Essa  a minha maneira de lhe dizer que no lhe vou fazer mal. Acho que ele j sabe isso a teu respeito.
      Molly chegou  concluso de que o garanho no devia ter medo dela devido ao seu ar pattico e nada ameaador, uma mulher rechonchuda e de estatura diminuta 
que tropeava nos seus prprios ps.
       Um passinho de cada vez  murmurou Jake.  Vai ter com ele. Ela deu um passo e Sunset soprou pelo nariz, pregando-lhe um susto de morte.
       O que  que isto quer dizer?
       Nada. Apenas que ele est a falar contigo.
       E o que  que ele est a dizer desta vez?  deu outro passo.  No tenho jeito nenhum para isto, sabes? O que  que eu fao quando chegar ao p dele?
       Acaricia-o.
       Os cavalos no mordem?
       Ele no te vai morder.
      Molly rezou para que no o fizesse. Os dentes dele eram gigantescos. Deu um novo passo e, a seguir, outro ainda. O cavalo deixou de empinnar-se e ficou completamente 
imvel, com a cabea bem levantada e as orelhas inclinadas para a frente.
       Fala com ele  foram as instrues que Jake lhe deu.  Tranquiliza-o.
        Ol, Sunset  disse Molly com a voz trmula.  No me mates, ests bem?  Deu mais um passo.  Eu... hum... eu no percebo nada de cavalos, sabes. Faz com 
que a minha primeira experincia seja agradvel.  Avanou um pouco mais e perdeu a coragem.  No consigo, Jake. No consigo mesmo. Ele  to grande.
       J andaste mais de metade do caminho. Tu s capaz, Molly.
        No. Acho que talvez...  o cavalo deu um passo em direco a ela.  Oh, meu Deus! Jake?
        Caramba!  exclamou ele quando o cavalo deu outro passo.  Olhem s para isto. No te mexas, Molly. Ele est to desconfiado como tu. No faas movimentos 
bruscos para no o assustar.
      Molly tinha as maiores dvidas de que o cavalo estivesse to desconfiado como ela. Era imensamente mais forte e tinha cascos e dentes.
      Passo a passo, Sunset percorreu hesitantemente a distncia que o separava de Molly. Quando chegou ao p dela cheirou-lhe o peito. Depois, ficou ao seu lado 
com a cabea para baixo.
      Embora no fosse perita em cavalos, Molly era capaz de compreender a linguagem corporal dele. Ondas de cansao inexprimvel jorravam dos olhos do animal. A 
ateno de Molly prendeu-se no seu pobre e maltratado corpo. quela distncia conseguia ver onde o chicote lhe tinha cortado profundamente a pele. Algumas feridas 
deixar-lhe-iam cicatrizes horrveis e ela sabia que as mais profundas, que ainda estavam abertas, deviam doer-lhe horrorosamente.
        Oh, Sunset  suspirou a rapariga.  Tenho tanta pena de ti por causa do que ele te fez. Tanta pena.
      O cavalo gemeu e bateu-lhe na mo. O nariz dele era suave como veludo. Molly virou a mo para lhe tocar no focinho com a ponta dos dedos. Sunset mexeu os lbios, 
fazendo-lhe comicho.
      Nesse momento ela perdeu o medo. Sunset queria ser amigo dela. No de Jake, mas dela. A tremer, deslizou os seus dedos pelo focinho do cavalo at ao centro 
do nariz dele. Nunca havia reparado que os cavalos tinham pestanas. As de Sunset eram longas e negras e os seus expressivos olhos castanhos suplicantes. Tocou nos 
tufos sedosos que ele tinha na base das orelhas e mexeu-lhe na crina, que era spera e pesada, a textura dos seus pelos fazia-lhe lembrar seda crua.
       Tu s lindo  disse ela maravilhada  s to lindo, Sunset.  Sentindo-se com mais coragem, esticou a mo para lhe tocar no pescoo e, a seguir, aproximou-se 
mais dele para lhe dar pancadinhas gentis nos ombros, tendo o cuidado de evitar as suas feridas.  Que bom menino. s mesmo querido.
      Jake disse-lhe l de trs:
       J tens trabalho para fazer hoje. Esses cortes necessitam de ser desinfectados e untados com uma pomada. Os que ainda no sararam esto a comear a criar 
pus.
      Molly j havia dado por isso, era o sinal de que uma ligeira infeco que se estava a desenvolver.
       Ele precisa de um antibitico.
       Tenho penicilina no frigorifico do estbulo. Daqui a algum tempo, guando te sentires mais  vontade com ele, talvez lhe possas dar uma injeco, mas por 
agora, j  um bom avano limpar-lhe as feridas.
       Queres que eu faa isso?  perguntou ela incrdula.
        s a nica que lhe consegue tocar  foi a resposta de Jake.   ele quem manda, mida, e escolheu-te a ti.
      Nunca ningum a tinha escolhido para nada de especial. Quando andava no liceu era magricela e demasiado baixa, e os colegas nunca se lembravam dela para integrar 
as equipas desportivas. Ao tornar-se mais velha, passou a ser um rato de biblioteca, exacerbando o problema.
      Uma onda de calor invadiu-a, uma maravilhosa e estimulante sensao de calor. Sunset tinha-a escolhido a ela. Jake era muito mais qualificado para isso, sabia 
tratar de cavalos e dar-lhes injeces. Ele era um perito e ela no tinha quaisquer conhecimentos. Mas Sunset tinha-a escolhido a ela.
        Vou a correr buscar desinfectante e algodo. H duas coisas de que no te podes esquecer. Nunca te ponhas atrs dele. Os cavalos no conseguem ver para 
trs e s vezes do coices. A outra coisa que tens de ter sempre presente  o facto da viso dele ser binocular  frente e monocular dos lados. Quando ests perto 
da zona da anca, ele quase no te v, a no ser que vire a cabea. No tires a mo de cima dele para que saiba sempre onde ests e fala muito com ele para que siga 
a tua voz. A maior parte das vezes que os cavalos agridem as pessoas  porque estas fazem alguma estupidez. Parecia sensato.
       Achas que me podes deixar sozinha com ele? Sou perita em matria de estupidez.
      Ele riu-se ligeiramente.
         s por uns minutos. Continua a fazer o mesmo, Molly. Faz-lhe festas, fala com ele. Esse  o melhor remdio para Sunset neste momento, aquele de que ele 
mais precisa.
       E o que  que eu lhe digo? Jake hesitou antes de responder:
       O que gostarias que te dissessem a ti.
      Falando num tom baixo para no ser ouvida por mais ningum, Molly passou os minutos seguintes abrindo o seu corao a Sunset, dizendo-lhe tudo aquilo que sentia 
que ele necessitava de ouvir, porque era o que ela prpria precisava que lhe dissessem.
       No tiveste culpa  sussurrou-lhe.  Deste-lhe tudo o que tinhas e esforaste-te ao mximo. Mas nada era suficiente para ele. Continuou a pedir-te mais e 
mais, fazendo-te competir com cavalos mais velhos e mais rpidos, s para lhe engordares a carteira. Nunca tiveste culpa, Sunset.
      O cavalo relinchou suavemente e enfiou o nariz no sovaco de Molly. Ela contraiu-se sem saber o que fazer, mas vendo que o animal no se mexia e apenas encostava 
o focinho, compreendeu que estava assustado e desejava estar o mais perto possvel dela. Um co ter-lhe-ia provavelmente saltado para o colo, mas como era demasiado 
grande para isso, Sunset procurou conforto da nica forma que lhe era possvel, rodeando-se do cheiro dela.
      Tentando no o magoar, Molly pousou a outra mo na parte superior do pescoo do cavalo e encostou a sua face  testa dele.
       Ai, Sunset, a vida  to injusta. Quem me dera ter podido evitar isto. Se tivesse sabido, ter-te-ia roubado antes.
      Nesse momento chegou Jake com os medicamentos, mas ficou  espera do lado de fora da vedao, sem saber se devia entrar, com medo de assustar o cavalo.
       Isto no arde e tem propriedades anestesiantes que aliviam a dor  disse ele quando Molly se aproximou da vedao para ir buscar a garrafa.  S precisas 
de embeber o algodo, esfreg-lo gentilmente nos cortes e limp-los o mximo que conseguires. Depois podes aplicar a pomada que evita que o p se infiltre nas feridas 
abertas, ajudando-as a cicatrizar.
      Molly disse que sim com a cabea. Jake olhou-a nos olhos e sorriu abertamente, formando rugas no seu rosto moreno.
       Fizeste tudo muito bem at agora  disse-lhe ele, calorosamente.
       J no tenho tanto medo.  Ela piscou o olho a Jake e foi imediatamente ter com o cavalo.  Ai, Jake, ele est to alquebrado. Lembro-me do ar orgulhoso 
com que olhava para mim sempre que me via e agora est to alquebrado.
       Nada do que ele tem  irreversvel  garantiu-lhe Jake.
        Deus queira que tenhas razo. Seria horrvel se no conseguisse recuperar.
       Vai conseguir, se o amares o suficiente, ele vai conseguir.
      Molly voltou a olhar para Jake, sem se importar que ele lhe visse os olhos pejados de lgrimas.
       Ainda tem algum orgulho dentro dele  disse Jake.   por isso que isto tem sido to difcil para o Sunset, porque conserva um orgulho e uma fora interior 
que o Rodney no lhe conseguiu tirar. Conheces o ditado, quanto maior  a subida, pior  a queda. A queda do Sunset foi muito dolorosa, Molly, mas o cavalo tem 
dentro dele o que necessita para se levantar.
       No sei  respondeu ela, lembrando-se do modo como o garanho havia metido o nariz debaixo do seu sovaco.  No sei se ainda tem fora para isso.
      Jake olhou para o animal com ar grave. Quando finalmente falou, f-lo num tom enrgico:
        Tens de acreditar nele, querida. Neste momento, sente-se muito perdido e v o seu mundo virado de pernas para o ar. Tens de o ajudar a acreditar em si prprio 
outra vez.  Um sorriso triste aflorou-lhe aos bios.  s o espelho dele. A forma como o vires  aquela como ele acabar por se ver a ele prprio. Compreendes o 
que estou a dizer?
      Molly sentiu um aperto na garganta.
       Que nos vemos do mesmo modo que os outros nos vem a ns. Jake esticou-se por cima da vedao para lhe segurar no queixo. Depois de analisar todos os seus 
traos como se os pretendesse reter, disse:
       Exactamente, vemo-nos atravs dos olhos dos outros.
      Quando ele se virou e se foi embora, Molly seguiu-o com os olhos, sem conseguir deixar de pensar que Jake no se estava a referir apenas ao cavalo.
      Vemo-nos atravs dos olhos dos outros. Estas palavras no lhe saram da cabea durante as duas horas seguintes em que esteve a trabalhar com Sunset.
      Com os braos pousados na travessa da cerca, Jake prestava ateno ao modo como Molly tranquilizava o cavalo. Ainda h pouco tempo, ela havia posto em dvida 
a sua capacidade para ser a dona de Sunset, afirmando que o que sentia pelo garanho se aproximava mais da piedade do que do amor.
      Mas no era isso o que ele ouvia agora. Cada palavra, cada inflexo da sua voz estava repleta de amor. Jake descontraiu-se um pouco, seguro de ter tomado a 
deciso certa. No lhe teria sido difcil criar empatia com Sunset, mas quando sentiu que Molly o estava a observar, decidiu recuar. Ela precisava disso, talvez 
ainda mais do que Sunset.  medida que falava com o cavalo, estava a falar tambm com ela prpria, quer se apercebesse, quer no.
       No tiveste culpa, Sunset. No tiveste culpa nenhuma.
      Molly tambm no havia tido culpa. Jake estava absolutamente certo disso.
       Ele  um monstro cruel por te ter feito isto.
      Rodney no havia sido menos cruel com Molly e ela iria aperceber-se disso, era apenas uma questo de tempo.
       Fez-te perder a confiana em ti prprio.
      A confiana de Molly em si prpria tambm tinha sido destruda.
       s to bonito, Sunset. To, to bonito.
      Jake olhou para Molly e viu como ela era bonita. O corte de cabelo atrevido e a roupa nova tinham-na transformado. Mais importante ainda, ele estava totalmente 
apaixonado pelo ser humano que ela era. Durante toda a sua vida tinham-lhe dito que a beleza era unicamente superficial, mas s agora -compreendia o verdadeiro significado 
disso. Iria amar esta mulher para sempre, no apenas enquanto ela fosse nova e bela, mas tambm quando envelhecesse. Quando da a cinquenta anos olhasse para ela, 
iria amar cada um dos cabelos grisalhos da sua cabea e cada uma das rugas da sua doce face.
      Vemo-nos atravs dos olhos dos outros.
      Agora que Molly tinha pronunciado estas palavras, quanto tempo levaria ela a compreender o seu significado? Quanto tempo seria necessrio para que se olhasse 
ao espelho e se visse a si prpria em vez da imagem distorcida que Rodney havia criado no seu esprito?
      A bela e doce Molly acreditava que era feia.
      A bela e doce Molly estava constantemente a fazer dieta numa tentativa ftil para alterar o corpo fantstico que a natureza lhe havia dado.
      A bela e doce Molly olhava, mas no conseguia ver.
       Jamais lhe perdoarei o que ele te fez  sussurrou ela ao cavalo. Jake ouviu estas palavras e fechou os olhos, pensando que ele tambm nunca lhe perdoaria. 
No sabia exactamente o que Rodney lhe havia feito a ela, mas o resultado fora devastador e, tal como o cavalo, ela tambm tinha um longo caminho a percorrer at 
ficar curada.
      Jake esperava que e o cavalo e a mulher pudessem fazer a viagem juntos.
      
      
    Captulo 16
      
      
      
      Nessa noite Molly sonhou com Sarah e com o pai. No sonho, os seus rostos atormentavam-na de uma forma que ela nunca havia permitido durante o dia.
       Ajuda-nos, Molly! gritavam, imploravam-lhe, tentando alcan-la.
      Molly deparava-se com inmeros obstculos no caminho que a levava at eles. O mundo tomara-se escuro com nuvens que se moviam como se fossem fumo coberto de 
fuligem, formando rolos  sua volta, que pareciam estar vivos. No sabia onde estava e nada lhe parecia familiar.
      Encontrou um abismo profundo, atravessado por uma ponte pedonal vacilante. Quando olhou para o outro lado do precipcio, viu Sarah e o pai esforando-se para 
chegarem at ela. Molly gritou-lhes que ia a caminho e entrou na ponte. Correu e continuou a correr... Por mais que tentasse, no conseguia chegar a lado algum. 
Cada vez mais aterrorizada, descobriu que a ponte pedonal se estreitava continuamente, dando consigo a equilibrar-se em cima de uma oscilante faixa de madeira pouco 
mais larga do que uma rgua. Com medo de cair, virou-se e descobriu outro caminho para atravessar o abismo, mas a ponte, atrs dela, havia desaparecido.
      Nesse momento caiu com a cabea virada para baixo naquele abismo que parecia infinito.  medida que atingia maiores profundidades ouvia os ecos dos gritos 
de Sarah e do pai, cada vez mais distantes, at se tornarem meros sussurros na sua cabea. Quando chegou ao fundo, mergulhou num negrume indescritvel, to denso 
como o petrleo. Ao afogar-se nele, tentou desesperadamente alcanar a superfcie para respirar e, quando finalmente conseguiu, deu vrios passos sem sair do mesmo 
stio, procurando o pai e a amiga nos limites do abismo.
      Por fim descobriu-os com os braos abertos, suplicando-lhe que os salvasse. Quando tentou nadar, aquele lquido espesso efrio quase a sugou, mas ela continuou 
em frente, respirando com dificuldade, porque o ar lhe faltava, e com o corao a querer explodir-lhe no peito. Vou a caminho, pensou ela. Desta vez consigo ouvir-vos 
e vou a caminho.
      To depressa lhe parecia escutar a voz de Sarah como a do pai. Molly avanava com grande esforo, lutando desesperadamente para os alcanar. No podia deix-los 
morrer. No outra vez. No ia voltar a falhar-lhes.
      Acabou por ver Sarah mesmo  sua frente. A amiga parecia encontrar-se sob a luz de um projector com um brilho muito forte que realava todos os pormenores 
da sua pessoa. Vestida com uma camisa de noite demasiado grande, parecia assustada e confusa, como tinha estado nos dias anteriores  sua morte. Na mo direita segurava 
uma navalha de barba. Ajuda-me, gritou ela e, a seguir, cortou os pulsos soluando.
       No!  gritou Molly.  Por favor, no! Espera por mim, Sarah. Estou quase a chegar! No, por favor, no!
      Mas j era demasiado tarde. Sarah caiu de joelhos ao mesmo tempo que pingos de cor carmesim lhe salpicavam a branca camisa de dormir e as pernas. Horrorizada, 
Molly descobriu que a lama viscosa que a rodeava se havia transformado em sangue. Sarah comeou a gritar, soltando lancinantes gritos de agonia  e Molly continuava 
sem conseguir chegar at ela. Outra vez no. Aquilo no podia voltar a acontecer.
      
      Molly acordou sobressaltada.
      Durante um instante ficou paralisada a olhar para o tecto sem expresso e com o corpo rgido. A seguir, sentou-se na cama de um salto, empapada em suor e com 
as pernas enredadas nos lenis. Cobriu o rosto com as mos, incapaz de expulsar aqueles gritos da sua cabea. Eram to estridentes e agudos que pareciam mesmo reais.
      Destapou a face para os escutar e ficou ainda mais horrorizada ao descobrir que no se tratava de um sonho. Saiu de rompante da cama e correu para a janela 
que estava aberta. Uma luz alaranjada e trmula danava na parte de cima do vidro. Agarrando-se ao parapeito, ps a cabea de fora da janela e espreitou entre as 
rvores. Fogo. O estbulo. Oh, Deus do cu, o estbulo.
      Saiu do quarto sem se lembrar de vestir o roupo. Ao chegar  porta parou de repente, admirada por a encontrar entreaberta. Era capaz de jurar que a tinha 
trancado antes de ir para a cama.
      Os gritos que ouvia fizeram-na esquecer-se da porta. Os cavalos. Todos aqueles pobres cavalos. Jake j l estaria? Saberia ele que o estbulo estava em chamas?
      A luz do fogo infiltrava-se na escurido permitindo-lhe ver. Corria sem praticamente sentir as picadas e os arranhes nas solas dos ps. Lembrava-se da cria 
recm-nascida de White Star, da prpria gua e de todos os outros cavalos. Que forma mais horrvel de morrer, presos naquele horrvel inferno. Se Jake no tivesse 
ainda acordado, ela tinha de dar o alarme.
      Quando chegou perto do edifcio em chamas, escutou gritos e viu silhuetas negras de homens correndo de um lado para o outro, uns com mangueiras e outros tentando 
acalmar os animais aterrorizados que haviam retirado do estbulo. A confuso era enorme. Os cavalos relinchavam e faziam esforos para arrancarem as correias, lutando 
desesperadamente para se libertarem do fogo e dos homens. Molly viu Shorty e Tex tentando puxar uma mangueira que estava presa debaixo dos cascos agitados dos animais. 
Depois descobriu Hank e Bill a tratarem da cria de White Star, que parecia mais assustada do que ferida.
      Aliviada por no ser a primeira pessoa a chegar ao local do incndio, Molly foi ver como se encontrava Sunset. O garanho estava na parte mais afastada do 
cercado com a anca encostada s travessas da cerca e a ateno concentrada nas chamas. Quando viu Molly, soltou uns rudos nervosos e balanou a cabea. Ela contornou 
o cercado e meteu a mo entre as travessas para o acariciar.
       No te preocupes, rapaz. Aqui ests a salvo.
      Como se tivesse compreendido, o garanho acenou afirmativamente com a cabea e bateu com a pata na terra.
      Convencida de que Sunset estava bem, Molly deixou-o e foi  procura de Jake. Nunca conseguiu explicar como foi capaz de o encontrar no meio da confuso, mas 
descobriu-o quase imediatamente. Com a ajuda de uma lanterna, andava de cavalo para cavalo, verificando se estavam feridos. Ao aproximar-se dele, Molly deu uma olhadela 
ao estbulo que estava a arder, e pensou que Jake empregaria melhor o seu tempo se estivesse ajudando a apagar as chamas. Embora alguns dos seus homens se esforassem 
por isso, parecia que a batalha estava a ser perdida.
        Os cavalos esto todos bem?  perguntou ela quando chegou perto de Jake.
      Este olhou para cima, levantou um brao, segurou-lhe na mo e trouxe-a para o p dele.
       Nunca faas isso, Molly! Vais apanhar um coice de que nunca mais te irs esquecer.
      Ela reparou que se tinha posto atrs de um cavalo castrado. As longas e trmulas labaredas cor de mbar que danavam nas costas deles tornaram-se ainda mais 
brilhantes, seguindo-se-lhes um barulho de coisas a partirem-se e uma exploso cor de laranja no cu nocturno. Molly deu um salto com o susto. O cavalo agitou-se 
e relinchou, aterrorizado com a rajada de vento quente que se havia levantado.
      Sem soltar a mo de Molly, Jake endireitou-se e empurrou fortemente a anca do animal para o impedir de bater com os cascos nos ps dela. Olhando por cima do 
ombro dele, Molly reparou que o tecto do estbulo havia desabado.
        Oh, meu Deus!  exclamou ela, elevando a voz de forma a ser ouvida no meio daquele barulho.  O estbulo, Jake. Como  que isto comeou? Todos os cavalos 
foram retirados a tempo?
       Os cavalos esto todos bem  respondeu Jake, puxando-a com fora contra ele e soltando-lhe a mo para, a seguir, a rodear com um brao,  Raios, Molly, o 
que  que ests a fazer aqui meio vestida e descala?
      Sem esperar que ela lhe respondesse, Jake enfiou a lanterna no cinto e abriu caminho com os ombros por entre a confuso de homens e cavalos, protegendo-a com 
o peso do seu corpo  medida que avanavam. Apenas permitiu que ela se soltasse quando chegaram ao limite do ptio do estbulo.
        Onde  que pensas que ests?  perguntou ele asperamente.  No se anda  volta de cavalos em pnico sem sapatos. Tens alguma ideia do que os cascos deles 
te podem fazer?
      Molly cruzou as mos sobre a cintura, tomando repentinamente conscincia de que tudo o que trazia vestido era uma T-shirt demasiado grande e um par de cuecas 
brancas de renda. O olhar brilhante de Jake passou rapidamente sobre ela, prendendo-se momentaneamente nas suas pernas desnudas.
       Vai vestir qualquer coisa  disse ele. Ela deu um passo atrs.
        Desculpa. Eu apenas...  no conseguiu prosseguir, incapaz de encontrar palavras para se explicar.  Eu no tinha a certeza se sabias. Do incndio, quero 
dizer. Por isso sa a correr sem pensar.
      Virou-se para se ir embora. Ao dar o segundo passo, foi travada por uma mo de ferro que caiu sobre o seu ombro.
       Molly.
      Jake no disse mais nada. Apenas Molly. No entanto, a forma como pronunciou o seu nome dizia-lhe tudo. Parou para olhar para ele.  luz bailarina das chamas 
entreviu riscas de fuligem no seu rosto. Pela primeira vez desde que o conhecera, tinha os amplos ombros descados e um ar muito derrotado.
       Peo desculpa  disse Jake. Sem tirar a mo do ombro dela, olhou para trs, para o fogo.  No devia ter falado contigo daquela maneira.
      Um cavalo relinchou e ele agarrou-lhe mais fortemente o ombro. Molly tentou tirar a mo de Jake de cima dela.
       Vai-te embora, Jake. Eles precisam de ti e eu estou bem.
       Peo desculpa  disse ele outra vez.  Apenas tive medo que te magoasses e...  interrompeu-se e engoliu em seco.  Desculpa.
      Molly conseguiu esboar um sorriso.
       Vou vestir-me e volto j.
      Ele apertou-lhe gentilmente o ombro.
       No te aproximes dos cavalos at eles se acalmarem. J tive perdas que chegassem para uma s noite.
      Molly seguiu-o com os olhos, admirando a facilidade e segurana com que corria. Ao chegar junto aos cavalos, tirou a lanterna do cinto e retomou a tarefa de 
verificar se tinham queimaduras.
      Ela ficou algum tempo parada, a observ-lo. Parecia totalmente concentrado nos animais. Era como se os gritos dos homens que combatiam o fogo no penetrassem 
no seu esprito. Quando outras vigas ruram dentro do estbulo, mal olhou para elas, mais preocupado com o bem-estar dos cavalos do que com os danos da sua propriedade. 
Esta constatao comoveu Molly. Embora j tivesse uma grande admirao por Jake Coulter, nunca o havia admirado tanto como naquele momento.
      O colapso das vigas aterrorizou uma gua que estava amarrada a um canto exterior do cercado de Sunset. Empinou-se e tentou libertar-se da corda, batendo violentamente 
com os cascos nas travessas da vedao. Jake foi a correr segurar-lhe o cabresto.
       Calma, calma  ouviu-o Molly dizer.
      Usando toda a sua fora e todo o seu peso, empurrou a cabea frentica da gua para baixo, impedindo-a de voltar a empinar-se. Ela relinchou e estremeceu, 
dando nervosamente pontaps para o lado. Jake colocou uma das suas mos sobre a espdua do animal e aproximou-se dele para lhe sussurrar qualquer coisa. A gua fez 
uns rudos queixosos, mas acalmou-se. Ele desprendeu-lhe a corda e levou-a para o canto oposto do cercado, onde ficaria afastada do fogo.
      Molly sorriu, lembrando-se de que Jake havia negado ser um encantador de cavalos. Embora no quisesse contest-lo, de uma coisa ela estava absolutamente certa. 
Sabia lidar com os cavalos de uma forma que os acalmava e conquistava a sua confiana.
      O sorriso dela alargou-se. Tambm sabia lidar com as mulheres.
      Uns minutos mais tarde, ao subir os degraus do alpendre da casa de madeira, lembrou-se que tinha encontrado a porta entreaberta quando acordara. Estranho. 
Era capaz de jurar que a havia trancado antes de ir para a cama.
      Como estava cheia de pressa, no perdeu tempo a pensar no assunto. Queria vestir-se o mais rapidamente possvel e voltar para o estbulo. Poderia no ter a 
menor capacidade para ajudar a tratar dos cavalos, mas de certeza absoluta que haveria muitas outras coisas que seria capaz de fazer.
      Ao entrar no quarto, acendeu a luz do tecto. Parou repentinamente a meio caminho com os olhos fixos na cama desfeita. Os lenis brancos estavam sujos de terra 
e salpicados de agulhas de pinheiro. Perplexa, aproximou-se para ver melhor. O corao saltava-lhe do peito. Pegou numa agulha de pinheiro e ficou estupidamente 
a olhar para ela. Como  que resduos do incndio tinham ido parar aos seus lenis? Antes de se deitar eles estavam limpos.
      Deixou-se cair na beira da cama, sentindo-se entorpecida.  Uma sensao gelada apoderou-se dela. A agulha de pinheiro deslizou-lhe por entra os dedos e tombou 
no cho. Lembrou-se mais uma vez de ter encontrado a porta da frente entreaberta quando acordou, uma porta que no tinha a menor dvida de ter fechado antes de se 
deitar.
      Deus do cu. Teria sofrido um ataque de sonambulismo?
      S de pensar nisso sentiu um aperto no estmago. Embora tentasse no voltar a pensar nesses episdios, ela tinha efectivamente um historial de sonambulismo.
      Voltou-se para olhar para os lenis e, a seguir, observou os seus ps. Estavam sujos por ter andado descala no campo. Se naquele momento se metesse na cama, 
iria suj-la de terra, deixando manchas muito parecidas com as que l estavam.
      Oh, no... por favor, no.
      Molly tapou a boca com a mo, recordando-se dos seus ataques de sonambulismo na faculdade. Teria sofrido um ataque e sado da casa de madeira sem dar por isso? 
Estava certa de que os seus ltimos episdios de sonambulismo tinham sido fabricados por Rodney para a fazer passar por louca, mas talvez estivesse enganada.
      Algum deixara a porta da frente aberta.
      Algum sujara de terra os seus lenis.
      No podia ser obra de Rodney, porque ele se encontrava muito longe dali.
      Olhou para a janela, onde a luz das chamas continuava a danar sobre os vidros. Uma horrvel sensao de desconsolo percorreu-lhe o corpo. Pensou na cria amorosa 
de White Star. Podia ter morrido no incndio, tal como todos os outros cavalos.
      Deus do cu. O que teria ela feito?
      Enfiou a cabea nas mos e tentou acalmar-se. No tires concluses precipitadas. Quando andava na faculdade fora-lhe muito difcil ultrapassar o suicdio de 
Sarah, a sua melhor amiga, e durante uns tempos aps a morte desta havia tido problemas de sonambulismo. Uma vez, apareceu na cozinha da residncia de estudantes 
 hora do pequeno-almoo e, ao acordar, viu-se diante de toda aquela gente em camisa de dormir. Outra, foi parar  rua e despertou num cruzamento muito movimentado. 
Estes episdios foram alarmantes e indiscutivelmente bizarros, mas at  morte do pai, um ano atrs, nunca tinha destrudo nada nem se mostrara violenta durante 
os seus ataques de sonambulismo. E tinha fortes motivos para acreditar que Rodney havia forjado esses ataques por uma razo ignbil.
      Porque haveria ela, ento, de se considerar automaticamente responsvel pelo incndio?
      Molly deixou cair as mos e respirou bem fundo. No havia nenhum motivo para acreditar que tivesse sido um episdio de sonambulismo.
      Tinha de haver outra explicao para a porta aberta e a sujidade dos seus lenis.
      Tinha de haver.
      
      No dia seguinte, a meio da tarde, Molly estava to cansada que mal se podia mexer. Estivera desde o pequeno-almoo a ajudar os homens a construrem cercados 
e abrigos de emergncia para os cavalos. Apesar do frio, o sol batia-lhe com fora nas costas e o suor deslizava-lhe pela coluna. Cada vez que levantava a enxada, 
os seus msculos estremeciam e ela sentia um estico. Pela milionsima vez, deu um golpe na base de um ramo com a finalidade de descascar um jovem pinheiro lodgepole 
para que pudesse ser utilizado como travessa numa vedao.
      No limiar da floresta, Bill manejava uma motosserra para deitar abaixo mais rvores. Partculas de serradura metiam-se-lhe nas narinas e um cheiro a lenha 
pairava no ar. Por vezes, rajadas de fumo provenientes do rescaldo do incndio faziam-lhe arder os olhos.
       Aqui vai outra, Molly  disse Danno, lanando uma rvore para a pilha que crescia ao lado dela.  Se precisar de descansar, grite, que eu vou substitu-la.
      Por muito que Molly apreciasse a oferta, no a podia aceitar. Danno era necessrio para transportar as rvores derrubadas at  pilha, um trabalho para o qual 
ela no tinha fora. Pelo menos ali estava a ajudar. No muito, porque por mais que se esforasse, no conseguia acompanhar  ritmo dos homens que trabalhavam atrs 
dela.
      Sempre que ficavam sem travessas, um dos mais velhos vinha ajud-la. A habilidade e a rapidez deles para segurar a enxada deixavam-na envergonhada. No entanto, 
todos apreciavam a sua boa vontade e era isso que importava.
       Agarra-a  gritou Nate a Ben.  Mantm-na bem segura.  Esta ordem era acompanhada de uma forte martelada.  Muito bem, est firme.
      Molly tentou mais uma vez levantar a enxada, mas os seus braos recusaram-se a obedecer. Aceitando o facto de que tinha de descansar durante alguns segundos, 
encostou-a ao tronco, a seguir pressionou a parte inferior das suas costas com uma das suas mos e endireitou-se completamente. Estava cheia de dores! Era capaz 
de jurar que conseguia ouvir todas as articulaes do seu corpo a estalarem.
      Olhou  sua esquerda para o que restava do estbulo. Deformadas e enegrecidas pelas temperaturas extremas, as chapas de ao ondulado tinham cado desordenadamente, 
fazendo-lhe lembrar um castelo de cartas que se desmoronara. Recordou-se do aspecto anterior da estrutura, um gigantesco edifcio de travessas verdes com cercados 
muito limpos. Mas agora o interior havia sido reduzido a pedaos de madeira carbonizada e cinzas.
        muito triste no ?  comentou Hank, quando veio buscar outra travessa.  Por que  que algum iria fazer uma coisa destas  que eu no consigo compreender.
      Segundo o chefe dos bombeiros de Crystal County, que tinha concludo a investigao e se fora embora havia ainda poucas horas, o incndio tinha origem criminosa. 
Algum retirara diesel da oficina de Jake, espalhara-o pela parte de trs do edifcio e incendiara-o com um fsforo.
       Eu tambm no  respondeu ela. As ressequidas paredes da garganta de Molly raspavam uma na outra de to sedenta que estava.  Pelo menos conseguiram retirar 
todos os cavalos.
       Isso  verdade  disse Hank. A seguir, carregou uma travessa ao ombro e foi-se embora.
      Quando ele a deixou, Molly tinha um nico desejo, poder descansar durante mais uns minutos. No entanto, verificou a posio do Sol e percebeu que j no restavam 
muitas horas de luz. Entre os cavalos que se encontravam a pastar nos terrenos da frente havia duas guas quase a parir, um dos castrados tinha uma infeco respiratria, 
outro sofria de espasmos do diafragma e a cria de White Star precisava de um abrigo que a resguardasse das temperaturas frias da noite. Os refgios de emergncia 
tinham de estar prontos antes de anoitecer.
      Molly cerrou os dentes e inclinou-se para pegar na enxada. Nesse momento ouviu a porta da casa fechar-se violentamente, o estrondo propagou-se no ar como se 
fosse o tiro de uma espingarda. Olhou por cima do ombro e viu Jake a descer os degraus do alpendre. Os seus ombros muito direitos e o seu andar enrgico mostraram-lhe 
que ele vinha zangado.
      Hank, que estava a marcar uma travessa, tirou o chapu, limpou o suor da testa e gritou ao irmo:
       Ento, o que foi que disse o homem dos seguros?
      Jake deu um pontap num pedao de madeira carbonizada que se encontrava no caminho.
       O sacana est a tentar escapar-se. Diz que a oficina devia estar trancada e portanto no so responsveis.
      Hank voltou a colocar o chapu na cabea.
       Isso  mesmo conversa fiada. Tu conheces algum rancho onde todas as dependncias estejam trancadas?
      Jake, ao aproximar-se, deitou uma olhadela a Molly e ps as mos nas ancas.
        Se for preciso, arranjo um advogado. No h uma nica clusula na minha aplice que diga que as dependncias do rancho tm de estar trancadas.  Extremamente 
cansado, esfregou a parte de trs do pescoo.  Tambm falei com o xerife. Ele pensa que o fogo foi posto por crianas.
        Crianas?  Tex inclinou-se para cuspir.  Isto no foi obra de midos.
      Jake suspirou ao contemplar a devastao.
       Talvez o xerife tenha razo. Um adulto no seu juzo perfeito no seria capaz de incendiar um estbulo cheio de cavalos.
      Molly sentiu um aperto no estmago. Um adulto no seu juzo perfeito? O suor escorria-lhe pela face. Voltou a cortar os ramos das rvores. A enxada tornava-se 
mais pesada a cada golpe que dava e, metade das vezes, errava o alvo, fazendo grandes cortes no tronco das rvores.
       As latas de diesel estavam cheias e  mo  prosseguiu Jake.  Se alguns midos drogados passaram por aqui, so capazes de ter achado divertido pegar fogo 
ao estbulo.
       Oh, isso no tem ps nem cabea  disse Levi ao mesmo tempo que espetava um prego.  At os midos drogados tm sensatez suficiente para no fazerem uma 
coisa dessas. Ele vai procurar impresses digitais nas latas?
       Claro, o nico problema  que podem no coincidir com nenhumas das que tm nos ficheiros. Se foi obra de crianas at  possvel nunca terem tirado impresses 
digitais.
      Molly preparava-se para erguer de novo a enxada quando uma mo morena se pousou no seu brao. Surpreendida, olhou para cima e deparou com os brilhantes olhos 
azuis de Jake.
       Tu j no podes mais  disse ele suavemente.
      Ela apontou para os troncos que ainda lhe faltavam descascar.
       Ainda tenho pelo menos...
       J no podes mais  repetiu ele.  Vai para casa e toma uma chvena de caf. Ests to cansada que no te consegues mexer. Essa enxada pode resvalar para 
trs e atingir-te.                  
      Ela quase tinha acertado nas canelas h poucos minutos, por isso no discutiu. Estava verdadeiramente exausta.
      Quando comeou a andar, Jake perguntou-lhe:
       Por que  que ests a coxear?
      Molly parou e ficou a olhar estupidamente para os tnis. Lembrando-se da corrida que fizera descala para o estbulo na noite anterior, disse:
       Espinhos, acho eu.
      Mal chegou  cozinha, ouviu a porta principal abrir-se e fechar-se, um rudo surdo de botas propagou-se pela casa, seguindo o mesmo caminho que ela havia percorrido. 
Quando Molly se preparava para deitar caf na chvena Jake apareceu  entrada da cozinha. Sem dizer uma palavra, colocou-lhe as mos nos ombros e conduziu-a at 
uma cadeira.
      Molly deixou-se cair, demasiado cansada para protestar, enquanto Jake se agachava  sua frente e colocava o p dela sobre o seu joelho. Primeiro tirou-lhe 
o sapato, a seguir, a meia e, depois, pegou-lhe no tornozelo e inclinou-se para lhe examinar a sola do p.
        Santo Deus, por que  que no tiraste isto logo? Agora est inflamado.
      Ela esticou o pescoo para conseguir ver. A sola dos seus ps estava cheia de pontos vermelhos.
       Sentia-me to transtornada que no dei pelas dores.
      Jake posou-lhe o p no cho e foi buscar fsforos a uma gaveta. Quando voltou, tirou o canivete do bolso das calas, acendeu um fsforo e esterilizou a navalha. 
Molly observou-o com ar duvidoso.
        Se pensas que vais tirar os espinhos do meu p com isso, ests enganado.
      Ele riu-se ligeiramente e agachou-se outra vez diante dela. Segurando-lhe o tornozelo com a mo, voltou a colocar o p de Molly sobre o seu joelho.
       Confia em mim. Isto  o melhor instrumento para retirar puas que j viste. No te mexas, est bem?
       De certeza que no, posso perder uma perna.
      Jake sorriu. Usava a navalha com tanta gentileza que Molly mal a sentia. Ela suspirou e descontraiu-se. Bem, quase. Era difcil descontrair-se por completo 
com os longos dedos dele a envolverem-lhe o p.
      Depois de lhe retirar todos os espinhos, Jake manteve o p esquerdo da rapariga sobre o seu joelho, bem como a sua mo calejada  volta do tornozelo dela. 
O dedo mnimo dele encontrou um caminho por baixo das calas de Molly e comeou a acariciar-lhe a perna, deixando-lhe a pele em fogo. Olhou para ela com ar srio 
e uma expresso indecifrvel no rosto.
       Acho que vais conseguir sobreviver  disse suavemente.
      Era a primeira oportunidade que tinham para conversar desde o incndio.
       Peo desculpa pelo que aconteceu ao teu estbulo, Jake.
       No precisas de pedir desculpa. No foi obra tua. Molly pedia a Deus que no tivesse sido.
       Ainda bem que todos os cavalos se salvaram. Ele concordou com a cabea.
       Nada  mais importante do que eles. Molly agarrou-se fortemente  cadeira.
       Sei que no tenho nada a ver com isso, mas ouvi-te dizer coisas que me levaram a concluir que ests com dificuldades financeiras.
        Olha que maneira imaginativa e agradvel de descrever a minha situao.
       Ento no me enganei?
      Ele pousou o p dela no cho e foi-lhe buscar o sapato.
       Estou empenhado at ao pescoo e a presso  cada vez maior.
      Ela pensou na grande fortuna que iria recuperar assim que obtivesse controlo da sua herana. No lhe parecia justo que ela tivesse tanto inheiro e uma pessoa 
como Jake to pouco.
       Peo imensa desculpa. Jake contorceu os lbios.
       Tens o mau hbito de pedir desculpa por coisas que no tm nada ver contigo. Ningum me obrigou a comprar este rancho.
       Por que  que o compraste?  Molly apercebeu-se de que estava outra vez a fazer perguntas sobre um assunto que no lhe dizia respeito.  Andaste na faculdade, 
era bem provvel que tivesses uma vida melhor se no trabalhasses por conta prpria.
      Ele disse que sim com a cabea.
       Sem dvida, mas o dinheiro no  tudo. Cresci aqui.  Encolheu os ombros.  -me difcil explicar o que este rancho significa para mim. Sempre pensei que, 
ns os rapazes, iramos tomar conta dele algum dia e criar aqui as nossas famlias, tal como geraes de Coulters haviam feito antes de ns  os lbios dele esboaram 
um ligeiro sorriso.  Desde pequeno que tenho jeito para lidar com cavalos.  medida que me ia ficando mais velho comecei a sonhar que podia criar a minha prpria 
linha, que os podia treinar desde o nascimento. Sempre pensei ser capaz e fazer isso aqui e que um dia iria conseguir tornar o Lazy J famoso, no seu gnero. Quando 
tive a oportunidade de o recuperar, tomei essa deciso com o corao e no com a cabea.
      Molly no tinha dvidas a esse respeito. Ajudar Sunset tinha sido uma deciso tomada com o corao.
        Por que  que o teu pai perdeu o rancho?  Molly pensou que tivesse sido por causa do lcool ou de dvidas causadas pelo jogo.  Ou  uma pergunta demasiado 
pessoal?
       Faliu e perdeu tudo  disse Jake, com ar srio.  Tudo menos o sonho.
      Pelo tom quebrado da voz dele, Molly compreendeu que tinha sido uma poca difcil para Jake.
       Assim que sa da faculdade, comecei a trabalhar e a juntar dinheiro para comprar outro rancho  prosseguiu ele.  No foi fcil e levei alguns anos para 
conseguir a entrada e o capital de explorao, mas l os arranjei. Quando andava a observar o mercado, nunca imaginei que poderia adquirir o Lazy J. Um dia, depois 
de vermos uma quinta nesta zona, eu e o Hank parmos aqui, sob um impulso, para dar um passeio nostlgico. O dono estava pronto para vender e eu no deixei passar 
a portunidade.
      Molly cravou as unhas na parte de baixo do assento da cadeira.
       Por que  que o teu pai faliu?
      Ele passou a mo pelo cabelo despenteado. Tinha tirado a fuligem do rosto, mas continuava com um ar cansado.
       A minha irm Bethany ficou paralisada num acidente de equitao. Necessitou de trs cirurgias e o nosso seguro de sade no era grande coisa. O meu pai empenhou-se 
na esperana de que ela voltasse a andar, mas isso nunca sucedeu.
      Havia homens que se teriam insurgido com isso, mas no Jake. Na noite anterior, havia testemunhado a sua indiferena em relao ao estbulo em chamas, sendo 
o bem-estar dos cavalos a sua nica preocupao. No tinha a menor dvida de que era capaz de sacrificar qualquer coisa pela irm.
       Se a companhia de seguros no cobrir os danos do incndio, o que  vais fazer?
       No tenho qualquer possibilidade de arranjar dinheiro para reconstruir o estbulo sozinho.  Levantou-se penosamente.  Eles tm de pagar, no aceito que 
me digam que no.
      Molly no podia deixar a conversa acabar assim.
       Mas se eles no pagarem mesmo?
      Ele franziu as sobrancelhas, olhou para a janela e disse numa voz rouca:
       Nesse caso volto ao ponto de partida, fico apenas com o sonho.
      
      Nessa noite, Molly preparou o jantar sozinha. Jake estava demasiado ocupado no campo para a ajudar a cozinhar. Seguindo a sugesto dele fez uma caarola de 
atum e arroz, uma mistura simples de atum de conserva, arroz e creme de cogumelos, que ela polvilhou com queijo cheddar e levou ao forno. Duas enormes panelas com 
po de milho e uma gigantesca tigela de milho doce completavam a refeio. Um alto teor de amido e gordura. Molly tinha a certeza de que os homens iam adorar.
      Na altura em que os ia chamar para comerem, o telefone da cozinha tocou. Secou as mos com uma toalha e correu para o atender.
       Lazy J  disse ela.
       Ol. Fala o xerife Dexter. O Jake est a por perto?
      Molly tinha-se mantido longe do xerife durante a manh. Ao saber que era ele quem estava ao telefone, ficou com os nervos em franja.
       Eu, hum... sim. Por favor, espere um momento. Atravessou a casa a correr at ao alpendre.
       Jake  gritou ela.  Tens o xerife ao telefone.
      Ele deixou a zona da vedao que estava a construir e voltou para casa em grandes passadas. Molly foi  sua frente at  cozinha. Enquanto Jake falava ao telefone, 
ps os copos na mesa juntamente com cinco litros de leite. Acabou no preciso momento em que ele desligou o telefone.
       Ms notcias?
      Ele respondeu que sim com cabea.
       No encontraram impresses digitais nas latas de diesel.  provvel que a pessoa ou pessoas responsveis nunca sejam descobertas.
       No havia impresses digitais? Isso no me parece obra de midos. Jake franziu as sobrancelhas.
       A mim tambm no.  estranho que um grupo de midos tivesse pensado em calar luvas.
       Sem dvida.
      Molly tambm achava muito improvvel que um sonmbulo tivesse essa presena de esprito. O alvio que sentiu foi to grande que as pernas lhe fraquejaram.
      Imediatamente a seguir ao jantar os homens foram construir os abrigos, utilizando projectores de halogneo para conseguirem ver na escurido. Quando Molly 
acabou o seu trabalho na cozinha, apenas metade deles estavam concludos. Jake encontrava-se ocupado a transportar os cavalos dos pastos para os refgios de emergncia. 
Assim que a viu, chamou um os homens para o substituir e foi ter com ela.
       Posso ajudar em alguma coisa?  perguntou Molly. Ele abanou a cabea.
       J fizeste o suficiente por hoje.
       H cavalos que precisam de abrigo e, por isso, o trabalho ainda no est concludo.
       Mas o teu j est  pegou-lhe no brao.  Quero que tenhas uma boa noite de sono.
       Enquanto vocs passam metade dela acordados para acabarem de construir os abrigos?
       Estou habituado a perder horas de sono, tu no.
      Comearam a caminhar e Molly apercebeu-se que ele a estava a conduzir para a casa de madeira.
       No precisas de me levar a casa esta noite, Jake  sorriu ela, apontando para os projectores.  Consigo ver o caminho bastante bem, h qui tanta luz como 
se fosse de dia.
        Longe dos projectores j no  assim  descalou as suas sujas luvas de pele e meteu-as debaixo do cinto  e, por outro lado, preciso de fazer um intervalo.
      Molly achou que no merecia a pena discutir. Nas ltimas trs semanas passara a conhecer Jake o suficiente para saber que ele a ia levar a casa, dissesse ela 
o que dissesse.
       Esta noite no h passeios. Tu tens trabalho a fazer e eu tenho os ps doridos.
      Abrandando o andar para acompanhar o passo da rapariga, Jake riu-se ligeiramente e lanou-lhe um olhar inquiridor. A luz que vinha de trs iluminava-lhe uma 
face e cobria-lhe de sombras a outra, delineando-lhe o fiado osso do nariz, a consistente linha do queixo e o arco quase perfeito os seus lbios firmes.
       E o resto do teu corpo?  perguntou ele.  Os msculos j comearam a protestar?
      Os msculos de Molly protestavam h horas, mas ela no se queixou. Todos os outros tinham trabalhado to arduamente como ela.
       Sou mais forte do que a maioria das mulheres.
      Jake franziu os cantos da boca e Molly compreendeu que ele estava a reprimir um sorriso.
       Uma verdadeira amazona,  o que tu s  disse-lhe. Molly tremeu de frio e aconchegou-se melhor no casaco.
        Ri-te se quiseres. Posso no ser muito musculada e atltica, mas sou valente.
      Jake no a contradisse.  medida que caminhavam ela ia observando as suas sombras, que pareciam dois fantasmas negros a danarem  frente deles, a de Jake 
era alta e esbelta, e a dela pequena e atarracada. Ningum podia negar a sua constituio forte. Ao p das de Jake, as suas pernas faziam-lhe lembrar cepos.
      Quando chegaram  casa ele insistiu em entrar para fazer uma vistoria. Embora a preocupao que Jake demonstrava pela sua segurana a comovesse, no conseguiu 
resistir a provoc-lo quando o viu entrar na pequena cozinha em forma de U e abrir o armrio onde guardava a vassoura.
       A no cabe nem um mosquito  observou ela. Vendo que ele no se detinha, riu-se e acrescentou:  No te esqueas de ver debaixo do lava-loua.
       Est bem, faz troa. Quem pegou fogo ao estbulo tem um parafuso a menos. Todos os cavalos podiam ter morrido queimados. A pessoa que fez isto no tem conscincia 
e  incapaz de compreender o significado da palavra piedade.
      Molly ps-se imediatamente sria.
       Tens razo. Peo desculpa por ter brincado contigo. Eu apenas...
       Olhou para o armrio onde guardava a vassoura.  Achei que um homem no conseguia caber ali.
      Ele concordou com a cabea.
       No estou necessariamente  procura de um homem. Jake fechou o armrio.  No acredito muito que o xerife tenha razo, mas uma das hipteses dele aponta 
para crianas, por isso  melhor sermos cautelosos.
      Piscou-lhe o olho e espreitou para debaixo do lava-loua, o que a fez rir.  Tudo limpo. Se trancares bem a porta, ficas suficientemente protegida.  Jake 
arqueou uma sobrancelha.  No tens medo de estar aqui sozinha? Se tiveres, s mais do que bem-vinda l em casa. Sabes disso, no sabes?
      Molly reparou num par de luvas de algodo que estavam em cima da bancada, atrs dele. No fazia a menor ideia como  que tinham ido ali parar. Na noite anterior, 
quando viera a casa vestir-se, no tinha entrado a cozinha. Alm disso, a nica vez que estivera na casa de madeira desde o incndio havia sido de manh para tomar 
um duche.
        Eu fico bem  murmurou ela , mas de qualquer maneira agradeo a oferta.
      Jake olhou melhor para ela.
       Aconteceu alguma coisa?
      Os dedos de Molly brincavam com um boto da sua nova blusa cor-de-rosa. Sentia-se nervosa sempre que Jake olhava fixamente para ela, tinha a impresso de que 
ele lia nela como se fosse um livro aberto.
       Estou apenas cansada e necessito de dormir. Jake fez uma expresso divertida ao dizer.
       Dormir? O que  isso?
       Vou pensar em ti quando estiver bem aconchegada e quentinha na minha cama.
      Ele fez um largo sorriso.
       Vais fazer o qu?
      Molly viu o que tinha dito e corou. Perante o embarao dela, Jake riu-se e saiu da cozinha, mas Molly foi atrs dele at  porta com o corao os pulos. Antes 
de se ir embora, ele segurou-lhe o queixo com os dedos disse:
       Desejo-te uma noite descansada.
      Durante um dcimo de segundo ela pensou que Jake a ia beijar. Mas, em vez disso, ele saiu e deixou a porta muito bem fechada.
        Tranca-a por dentro, mida. Se precisares de alguma coisa, grita. Estou aqui num abrir e fechar de olhos.
       Assim farei  respondeu Molly.  Boa-noite, Jake.
      Ela trancou a porta e voltou para a cozinha ouvindo os passos dele cada vez mais distantes. Quando finalmente arranjou coragem para pegar nas luvas, viu que 
tinham manchas negras. Um forte cheiro a diesel queimava-lhe as narinas.
      Cheirou fortemente aquele odor e estremeceu de repugnncia, a seguir, abriu o armrio da vassoura e atirou-as l para dentro. Depois de fechar violentamente 
a porta, permaneceu algum tempo com as palmas das mos l encostadas para se certificar de que estava bem fechada, embora tivesse uma vaga noo de que isso era 
uma estupidez. Longe da vista, longe do corao? Este pensamento no lhe saa da cabea.
      No encontraram impresses digitais nas latas de diesel, dissera-lhe ele depois de falar ao telefone com o xerife. Nesse momento sentira-se aliviada e convencera-se 
de que a notcia demonstrava que ela estava nocente.
      Mas estas luvas eram uma prova evidente da sua culpa.
      O fogo no tinha sido posto por crianas, mas por ela.
      Durante todo este tempo no tivera dvidas de que a sua recente doena tinha sido provocada, de que Rodney a havia drogado e forjado o seu comportamento bizarro 
para a fazer passar por louca. Mas agora tinha de enfrentar a terrvel verdade, que era capaz de estar to tarada como todos eles pretendiam.
      Necessitava de contar a Jake. Se tinha provocado aquele incndio durante um ataque de sonambulismo, s Deus sabia o que poderia fazer da prxima vez.
      No momento em que se preparava para destrancar a porta, caiu em si. Se lhe dissesse que tinha razes para acreditar que era responsvel pelo incndio, no 
sabia muito bem como ele reagiria, mas tinha a certeza de que iria querer v-la longe do rancho. E, se entrasse em contacto com Rodney, ela voltaria em breve para 
uma clnica psiquitrica.
      Vieram-lhe  mente recordaes, recordaes horrveis de banhos gelados, tratamentos de choque e sedativos estupidificantes. Nos primeiros dias do tratamento, 
tinha-se mostrado desobediente, gritava, batia nas portas, recusava-se a comer e suplicava que a deixassem ir-se embora. As pessoas que cuidavam dela no tinham 
dvidas de que estava louca. At Sam Banks o pensara inicialmente.
      Preferia morrer a passar outra vez por uma experincia daquelas.
      E ainda havia Sunset. Se Rodney descobrisse onde ela estava, o que seria do cavalo? O ex-marido levaria o garanho outra vez para Portland. Se Sunset no quisesse 
ir, e ela tinha a certeza de que ele no iria querer, a reaco de Rodney seria chicote-lo. A simples ideia de que isso pudesse suceder era-lhe insuportvel. Acontecesse 
o que lhe acontecesse a ela, tinha de impedir que Sunset voltasse a ser maltratado.
      Pensa, Molly. Contar toda a verdade a Jake era a forma de actuar mais bvia, mas isso no significava que essa fosse a sua nica opo. Tinha de haver uma 
maneira de se proteger a si prpria e a Sunset sem pr em perigo o rancho.
      A tremer de nervos, Molly afastou-se da porta e foi passar revista  casa. No podia evitar os ataques de sonambulismo, mas podia tomar medidas para impedir 
que destrusse alguma coisa.
      Ps-se a trabalhar. Fechou todas as janelas e usou um rolo de fita adesiva que havia comprado em Portland para as selar. A seguir foi buscar um saco cheio 
de espanta-espritos que tinha guardado no roupeiro. Depois de os separar uns dos outros, retirou alguns fios da sua carteira de malha para pendurar esses objectos 
ruidosos por cima das janelas e sobre a porta. Se sasse de casa durante o sono, o tilintar dos espanta-espritos acord-la-ia. Como precauo adicional arrastou 
o antigo ba e o velho e pesado sof para diante da porta, formando uma barricada.
      Foi apenas nesse momento que achou que podia ir para a cama e tentar dormir, tentar era a palavra que melhor descrevia a situao, porque tinha medo de fechar 
os olhos. Apesar de todas as suas precaues, podia sempre sair da casa de madeira.
      Era de loucos. Todas as sadas possveis estavam barricadas ou seladas com fita adesiva e ainda as tinha armadilhado com espanta-espritos. Acordaria imediatamente 
assim que lhes tocasse.
      Quando Molly estava quase convencida de que podia fechar os olhos ouviu bater  porta.
       Molly, sou eu, o Jake.
      Saltou da cama a pensar nos mveis e espanta-espritos que havia colocado sobre a porta. Pegou no roupo turco e correu para a sala enquanto enfiava as mangas 
e apertava o cinto. Agarrou o sof e arrastou-o, arrepiando-se quando os seus ps de madeira arranharam ruidosamente soalho.
       Vou j!  gritou quando Jake voltou a bater  porta.   s um segundo.
       Ests bem?
      Era evidente que ela no estava bem e j h muito tempo, somente recusava a reconhec-lo. Os espanta-espritos tilintaram ruidosamente quando destrancou a 
porta. Antes de a abrir, Molly colocou-os na cadeira. A expresso de Jake ao ver os mveis atrs dela era de espanto.
       Querida, eu disse-te que eras bem-vinda l em casa. No precisas de ficar aqui sozinha, se ests com medo.
      Molly procurou rapidamente uma explicao:
       Eu... hum... apenas achei que estaria mais descansada sabendo que iria acordar se algum tentasse abrir a porta.  s isso.
      Ele encostou um ombro  soleira da porta, o tom dos seus olhos tornou-se mais escuro devido  preocupao.
       Vai l para casa. H camas que sobrem.
      Ela no se arriscava a isso. Necessitava dos espanta-espritos e das barricadas para ter a certeza de que no iria sair de casa durante o sono. Atirou para 
trs o seu rebelde cabelo, que j estava emaranhado de tanto puxar e enrolar.
       No, no  preciso, eu j estava quase a adormecer.
      Jake endireitou-se para tirar uma coisa que trazia presa no cinto. De olhos esbugalhados, Molly percebeu que era um revlver revestido a nquel com coronha 
de madreprola. Ele entregou-lho:
       Quero que fiques com isto, pelo sim pelo no.
      O pai dela tinha morrido com um tiro na cabea. Ainda hoje, no se conseguia esquecer da pistola que vira a oscilar na sua mo salpicada de sangue. Molly deu 
um passo para trs.
       Oh, no. Eu no gosto de armas.
      Apontando o cano para o cho, Jake rodou o tambor.
       Isto  um velho 357 muito fcil de usar, o nico seno  dar um grande coice.
      Molly abanou a cabea.
        No, obrigada. No seria capaz de disparar contra ningum, por isso no merece a pena ficar com ele.
       No precisas de disparar contra ningum  garantiu-lhe ele.  Se houver algum problema, aponta para o tecto. Podes achar que me preocupo por tudo e por nada, 
mas tenho medo de no te ouvir se me pedires ajuda. Se deres um tiro, tenho a certeza que dou por isso.
      Pegou na mo dela e meteu-lhe l a arma. A seguir, inclinou-se para a frente e ensinou-lhe a armar o co e destravar o revlver.
       S tens de apontar e apertar o gatilho  disse ele.   to simples como isso. Se no passares a noite em minha casa, pelo menos fica com ela. Sinto-me mais 
descansado assim.
      Apresentado desta forma como poderia ela recusar? Baixou o revlver, achando-o frio e pesado.
       Obrigada, vou p-lo junto  minha cama.
       Faz isso e no tenhas receio de a usar. Se pensares que algum est a querer entrar, d um tiro.  Ele olhou para cima.  O tecto vai ser arranjado este 
Vero. Portanto, no vais estragar nada.
      Uns instantes mais tarde, Molly estava outra vez a despedir-se dele e a trancar a porta. Depois de ter pendurado os espanta-espritos e reconstrudo a barricada, 
levou a arma para o quarto. Com medo do que pudesse fazer durante o sono com uma arma carregada  sua disposio, tirou todas as balas do tambor e escondeu-as no 
fundo da gaveta da roupa interior.
      S ento  que achou que podia ir dormir.
      
      
    Captulo 17
      
      
      
      Na manh seguinte, ainda Molly no tinha chegado  casa principal quando ouviu Jake a praguejar. Contornou a oficina, seguindo o som da sua voz, e encontrou-o 
agachado ao lado de um velho tractor amarelo, o olhar por cima do ombro dele, viu que o pneu do tractor estava completamente em baixo.
       O que  que aconteceu?
        Foi cortado!  disse ele furioso.  Todos os pneus do rancho foram cortados.
      O pneu furado exercia um horrvel fascnio sobre Molly, que no conseguia tirar o olhos dele, lembrando-se de todas as vezes que ela e Rodney tinham acordado 
e encontrado a casa toda desarrumada com as almofadas dos sofs rasgadas a perderem o seu recheio, e os valiosos quadros fora das suas molduras e pendurados com 
fitas.
       Oh no!  exclamou ela com voz sepulcral.
       Oh no!  verdade!  O rosto de Jake parecia cinzento quando ele se levantou.  Primeiro o estbulo e agora os pneus.  Tirou o chapu passou nervosamente 
a mo pelo seu cabelo negro.  Caramba! Os pneus dos tractores custam uma fortuna. H algum que me quer arruinar.
      Molly engoliu em seco e deitou uma nova olhadela ao pneu. Sentiu os dedos dos ps e das mos subitamente dormentes.
       No fui eu  disse el com voz trmula. Jake olhou surpreendido para a rapariga.
       Claro que no foste tu.
      Molly ficou muito atrapalhada por ter dito uma coisa to estpida.  Era como  oh, meu Deus  como se quisesse pedir desculpa antes de algum a ter inculpado.
      Jake passou por ela, levantando pequenas nuvens de poeira com os taces das suas botas.
       Onde  que vais?
       Vou chamar o xerife. Raios me partam se ele me vai dizer outra vez que foram crianas. Para fazer isto  preciso a fora de um homem.
      A fora de um homem? Queria acreditar nele, mas a sua conscincia no lho permitia. H sete meses tinha visto a sua obra. Num ataque de sonambulismo, rasgara 
os quadros de Rodney com tanta fora que o facalho havia atravessado as costas das molduras e penetrado na parede. Tinha ouvido dizer que as pessoas eram capazes 
de adquirir uma fora extraordinria quando estavam cheias de adrenalina. Talvez isso tambm se desse com os sonmbulos.
      Voltou para a casa de madeira e examinou as janelas pela segunda vez nessa manh. Nenhuma fita ou espanta-espritos parecia ter sido deslocada e, ao acordar, 
a porta da frente continuava barricada. Se tivesse sofrido um ataque de sonambulismo, teria voltado a colocar os mveis diante da porta ao regressar a casa? Era 
improvvel. Um sonmbulo no seria assim to cuidadoso.
      Ainda desconfiada, abriu a cama para ver os lenis. Havia-os mudado na noite anterior antes de se deitar e continuavam limpos, sem qualquer vestgio de terra 
ou detritos. Se houvesse sado durante a noite, tinha de ter calado sapatos ou lavado os ps antes de voltar para casa.
      Sentindo-se subitamente exausta, deixou-se cair na cama e descansou a cabea sobre as mos. Oh, meu Deus... oh, meu Deus. Teria ela cortado todos aqueles pneus? 
No havia o menor indcio de que se tivesse ausentado da casa de madeira durante a noite. Mas, e se tivesse?
      
      Nessa manh, enquanto lavava os pratos do pequeno-almoo, considerou a possibilidade de ter rasgado os pneus. Uma parte dela dizia-lhe que era culpada, mas 
a outra recusava-se a acreditar. Se no havia sido ela, ento quem teria sido? No podia ser Rodney, a no ser que lhe tivesse seguido o rasto e cometido todos aqueles 
actos de vandalismo para convencer Jake de que ela estava louca.
      S de pensar nisso ficou gelada. Estava a colocar uma grande frigideira no escorredor da loua nesse preciso momento e j no conseguiu fazer mais nada. O 
seu olhar tornou-se vago e os seus dedos agarram-se com toda a fora  asa da frigideira.
      O sangue gelou-se-lhe nas veias. Olhou inquieta para a janela, procurando o grupo de rvores que se encontrava no limite do ptio. Durante meses estivera convencida 
de que o ex-marido a tinha deliberadamente feito passar por louca para controlar a firma de investimentos. Aps a rpida recuperao que havia tido desde que entrara 
na clnica, essa era a nica explicao que fazia sentido. Menos de setenta e duas horas depois de se ter visto livre de Rodney, a sua mente aclarou-se e ela deixou 
de sentir tonturas e enjoos. Os ataques de sonambulismo, de que o marido tanto se queixava, nunca ocorreram na clnica.
      Segundo Sam, as grandes melhorias de Molly deviam-se ao abrupto desaparecimento do stresse da sua vida. Estava muito afastada da influncia devastadora do 
marido e tinha deixado de sofrer a tenso do emprego, mais tarde, defendera que a mudana de cenrio a havia distanciado de todas as recordaes do suicdio do pai. 
Sem o stresse, cessaram os sintomas, era to simples como isso, foi o que ele lhe assegurou no incio.
      Molly nunca acreditara nessa explicao. Era verdade que o stresse tornava as pessoas confusas e incapazes de pensarem com clareza, mas os sintomas dela eram 
excessivos. Para o fim, tinha estado to fraca e desorientada que nem conseguia ir da cama at  casa de banho do quarto. Uma noite, Rodney chegou a casa e encontrou-a 
no cho, semi-inconsciente. Depois de lhe vestir uma camisa de dormir lavada e a deitar, dera-lhe ainda mais comprimidos. Toma os teus remdios, querida. Tinha tentado 
dizer-lhe que eram os comprimidos que lhe estavam a fazer mal, mas ele no a quis ouvir. Sempre que se recusava a abrir a boca para os tomar, Rodney enfiava-lhos 
pela garganta abaixo.
      Tinha sido um pesadelo, um pesadelo que se havia tornado ainda mais horrvel ao acordar na clnica. Molly estremeceu s de se lembrar disso. Era absolutamente 
bvio para ela, embora no o fosse para o mdico, que marido a tinha drogado e que a sua doena havia sido quimicamente induzida. A seguir, compreendeu que os ataques 
de sonambulismo tambm tinham sido forjados. At Sam aparecer, tentara desesperadamente que algum a ouvisse sem o menor xito, o que lhe havia provocado toda uma 
srie de emoes: raiva, medo, frustrao e uma horrvel sensao e impotncia.
      Agora, de repente, estava a acontecer tudo de novo. Aparentemente tinha voltado a sofrer ataques de sonambulismo e, desta vez, no podia culpar Rodney. Sentia-se 
assustada, comeava a pr em dvida a sua sanidade mental e estava muito perto de se descontrolar.
      Como Rodney gostaria de a ver assim!
      Meu Deus, parecia mesmo dele, atac-la de forma traioeira, fazendo-a perder a autoconfiana at comear a duvidar de si prpria a cada momento. Pior ainda, 
esta tctica iria levar Jake e todos os outros no rancho a questionarem a sua sanidade mental, roubando-lhe os nicos amigos e protectores que tinha.
      Pobre e louca Molly. Uma terrvel sensao de fraqueza apoderou-se as suas pernas ao recordar o incndio no estbulo. At essa noite, tinha sempre dormido 
com a janela do quarto aberta para poder ouvir Sunset se ele a chamasse. No era impossvel que Rodney, aps pegar fogo ao estbulo, se tivesse introduzido na casa 
de madeira por essa janela. Seria uma loucura pensar que poderia ter l ficado escondido e colocado os resduos na sua cama e as luvas na cozinha?
      Molly lembrou-se do pesadelo que havia tido nessa noite ao sonhar com Sarah e com o seu pai. Rodney conhecia tudo sobre o seu passado. J tinha visto filmes 
em que uma pessoa que estava a dormir era induzida em terrveis pesadelos mediante sugestes que lhe estavam a ser sussurradas por outra. Era mesmo de Rodney correr 
esse risco, sem ter a certeza do momento em que ela ia acordar. Molly, ajuda-nos. Um calafrio atravessou-lhe o corpo. Quase conseguia ouvir a voz dele a sussurrar 
na sua cabea.
      No lhe era difcil imagin-lo a aparecer no rancho. Conseguia ser muito convincente quando queria. Fingir-se-ia muito preocupado com ela, informando pesarosamente 
Jake que Molly se encontrava emocionalmente perturbada e era, sem dvida, a responsvel pelos ataques de vandalismo que o Lazy J. havia sofrido. A pobre e louca 
da Molly sofria de sonambulismo. A pobre e louca da Molly era um perigo para si prpria e para todos os que a rodeavam. Iria dizer a Jake que ela necessitava de 
vigilncia permanente.
      Molly sentiu vontade de vomitar. Rodney. Houve uma poca em que no conseguia acreditar que ele fosse capaz de um comportamento to vil, mas agora estava certa 
disso. Depois da morte do pai, as lentes cor-de-rosa atravs das quais o via quebraram-se e comeou a ver o marido, no como ela gostaria que ele fosse, mas como 
ele verdadeiramente era, um homem que no recuava perante nada.
      O terror apoderou-se dela. Se Rodney a tinha encontrado, ela no podia fugir. Os pneus do seu Toyota haviam sido furados e, at os substituir, no dispunha 
de um nico meio de transporte.
      Meu Deus. Com a ajuda de Claudia e Jared, era bem capaz de conseguir intern-la de novo e, se isso acontecesse, era impossvel saber quando voltaria a ter 
alta.
      Molly deixou-se cair sobre uma das cadeiras da mesa da cozinha e enfiou a cabea entre as mos. Estava no Lazy J. h trs semanas e no ouvira uma nica palavra 
na rdio ou televiso sobre um cavalo roubado. Era possvel que Rodney nem sequer tivesse denunciado o roubo, preferindo segui-la e lidar sozinho com ela.
      Mas como a teria ele encontrado? No tinha dito a ningum para onde ia, nem sequer  me. Sem a ajuda da polcia como raio poderia ele ter descoberto a sua 
localizao?
      O treinador.
      Agarrou-se com tal fora aos bordos da mesa que os ns dos dedos lhe doeram. O treinador. Claro que tinha sido ele. Rodney havia arranjado uma forma de obrigar 
o homem a confessar-lhe o seu paradeiro.
      Deu um salto da cadeira e correu em direco ao telefone da parede. Telefonou para as informaes e poucos minutos depois estava a marcar o nmero de Shamrock 
Greens, o estbulo de Portland onde guardavam Sonora Sunset. Uma mulher atendeu o telefone.
        Gostava de falar com Keith Sandusky, por favor?  disse Molly em voz trmula. - Importa-se de o chamar pelo altifalante para vir ao lefone?
       Desculpe  respondeu a mulher.  O Keith j no trabalha c.
        No?  Molly encostou a outra mo  parede.  Tem a certeza sso?
       A certeza absoluta. Sou eu que fao a folha de pagamentos. Sandusky tinha dito a Molly que trabalhava no Shamrock h trinta anos, que pensava reformar-se 
l, por isso no queria ter problemas com Rodney. Tinha medo que o seu ex-marido o conseguisse excluir do circuito das corridas de cavalos se ousasse fazer-lhe frente. 
Era um homem baixinho com um ar cmico e esquisito, que aperfeioava a sua percia equestre  mesmo quando no estava nas pistas. Os cavalos so a minha vida - havia-lhe 
dito ele.  No tenho mulher nem filhos. Este emprego  tudo para mim. Foi por isso que no a chamei aps as primeiras chicotadas e deixei as coisas chegarem a este 
ponto. Tive medo de perder o emprego, no  desculpa, eu sei. O cavalo sofreu por causa da minha cobardia.
      Ao recordar a paixo que sentira na voz de Sandusky, Molly no podia acreditar que ele tivesse pura e simplesmente deixado o estbulo.
       Quando foi que o Senhor Sandusky se demitiu?  perguntou ela. Fez-se um longo silncio. Por fim, a mulher inquiriu:
        amiga dele?
       Sim, sou  ao fim e ao cabo, o homem tinha-lhe emprestado o seu reboque de cavalos, por isso Molly achou que no era exactamente uma mentira. Podia dizer-se 
que eram amigos.
        Bem, nesse caso acho que no estou a contar nenhum segredo. Keith no se demitiu propriamente, ele foi-se embora sem dizer nada a ningum h cerca de trs 
semanas. No avisou os proprietrios, nem comunicou a sua nova morada. Nem sequer veio buscar o ordenado. Molly franziu as sobrancelhas.
       No  estranho que no tenha ido buscar o ordenado? A mulher suspirou.
       s vezes  impossvel compreender as pessoas. Continuo  espera de encontrar uma nota dele no correio ou de um telefonema. Mas, at agora, nada. Quer deixar 
uma mensagem no caso de ele me contactar?
       No, obrigada.
      Molly desligou o telefone. Duvidava que algum em Shamrock Greens voltasse a ter notcias de Keith Sandusky. Alguma coisa lhe havia sucedido. Ao descobrir 
o desaparecimento de Sunset, Rodney ficou to furioso que fez provavelmente ameaas a Sandusky, aterrorizando-o a  tal ponto que o treinador preferiu ir-se embora 
a enfrent-lo e sofrer as consequncias. Apenas esperava que Rodney no tivesse feito mal ao homem. Era possvel que Keith se encontrasse algures no Kentucky, todo 
satisfeito a trabalhar com puros-sangues muito caros nalgum estbulo luxuoso onde Rodney nunca se lembraria de o ir procurar.
      Esta hiptese consolou-a, embora a notcia do desaparecimento sbito do treinador a deixasse com mais dvidas do que respostas. Teria Sandusky revelado o paradeiro 
dela a Rodney antes de se ir embora, ou havia fugido antes de Rodney lhe poder tirar qualquer informao?
      Molly no tinha forma de o saber. A hiptese de Rodney ter descoberto o seu paradeiro e ser responsvel por todo o vandalismo do Lazy J. mantinha-se em aberto. 
Havia tambm a forte possibilidade de Sandusky no ter dito nada a Rodney, o que a conduzia  estaca zero. O ex-marido no podia ser responsvel pelo vandalismo 
se Sandusky no lhe tivesse dito onde ela estava.
      A culpa do incndio e dos pneus rasgados podia ainda ser dela.
      
       Onde est o Jake?  perguntou Molly a Hank uns minutos depois. O irmo de Jake, que estava junto a uma pilha de troncos que tinham sido descascados para 
construrem vedaes, virou-se para ela. Sob a aba do seu chapu, via-se o suor a brilhar no seu lustroso rosto.
       Foi  cidade comprar pneus e falar com a companhia de seguros. Molly queria ter uma conversa com Jake e tinha medo de perder a coragem.
       Pensava que todas a camionetas tinham os pneus furados.  Deu uma olhadela ao lado direito da casa onde os veculos estavam estacionados. O velho Ford de 
Jake encontrava-se l.  Como  que ele foi para a cidade?
       Subiu a estrada a p e pediu uma camioneta emprestada ao vizinho.  Hank fixou os olhos nela:  Sente-se bem? Est branca como a cal.
      Molly no se sentia bem e tinha dvidas de que alguma vez se voltasse a sentir. H algum que me quer arruinar, tinha dito Jake nessa mesma manh. Abarcou 
com o seu olhar o rancho dele. J no se tratava apenas dela e de Sunset, a herana de Jake Coulter encontrava-se igualmente em perigo. Se no tomasse imediatamente 
uma medida que a impedisse de fazer mais estragos, ele podia perder tudo o que tinha.
      
      Jake esteve fora at ao final da tarde e, assim que chegou, foi trabalhar com grande determinao nos cercados. Uma vez que estava na hora de comear a fazer 
a comida, Molly decidiu adiar a conversa que ia ter com ele para depois do jantar. Jake levava-a sempre a casa aps arrumarem a cozinha, e essa era uma ptima ocasio 
para lhe confessar os seus pecados.
      Molly no fazia a menor ideia do que lhe ia dizer, apenas sabia que tinha de arranjar uma forma de lhe contar tudo. No lhe ia esconder nada. Dir-lhe-ia que 
lhe havia mentido desde o incio, que era ela a causadora de todos estes problemas, e que estava desolada, extremamente desolada, por lhe ter feito mal involuntariamente.
      Sabendo o que a esperava, Molly no comeu praticamente nada ao jantar. Notou vrias vezes que Jake a observava com um olhar preocupado. Evitou os olhos dele, 
sentindo-se perturbada e envergonhada, mas era a nica forma de conseguir continuar sentada  mesa.
      Aps a refeio, ele no a ajudou a lavar a loua como sempre fazia. Depois de ela arrumar a cozinha, foi Hank quem ps o chapu e vestiu o casaco para a ir 
levar a casa.
       Onde  que est o Jake?  perguntou Molly, sem querer acreditar que ele tivesse alterado a sua rotina precisamente na noite em que mais necessitava de o 
ver.
       Ele deu o berro  explicou Hank baixinho.  Duvido que tenha dormido mais de duas horas, ao todo, desde o incndio. Os nervos e a cafena tm-no mantido 
de p.
      Ao passar pela sala, Molly viu Jake estendido no sof que tinha braos de madeira, uma das mos cobria-lhe os olhos, ressonava levemente e parecia completamente 
exausto. Ela ficou satisfeita ao v-lo descansar um pouco, mas, por outro lado, tinha vontade de o abanar para que ele acordasse, uma vez que morria de medo de perder 
a coragem, caso adiasse a conversa.
      Hank encaminhou-a gentilmente para a porta. Ao chegarem ao alpendre, sorriu-lhe.
       Ainda bem que ele no acordou, seno ia insistir em ser ele prprio a lev-la.
      Molly desceu as escadas desanimada, deixando-se conduzir por Hank, que ao contrrio de Jake, no fez qualquer desvio para dar um passeio, dirigindo-se directamente 
para a casa de madeira. Ela tambm no tinha a menor vontade de passear, estava demasiadamente preocupada para poder apreciar a beleza das estrelas.
      Quando chegaram ao alpendre, Hank disse-lhe:
        Se no se importa, vou dar uma vista de olhos  casa  entrou primeiro do que ela.  Quando Jake acordar vai querer saber se me cerfiquei de que tudo estava 
em ordem.
      Molly esperou junto  porta que o irmo de Jake fizesse uma rpida vistoria  casa. Ao regressar, ele disse:
       O caminho est livre.
       Obrigada. No acredito que algum se fosse esconder aqui, mas de qualquer forma  bom que tenha passado revista  casa.
      Hank parou ao lado dela e carregou no interruptor da parede para acender o candeeiro de p alto.
       H trs dias eu tambm no acreditava que algum se fosse esconder aqui, mas agora j nada me surpreende. Mais vale prevenir do que remediar.
        verdade.  Molly virou-se para o ver sair. Quando fechou a porta, gritou-lhe:  Boa-noite, Hank. Obrigada por me ter trazido.
       No me custou nada. Boa-noite.
      Molly correu o ferrolho e, a seguir, encostou a cabea s robustas tbuas de madeira da porta, sentindo um grande cansao sobre os ombros. Que dia mais horrvel 
aquele!
      O frio da sala atravessou o seu casaco, fazendo-a tremer. Pegou na manta de l que estava sobre as costas do sof e foi a correr acender a lareira. Uns instantes 
mais tarde, quando as chamas irromperam, ficou a olhar para as labaredas cor de laranja sem expresso, lembrando-se do incndio do estbulo dois dias antes.
      Amanh, prometeu ela a si prpria. A primeira coisa que iria fazer era ter uma conversa a ss com Jake e contar-lhe tudo.
      
      O dia amanheceu luminoso e frio. Ao raiar da aurora, uma fina camada de gelo cobria a paisagem de um branco acinzentado. Molly vestiu um casaco antes de sair 
de casa, mas mesmo assim tremia de frio. Ao aproximar-se do cercado de Sunset, o garanho relinchou e trotou em direco  cerca, visivelmente satisfeito por a ver. 
Incapaz de passar por ele sem o cumprimentar, Molly empoleirou-se numa das travessas da vedao para conseguir afagar o cavalo entre as orelhas.
       Desculpa  sussurrou ela.  Ainda agora nos tornmos amigos e j no te estou a tratar como deve ser. O problema  que no tenho tido tempo.
      O garanho cheirou-lhe o casaco. Molly encostou a face ao focinho aveludado de Sunset, desejando poder passar algumas horas com ele durante a tarde. Infelizmente, 
isso no iria ser possvel. Depois de falar com Jake, era natural que ele a mandasse fazer as malas. De certeza que no ia gostar de ouvir a sua histria.
      Levantando o olhar, contemplou as pastagens que bordejavam ambas as margens do riacho at onde a sua vista alcanava. Aquela era a herana de Jake, um sonho 
dos seus antepassados que havia sido transmitido de gerao em gerao. Foi aqui que ele brincou em criana, tal como o seu pai antes dele. Molly sabia muito bem 
o significado das palavras herana e tradio, e como esses conceitos acabavam por se tornar mais importantes do que o prprio empreendimento. Essa fora uma das 
principais razes por que tinha ficado aqui, recordou a si prpria, para se recompor e voltar a Portland onde iria reclamar a sua parte na firma que o pai havia 
construdo.
      Mas, agora, Jake era capaz de perder o Lazy J. por causa dela. Todos os seus sonhos e aspiraes seriam reduzidos a nada, e tudo por sua culpa. S de pensar 
nisso vieram-lhe lgrimas aos olhos.
      Era muito tentador permanecer no cercado de Sunset em vez de ir enfrentar Jake. Na sua vida j tinha havido coisas que lhe tinham custado uito a fazer, mas 
nenhuma tanto como esta.
      Afastou-se do cercado e atravessou apressadamente o trecho de gravilha que a separava da casa de Jake, tendo o cuidado de nunca olhar para os destroos carbonizados 
do estbulo. Quando ia a subir as escadas viu uma coisa vermelho-acastanhada no alpendre. Os joelhos quase se lhe obraram. Era uma galinha morta e a sua cabea tinha 
sido cortada. Os tendes rubros do pescoo sobressaam na ferida aberta.
      Subiu a correr o resto das escadas que conduziam ao alpendre, agarrou-se ao corrimo e vomitou a pouca comida que tinha no estmago. Depois de lhe passarem 
os espasmos, endireitou-se lentamente. Deu uma ohadela rpida por cima do ombro para se certificar de que era mesmo ma galinha sem cabea, ou o que sobrava dela, 
em todo o caso. Metade das penas daquela desgraada havia desaparecido, como se tivesse sido torturada.
      Molly engoliu em seco, reprimindo um novo acesso de nuseas, seguir, correu para a porta. Ao entrar no vestbulo, encostou-se  parede de madeira, tentando 
acalmar-se antes de ir para a cozinha.
        Como  que queres que eu saiba?  Molly ouviu Hank dizer.
       Caramba, Jake, no posso acreditar que estejas a pr todas as culpas em cima de mim.
      Cheia de curiosidade, Molly seguiu o som da voz dele at  casa de banho do andar de baixo, que ficava mesmo ao lado da casa de entrada, meio do caminho, escutou 
Jake a dizer.
       Bem, quem no a conhece de certeza sou eu.  Uma forte pancada e o rudo de gua a correr amorteceram as suas palavras.  Se eu venho descobrir que isto 
 o resultado de uma atraco fatal, Hank, juro-te que ou cabo de ti na semana que vem.
       H meses que no saio com uma mulher, e muito menos com uma tarada capaz de fazer uma coisa destas. Porque  que me hs-de culpar a mim? At parece que nunca 
tiveste namoradas? Aposto que h uma Sarah qualquer na tua lista negra.
        Qual lista negra? Se tive alguma, h muito que lhe perdi o rasto, e nunca namorei com uma mulher chamada Sarah.  Fez-se silncio.
        Bem, talvez uma, mas isso foi h quase dois anos. Se ela estivesse zangada comigo por a ter deixado, por que raio iria esperar at agora para fazer isto?
      Foi nesse preciso momento que Molly chegou  casa de banho. Ficou parada  porta, totalmente perplexa. Durante uns instantes, o seu crebro s conseguiu assimilar 
o que os olhos viam. Sangue. Havia sangue por do o lado, pelo cho, pelo lavatrio e pelo armrio. O seu olhar deteve-e na banheira onde Jake, com um joelho no cho, 
torcia um pano todo sujo de vermelho. Por cima dos ombros dele, reparou que estava uma coisa escrita nos azulejos brancos. Olhou incrdula para as letras. Sarah. 
Algum tinha escrito com sangue este nome.
      Molly teve a impresso de que um oceano rugia dentro das suas orelhas e viu pontos negros a danarem diante dos seus olhos. Sarah. As recordaes surgiram-lhe 
de repente com toda a fora. Deu um grito e fugiu dali, enfiando a cabea entre as mos. Sarah. Oh, Deus do cu.
      Desatou a correr sem saber para onde ia, apenas queria sair dali.
       Molly!  gritou Jake.
      Ela continuou a fugir. Ao chegar  porta da frente, lembrou-se da galinha morta no alpendre, deu meia volta e atravessou a casa at ao salo, de l correu 
para a cozinha, alcanando aos tropees a porta de trs. Sair. Tinha de sair. Apanhar ar fresco. Precisava de respirar.
      Quando se viu no exterior, quase caiu pelas escadas na sua nsia de escapar.
      
      Depois de a procurar por todos os lados, Jake encontrou finalmente Molly sentada junto ao riacho alguns minutos mais tarde. Tinha as pernas dobradas, os braos 
 volta delas, o olhar vago e o rosto to plido que ele se assustou. Comeou a falar, mas a seguir, pensando melhor, limitou-se a ficar ao lado dela.
      Perante o silncio de Molly, apenas se atreveu a dizer-lhe ol em tom suave.
       Ol  respondeu ela com a voz entrecortada.
      Molly parecia  beira das lgrimas. Pensando que ela estava perturbada por causa da galinha, Jake ajoelhou-se sobre uma perna e dobrou a outra, serviu-se do 
joelho para repousar o brao e permaneceu junto dela a contemplar o horizonte.
       Se isso te servir de consolao, querida, a galinha no sofreu. Cortar-lhes a cabea  uma forma rpida e misericordiosa de as matar. Sei que tinha mau aspecto, 
mas isso foi porque algum andou com ela depois de morta pela casa de banho a espalhar sangue por toda a parte.
      Ela levou algum tempo para responder. A sua voz era fraca e trmula.
       Preciso de te contar uma coisa, Jake, e no sei por onde comear. Ele lanou-lhe um olhar inquiridor.
        Comea pela primeira coisa que te vier  cabea, mida. Eu no critico o teu estilo.
      Molly tentou sorrir, mas os movimentos nervosos do seu queixo traram-na. As lgrimas brilhavam nos seus grandes olhos cor de caramelo.
       Tenho-te mentido. Desde o primeiro dia que no fao outra coisa a no ser mentir-te.
      Jake passou uma mo pelo rosto e pestanejou. No estava surpreendido. Sempre tinha sabido que ela lhe mentira sobre determinados assuntos.
       O meu apelido, por exemplo. No  Houston como eu te disse, mas Sterling Wells. Apenas Sterling quando me vir oficialmente livre do meu nome de casada.
      Jake arqueou uma sobrancelha.
        esse o problema, mida? O facto de me teres mentido sobre algumas coisas?
        No foram s algumas coisas  protestou ela debilmente.  Foi praticamente tudo. E tudo isto  Molly fez um gesto com a mo abarcando o rancho  foi por 
minha culpa, seno directa, pelo menos indirecta, mas o resultado  o mesmo. Ests  beira da falncia.
      Ele desejava tanto envolv-la nos seus braos. V-la chorar partia-lhe o corao.
        Pensei que estivesses perturbada por causa da galinha  disse Jake.
      Os olhos dela voltaram a encher-se de lgrimas.
        Isso perturbou-me,  verdade. Nunca pensei que fosse capaz de tirar uma vida, mas olha s para o que posso ter feito.
        O qu?  perguntou Jake cautelosamente, convencido de que tinha ouvido mal.
        Ouviste o que eu disse.  Com as mos a tremer, Molly secou as faces e fungou. A seguir, inclinou a cabea.   possvel que tenha sido eu,  possvel que 
tenha sido eu quem fez tudo isto.  Cobriu os olhos com as mos.  Peo-te imensamente desculpa. Por favor, perdoa-me Jake. Lamento imenso. Eu vou compensar-te um 
dia, juro-te. Hei-de pagar-te todos os prejuzos que tiveste.
       Espera a, comea outra vez do princpio, que eu estou a ficar confundido. Por que  que pensas que fizeste tudo isto? O ajudante do xerife que veio c est 
convencido de que foi uma rapariga chamada Sarah.  Jake sentiu uma onda de calor subir-lhe pelo pescoo.  Uma antiga namorada minha ou do Hank que resolveu vingar-se 
por despeito.
      Molly olhou para Jake como se ele estivesse louco.
        Primeiro foram as crianas que pegaram fogo ao teu estbulo e rasgaram todos os pneus, e agora uma amante despeitada escreve o seu nome com sangue por toda 
a casa de banho?
      Jake sabia que era pouco plausvel. Os polcias locais pareciam mais interessados em encontrar explicaes para aqueles estranhos incidentes do que em apanharem 
os culpados.
       Se no foi algum chamada Sarah, quem foi ento?
      Molly juntou as mos e disse:
       Acredita em mim, no foi a Sarah que escreveu o nome dela nos teus azulejos. No podia...  O queixo dela tremeu de novo.  A Sarah morreu h quase onze 
anos.
      Jake estava a ficar cada vez mais confuso. Ia faz-la voltar a contar tudo desde o incio quando ouviu Hank cham-lo. Olhou para cima e viu o irmo a gesticular 
para ele do outro lado do riacho.
       Tens de vir para casa!  gritava ele.  Temos um problema. Jake no duvidava. Problemas era o que no lhe faltava nos ltimos dias. Gemeu e ps-se em p.
        Desculpa, mida, mas tenho de ir ver o que aconteceu agora.  Inclinou-se e ofereceu-lhe a mo para a ajudar a levantar-se.  Vem comigo. Assim que tiver 
um minuto, arranjo um lugar sossegado onde possamos conversar.
      Enquanto Jake a ajudava a levantar-se, Molly lanou um olhar preocupado  casa.
       Meu Deus, o que  que ter sido desta vez?
      Ele fez-lhe um sorriso na esperana de a tranquilizar.
       Se a casa no estiver em chamas, no  assim to mau, no achas? Ela no lhe devolveu o sorriso.
        Lamento muito, Jake.  Molly olhou para ele com os olhos inundados de lgrimas e uma expresso resignada.  Por favor, acredita que eu nunca te quis fazer 
mal.
      Jake segurou-lhe no queixo com a mo, limpou-lhe uma lgrima com o polegar e disse:
       Querida, nem sequer precisas de me dizer, eu sei muito bem disso.
      
      Aps todo o vandalismo de que o Lazy J. havia sido alvo, Molly no se surpreendeu ao ver o carro do xerife Dexter quando chegaram perto da casa. O que a deixou 
sem pinga de sangue foi o Lexus creme estacionado atrs da viatura do xerife. Embora suspeitasse que Rodney ia aparecer de um momento para o outro, ver o carro dele 
foi um choque.
      O corao caiu-lhe aos ps quando a porta do condutor se abriu e viu sair o ex-marido, tal como ela se lembrava dele. Impecavelmente vestido, como sempre, 
pareceu-lhe mais alto no momento em que se endireitou. Dirigiu-se a eles ao mesmo tempo que alisava os vincos das mangas do seu caro casaco cinzento, compunha a 
gravata e passava os dedos pelo seu cabelo louro perfeitamente penteado. Mesmo quela distncia Molly conseguia ver os seus olhos cor de avel brilhando de inteligncia 
e de astcia.
      Naquele momento no teve a menor dvida de que era ele quem se encontrava por detrs de todos os incidentes ocorridos no rancho. Aquele sorriso de satisfao 
era inconfundvel. Tinha-o visto centenas de vezes, quando lhe mentia acerca de outras mulheres ou tentava esconder que tinha estado a jogar. Era um sorriso que 
dizia: Sou to fantstico e tu s incrivelmente estpida. O primeiro pensamento que lhe veio  cabea foi fugir.
       Oh, meu Deus  sussurrou ela a Jake, sentindo as pernas fraquejarem-lhe de novo.
      Ele lanou-lhe um olhar penetrante e segurou-lhe no brao com a mo. Apesar do tecido do casaco, Molly sentia a extraordinria fora dos seus dedos.
       Rodney?  perguntou-lhe Jake.
      Molly disse-lhe que sim com a cabea. Tremendo por todos os lados, tentou afastar a mo dele, mas Jake segurou-a ainda com mais fora. Molly olhou  sua volta, 
cheia de desespero.
       Por favor, Jake. No imaginas do que ele  capaz!
       No faas isso. Ele no te pode fazer mal, querida. Aqui ele no pode. No tens razo para ter medo  sussurrou Jake quando ela tentou fugir.
      Ela tinha todas as razes. A mente de Molly no parava e as suas mos cerravam-se em punhos. Ter-se-ia Rodney servido da ajuda das autoridades para a encontrar? 
Ou teria obrigado Keith Sandusky a dizer-lhe o seu paradeiro? No meio de todas estas dvidas, de uma coisa estava certa: odiava Rodney Wells com todas as suas foras.
      Recordou o sangue na casa de banho de Jake e estremeceu. No passado, as velhacarias de Rodney haviam tido sempre um duplo propsito, primeiro era assust-la 
e lev-la a duvidar da sua sanidade mental, e o segundo, convencer os outros de que ela estava louca. Mas agora, tinha mudado de estratgia e o seu principal objectivo 
era mostrar a pior imagem possvel dela. O sacana. Tinha encenado o espectculo da casa de banho para Jake, para que ele pensasse que ela era doida varrida.
      Sentiu uma dor lancinante na cabea. A verdade ia ser conhecida. Havia tentado revel-la ela prpria a Jake, mas era a verso de Rodney que ele iria ouvir.
      Apercebeu-se horrorizada de que a resignao se estava a apoderar dela. O sabor da derrota na sua garganta era amargo como fel. Rodney era um actor consumado, 
e nada do que ela dissesse ou fizesse iria impedi-lo de falar. Iria contar tudo a Jake, distorcendo perversamente a histria, e este entreg-la-ia ao seu cuidado. 
Em breve, estaria novamente a contemplar paredes brancas, era to simples quanto isso.
      Rodney fez um sorriso melfluo ao aproximar-se deles. Os seus mocassins italianos bem engraxados brilhavam sob o sol da manh.
       Molly  disse ele suavemente.  Tenho estado preocupado contigo, querida. Que alvio ver que ests bem.
      Molly fez das tripas corao para no se atirar a ele com as garras de fora. Como o detestava! Olhou para Rodney com os olhos secos, mas ardendo de raiva. 
Estava presa numa armadilha e no podia fazer nada, Nada. E, o que era pior, ele sabia disso. Rodney sorriu a Jake com um brilho trocista nos olhos que no passou 
despercebido a Molly.
      O xerife Dexter deu um passo em frente evitando olhar para ela.
        Bom-dia, Jake  disse ele suavemente, como se pensasse que Molly no o iria ouvir se falasse naquele tom de voz baixo.  Lamento, mas trago ms notcias.
        O que  que aconteceu?  perguntou Jake, lanando um olhar cortante a Rodney antes de se dirigir ao polcia.
      O xerife voltou-se para Molly:
       No vai gostar disto.
      Molly sentiu a mo de Jake apertar-lhe o brao com mais fora. O xerife aclarou a garganta:
       Esta jovem no foi sincera contigo, Jake. Sabias que ela teve alta h muito pouco tempo de um hospital psiquitrico?
      Jake olhou para Molly e, a seguir, para o xerife.
       H muito pouca coisa acerca de Molly que eu no saiba.
       Compreendo. Quer isso dizer que tambm ests ao corrente de que ela saiu de Portland violando uma ordem do tribunal que a obrigava a ter consultas com o 
psiclogo duas vezes por semana?  O xerife semicerrou os olhos.  Tem cuidado com a resposta que deres  apontando para o cercado de Sunset, continuou:  No s 
alojaste uma rapariga emocionalmente instvel que necessita de tratamento, como encobriste um grande furto.
      Um msculo comeou a tremer na face de Jake.
        Um grande furto?  perguntou ele suavemente.  Chama-lhe o que quiseres, Dexter, mas na minha opinio foi uma grande operao de salvamento. E tenho a certeza 
absoluta de que a Humane Society vai concordar comigo.
       No tomes partido, filho  recomendou-lhe o xerife.  No tenho nenhuma queixa contra ti e quero continuar assim.  Virou a cabea para Molly, sem qualquer 
preocupao de falar em voz baixa.  Esta mulher em termos emocionais  um barril de plvora e tem um historial documentado de actos violentos cometidos durante 
os ataques de sonambulismo. Estou convencido de que  a responsvel por todo este vandalismo. No foram midos como eu pensava.  O xerife apontou com a mo para 
Rodney.  O marido da senhora veio busc-la para a levar para casa e recomear o tratamento de que ela tanto necessita.
      Fez-se silncio. Molly sentia-se morrer lentamente a cada minuto que passava. No podia fazer nada a no ser manter-se ali  espera enquanto o seu destino 
estava a ser decidido. Era evidente que Jake a ia entregar a Rodney. Por que no o haveria de fazer? Devia estar mais do que furioso com ela e ningum o podia censurar 
por isso.
      Jake inclinou a cabea com expresso pensativa. Quando finalmente a levantou e olhou para o xerife, tinha as sobrancelhas franzidas.
       Desculpa, mas se ests a dizer que este homem  o marido dela, ests enganado.  Jake deu uma olhadela a Rodney.  A Molly est divorciada do Senhor Wells, 
ele no tem qualquer controlo sobre ela.
      Rodney deu um passo em frente e, exactamente como ela esperava, fez um sorriso encantador a Jake.
       Tem razo. Estamos divorciados, mas isso no significa que eu me tenha deixado de preocupar com ela ou que esteja completamente fora da sua vida. As coisas 
no so assim to simples no caso de uma mulher com os problemas de Molly. Em primeiro lugar, nunca lhe deviam ter concedido o divrcio. Ela no pensava com clareza 
quando decidiu pedi-lo. Por outro lado, o tribunal nomeou-me seu tutor legal. E, alm disso, tambm conservamos fortes laos familiares.  Rodney olhou por cima 
do ombro e fez um sinal com o dedo a algum para avanar.  Claudia, a sua me adoptiva,  agora a mulher do meu pai.
      Molly deu uma olhadela ao carro no preciso momento em que as portas de trs do Lexus se abriram. Jared Wells saiu por um lado e Claudia pelo outro. Jared tinha 
o mesmo aspecto de sempre, uma verso mais velha do seu belo filho com pinceladas cinzentas no cabelo louro. No entanto, o mesmo j no se podia dizer de Claudia. 
Embora continuasse impecavelmente vestida, o seu elegante fato bege estava surpreendentemente amachucado.  medida que se aproximava, equilibrando-se sobre uns instveis 
sapatos de salto alto, Molly reparou que tinha lgrimas nos seus olhos azuis e grandes olheiras.
      Ser uma traidora tirava-lhe obviamente o sono.
      Nesse momento, Molly compreendeu que estava perdida. S um milagre a poderia salvar. O ex-marido, a me e o novo padrasto estavam de conluio contra ela. Pobre 
Molly, tinham de a trancar novamente. Era a nica atitude responsvel e caridosa a tomar.
      Claudia foi para o lado de Rodney, olhou dolorosamente para Molly e esboou um sorriso triste.
       Mudaste de penteado  disse ela com voz estridente. Contorceu o rosto e levou a mo  boca ao mesmo tempo que olhava para Molly com os olhos rasos de lgrimas. 
 Minha pobrezinha, ests to bonita. Gosto de te ver assim.
      Rodney ps-lhe um brao  volta dos ombros para a reconfortar, aproximando-a dele. A seguir, lanou um olhar pesaroso ao pai e disse a, Jake:
       Tenha corao, Senhor Coulter. Se tentar resistir ao inevitvel apenas ir causar um sofrimento desnecessrio a vrias pessoas inocentes. Como pode ver, 
a Molly  muito amada. Queremos lev-la para Portland unicamente para a ajudar. H j muito tempo que ela no est no seu juzo, infelizmente.  Rodney sorriu para 
Molly e esticou a mo para lhe tocar no brao.  Anda, querida, vamos para o carro.
      Antes que Rodney lhe tocasse, Jake agarrou no pulso dele e disse-lhe.
       Esteja quietinho com as mos, homem.
      Molly olhou incrdula para Jake. Era a primeira vez que o via verdadeiramente zangado e o seu ar era assustador. Os olhos azuis dele faiscavam como gelo picado 
e um rubor sbito escurecia as suas feies polidas.
       Esta senhora s sai daqui se ela quiser, percebeu?
      Hank, que estava no alpendre, desceu as escadas para se pr atrs do irmo. Pelo canto do olho, Molly viu que os empregados tambm se estavam a aproximar. 
A mensagem era clara: ela tinha mais de um homem para a defender. At Tex, que estava mal do ombro, se juntou a eles.
      Molly olhou para o rosto moreno de Jake com lgrimas nos olhos. Confiana. Havia jurado que nunca mais a voltaria a dar de nimo leve, mas nessa altura ainda 
no conhecia Jake Coulter. Este homem seria mesmo real? Ela no se achava merecedora de uma to grande lealdade, sobretudo da parte dele e dos seus homens. Desde 
que o havia conhecido, no tinha feito outra coisa a no ser mentir-lhe e omitir-lhe factos, mas ele em vez de a abandonar, protegia-a. Era difcil de acreditar.
      Rodney olhava para Molly com ar suplicante.
       No envolvas estas pessoas nisto, Molly. No achas que j lhes causaste problemas suficientes?
      Molly no teria conseguido falar, mesmo se tivesse tentado.
       Precisas de te tratar  prosseguiu Rodney com toda a gentileza , vem para casa para poderes ir ao mdico.  Fez-lhe um sorriso adulador.
        Sei que me culpas de tudo. Mas, pensa, Molly. Achas que ests a ser razovel? De certeza que no podes acreditar que eu causei todos estes estragos s para 
pr as culpas em ti.  Abanou ligeiramente a cabea.
       Estiveste apenas trs semanas afastada de Sam Banks e olha o que sucedeu. No deves querer ficar aqui e continuar a fazer o mesmo. O que poder vir a seguir, 
a casa?
      Ela sabia que tinha causado problemas mais do que suficientes a Jake. Embora Molly j no acreditasse que era directamente responsvel pelo que havia sucedido, 
tinha feito de Jake um alvo de Rodney ao alojar-se no seu rancho.
        De uma maneira ou de outra, vamos ter de te levar  continuou Rodney.  Quer gostes ou no, foste declarada incapaz e ns somos responsveis por ti.
      Claudia lanou-lhe um olhar suplicante.
        verdade, querida.  Fez um gesto com a mo, apontando para o estbulo queimado.  At um juiz revogar a deciso, somos ambos responsveis por ti, o que 
nos confere uma obrigao legal. Se no pensas em ns, pensa ao menos na firma e em tudo aquilo pelo que o teu pai lutou. Queres mesmo pr isso em perigo?  Uma 
lgrima corria pela face de Claudia.  Se me visses doente, no farias tudo o que pudesses para que eu fosse tratada?  a nica coisa que queremos, querida, s deseja-nos 
ajudar-te. Daqui a pouco tempo j estars bem e poders vir para casa. Isso no seria ptimo?
       Sabes que gostamos de ti, Molly  acrescentou Jared.  Tem confiana em ns, s queremos o que  bom para ti.
      Dirigiam-se a ela como se estivessem a falar com uma criana muito pequenina. Molly sentia dores de cabea. As vozes deles martelavam dentro da sua cabea. 
Tinha vontade de os mandar embora aos gritos. Com ama famlia assim, quem  que precisava de inimigos?
        Podemos fazer as coisas a bem ou a mal  afirmou Rodney.  A escolha  tua, Molly. Mas no te esqueas de que os teus amigos podem estar metidos num grande 
sarilho se infringirem a lei para te ajudarem.
       No lhe ds ouvidos, Molly  interrompeu Jake. Molly olhou angustiadamente para ele.
       J tiveste desgostos suficientes por minha causa, Jake.
       E ainda vou ter mais se acreditares nestas tretas e te fores embora com eles  retorquiu Jake.  Tu no s mais louca do que eu.
      Ela tapou os olhos com a mo.
       Oh, meu Deus. J no sei o que pensar. J no sei o que pensar. Jake agarrou-lhe firmemente no brao.
       Ests apenas perturbada neste momento, mas felizmente eu consigo pensar com toda a clareza.
       No se meta nisto, Senhor Coulter  avisou Rodney.
      Claudia afastou-se de Rodney e aproximou-se deles. Olhou para Jake com ar suplicante:
       Sou a me dela. Sentei-me ao seu lado quando estava doente. Era eu que lhe punha dinheiro por baixo do travesseiro fingindo ser a fada los dentes. Acha mesmo 
que eu no quero o que  melhor para ela?
       No, no acho  respondeu Jake suavemente.  Tenho a certeza que a senhora pensa que est a fazer o melhor. No entanto, vocs no a no levar para lado nenhum, 
a no ser que tenham um mandato judicial,  que  obvio que no tm. Se o tivessem, j o tinham esfregado na minha cara.
      Nas faces de Rodney surgiram manchas vermelhas de raiva.
       Est a cometer um grande erro, homem. O xerife Dexter coou o queixo.
       Isso no vai levar a nada, Jake. Para que  que precisas de um mandato judicial? Todos queremos o mesmo, o bem da senhora. Est doente e necessita de ser 
tratada. No lhe ests a fazer nenhum favor, impedindo a famlia de a levar para onde ela tem de ir.
       Tens razo num ponto  concordou Jake.  Apenas quero o melhor para a Molly e, na minha opinio, o melhor para ela  permanecer aqui no Lazy J. rodeada das 
pessoas que gostam verdadeiramente dela.
       Um momento  interrompeu-o friamente Rodney , est a insinuar que a sua prpria me no gosta verdadeiramente dela? Ou que eu no gosto? Ela  minha mulher, 
caramba.
       Ex-mulher  recordou-lhe Jake.  E os seus sentimentos para com ela no so para aqui chamados. A Molly no quer saber de si, ponto final.
      Os olhos de Rodney chispavam de fria.
       Apenas porque est terrivelmente confusa neste momento. Pense um pouco. Ela necessita de cuidados hospitalares, que podem ser muito despendiosos. Ns podemos 
proporcionar-lhe esses cuidados. E, voc, pode?  Rodney abanou a cabea.  Conhecemos o historial mdico da Molly, temos uma experincia que mais ningum tem e 
vamos trat-la muito bem. No precisa de se preocupar com isso. Ela estar em boas mos.
        Ela estar em boas mos  respondeu Jake , porque vai ficar aqui comigo, e acabou a conversa.  Olhou para o xerife.  No acredito que ela esteja doente 
e, alm disso, tenho a certeza absoluta de que no  responsvel pelo vandalismo que se deu aqui.  Nesse momento pediu desculpa a Molly com os olhos.  No tenho 
o hbito de contar a vida privada de ningum, mas dadas as circunstncias, vou abrir uma excepo. Molly comeou a dormir comigo poucos dias depois de vir para c. 
Eu durmo com um olho aberto e o outro fechado, e tenho a certeza absoluta de que ela no saiu do p de mim nas noites em que houve vandalismo.
      Molly sentiu um aperto no peito. Ficou boquiaberta, sem conseguir acreditar que Jake fosse capaz de mentir to descaradamente para a proteger.
      O xerife mexeu-se, lanou um olhar consternado a Molly e disse:
        Peo-lhe desculpa, minha senhora. Nunca tive a menor inteno de a acusar injustamente. Disseram-me que...  interrompeu-se e olhou para Rodney com ar acusativo. 
 Bem, no falemos mais nisso. Se no  responsvel pelos problemas, peo-lhe perdo.
      Molly engoliu em seco para manter a voz firme.
        No faz mal, xerife. Sei que est unicamente a fazer o seu trabalho.
        verdade!  O polcia coou a face, junto ao nariz e tossiu:  Ento, Senhor Wells? Parece-me que necessita de um mandato judicial para tirar a senhora 
da quinta. Enquanto no o obtiver, no pode fazer nada.
      Rodney apontou um dedo a Jake.
       Vou voltar, no tenha a menor dvida. No s pela minha mulher como tambm pelo meu cavalo.
      Se Jake se sentiu intimidado pelo tom ameaador de Rodney, no o revelou a no ser por um imperceptvel movimento das pestanas. A seguir, sorriu:
        No acredito que queira meter-se num grande sarilho, Wells. O cavalo fica exactamente onde est.
       Vamos ver.
      Jake alargou o sorriso.
        O meu irmo e eu tivemos a ideia de tirar fotografias datadas ao garanho quando ele c chegou para documentar a situao deplorvel em que se encontrava. 
Ele tinha uma grande ferida aberta feita por um chicote, como todos vocs bem sabem, e as fotos mostram-na com todos os pormenores. Tambm tivemos o bom senso de 
chamar um veterinrio que est disposto a testemunhar que s a fora de um homem poderia provocar um corte to profundo no animal com um chicote. Quer levar o caso 
a tribunal, Senhor Wells? Por mim, tudo bem. Na realidade, at ia gostar. Sou da opinio de que nenhum homem pode maltratar um animal daquela maneira e ficar impune. 
Existem leis em relao a isso, sabe, e o senhor vai-se ver num sarilho muito maior do que imagina se me causar problemas a mim.
       No possui qualquer prova de que eu alguma vez tenha levantado a mo ao cavalo.
        a que se engana. Jake olhou para o cercado de Sunset.  Neste caso, a prova vem directamente da boca do animal. V em frente e entre naquele cercado.
      Rodney seguiu o olhar de Jake, empalidecendo visivelmente.
       Que jogo  este?
        V em frente  ordenou asperamente Jake.  V cumprimentar o seu cavalo, Senhor Wells. Se nunca lhe levantou a mo ele vai gostar de o ver.
      Rodney praguejou. Lanou um olhar demorado e furioso a Molly antes de se virar e voltar indignado para o carro, passando por Claudia e Jared como se eles no 
existissem.
        No te vais livrar de mim!  garantiu ele.  Faz as malas, Molly, porque da prxima vez que me vires trago um mandato judicial comigo. Podes ter a certeza 
de que o trago. Se o teu cowboy grande e forte interferir ver-se- em maus lenis!
      Claudia esfregou as mos uma na outra, os seus olhos repletos de lgrimas fixaram-se no olhar acusador de Molly.
        Compreendo que neste momento estejas a pr em dvida o meu amor pelo teu pai, Molly, mas isso  uma questo sobre a qual teremos de falar noutra altura. 
No entanto, no tenhas a menor dvida de que te amo.
      Ela teve de lutar para no cair nos braos da me. Mas esta mulher havia voltado a casar poucos meses depois da morte suspeita do seu pai e tinha-a abandonado 
no momento em que mais precisava dela. Como podia ter a certeza de que Claudia no estava metida no compl para lhe roubar a herana? No havia ningum no seu perfeito 
juzo que no pusesse em dvida a sua sinceridade.
      Rodney entrou no Lexus e fechou a porta com tanta fora que fez vibrar o espelho lateral.
       Vamos embora, pai! Estamos a perder tempo. Necessitamos de obter um mandato judicial antes de podermos fazer qualquer coisa.
      Jarred deu um passo em frente para segurar no brao de Claudia.
       Querida?  disse ele gentilmente.
      Claudia acenou afirmativamente com a cabea, ps a sua mo sobre a de Jared, sem tirar os olhos de Molly. Aps um longo momento, desviou a ateno para Jake.
       Se alguma coisa lhe suceder, o senhor  o responsvel  disse ela a tremer.  Ouviu bem, Senhor Coulter? Se faltar um fio de cabelo que seja na cabea de 
Molly quando voltarmos, vai lamentar o dia em que me conheceu.
       Eu protejo-a com a minha prpria vida  garantiu Jake a Claudia.
       Vem, querida  sussurrou Jarred.
      Claudia deixou que o marido a conduzisse. Quando se aproximavam do Lexus, olhou para trs e disse:
       Amo-te, querida. Nunca ponhas isso em dvida.
      Foi com frieza que Molly observou a madrasta e o novo padrasto sentarem-se na parte de trs do carro. As portas fecharam-se simultaneamente, o rudo que fizeram 
simbolizava o final do acto. Um instante depois o motor do veculo comeou a funcionar. Quando Rodney carregou no acelerador e recuou para fazer uma inverso de 
marcha, os pneus do carro levantaram gravilha do cho.
      O xerife suspirou e abanou a cabea no momento em que o Lexus desapareceu no horizonte.
       O Wells tem razo, sabes  disse ele a Jake.  Se interferires quando eles voltarem com um mandato judicial, vais meter-te numa grande alhada.
       Preocupo-me com isso quando chegar a altura  disse Jake suavemente.
      Dexter concordou com a cabea.
        Sou obrigado a cumprir o meu dever, tens de compreender isso, Jake. Se o Wells conseguir que um juiz lhe d o que ele quer, as coisas vo ficar feias.
       Eu sei, Dex. Jake estendeu-lhe a mo.  Faz o que tens a fazer. Com os meus assuntos preocupo-me eu.
      O xerife disse que sim com a cabea, mas os seus olhos reflectiam o desagrado que toda aquela situao lhe causava.
        Minha senhora  disse ele, pondo uma mo na aba do chapu e inclinando a cabea , lamento t-la conhecido em circunstncias to ingratas. Espero que o 
nosso prximo encontro seja mais agradvel.
      Molly esperava o mesmo, mas conhecendo Rodney duvidava que isso fosse possvel.
      O xerife foi-se embora, e num abrir e fechar de olhos, Molly viu-se a subir as escadas que davam acesso  casa a toda a velocidade, levada pelo seu cowboy 
grande e forte. A presso dos dedos dele no seu brao no a magoava, mas pela forma como a agarrava, percebeu que Jake estava furioso.
      Sentindo-se como se fosse um destroo de um naufrgio arrastado por uma onda, atravessou a casa em direco  cozinha, onde Jake puxou uma cadeira e a obrigou 
a sentar-se nela, agachando-se para a olhar bem nos olhos. Molly inclinou a cabea ligeiramente para trs, mostrando-se, sem o querer, intimidada. Mesmo na melhor 
das circunstncias, Jake Coulter era um homem que impunha respeito a qualquer opositor, mas, zangado, parecia-lhe to gigantesco como uma rvore.
       Emocionalmente instvel, Molly? Santo Deus. Que mais  que no me contaste?
      Eram tantas as coisas que ela no lhe tinha contado, tantas.
       De que  que tu estavas  espera?  gritou ele.  O sacana quer enclausurar-te. No percebes isso? Porque  que no me contaste tudo?  Agarrou-a pelos ombros 
e abanou-a ligeiramente.  Porqu? Se a tua me o apoiar, ests completamente tramada.  o parente mais prximo que tens vivo. J estiveste internada numa clnica, 
tens um historial documentado de sonambulismo. Eles j conseguiram interditar-te. Quem  que vai acreditar que no esto a dizer a verdade quando afirmam que necessitas 
de tratamento?
       Ningum  gritou Molly.
      A fria dele propagou-se a ela. Sem ver o que fazia, Molly levantou-se da cadeira, obrigando-o a chegar-se para trs, para impedir que os seus rostos chocassem 
um no outro.
        Foi precisamente por isso que tive receio de te contar. Morria de medo que achasses que eu era louca!
       Nunca iria pensar isso.
       E em que altura  que te poderia ter contado, Jake? Achas que na primeira noite? Olhe, j agora, no se assuste, mas devo inform-lo que acabo de sair do 
manicmio. Ou talvez mais tarde? Deixa-me ver. Qual seria o momento propcio?  uma coisa to fcil de contar, no ? Tive medo que pensasses o pior e telefonasses 
ao Rodney.
      Molly sentiu que ele lhe agarrava os ombros com menos fora e viu uma nuvem, que lhe pareceu de tristeza, escurecer-lhe os olhos.
       Devias ter confiado em mim  sussurrou ele.  Podiam ter  aparecido na semana passada, Molly. Imagina que eu voltava do campo e descobria que eles te tinham 
levado.
       Eles vo levar-me de qualquer maneira. Qual  a diferena?
        S te conseguiro tirar-te deste rancho passando por cima do meu cadver.
      Molly viu a imagem dele distorcida pelas lgrimas. Ao longo do ano anterior, desejara mais de mil vezes ter uma pessoa, alm do mdico, em quem pudesse confiar, 
totalmente e sem reservas. E ali estava Jake, disposto a enfrentar o mundo por ela sem saber muito bem o que tinha pela frente.
       Oh, Jake  disse Molly a tremer.  Qual de ns  que est louco, tu ou eu?
      Ele percorreu-lhe os braos para cima e para baixo com as suas grandes mos.
        Estou louco por ti. Serve de resposta? No me interessa saber se estou a regular bem ou no. Ele no te vai levar para lado nenhum.
      As lgrimas no a deixavam ver.
        No o podes deter  disse ela trmula.  No ouviste o xerife. A nica coisa que vais conseguir  meter-te num grande sarilho. O Rodney vai obter o mandato 
judicial assim desta maneira  ela estalou os dedos, e vem provavelmente com escolta policial ou o xerife, para me levar para Portland. Sou a sua ex-mulher excntrica 
que conseguiu o divrcio quando se encontrava internada e sem estar no seu juzo perfeito, ser o que vai dizer ao juiz. Ele controla a metade do capital da firma 
de investimentos que o meu pai possua, controla a minha herana e, por extenso, controla-me a mim. A minha prpria me est do lado dele. Por muito que agradea 
a tua boa vontade, tu no podes fazer nada. Eles querem o meu dinheiro e, para o conseguir, iro fazer tudo o que for preciso para se verem livres de mim.
        Ningum pode entrar na minha propriedade e levar a minha mulher.
      Molly pestanejou, julgando que no o tinha ouvido bem.
       No sou tua mulher.
       Por enquanto.
      As mos dele subiram lentamente pelos braos de Molly, pousando-se com firmeza nos seus ombros.
       Molly, at que ponto  que confias em mim? Ela tinha o corao aos pulos.
       Confio muito, mas no at esse ponto.
        Deixa-me fazer-te a pergunta de outra maneira. Em quem  que confias mais, em mim ou no Rodney?
       Essa pergunta no  justa.
       A vida nem sempre  justa, querida, e neste momento est a pregar-te uma partida. Sou o nico s que tens na manga. Daqui a cinco horas estaremos em Reno. 
Como teu marido posso usar os meus direitos para contornar os dele. Mesmo que contestem em tribunal a legitimidade do casamento, vo precisar de meses para conseguirem 
fazer alguma coisa. Entretanto, podemos pensar noutro plano.
        Oh, meu Deus!  De repente, o ar tornou-se-lhe irrespirvel. Por mais que Molly se esforasse, no conseguia inalar oxignio suficiente.  Reno?
        Quando ele voltar, seremos marido e mulher. O poder de Rodney sobre ti ter passado  histria. O de Claudia tambm. A partir desse momento s ters de 
te preocupar comigo.
      Molly voltou a olhar para o rosto moreno dele.
       E tu s inofensivo.
       Comparado com eles, sim.
      
      
    Captulo 18
    
      
      Aps tomar a deciso, Jake no perdeu tempo a pensar duas vezes. Trinta minutos depois tinha conseguido sentar Molly na camioneta do rancho e ia a caminho 
de Reno, ultrapassando o limite de velocidade. A rapariga, encolhida junto  porta do lugar do passageiro, tinha o olhar vago, e isso deixava-o preocupado.
       Querida, que ar to aterrorizado o teu.  Ele fez-lhe um sorriso na esperana de a tranquilizar.  Sou um noivo assim to mau?  Deu uma olhadela ao espelho 
retrovisor e passou a mo pelo cabelo despenteado.
       Arranjo-me muito bem.
       No tem nada a ver contigo. S no me quero voltar a casar.
       Porque vou controlar a tua vida?
       Essa  uma razo, mas h muitas outras.
       Vamos ver uma coisa de cada vez. Primeiro o assunto do controlo. No tenho a menor inteno de te controlar. Se foi o que sucedeu com o Rodney, no se vai 
repetir comigo. No gosto de controlar ningum.
       Ao olhar para o novo penteado atrevido de Molly e para a bonita blusa cor-de-rosa que ela trazia vestida, achou que podia acrescentar com toda a honestidade: 
 Tu tens bom senso. Podes fazer o que quiseres dentro do que  razovel, que eu no te vou limitar.
       Dentro do que  razovel?
      Jake escondeu o seu desagrado relativamente  questo.
        Sim, dentro do que  razovel. Se decidires atravessar o Grand Canyon numa corda bamba sem rede, sou capaz de ter uma palavra a dizer.
      Molly inclinou a cabea. Quando Jake voltou a olhar para ela teve a impresso de lhe ver um sorriso no canto dos lbios. Por fim, ela levantou a cabea e disse:
       No pretendo ser difcil. Eu devia era agradecer  minha estrelinha da sorte que te tenhas oferecido para fazer isto. Desculpa.
       Ofereci-me porque gosto de ti, unicamente porque gosto de ti.
      O olhar dela tornou-se de novo distante. Jake abriu a boca para falar, mas a seguir cerrou os dentes, achando que devia pensar muito bem antes de voltar a 
dizer alguma coisa, a prudncia era uma virtude que no possua em abundncia. Tinha passado a maior parte da sua vida dizendo a primeira coisa que lhe vinha  cabea.
      No culpava Molly por estar perturbada. Ela havia tido uma manh horrorosa, e embora no conhecesse ainda todos os pormenores, tinha motivos para crer que 
o incidente daquela manh era apenas a ponta do icebergue. No queria dizer nada que tornasse as coisas ainda mais difceis.
      No entanto, Jake achava que havia assuntos que eles tinham forosamente de discutir.
        o sexo que te est a preocupar? Ela ficou lvida.
       Para dizer a verdade, estava  espera de que pudssemos saltar essa parte. As minhas recordaes a esse respeito no podem ser piores.
      Jake voltou a olhar para ela.
       Nem pensar nisso. Eu quero que isto seja um verdadeiro casamento, Molly, no apenas um recurso provisrio para manter o Rodney  distncia.
       Tinha medo que quisesses isso.
       Medo? A tua forma de raciocinar  incompreensvel para mim.
       No quero passar pelo mesmo outra vez. Eu estava apaixonada pelo Rodney quando me casei e achava que ele tambm me amava. Mas, num abrir e fechar de olhos, 
o meu conto de fadas tornou-se num pesadelo.
      Jake ficou algum tempo a pensar no assunto. As palavras dela revelavam um corao despedaado.
        O teu casamento com o Rodney descarrilou assim to depressa?  perguntou ele, com cautela.
      Ela riu-se amargamente.
       O nosso casamento descarrilou logo na primeira noite. O Rodney embebedou-se, desflorou a noiva e, a seguir, adormeceu. E esse foi o ponto alto. Depois deixou 
praticamente de se incomodar. Quando o fazia, necessitava de carregar as baterias com revistas pornogrficas.
      Jake sentiu-se maldisposto, terrivelmente nauseado. Apertou o volante com fora, desejando que este fosse o pescoo de Rodney Wells.
        Lembras-te daquela manh na floresta, Molly? Como  que podes pensar que connosco no ia ser simplesmente uma coisa maravilhosa?
       Tenho a experincia.
      Foi a nica resposta que ela lhe deu, apenas trs palavras, mas elas transmitiam uma angstia terrvel. Jake gostava de lhe poder dizer alguma coisa, qualquer 
coisa que fizesse desaparecer o desassossego e a apreenso que via nos olhos dela. Mas, por mais que se esforasse, s lhe vinham  cabea lugares-comuns. Como  
que ele lhe podia assegum que entre eles iria ser diferente? Como  que lhe podia prometer que iria achar o seu corpo atraente, se nunca o tinha visto? Sobretudo, 
como  que lhe podia garantir que ela iria gostar de ter uma relao ntima com ele? Podia ter a melhor das intenes e desej-la com todos as fibras do seu corpo, 
mas se ela no sentisse o mesmo desejo por ele, o acto do amor deles ficaria muito aqum da perfeio.
      Jake no era homem de fazer promessas sem ter a certeza de que as podia cumprir, e no era agora que ia mudar. O melhor que tinha a fazer era pr-lhe uma aliana 
no dedo e lidar com um assunto de cada vez, esforando-se o mximo para que o casamento resultasse.
      Aps tomar essa deciso, concentrou-se na estrada. Odiava o muro de silncio que se tinha erguido entre eles, mas no se sentia  vontade para o romper.
      Ao chegarem a Reno, Jake apressou-se a encontrar um lugar num parque de estacionamento pago em frente de um supermercado. Estavam apenas a um quarteiro de 
distncia da rua principal onde os casinos, as casas de penhores, as joalharias e as capelas abertas vinte e quatro horas por dia enchiam os passeios apinhados de 
gente. Jake ajudou Molly a descer da camioneta, trancou a porta e conduziu-a para a rua. Ela caminhava ao seu lado como um andride bem programado, respondia monotonamente 
sempre que ele lhe fazia perguntas directas, os seus movimentos eram rgidos e tinha o rosto plido e cansado. Ele sentia-se como o carrasco que levava um condenado 
para a guilhotina.
      Deitou uma olhadela ao relgio e achou que ainda tinha algum tempo antes de a empurrar para a capela. Passava pouco do meio-dia. Se a levasse a almoar ela 
era capaz de se acalmar e recuperar um pouco das suas cores.
      Jake encontrou um caf convidativo no casino Eldorado, que tinha sido remodelado desde a ltima vez que ali estivera alguns anos antes. Encaminhou Molly para 
uma mesa, ajudou-a a despir a parka e sentou-se  sua frente. Ela, para evitar o olhar dele, comeou a mexer nervosamente nas cartas de Keno, fingindo um grande 
interesse nas regras do jogo.
       Gostavas de tentar a tua sorte?  perguntou ele.
      A rapariga abanou a cabea e ps as instrues no seu recipiente de plstico.
       No, obrigada. No tenho muita sorte. Nunca ganhei nada na minha vida.
      Enganava-se. Tinha ganho o corao dele. Jake estudou o seu rosto plido, desejando v-la sorrir. Comeava a sentir-se o maior idiota do mundo por a ter forado 
a isto. No entanto, ao considerar as alternativas, no conseguia conceber outra forma de a ajudar. Com Rodney e Claudia ontra ela, Molly encontrava-se numa situao 
extremamente precria do ponto de vista legal. A sua vulnerabilidade era assustadora. Ao casar-se om ela, podia proteg-la, pelo menos temporariamente. Seria a sua 
mu-aer e ele poderia travar qualquer tentativa de a internarem.
      Reparou que estava a mexer o caf sem ver o que fazia, batendo ruidosamente com a colher na chvena. Ficou paralisado, olhando estupidamente para aquele lquido 
negro. Normalmente, no punha acar no caf e no conseguia perceber por que o tinha posto agora. Nervos, achou ele.
      A empregada veio tomar nota da encomenda. Molly pediu apenas uma salada verde com queijo azul  parte. Como ela no tinha tomado pequeno-almoo, Jake achou 
que uma salada no era suficiente para a alimentar at  hora do jantar.
      Depois de encomendar o que ia comer, perguntou  empregada:
       Tm hambrger vegetariano?
      Quando ela lhe respondeu que sim, ele disse:
       Alm da salada traga tambm um hambrger vegetariano e uma salada de frutas para a senhora.
      No momento em que a empregada se afastou, Molly fitou Jake com um brilho muito intenso nos olhos, que a palidez dela tornava ainda mais forte. Os tendes do 
seu pescoo haviam inchado, formando cordas que se moviam ao ritmo da sua pulsao, em cada um dos lados da laringe.
       Por que  que fizeste isto?  perguntou ela muito tensa.
       Tu precisas de comer, querida.
      Antes de Jake perceber o que ela ia fazer, Molly estendeu o brao sobre a mesa, fazendo voar os talheres e batendo com as costas da mo na chvena de caf 
dele. O lquido quente entornou-se e uma boa parte deste foi cair no colo de Jake, fazendo-o dar um salto da cadeira.
        Bolas!  exclamou ele, comprimindo a braguilha com o guardanapo ao mesmo tempo que se esforava por reprimir um chorrilho de expresses mais coloridas. 
 Por que diabo  que fizeste isto?
      Ela tambm se ps de p. Tinha os punhos cerrados, de cada lado do corpo, o queixo levantado e um olhar selvagem.
        Como  que te atreves? Ainda nem sequer nos casmos e j me ests a dar ordens. Se eu quisesse um hambrger vegetariano, tinha-o pedido.
      Jake no conseguia acreditar no que estava a ouvir.
       Tu queimaste-me com caf escaldante por causa de uma estpida sanduche!  Ele resistia  vontade de danar agarrado aos rgos genitais. Sentia dor. J 
no precisavam de se preocupar com sexo naquela noite. No ia ficar operacional durante uma semana.  No achas que ests a exagerar um bocadinho?
        Est bem. Desvaloriza o assunto  ela espetou-lhe um dedo no peito ,  s uma sanduche, ao fim e ao cabo. No tenho razo para ficar irritada por tu pensares 
que tens o direito de decidir o que eu vou comer?
      Jake reparou que estavam a dar nas vistas. Olhou embaraado  sua volta. Uma senhora de idade,  sua esquerda, observava-os com os olhos esbugalhados de espanto 
e um garfo cheio de comida a caminho da sua boca aberta.
        Fala mais baixo  sussurrou ele a Molly.  As pessoas esto a olhar para ns.
       Que olhem!  gritou ela.  Quero l saber!  Para horror de Jake, ela virou-se para o restaurante e gritou numa voz histrica:  Mulheres, se alguma de vocs 
veio aqui para se casar, que pense duas vezes! Pode estar a cometer um dos maiores erros da sua vida!
      Depois de fazer esta declarao, passou por Jake como se todos os demnios do inferno estivessem a correr atrs dela. Foi com muita dificuldade que ele lhe 
conseguiu agarrar no brao.
       Onde raio  que pensas que vais?
        casa de banho!  respondeu ela, tentando soltar o brao. No momento em que Jake a segurou com mais fora, Molly aumentou o tom de voz.  Tambm tenho de 
te pedir autorizao para ir  casa de banho?
      Isso deixou-o sem argumentos. Teve de lhe soltar o brao e ela saiu do caf. Com o olho em Molly para saber para onde ela ia, ps algum dinheiro em cima da 
mesa, esfregou uma ltima vez as calas com o guardanapo empapado e saiu a correr do caf.
      O silncio da casa de banho das senhoras acalmou os nervos em franja de Molly. Sentou-se num sof com os cotovelos sobre os joelhos e a cabea enfiada entre 
as mos. O padro colorido da carpete tornou-se num borro, ao mesmo tempo que as lgrimas lhe escorriam pelo nariz, fazendo-lhe comicho nas narinas. Estava a tremer 
e por mais que se esforasse no conseguia parar.
      Casamento. No suportava sequer a ideia. No a conseguia pura e simplesmente suportar. Dissesse Jake o que dissesse, sentia-se uma prisioneira e, para ela, 
a sentena era para toda a vida. Fosse numa capela de Reno ou numa igreja, no podia fazer promessas diante de Deus que no tinha a menor inteno de cumprir.
      At que a morte nos separe.
      Amor, honra e obedincia.
      Quantas vezes Rodney lhe havia recordado as promessas que ela fizera ao casar-se com ele? No importava que ele prprio quebrasse todas as regras. Nem tinha 
a menor importncia que a indiferena dele pelos deveres conjugais a tornasse terrivelmente infeliz. Rodney nunca quisera saber de ningum alm dele prprio. Foi 
ela quem fez tudo o que pde para manter a unio, e isso significou engolir o orgulho vezes sem conta por dia, fingir que no via e sorrir quando tinha vontade de 
gritar, tudo para salvar um casamento que nunca se devia ter realizado.
      Nunca mais. Molly agarrou o cabelo com as mos e cerrou os punhos. Se s lhe apetecesse comer salada ao almoo, era o raio da salada que ela a comer. Estava 
farta que lhe dissessem o que tinha de fazer.
      Tomar essa deciso f-la sentir-se de alguma forma melhor. Limpou a cara e ficou a olhar sem expresso para o papel absorvente que estava na parede oposta. 
Havia, porm, uma dvida que no lhe saa da cabea. Se o casamento estava fora de questo, o que iria ela fazer? No tinha a nenor ideia. Aparentemente, a sua me 
adoptiva estava conluiada com o ex-marido e era muito provvel que ambos conseguissem manipular a justia para a voltarem a internar numa clnica. Para evitar isso, 
Molly precisava de algum que a defendesse, algum que pudesse contornar legalmente o processo judicial que estava em marcha. Como seu marido, Jake teria autoridade 
para o fazer.
      Molly sentiu-se desorientada. Voltava  estaca zero. Voltava sempre  estaca zero. Seria que as outras pessoas tambm se encontravam em situaes que pareciam 
no ter sada, ou era apenas ela? Jake. Era o nico s que ela tinha na manga, como ele to apropriadamente havia dito.
      Por uns instantes equacionou a hiptese de fugir. No duvidava de que Jake ia tomar conta de Sunset, ele adorava animais. Encheu-se subitamente de esperana. 
O casino estava a transbordar de gente, portanto ser-lhe-ia fcil escapulir-se da casa de banho, desaparecer entre a multido e sair do edifcio por uma porta das 
traseiras. Devia haver uma estao de autocarros ali perto. Podia comprar um bilhete s de ida para um stio qualquer, mudar de identidade e deixar o passado para 
trs.
      A ideia era maravilhosa, mas Molly comeou a pensar em tudo o que iria abandonar, no apenas a firma, metade da qual lhe pertencia por herana, como tambm 
os bens do pai, que to arduamente havia trabalhado durante uma vida inteira para os adquirir. Iria igualmente abandonar os poucos sonhos que ainda acalentava, sentar-se 
um dia  secretria do pai, ganhar reconhecimento na rea das finanas e continuar a tradio Sterling. E o que era feito da sua determinao para levar Rodney  
justia? Se ela fugisse agora, a morte do pai seria arquivada como suicdio e, o que ainda era pior, o assassino ficaria com o controlo dos seus bens. Esse seria 
o maior dos insultos  memria de Marshal Sterling, desvirtuando tudo aquilo pelo que ele havia lutado toda sua vida.
      Molly no podia permitir que isso sucedesse. E, por outro lado, mesmo que quisesse fugir, como iria comprar o bilhete do autocarro? Com os seus lindos olhos? 
Deu uma olhadela  sua bela blusa nova, pensando em todo o dinheiro que to futilmente havia gasto em roupa. Estava completamente falida. O pouco que lhe restava 
encontrava-se na carteira, cem dlares a ltima vez que o contara.
      Olhou estupidamente  sua volta, sentindo um aperto no peito. Onde  que estava a sua carteira?
      Oh, santo Deus, tinha-a deixado no caf.
      Uma vontade histrica de rir apoderou-se dela. Estava mais do que falida; no tinha um nico tosto. No tinha dinheiro para tomar um caf, quanto mais para 
comprar um bilhete de autocarro.
      Ao tomar conscincia disso levantou-se aos tropees. No tinha a menor dvida de que Jake havia ficado furioso com o seu comportamento no caf e podia ter-se 
ido embora. Era exactamente o que Rodney teria feito no lugar dele. O mau comportamento era sempre punido e no havia melhor forma de punir uma pessoa do que deix-la 
entregue  sua sorte durante uns quantos dias. No ter dinheiro significava no ter alojamento nem comida.
      Meu Deus... Oh, meu Deus. Molly imaginava-se vagueando pelas ruas, vasculhando os caixotes em busca de restos de comida. Se procurasse abrigo nos casinos durante 
a noite, os seguranas mand-la-iam sair no momento em que adormecesse. Ao fim de dois dias estaria morta de fome, mal se teria nas pernas e pronta para beijar as 
botas de Jake Coulter, pedindo-lhe perdo. Se este seguisse a cartilha de Rodney como guia, dar-lhe-ia a absolvio, mas apenas sob certas condies.
      O corao batia-lhe to depressa que tinha a impresso de que os seus tmpanos rebentavam. Necessitava de encontrar Jake e pedir-lhe desculpa antes que ele 
se fosse embora e a deixasse. Naquele momento at j podia estar na camioneta a preparar-se para partir. No, no, no. Era melhor casar-se. A misria em Reno no 
era uma perspectiva agradvel. Duvidava que a cidade tratasse bem os sem-abrigo. Ali as pessoas estavam demasiado preocupadas a jogar e a contabilizar as suas perdas 
para terem caridade em relao aos necessitados.
      Molly bateu na porta giratria com tanta fora que os seus ombros fizeram um rudo surdo ao roarem a madeira. Ao atravessar o vestbulo em direco  rea 
de casino, sentiu as pernas estranhamente desligadas do crebro. O barulho das moedas martelava-lhe nos ouvidos, as campainhas do jackpot tocavam muito alto, os 
zumbidos das mquinas e os bips suaves da msica juntavam-se para criar uma cacofonia computorizada.
      Tentou alhear-se da barulheira. Jake. Para onde teria ele ido? Necessitava de o encontrar. Se lhe pedisse desculpa, talvez ele lhe perdoasse e mantivesse o 
casamento.
       Molly?
      No momento em que se preparava para o procurar no meio da multido, estremeceu ao ouvir a sua voz profunda. Deu meia volta, mal podendo acreditar no que os 
seus olhos viam, Jake estava sentado num banco acolchoado mesmo  porta da casa de banho das senhoras. Tinha uma perna estendida e a outra dobrada, as costas inclinadas 
para trs e o chapu cado sobre os olhos.
      Levantou-se com aquele modo pachorrento que ele tinha de se mexer e dirigiu-se a ela. Molly reparou que trazia a mala dela numa das suas enormes mos e levou 
a sua ao peito para acalmar o ritmo desenfreado do corao.
       Tive medo que te tivesses ido embora. Ele arqueou uma sobrancelha.
       Por que raio iria eu fazer isso?
      Entregou-lhe a carteira, esperou que ela a segurasse e, a seguir, agarrou-lhe o brao. Molly preparou-se para sofrer um forte aperto, esperando que ele exercesse 
uma presso desnecessria devido  fria, mas em vez disso apenas sentiu uns dedos firmes, que no a magoavam.
       Chama-me mando e autoritrio se quiseres, mas no voltes a desaparecer assim da minha vista. No faas isso sem primeiro me dizeres exactamente onde vais. 
Tens ideia da quantidade de tarados que circulam neste antro?
      Depois de ter julgado que ele a ia abandonar, aquela descompostura deixou-a to aliviada que quase lhe chegaram as lgrimas aos olhos.
       No. Que gnero de tarados?
      Ele apertou-lhe o brao com mais fora.
       Do gnero que no hesita em encostar-te a uma parede e chegar-te uma faca  garganta. So desse gnero. Estava morto de preocupao.
      H pouco menos de trs minutos, Molly j se estava a ver vasculhando os caixotes do lixo para matar a fome. O tom irritado da voz de Jake mostrava-lhe o mau 
julgamento que tinha feito dele. Apesar de todos os seus defeitos, que no eram assim tantos, era muito diferente de Rodney e nunca devia ter metido os dois no mesmo 
saco.
      O que  que lhe estava a acontecer? Jake apenas tinha encomendado uma sanduche e era evidente que ela perdera a cabea por completo. Era como se tivesse aranhas 
venenosas escondidas num canto escuro e isolado do seu crebro, e algumas delas se conseguissem escapar, de vez em quando, para injectar veneno nos seus pensamentos.
       No sabias que eu estava na casa de banho?  perguntou-lhe ela. Jake desviou-a de uma mulher que acabara de ganhar um jackpot e dava saltos de alegria.
       No tinha a certeza  ele falava mecanicamente e o queixo tremia-lhe , tive de voltar ao caf para ir buscar a tua carteira e perdi-te no meio da multido. 
Esperava que estivesses metida nesta casa de banho. Foi a nica que encontrei neste lado do casino, por isso achei que ficar aqui  tua espera era a melhor opo.
      Conduziu-a para a sada principal. Do outro lado das portas de vidro, viam-se pessoas a andarem de um lado para o outro, desfrutando o calor do sol.
       Para onde  que vamos?  perguntou Molly.
       Para um stio onde se possa conversar.
       Conversar sobre o qu? Ele lanou-lhe um olhar duro.
       O que  que ns viemos aqui fazer? O que  que te parece?
      Molly viu que tinha feito uma pergunta idiota. Deixou que Jake a conduzisse pelo brao e caminhou obedientemente ao seu lado, sentindo-se como se fosse uma 
criana teimosa que era obrigada a fazer o que no queria. No entanto, no estava apreensiva. Jake no se parecia nada com Rodney. O facto de ter esperado por ela 
 porta da casa de banho era uma prova irrefutvel disso. No se serviu de joguinhos nem de tcnicas coercivas. Jake era simplesmente Jake, sempre frontal e directo 
na sua forma de pensar e agir. Foi o que ele lhe disse logo na noite em que o conheceu: Posso no ter muito jeito para fazer rodeios, mas comigo as pessoas sabem 
com o que podem contar.
      Ela sentia-se to ridcula. O nico crime dele havia sido tentar ajud-la da melhor maneira que podia. Molly foi invadida por ondas de vergonha. Nesse momento 
vieram-lhe  mente todas as palavras que Sam Banks lhe havia dito: Liberte-se disso, Molly. A sua vida com o Rodney acabou. Vai comear um novo jogo a partir de 
agora, com outros jogadores e regras completamente diferentes. Entre nele. Ande para a frente e no olhe para trs.    
      Infelizmente, isso no era assim to fcil, pensou Molly ao sarem do casino e entrarem no passeio cheio de gente. Em muitos aspectos, sentia-se praticamente 
bem, mas noutros no, e comeava a recear que essa sensao nunca mais a abandonasse. Jake era muito diferente de Rodney, mas ela no conseguia deixar de fazer comparaes. 
Nunca lhe mentira, pelo menos que ela tivesse dado por isso, mas examinava tudo o que ele dizia e fazia, estudando os seus motivos e lendo nas entrelinhas. Ele tambm 
nunca a havia tentado verdadeiramente dominar, mas isso no a impedia de continuar a pensar que era o que ele pretendia.
      Molly compreendeu que estava a deixar-se dominar pelo medo e no pelo homem que caminhava ao seu lado. Jake apenas estava preocupado por ela no ter tomado 
pequeno-almoo e quis-se certificar de que almoava o suficiente. Alm do mais, no encomendara o prato preferida dele, como Rodney teria feito. Em vez disso tinha 
pedido um hambrger vegetariano e fruta fresca. Para outra pessoa, isso podia no passar de um pormenor, mas para ela significava imenso.
       Oh, Jake, peo imensa desculpa. Comportei-me de um modo irracional. Peo imensa desculpa.
      Sem abrandar o passo, Jake suspirou, soltou-lhe o brao e ps-lhe uma mo  volta dos ombros. A seguir, puxou-a para si, dando-lhe uma espcie de abrao.
       Quem tem de pedir desculpa aqui sou eu.
      Foi tudo o que ele disse. No deu qualquer explicao, nem usou ima linguagem floreada. Quando esperavam para atravessar a rua, Molly olhou para o seu rosto 
moreno e perguntou-lhe:
       Tens de pedir desculpa porqu?
      Jake passou a mo suavemente pela manga da blusa dela, tendo o calor dessa carcia atravessado o prprio algodo.
       Por tudo  respondeu ele com voz rouca. Nesse momento o sinal dos pees ps-se verde. Jake conduziu-a pela passadeira, as suas botas ie montar batiam fortemente 
no asfalto, produzindo um rudo semelhante lo do toque de recolher.  Por ser um idiota egocentrista. Por te ter empurrado para isto. Por te ter tratado no caf 
como se fosses uma criana. Peo desculpa por tudo isso. Bolas, at perdi o teu casaco.
      O teu casaco? Molly descobriu que lhe faltava a parka. O simples facto de ele se preocupar com uma coisa dessas fez-lhe aflorar um trmulo sorriso aos lbios.
       Estava to irritado quando fui buscar a tua mala ao caf, que me esqueci completamente do casaco  explicou ele.  Quando l voltei j tinha desaparecido.
        Pelo menos trouxeste-me a carteira. Foi mais do que eu fiz.
        S o fiz porque tens l os teus documentos.  Conduziu-a at  beira do passeio para no chocarem com um casal idoso que vinha contra eles.  Claro! Sabia 
que no te podias casar comigo sem o bilhete de identidade. Sou eu sem tirar nem pr, sempre a pensar nas minhas convenincias.
      Ao cruzarem outra rua, Molly compreendeu que Jake a levava de volta para a camioneta. Nesse momento percebeu que ele tinha mudado de ideias. J no ia haver 
casamento.
      H vinte minutos, ter-se-ia sentido aliviada, mas agora as suas emoes eram uma estranha mistura de alvio e apreenso. Se ele recuasse e se negasse a casar-se 
com ela, o que  que iria ser da sua vida?
      Depois de a ajudar a sentar-se na camioneta, Jake contornou o veculo e subiu para o lugar do condutor. O rudo da porta a fechar-se foi seguido de um longo 
silncio, apenas quebrado pelo som da respirao de ambos. O vidro das janelas comeou a embaciar-se. Molly fixou a ateno no pra-brisas, olhando estupidamente 
para o vapor que se tinha concentrado numa linha irregular por cima do tabli.
      Por fim, Jake soltou um suspiro de cansao, cruzou os braos sobre o volante e pousou a cabea neles. A aba do chapu provocava-lhe sombras no rosto, tornando 
difcil decifrar-lhe a expresso, mas os seus grandes ombros to cados eram extremamente eloquentes.
        Ai, Molly  disse ele, suspirando de novo.  Lamento imenso, mida. Nunca devia ter insistido nisto. No sei o que  que me passou pela cabea.  A seguir 
riu-se ironicamente dele prprio.  Espera a. Sei o que me passou pela cabea, s no consigo acreditar que me tenha passado.
      Detestando o tom deprimido da voz de Jake, Molly ps-se a desenhar crculos imaginrios sobre as suas calas de ganga. A culpa era dela e no dele. Tinha sido 
ela quem havia perdido as estribeiras no caf.
        Tu s me quiseste ajudar, Jake. No me parece uma coisa assim to grave.
       Sim, fui um verdadeiro prncipe. Ofereci-te a minha ajuda, mas com um preo, um preo que para ti  muito elevado.  Endireitou-se, afastando-se do volante. 
Tinha o rosto cansado e os olhos baos. A seguir, procurou o olhar dela:  Lembras-te da noite em que te disse que no se pode possuir um animal, que  ele quem 
escolhe o seu dono?
       Sim  respondeu ela num fio de voz.
        O mesmo se aplica s pessoas. O amor no se compra. No  possvel forjar um caminho para chegar ao corao de algum. Mais importante ainda, podemos assinar 
documentos para o tornar legal, mas o casamento no  um mero contrato. Pelo menos, no deveria ser.  Um brilho suspeito surgiu-lhe nos olhos. Colocou uma mo  
frente da boca e olhou para fora atravs do pra-brisas.  Quero-te como minha mulher, Molly. Esta manh, esse desejo e as minhas boas intenes misturaram-se. Percebes 
o que eu quero dizer?
       Acho que sim.
      Ele sorriu ligeiramente.
        Esqueci-me do que era realmente importante por uns instantes, nomeadamente de que ningum deve ser empurrado para o casamento, por muito slidas que sejam 
as razes.  Voltou a olhar para ela.  No ests preparada para te casares. Quando estiveres, serei o primeiro a pedir-te em casamento e irei rezar para que me 
digas que sim. Mas assim no quero.
      Molly cruzou as mos sobre a cintura.
       Ento, desistes?
      Ele respirou de uma forma um pouco ofegante.
         mais um adiamento. Acho que precisei daquela dose de caf quente no colo para compreender o que estava a fazer. Se encomendar uma sanduche para ti, te 
faz entrar em parafuso,  porque temos um problema srio que no vai desaparecer por nos casarmos.
      Molly gostou que ele tivesse dito que eles tinham um problema. No estava a apontar-lhe o dedo nem a atribuir-lhe a culpa. Gostou que ele no a tivesse levado 
a dizer; Sou eu que tenho um problema, Jake.
       Os teus problemas so os meus problemas  disse ele suavemente.
        Quem me dera que...  Molly interrompeu-se, procurando as palavras mais apropriadas.  No sei explicar o que me sucedeu no caf.
        Bateu com o punho fechado no peito e lanou um olhar suplicante a Jake.  Sinto a maior das confuses dentro de mim.  como se... no sei...  como se alguma 
coisa explodisse. Estou muito bem e, no minuto seguinte, passo-me. Fico to irritada que quase no consigo respirar e perco por completo a cabea. Quando dou por 
mim estou a dizer e a fazer coisas que, de outra forma, no seria capaz. Aconteceu o mesmo na noite em que me tiraste o rotor. No h desculpa que justifique a forma 
como me comportei. No h qualquer desculpa. Senti-me presa e no consegui lidar com isso.
       Todos perdemos a cabea de vez em quando, Molly.
       Mas no num restaurante.
       Sim, at nos restaurantes. Apenas precisas de tempo, querida. Peo desculpa por me ter esquecido disso e te ter pressionado. Jake respirou com dificuldade. 
 Ambos precisamos de tempo, acho eu.
      Na perspectiva de Molly, no havia tempo a perder. Rodney estava a conspirar contra ela naquele preciso momento.
       Necessitas de resolver umas quantas questes dentro da tua cabea  prosseguiu ele , e eu preciso de tempo para te mostrar que no sou o sacana dominador 
que tu pensas.
       Eu no penso isso.
       Pensas, sim  Jake levantou a mo.  No te censuro por o pensares. No fiques com essa ideia. Tiveste uma m experincia e eu agora estou a empurrar-te 
outra vez para o altar.  Ele soprou e esfregou a testa.  s vezes sou to bronco como um cilindro de estrada. No  que eu queira, simplesmente acontece. Falo 
sem pensar e, mesmo quando penso, metade das vezes no digo o que quero dizer.
      Molly sentiu um frio repentino. Estremeceu e esfregou os braos um no outro. Jake praguejou baixinho e foi buscar o seu casaco, que estava atrs do assento.
       Querida, veste isto.
      Ela aceitou o casaco de ganga dele e, em vez de o vestir, enrolou-se no seu forro de l.
       Estou assustada, Jake.
      Ele voltou a praguejar e, a seguir, passou a mo demoradamente pela face.
        Eu sei. Quem no estaria? Mas, olha, ns vamos ultrapassar isto. O Rodney no  invencvel e, alm disso, h muitas maneiras de matar pulgas.
       O que  que queres dizer?
        Quero dizer que o casamento no  a nica soluo, Sem dvida que  a mais segura, mas ns temos outras opes.
       Tais como?  perguntou ela hesitantemente.
       Tive algum tempo para pensar enquanto esperei por ti  porta da casa de banho. Posso arranjar-te um advogado muito bom. Tenho a certeza que o meu cunhado, 
Ryan Kendrick, nos poder recomendar um.
      Dado que estava interditada, Molly tinha dvidas que algum advogado quisesse aceitar o seu caso.
       Como  que vais contratar um advogado? Com todos os problemas econmicos que tens neste momento?
       Ainda tenho algum dinheiro no banco.
       Mas esse no  o teu fundo de maneio? Ele encolheu os ombros.
        Tambm tenho alguns cavalos que posso vender. Sou capaz de conseguir o suficiente para pagar os honorrios de um bom advogado. Seno, posso sempre pedir 
um emprstimo  minha irm Bethany. Jake sorriu-lhe abertamente.  Ela fez um ptimo casamento. O seu sogro  to rico, que eles nunca vo dar pela falta do dinheiro.
      Molly lembrou-se daquela tarde na cozinha, um dia aps o incndio, em que ele lhe extraiu os espinhos do p. Nessa altura no lhe falou em vender animais ou 
em contrair emprstimos para reconstruir o estbulo. Limitou-se a olhar para a janela com os olhos cheios de impotncia e afirmou que se ia embora, restando-lhe 
apenas o sonho se a companhia de seguros no lhe quisesse cobrir as perdas que havia tido. Nesse momento compreendeu que Jake Coulter era um homem que gostava de 
ter os dois ps assentes no cho. Pedir dinheiro emprestado no era nada fcil para ele.
       Vender os cavalos no vai reduzir muito os teus fundos? Formaram-se rugas nos cantos dos olhos intensamente azuis de Jake, quando ele, franzindo as sobrancelhas, 
deitou um olhar por cima de Molly para a janela do lado desta.
       No.
      Molly percebeu que ele estava a mentir. No porque disfarasse mal, mas por no ser capaz de olhar para ela.
       Oh, Jake  disse a rapariga emocionada. O olhar dele pousou-se nela:
        O que foi?
      Molly abanou a cabea.
       No te posso deixar fazer isso. Alm do mais, trata-se de uma possibilidade muito remota. Mesmo que consigamos arranjar um advogado que aceite o meu caso, 
nada garante que venha a ter xito. Eu tenho um historial mdico documentado de instabilidade emocional, j estive internada, declararam-me interdita e a minha me 
adoptiva vai testemunhar em tribunal que eu sou um caso perdido. Sejamos realistas, que hipteses tenho eu?
       O mdico no vai testemunhar a teu favor?
       Tenho a certeza que sim, mas o seu parecer pode ser secundrio se eles me colocarem noutra clnica. A opinio do mdico assistente tem nais peso aos olhos 
do juiz.
        um risco que teremos de correr.. Se no nos casarmos, a nossa nica esperana  arranjarmos um advogado.
       A que preo? O Lazy J. significa tudo para ti. Se desbaratares os teus fundos e os teus bens podes acabar por perder o rancho.
      Desta vez, Jake olhou-a bem nos olhos enquanto falava:
       O Lazy J no significa tudo para mim, Molly. H coisas muito mais importantes.
      Molly compreendeu que ele se estava a referir a ela. Sentiu um terrvel aperto no peito, e durante uns segundos teve medo de desatar a chorar. Que ele fizesse 
isso por ela, que ele sequer considerasse fazer isso por ela, quase lhe partia o corao.
       No permito que desistas do teu sonho  disse Molly finalmente.  O Rodney j destruiu a maior parte do meu. No irei deixar que faa o mesmo contigo. De 
forma alguma.
       Querida, sejamos sensatos.
       Eu estou a ser sensata. O rancho pertenceu  tua famlia durante geraes. T-lo conseguido recuperar j foi um milagre. Se o perderes outra rez, a probabilidade 
de lhe voltares a pr as mos em cima  nula.
        No passa de um pedao de terra  respondeu Jake.  Posso sempre comprar outra quinta  o olhar dele pousou-se demoradamente sobre a face dela, como se 
estivesse a memorizar todos os seus traos , o mesmo j no se pode dizer de uma certa senhora que eu conheo. Ela  nica.
      Molly sentiu o queixo tremer-lhe. A seguir, como se uma mo invisvel a tivesse empurrado por trs, lanou-se nos braos dele.
        Oh, Jake  disse ela a chorar, quase se engasgando ao reprimir um soluo no momento em que se agarrava ao seu pescoo.  Estou desolada, estou verdadeiramente 
desolada.
      Ele ficou espantado com a atitude dela. Molly sentiu o corpo de Jake muito tenso, mas, a seguir, descontraiu-se subitamente e envolveu-a nos braos. Ela havia 
tentado imaginar centenas de vezes como seria o refgio dos seus fortes braos. Pegara-lhe ao colo em duas ocasies, uma na floresta e outra na cozinha, mas tanto 
num caso como no outro os seus pensamentos tinham sido desviados por outras emoes, o que no lhe permitiu captar o seu verdadeiro significado.
      Mas agora era diferente. Todos os sentidos de Molly estavam concentrados nele: na respirao do seu peito, na fora dos seus poderosos braos e naquelas enormes 
mos acariciando suavemente as suas. Molly fechou os olhos e chegou-se mais a ele, indiferente  manete das mudanas que lhe batia na coxa, indiferente a tudo menos 
a ele. Jake. Era assim que deveria ser, pensou ela contra todo o bom senso. Duas pessoas nos braos uma da outra, unidas unicamente pela fora dos seus sentimentos.
        No te posso deixar perder o rancho  murmurou ela, junto ao seu pescoo.
       E eu pedi-lhe autorizao? Assunto encerrado, minha senhora.  a nica forma que tenho de a ajudar.
        No. Basta casares-te comigo. J resolvi todos os meus conflitos. A srio. Casarmo-nos  a soluo mais simples.
      Molly sentiu-o sorrir.
       Que grande reviravolta.
       Se no puder confiar em ti, em quem  que posso confiar?
      Ele percorreu-lhe lentamente a coluna com a mo at ao pescoo.
        Em ningum  admitiu Jake com a sua voz rouca.  Mas, por muito que eu te ame, Molly, se tu no puderes confiar em mim, isso no te serve de nada.
      Ela riu-se num tom estridente e um pouco histrico.
       Ento, casa-te comigo. Prefiro casar-me a pr o Lazy J. em perigo. A seguir sentiu a hesitao dele.
       Isso  que  entusiasmo!
       Desculpa, no foi isso que eu pretendi dizer  respondeu Molly. Jake calou-se durante um momento e, depois, disse:
       No acho que seja uma boa ideia neste momento. Tenho medo que estejas a ser forada a tomar uma deciso da qual mais tarde te venhas a arrepender, e eu no 
quero ser uma das tuas decepes, sabes.  Jake passou a mo pelo cabelo de Molly.  No ests pronta para um casamento a srio. Ainda  cedo.
      Ela desejava do fundo do corao poder contestar o que ele havia afirmado, mas a verdade  que no estava pronta. Tinha percorrido um longo caminho desde aquela 
fatdica manh em que acordara na clnica. Com a ajuda de Sam, havia iniciado um tratamento que lhe permitira dar passos de gigante em direco ao seu bem-estar 
emocional, mas ainda no havia cortado a linha da meta. Sentia-se perto, sentia-se a tomar balano e mesmo  beira de dar esse ltimo passo libertador. Mas at o 
conseguir dar, no se considerava pronta.
      Estava operacional. Podia tomar conta de si prpria e desenvencilhar-se. Mas uma relao saudvel exige muito mais de uma pessoa. Ela no era a nica que tinha 
necessidades. Jake tambm as tinha e Molly no se sentia preparada para as satisfazer. Quer gostasse quer no, tinha receios que ele no conseguia dissipar. Desejava 
que ele conseguisse, oh, como ela desejava que ele conseguisse! Mas no era assim que as coisas funcionavam na vida real. Os cavaleiros de armaduras brilhantes apenas 
existiam nos contos de fadas. Se queria vencer os seus drages tinha de ser ela prpria a desferir os golpes.
       Acho que devamos fazer um casamento fictcio  murmurou ele.  Se no o consumarmos, no ser vlido. Ela agitou-se e olhou para ele.
       Julgava que querias que isto fosse um casamento a srio e no um recurso provisrio como tu prprio lhe chamaste.
      Jake inclinou a cabea para baixo e sorriu para ela com ar arrependido.
        Bem, nem sempre consigo aquilo que quero.  Alisou-lhe o cabelo com a mo.  Talvez com o tempo, h? Agora o mais importante  travar o Rodney, podemos 
tratar do resto mais tarde. De preferncia mais cedo do que mais tarde.  Inclinou-se para beijar a testa de Molly.
       A esperana  a ltima coisa que se perde. Vou adoptar uma atitude positiva e aproveitar todas as oportunidades que tiver para te convencer mudar de ideias.
      Molly procurou ver-lhe a expresso.
       Ficas satisfeito com esta soluo?
       Bolas, no. Eu quero mais, Molly. Muito mais. Eu gosto de ti.
      Ela sabia disso. Depois de ter visto que ele estava disposto a sacrificar o rancho por ela, no tinha a menor dvida a esse respeito. Infelizmente, amor nem 
sempre era tudo. Molly tinha descoberto isso  sua custa.
      Jake ficou um momento com os olhos presos nos dela.
       Ento, o que  que me dizes, Stir-Houston? Aceitas comprometer-te com um cowboy durante algum tempo?
      Molly fixou o olhar no queixo de Jake.
       Sinto-me mal ao fazer uma promessa que no estou certa de poder cumprir. Para mim  o maior dos pecados.
      Um brilho surgiu nos olhos dele.
       Nesse caso, vamos ser ns a inventar os nossos votos de casamento, podes prometer ficar comigo enquanto me puderes aturar e eu prometo ficar contigo at 
estares emperrada e precisares de mudar de leo.
      Molly riu-se surpreendida.
       Tenho a certeza que no nos podemos casar legalmente dizendo estas coisas.
      Jake franziu as sobrancelhas com ar brincalho:
       Por que no? Estamos em Reno, querida, tudo  possvel.
      
      
      
    Captulo 19
    
      
      
      Duas horas mais tarde, estavam a caminho de Crystal Falls. Durante a primeira meia hora, Jake deixou Molly entregue aos seus pensamentos. Exceptuando o rudo 
do motor e alguma vibrao ocasional, o interior da camioneta era to silencioso como um sepulcro. Molly estava encostada  porta e olhava em frente, com os braos 
cruzados sobre o peito. De vez em quando, ele via-a roar o polegar pela aliana que lhe tinha posto no dedo.
      Em termos de aliana, no era grande coisa. Jake servira-se do carto de crdito para a comprar numa joalharia perto da capela onde se tinham casado. Era bem 
provvel que a capa de ouro viesse a cair mais tarde. Em breve, comprar-lhe-ia uma aliana melhor e um belo diamante para ser encastoado nela, prometeu a si prprio. 
Mas, por enquanto, no tinha dinheiro para mais.
      Molly, por seu lado, no parecia notar a qualidade da aliana. Ele tinha a sensao que era o seu significado o que a preocupava. Havia feito tudo o que podia 
para adaptar os votos de casamento que escolheram aos vrios formatos de cerimnia disponveis. Infelizmente, ele e o juiz de paz tinham objectivos contrrios. Perto 
do final da cerimnia, este afirmou: Molly Sterling, aceitas este homem como teu legtimo marido e prometes am-lo, honr-lo, estim-lo e permanecer junto a ele 
at que a morte vos separe? Nesse momento, Molly fitou Jake em pnico e, antes que este conseguisse intervir, respondeu sim numa voz fina e trmula. A seguir, 
Jake fez o mesmo. Que outra coisa poderia ele ter feito, sem a deixar terrivelmente embaraada?
      E, agora, estavam casados e haviam feito um monte de promessas um ao outro, precisamente o que Molly no queria. Por um lado, Jake desejava que ela no levasse 
aquilo to a srio mas, por outro, estava muito satisfeito com isso. Quem  que se queria casar com uma mulher que tomava os votos de casamento de forma leviana? 
No era ele de certeza.
      As mos escorregavam-lhe no volante devido ao suor. Sentia um n no estmago. Tinha vontade de falar com ela sobre tudo e nada em particular. Adorava o tom 
da sua voz, adorava o modo como franzia o nariz pensar antes de dizer qualquer coisa.
      Raios. Estava apaixonado, pensava Jake. Mesmo quando ela se tornava difcil e insensata, como sucedera no caf, era capaz de reflectir sobre a situao em 
vez de ficar furioso. Sorriu para si prprio ao lembrar-se da a que ela tinha feito. Aquele momento tornar-se-ia inesquecvel para muita gente, ele includo. Da 
a vinte anos, esse almoo ia ser uma das suas recordaes mais queridas. Um dia, ele e Molly cont-lo-iam aos filhos e todos se iriam rir com o que se tinha passado.
      A possibilidade de Molly poder no fazer parte da sua vida da a vinte anos era impensvel para Jake. Ele teria de encontrar um modo, uma forma de ultrapassar 
as suas reservas, garantiu a si prprio. Tinha de o encontrar. Caso contrrio, perd-la-ia, e isso no podia pura e simplesmente acontecer.
      Jake deitou uma olhadela a Molly.
       Ests bem?
      A rapariga ajeitou o cabelo e disse que sim com a cabea.
       Sim, estou ptima, apenas cansada.
      Ele engoliu em seco e agarrou o volante com mais fora.
       Podes contar-me alguma coisa, Molly? No me quero meter nisto s cegas.
      Ela podia ter-lhe pedido que fosse mais explcito. Jake deu-lhe essa possibilidade. Mas, em vez disso, Molly demonstrou que era to corajosa como ele a tinha 
considerado desde que a havia conhecido e comeou a falar-lhe do seu casamento  sobre aquilo que ela considerava as suas suas fantasias de adolescente, que tiveram 
morte sbita assim que se casou  da lista interminvel das amantes de Rodney, que havia comeado no no seu primeiro dia de casada.
       Eu no estava  altura dele  admitiu Molly desanimada.  Fizesse que fizesse, nunca estava.
      Esta afirmao partiu o corao a Jake. Ela era to incrivelmente bonita e o seu corao to doce e puro. Como  que algum homem podia achar semelhante coisa?
      Desviou momentaneamente o olhar da estrada para a contemplar.
       Certas pessoas no se deviam casar. Essa  que  a verdade. Nada e ningum as satisfaz.
        Mas eu queria que ele gostasse de mim  disse ela, a tremer.  Fiz tudo o que pude para o conseguir.
      Jake j desconfiava disso. Na realidade, ele achava que o sentido de lealdade e de fidelidade aos compromissos que Molly possua quase a tinha destrudo.
       E nada do que tu fazias lhe agradava.
       Nada  admitiu ela.
       A culpa no era tua, Molly. Nunca foi.
       Era sim. Acho que me falta qualquer coisa, Jake.
       E ao Sunset, tambm lhe falta qualquer coisa? Ela fechou os olhos.
       Isso  diferente.
       Uma treta. Aquele cavalo deu tudo o que tinha ao Rodney, mas isso no foi suficiente para ele. As palavras so tuas, no minhas. Ouvi-te a falar com ele 
numa tarde. O que se aplica ao cavalo tambm se aplica a ti.  um animal lindo e aposto que v-lo a correr nas pistas  pura magia. Alm disso tem um corao do 
tamanho do Texas ou ainda maior. O que  que lhe falta a ele, Molly?
      Ela abanou a cabea.
       Nada. O Sunset  perfeito.
        Sem dvida, e tu tambm.  Jake levantou a mo para ajustar o espelho retrovisor de modo a que o sol-poente no o encadeasse.  Mas isso  um tema para 
outra ocasio. O teu casamento, que melhor dizendo no era um casamento, j passou  histria. Vamos debruar-nos sobre pormenores mais pertinentes, nomeadamente 
o que te levou a esta situao.
       At tenho medo de te contar.
       No sejas tonta.
       A srio. Aterroriza-me pensar que cometi um erro ao envolver-te nisto.
      Jake levou a mo ao bolso do casaco com vontade de lhe dizer que ainda fumava. Em momentos como este ia sempre buscar um cigarro.
       Eu chego para o Rodney, no te preocupes comigo.
       Chegas para o Rodney numa confrontao directa, mas infelizmente ele no te vai enfrentar. Atacar-te- pelas costas.
        No tenho medo dele e tambm no quero que tenhas. Agora j no te pode fazer mal. s a minha mulher, se te puser uma mo em cima, mato-o.
       O Rodney  traioeiro, Jake. Quando pretende uma coisa, destri tudo o que se interpe no seu caminho. Tudo. Ao casares-te comigo, interpuseste-te no caminho 
dele.
       Excluindo o assassnio, que raio  que ele me pode fazer?
       O problema  esse  disse Molly trmula.  Ele  capaz de no recuar mesmo perante o assassnio.
      Jake ficou to chocado que quase teve de encostar o carro  berma da estrada. Provavelmente no a tinha ouvido bem.
       O que  que disseste?
       Acho que o Rodney deve ter matado o meu pai.
       Santo Deus! Porqu?
       No tenho a certeza. O Rodney andava a apostar muito dinheiro e Sonora Sunset perdia mais corridas do que ganhava. Talvez estivesse a desfalcar a firma para 
cobrir as perdas. No sei. Mas penso que o meu pai descobriu e o Rodney o matou para o calar.
       Jesus  sussurrou Jake. Ele raramente invocava o nome de Deus em vo, mas naquele momento no sabia muito bem se estava a rezar ou praguejar. Um assassino? 
No instante em que olhara Rodney Wells nos olhos, tinha compreendido que o indivduo era uma cobra, mas nunca lhe assara pela cabea que fosse tambm um assassino. 
 O que  que te faz pensar que ele o matou?
        O meu pai andava muito aborrecido com uma coisa nos ltimos dias antes de morrer e, ao contrrio do que era habitual nele, recusou-se a falar do assunto 
com quem quer que fosse, incluindo a Claudia. Eles eram muito prximos, portanto isso era estranho. E o mais estranho ainda foi ter-se recusado a falar comigo.  
Ela levantou as mos.  O meu pai era um homem de honra, no fazia acusaes levianas. Se tivesse alguma suspeita, guard-la-ia para si at obter uma prova irrefutvel. 
Acho que andava  procura de provas, a investigar o Rodney, e que ele deu por isso.
       E o teu pai apareceu morto? Como  que ele morreu?
        Com um tiro na cabea. Nessa manh, fui bem cedo para o escritrio para falar com ele e tentar perceber o que se passava. Fui eu quem o encontrou.
      Jake sentiu um aperto no peito ao ver a expresso do rosto dela, que demostrava o esforo desesperado que estava a fazer para no perder controlo.
       Ai, querida, deve ter sido um pesadelo..
       Um pesadelo, sim!  Molly pousou o olhar no tablier.  E ainda foi mais penoso porque para mim era a segunda vez. Quando andava na faculdade, a Sarah, que 
era a minha melhor amiga, cortou os pulsos. Dormamos no mesmo quarto e fui eu quem descobriu o corpo. No imaginas como me senti quando encontrei o meu pai morto. 
Era como se estivesse a reviver a pior recordao da minha vida, s que desta vez era ainda mais doloroso porque eu gostava imenso dele. Falhei  Sarah e tambm 
falhei ao meu pai. No tens ideia do que eu senti. Tanto num caso como no outro tive a percepo, nos dias anteriores  morte deles, de que alguma coisa muito estranha 
se estava a passar e no fiz nada. Depois de encontrar o meu pai fiquei completamente histrica.
       Tinhas de ficar.
      Ela respirou, cheia de nervos, e ajeitou o cabelo com os seus dedos trmulos. A seguir, deixou cair as mos no colo e olhou pela janela.
       A polcia concluiu que foi um suicdio. O meu pai havia tido um comportamento estranho durante mais ou menos uma semana e encontraram provas de que a arma 
tinha sido comprada em seu nome uns dias antes.  Molly lanou-lhe um olhar significativo.  Foi comprada com o BI dele, mas o Rodney  to esperto com os computadores 
que  bem capaz de o ter forjado em trinta minutos. A polcia no pensou nisso, claro, e eu nessa altura tambm no. Os investigadores disseram-me que os homens 
idosos tm muitas vezes depresses sem qualquer razo aparente. Um desequilbrio hormonal, possivelmente. Ou apenas a sensao de que a vida deles est praticamente 
terminada e no realizaram os seus sonhos. Disseram-me que o suicdio no  invulgar nos homens da sua idade.
       Mas tu no acreditaste nisso.
       O meu pai era um homem de honra, no era pessoa para desistir cobardemente, a no ser que circunstncias excepcionais o justificassem. No, no aceitei a 
explicao. Nesse momento, como  bvio, ainda estava em estado de choque, e no equacionava a possibilidade de um assassnio. Pensei que o meu pai tivesse perdido 
muito dinheiro na bolsa ou feito uma srie de maus investimentos com fundos dos seus clientes. Tinha necessidade...  interrompeu-se e passou uma mo pelos olhos.
       No sei. Tinha necessidade de uma explicao, acho eu. Uma razo. Antes de o enterrar, precisava de saber por que se tinha matado.
       Se isso tivesse sucedido ao meu pai, teria reagido da mesma forma  garantiu-lhe Jake.
       Bem, o Jared e o Rodney...
       O Jared?
       O homem que estava com a Claudia esta manh.  o pai do Rodney.
       Ah! A trama adensa-se.
      Ela disse que sim com a cabea.
       Era o scio do meu pai e o seu melhor amigo. Foram colegas na faculdade, depois de terminarem o curso, fizeram o estgio na mesma empresa e, a seguir, fundaram 
a Sterling and Wells. At h pouco tempo chamava-lhe tio Jared. O meu pai no tinha irmos e sempre vi o Jared como o meu nico parente do sexo masculino.  Ela 
precisou novamente de respirar, dando a Jake a impresso de que tinha falta de ar.  Bem, logo a seguir ao funeral, o Jared e o Rodney tiraram todos os objectos 
pessoais do meu pai da nossa casa. Tive medo de que a seguir esvaziassem tambm o escritrio dele e, por isso, quis examinar os registos dos seus negcios antes 
que algum lhes tocasse.
       Portanto foste  empresa com essa inteno?
       Parecia-me a coisa mais natural do mundo. O meu pai tinha morrido e eu necessitava de saber porqu. O Rodney no era da mesma opinio. Quando me encontrou 
no gabinete do meu pai ficou furioso. Disse-me que era ele quem examinava os papis, que no queria que eu o fizesse porque era muito violento para mim. Receava 
que eu sofresse outro colapso nervoso.
      Jake olhou-a com ar interrogativo:
       J tinhas tido um colapso nervoso antes? Molly estava lvida.
        No. Esse  que  o cerne da questo. Quando a minha amiga Sarah se matou, foi-me muito difcil ultrapassar o seu suicdio. Sabia que ela estava deprimida 
e tinha-a incentivado a procurar um terapeuta, mas no insisti quando se recusou. Devia t-lo feito e essa omisso custou-lhe a vida.
        Olha, querida, no te podes culpar por isso. S tinhas dezoito inos.
       Dezassete, na realidade. Comecei a escola com cinco anos, por isso entrei na faculdade com dezassete. Hoje em dia vejo que era demasiado jovem para compreender 
a profundidade da depresso da Sarah mas, na altura, culpei-me. O meu pai fez-me mudar de quarto, mas  impossvel fugir de uma coisa dessas. As recordaes perseguiram-me 
e comecei a ter pesadelos. Por outro lado, a preocupao com as notas fez aumentar a presso sobre mim. Em pouco tempo, o medo que tinha dos pesadelos e a ansiedade 
em relao aos estudos levaram-me a quase no conseguir dormir e, quando a exausto me dominou, comecei a ter ataques de sonambulismo.
      As peas do puzzle comearam a encaixar-se na cabea de Jake.
        Esses episdios foram estranhos e inquietantes, mas nunca violentos. Quando isto chegou aos ouvidos dos meus pais, eles insistiram para que sasse da faculdade 
e regressasse a casa onde encontraria ajuda para ultrapassar aquele mau momento. Foi por essa altura que o Rodney voltou para Portland, aps ter trabalhado vrios 
anos em Silicon Valley. Ele e o pai, que se tinha divorciado h pouco tempo, vinham jantar com frequncia  nossa casa. O Rodney estava a par dos problemas que eu 
havia tido com a morte de Sarah.
       E ele chamou a isso um colapso nervoso?
      Molly contorceu a boca e lanou um olhar sombrio a Jake. Este voltou a concentrar-se na estrada, enquanto aguardava a resposta dela.
        At quela manh na empresa, nunca lhe tinha chamado um colapso nervoso. Acho que apenas usou esse termo para que os outros o ouvissem.
      Jake fez sinal para ultrapassar um veculo lento.
       Meu Deus, estava a preparar-te uma armadilha.
      Ouviu-a expirar o ar que tinha reprimido nos pulmes e compreendeu que estava a reproduzir os pensamentos de Molly.
       Naquele momento senti-me terrivelmente chocada, no queria acreditar que ele tivesse dito semelhante coisa diante de terceiros. De repente, eu era uma pessoa 
emocionalmente frgil, para usar as palavras do Rodney. Neguei o que ele disse, mas o meu ex-marido deu-me uma pancandinha na cabea e apaziguou-me, fingindo-se 
muito preocupado. Na minha opinio, foi um desempenho digno de um scar. Jake ficou a remoer o assunto.
       Ele estava era cheio de medo. Havia alguma coisa nesses ficheiros que o Rodney no queria que tu visses e se, por acaso, a encontrasses, precisava de montar 
um esquema que pusesse em dvida a tua credibilidade.
      Fez-se silncio. Jake deitou uma olhadela a Molly e reparou que ela linha a cabea inclinada e os olhos fechados.  medida que os segundos passavam, comeou 
a ficar preocupado.
       Ests bem?
      Molly cobriu a face com as suas mos trmulas.
       Desculpa.  que... exceptuando as sesses com o meu mdico, h muito tempo que medito sobre isto sozinha e, para ser totalmente sincera, houve momentos em 
que eu prpria duvidei da minha sanidade mental.  Secou as faces e fungou.  No imaginas o alvio que sinto ao ouvir-te reproduzir os meus pensamentos.
       Tu no s doida, querida. Tira isso da cabea. Ela concordou:
        que... bem, nestes ltimos dias, houve ocasies em que no estive assim to certa disso  falou-lhe com voz vacilante dos resduos que havia encontrado 
na cama e das luvas empapadas em diesel que descobrira na cozinha.  At o Rodney aparecer esta manh, estava meio convencida de que era eu quem andava a fazer aquilo 
tudo.
       Armadilhaste a casa de madeira para impedir os ataques de sonambulismo? Foi por isso que puseste todas aquelas porcarias diante da porta naquela noite?
        Sim, e a seguir os pneus apareceram rasgados. Compreendi que estavas em perigo de perder o rancho, e nessa altura senti-me to mal que decidi que tinha 
de te contar tudo.
       Por que  que no o fizeste?
      Molly recordou-lhe que ele no tinha estado acessvel durante alguns dias.
        Queria dizer-te, procurei dizer-te, mas nunca surgiu uma oportunidade.
      A seguir, falou-lhe das semanas seguintes  morte do pai e dos incidentes estranhos que comearam a ocorrer na casa onde vivia com Rodney.
       Parecia que era sempre eu quem os causava, sabes. Encontrmos o casaco, manchado de sangue, que o meu pai trazia vestido no momento em que morreu, pendurado 
numa cadeira da casa de jantar. O Rodney perguntou-me por que tinha querido guardar uma recordao to macabra.  Ela abanou a cabea.  Nunca mais tornei a ver 
a roupa que o meu pai tinha vestida desde o momento em que o colocaram na ambulncia. Tentei dizer isso ao Rodney, mas ele no acreditou em mim.
       Pretendia fazer-te pensar que estavas a perder o juzo.
         Eu pensei mesmo isso. Pouco tempo depois, voltei a ter ataques de sonambulismo e os incidentes apresentavam traos de violncia. No tinha a menor recordao 
deles, mas ao acordar encontrava a casa num caos. Almofadas rasgadas, quadros cortados e o lixo virado de pernas para o ar. Havia manchas de batom vermelho ou de 
ketchup nas paredes da casa de banho, que pareciam sangue, e a palavra Sarah aparecia escrita no meio daquilo tudo. Eu no usava batom, mas o Rodney insistia que 
devia ter comprado um e no me lembrava.
      Jake sentiu um aperto no corao ao detectar angustiosos laivos de dvida na voz de Molly.
       Deve ter sido assustador, pensares que tinhas feito coisas das quais no te conseguias lembrar.
        Se foi. O Rodney era to convincente. Viste-o hoje, viste o modo calmo e gentil que ele aparenta. Eu acreditei que estava a enlouquecer.
       Mas  bvio que no estavas. Isso era o que ele queria que tu acreditasses.
      Ela disse que sim com a cabea.
       Por fim, uma manh bem cedo, chamou a minha me, em pnico, depois de um incidente particularmente estranho.
        Num pnico bem encenado  corrigiu-a Jake.  No te deixes levar.
      Ela voltou a lanar-lhe um olhar agradecido.
       A Claudia  mdica de clnica geral com uma carreira bem-sucedida. Veio logo a correr. Ao ver a casa de pernas para o ar concluiu que eu estava a ter dificuldades 
em aceitar a morte do meu pai e voltara a sofrer de sonambulismo. Disse-me que devia procurar a ajuda de um bom psiclogo. O Rodney preferia esperar. Ele afirmou 
que no eram uns quantos ataques de sonambulismo que iam fazer de mim uma louca. Sugeriu que a Claudia me passasse uma receita de comprimidos para dormir, achando 
que se eu conseguisse dormir bem os problemas terminariam. Ela acabou por ceder e, embora eu pense que no estava de acordo, passou-me a receita. O Rodney aviou-a.
      Jake pressentiu o que viria a seguir.
        Os comprimidos fizeram-me mal. Senti-me horrorosamente tonta e desorientada durante o dia seguinte. O Rodney pediu  Claudia outra receita mais adequada 
para mim. No entanto, fiquei ainda mais tonta. Da a pouco tempo estava a dar-me medicamentos para tratar os sintomas causados pelos comprimidos. No conseguia mexer-me, 
nem pensar. Cheguei a um tal ponto que nem sequer conseguia ir  casa de banho sem cair.
       Oh, meu Deus! Estava a drogar-te com alguma coisa. Os olhos dela inundaram-se de lgrimas.
       Sim  disse Molly a tremer.  Acho que sim. Acho que a minha doena foi induzida pelos medicamentos para que parecesse que estava a ler um colapso nervoso. 
Durante todo esse tempo ele no parou de insistir para que eu assinasse uns papis. O meu pai havia-me aconselhado a nunca assinar nada sem ler primeiro. No segui 
essa regra durante o meu casamento com o Rodney porque ele me pedia frequentemente para assinar papis pessoais e eu estava, muitas vezes, demasiado ocupada para 
os ler. Mas os documentos que ele queria que eu assinasse quando estive doente podiam estar relacionados com a firma. Sentia-me responsvel por metade dos negcios 
da empresa, os quais representavam toda a vida de trabalho do meu pai, e recusei-me a assinar fosse o que fosse sem ler primeiro, o que tambm me causou problemas, 
porque a minha viso estava demasiado nublada para que eu conseguisse juntar as letras.
       Aposto que o Rodney ficou irritado com isso.
       Ele ficou furioso  disse ela, com o olhar vago.  Para que possas compreender o choque que eu tive nessa altura  necessrio que saibas como o Rodney era 
at a. Sei que pensas que era uma besta, mas ele nunca se mostrou como tal. Quando eu fazia alguma coisa que ele no gostava, nunca gritava, nem me agredia. Deixava 
simplesmente de me falar durante dias a fio, ou ento humilhava-me, muitas vezes em frente dos outros. Paguei sempre as minhas transgresses, mas no da forma que 
tu julgas.
       Por outras palavras, era um sacana mau e calculista. Ela riu-se nervosamente.
        Sim, e sabia dissimular muito bem. Fingia nunca pretender humilhar-me em pblico, nem magoar-me intencionalmente, Limitava-se a lazer uma afirmao  qual 
eu reagia com demasiada sensibilidade.  Ela encolheu os ombros.  Perdi a conta das vezes em que ele disse diante de outras pessoas coisas que me deixaram magoada. 
A seguir, batia com a mo na testa e pedia-me desculpa pelo que tinha dito. Parecia imprudente, mas no deliberadamente cruel, e os outros enterneciam-se pelo modo 
como ele me pedia perdo por ter dito o que no pretendia. No princpio, at eu acreditei. Infelizmente, isso no atenuava a ofensa e, com o correr dos anos, passou 
a magoar-me ainda mais, uma vez que sabia que ele tinha a inteno de me ferir.
       E o que  que ele te dizia, mida?  perguntou Jake suavemente. Fez-se silncio. Por fim, ela disse:
       Coisas estpidas. Isso no interessa agora. Jake achou que interessava e muito.
       Podias dar-me, pelo menos, um exemplo?
      De novo silncio. A seguir, Molly sacudiu a mo para acentuar a insignificncia do assunto e disse:
       Coisas do gnero, Meu Deus, onde  que foste arranjar esse vestido? Pareces uma vaca gorda com ele. Depois, fazia teatro, batia com a mo na testa e dava-me 
dinheiro para ir s compras, cobrindo-me de elogios para me lisonjear.
      Jake cerrou os dentes. Necessitava de dizer qualquer coisa, mas no lhe ocorria absolutamente nada. Acabou por ficar calado. No era de palvras que Molly precisava, 
pelo menos da parte dele. Os seus actos eram para ela mais eloquentes do que as palavras.
        Seja como for  prosseguiu Molly , isso so guas passadas. O que eu pretendo dizer  que o Rodney utiliza uma mscara durante a maior parte do tempo e 
apenas se revela nos momentos em que quer atingir os seus propsitos. Depois, tem uma grande habilidade para se desculpar e reconquistar as pessoas. O meu pai, que 
sempre foi bom para valiar caracteres, nunca gostou muito do Rodney, mas penso que foi s para o fim que descobriu quem ele realmente era. Eu, ento, nunca dei por 
nada, pelo menos no princpio. Por exemplo, nos primeiros tempos de casada no desconfiava que ele me fosse infiel. Passava muito tempo fora, mas dava-me sempre 
uma explicao e eu no tinha qualquer motivo para pensar que me estava a mentir.
       Ia ser rico graas a ti. Se te enganasse descaradamente, eras capaz de te divorciares, para j no falar do que o teu pai lhe poderia fazer. O Rodney pode 
ser uma cobra, mas  uma cobra matreira.
       Bem  disse ela, sacudindo outra vez a mo , uma noite, quando me recusei a assinar os documentos, a mscara caiu-lhe por completo e vi o verdadeiro Rodney 
em todo seu terrvel esplendor. Foi horroroso, Jake. Mesmo to drogada como estava, o choque abalou-me muito. Olhei-o nos olhos e vi um estranho. Sei que pareo 
muito teatral, mas foi exactamente o que sucedeu. Era o rosto do Rodney, mas o homem que o usava era um monstro. Tive a sensao de que ele me ia partir ao meio 
com as suas prprias mos e, nesse momento, pensei mesmo que o fosse. Mas, o pior de tudo, era estar to tonta e doente que via trs punhos em vez de um, no sabendo 
qual deles ia atingir o meu rosto.
       Oh, querida!
      Jake teve de novo vontade de encostar o carro  berma da estrada, desta vez porque tinha um grande desejo de a abraar. Rodney Wells era um homem bastante 
grande, e Molly, apesar de todas as suas amplas curvas, uma mulher frgil. 
       Devia ter-se sentido aterrorizada.
       Ele intimidou-me naquela noite. Mas depois de ter perdido o meu pai da forma como o perdi, no podia trair tudo o que ele me tinha ensinado.
      Jake sorriu ligeiramente, sem se surpreender demasiado com o que ouvia. Conhecia Molly o suficiente para saber que ela no abdicava das suas convices fosse 
qual fosse o preo que tivesse de pagar por isso.
       Recusei-me a assinar os papis. Na manh seguinte, acordei na clnica. Estava amarrada  cama. No sabia onde me encontrava, nem como tinha ido l parar. 
A minha primeira reaco foi gritar, a pedir socorro.
        natural.
       O pessoal assistente no foi da mesma opinio. Todos acharam que eu era doida varrida. Foi mesmo horrvel, Jake.  A voz dela tornou-se um murmrio.  Era 
a primeira vez que conseguia pensar com clareza. Ao fim de vrias semanas e eles enchiam-me de sedativos para me acalmar.
       Pelo menos tiveste alguns minutos de lucidez. O Rodney no estava por perto para te enfiar comprimidos pela garganta abaixo.
      Ela fez um sorriso triste e suspirou.
        to bom poder contar tudo isto a algum.
       E descobrir que a tua anlise da situao no era assim to louca.
        Sim  admitiu ela.  Ao acordar na clnica no comecei logo a somar dois e dois, mas aps alguns momentos de lucidez, foi o que eu fiz. No incio no cumpria 
as regras do hospital. Estava muito furiosa, sabes. O meu pai tinha morrido e, a mim, haviam-me internado num hospcio sem estar doida. Tentei contar o meu caso 
a algum para que me pudesse ajudar, mas isso apenas serviu para que me achassem ainda mais louca, com uma histria muito estapafrdia.
       Ao menos, foram gentis para contigo na clnica?
       S mais tarde. Tive um mdico fabuloso, chamado Sam Banks. No princpio achou que eu era um caso perdido, mas ao fim de algum tempo comeou a acreditar na 
minha verso dos factos. A partir desse momento, tornou-se o meu defensor. Pediu ao tribunal que me fosse concedido o divrcio e no permitia que o Rodney me visitasse 
sem ele estar presente. O Rodney detestava-o e continua a no o poder ver.
       Estou a gostar desse Sam Banks.
       Eu gosto muito  disse ela.  Com a sua ajuda, recordei pormenores que havia bloqueado ou esquecido e consegui localizar o momento exacto em que tudo comeou, 
ou seja, o dia em que fui investigar o escritrio do meu pai. A partir da, o Rodney iniciou uma campanha para me fazer passar por louca. Penso que enfiou sub-repticiamente 
os comprimidos que me debilitavam nas caixas dos medicamentos que a Claudia me receitou, para o caso de eu ler os folhetos. No sei se os conseguiu obter sozinho 
no mercado negro ou se ela o ajudou, mas estou convencida de que aquilo que me deu me fez um mal horrvel.
       Achas mesmo que a Claudia est implicada?
       Ela ajudou o Rodney a ver-se livre de mim e meteu-se na cama do Jared pouco depois da morte do meu pai, portanto, no posso excluir essa possibilidade. Suspeito 
de todos, talvez queiram a minha quota na firma. Est muito dinheiro em jogo e as pessoas so capazes de fazer coisas abominveis por ganncia.
      No momento em que conheceu Molly, Jake teve a impresso de que ela se sentia muito s e perdida e agora compreendia porqu. A prpria mulher a quem ela chamava 
me podia t-la trado da forma mais abjecta.
       Que tipo de mulher  a Claudia?
       Sempre a achei extraordinria. A minha me morreu de cancro nos ovrios quando eu tinha cinco anos, depois de ter estado muito tempo doente. Pouco depois 
do seu falecimento, o meu pai conheceu a Claudia e apaixonou-se por ela. A Claudia no podia ter filhos e adoptou-me, tendo-me tratado sempre como se fosse a sua 
prpria filha.  A voz de Molly tremeu ao acrescentar:  Ter-lhe-ia confiado a minha vida, Jake, e nunca pus em causa o seu amor pelo meu pai. Estava convencida 
de que ela o adorava.
      Jake no suportava o tom fraco e torturado da voz da sua mulher.
       Talvez o adorasse, Molly. Se tu e o teu pai foram enganados pelo Rodney,  possvel que ele tambm a tenha enganado a ela. No a podemos condenar sem ter 
a certeza do que se passou.
      Molly lanou-lhe um olhar meigo, embora as lgrimas lhe brilhassem nos olhos.
       O Sam iria dizer exactamente isso. E o meu pai tambm. s vezes fazes-me lembrar tanto ele.
       O Sam ou o teu pai?
      Uma chama iluminou os olhos de Molly.
       O meu pai.
      Jake achou que esse era o maior dos elogios.
       Obrigado  disse ele, com voz rouca. Ao olhar para o conta-quilmetros, reparou que tinha reduzido bastante a velocidade enquanto a ouvia contar a sua histria 
e carregou um pouco no acelerador.  Talvez no meio do seu desgosto a Claudia se tenha voltado para o Jared. Pelo que me disseste, ela considerava-o um grande amigo. 
Por vezes, nos momentos de maior sofrimento necessitamos de algum que nos console, e  possvel que o Jared a tenha escutado de um modo que mais ningum fez, porque 
ele tambm gostava do teu pai.
       Quem me dera acreditar nisso  disse Molly debilmente.  Quem me dera mesmo, mas ela nunca me veio visitar, Jake. Exceptuando aquela vez em que o Rodney 
lhe telefonou para vir a minha casa, nunca quis saber de mim durante todo o tempo em que estive doente. A nica vez que ps os ps na clnica, pouco antes de me 
darem alta, foi para me informar que se ia casar com o Jared.
      Jake sentiu a dor dela como se tivesse uma faca espetada nas suas entranhas.
       Isso no significa que ela no amasse o teu pai ou que esteja metida na tramia.  muito possvel que o Rodney tenha agido sozinho e tenha dito ou feito 
qualquer coisa para a manter afastada.
      Sem tirar os olhos da estrada, Jake inclinou-se para abrir o porta-luvas onde guardava um rolo de papel higinico.
       A minha verso de lenos de papel  disse ele. Ela fungou e tirou um bocado de papel para se assoar.
       A Claudia contou-me que o Rodney lhe tinha dito que eu estava furiosa com o que se passava entre ela e o Jared e no a queria ver. Dada a gravidade da minha 
doena, no me quis irritar e por isso fez-lhe a vontade. S me foi visitar naquele dia porque achava que eu tinha o direito de ouvir da boca dela a notcia do seu 
casamento.
       Parece plausvel. Contaste-lhe as tuas suspeitas sobre o Rodney? Molly abanou a cabea.
       Tinha lutado tanto para ter alta. Tive receio de lhe dizer qualquer coisa que fizesse com que ela e o Rodney me metessem noutra clnica, afastando-me do 
Sam. No sabia se podia confiar nela.
       No entanto, era a nica oportunidade que tiveste para contar a tua histria a algum que pudesse acreditar em ti fora do hospital, e no o fizeste por medo.
       Sim.
       Voltaste a v-la depois disso? Sem ser hoje, quero eu dizer.
       Logo aps ter sado da clnica, mas ainda estava sob vigilncia. O Sam aconselhou-me a no fazer ou dizer nada que pudesse pr em perigo a minha posio, 
porque eles podiam passar por cima dele e internar-me noutro lado.  Ela lanou-lhe um olhar preocupado.  Isso ainda pode acontecer. Roubar um cavalo vai parecer 
totalmente irracional aos olhos de um juiz.
      At quele momento, Jake no tinha compreendido o risco que ela havia corrido para salvar o pobre cavalo. Arriscara a sua liberdade, os seus sonhos, tudo.
       Bem  prosseguiu Molly , tive medo de dizer fosse o que fosse  Claudia. Se ela estivesse metida na tramia e eu me pusesse a acusar o Rodney de ter assassinado 
o meu pai, eles iam alegar que eu estava delirando.
        Por que  que a viste depois de sares da clnica?  perguntou Jake, esperando que ela no pensasse que ele lhe estava a fazer um interrogatrio.
       Ela soube do meu divrcio pelo Jared, e como eu no tinha para onde ir ao sair da clnica, encarregou-se de me arranjar um apartamento, tendo ainda conseguido 
atravs do pai do Rodney que eu recuperasse o meu todo-o-terreno para me poder movimentar. Quanto ao meu ex-marido, excepto as vezes em que apareceu no apartamento 
para que eu assinasse os tais papis, nunca mais lhe pus a vista em cima depois de me terem dado alta.
      Jake juntou as sobrancelhas, pensativo. A histria dos papis preocupava-o. Tinha o mau pressentimento de que a marosca era maior do que Molly imaginava. Se 
Wells era o seu tutor, por que precisaria da assinatura dela? No fazia sentido.
      Retomando a conversa, afirmou:
       Parece-me que a Claudia fez tudo o que podia, excepto abdicar da sua relao com o Jared, para que a sua menina estivesse bem cuidada. Em relao ao seu 
romance, no podes condenar que duas almas com o corao partido acabem a chorar nos braos uma da outra.
       No  sussurrou Molly , e se foi apenas isso o que sucedeu, que Deus me perdoe por ter sido to fria com ela esta manh.
      Jake sentiu um aperto na garganta.
        No te recrimines. Passaste por momentos horrveis. Tudo o que disseste ou fizeste  completamente compreensvel, e se a Claudia for a mulher que me pareceu 
ser, vai concordar comigo quando souber o que se passou.
       Simpatizaste com ela, no foi?
      Ele reflectiu antes de responder. Jake tinha visto uma dor muito profunda nos olhos de Claudia.
       Ela estava terrivelmente perturbada. Custa-me a acreditar que fosse tudo encenao.
      Molly suspirou e comeou a mexer nervosamente no papel higinico com os dedos.
        Eu gosto muito dela. Se estiver inocente terei o maior prazer em retomar a nossa relao. E tambm sempre gostei do tio Jared.  um homem amvel  os olhos 
dela voltaram a escurecer , pelo menos foi o que eu sempre pensei.
      Jake manteve-se calado durante algum tempo, pensando em tudo o que ela lhe havia dito e, a seguir, perguntou:
       Bem, agora j estou a par de todos os factos, no  verdade?
      Pela forma como Molly evitou o seu olhar, Jake percebeu que ela tinha omitido os pormenores mais dolorosos do seu casamento. Era compreensvel que lhe custasse 
falar de um assunto to pessoal.
       Ests a par de tudo o que  importante  respondeu ela.
        Carregas uma enorme quantidade de problemas s tuas costas, mida.
      Molly concordou com a cabea.
        verdade. Se quiseres anular o casamento e lavar as tuas mos de tudo isto, no te censuro. No foste tu quem criou este sarilho e, portanto, no tens qualquer 
obrigao de o solucionar.
        No estou de acordo. No momento em que me apaixonei por ti, Molly, tudo o que te diz respeito  tambm um problema meu.
        isso o que eu sou, um grande problema.
      Ele fez um esgar de dor.
       No quis dizer isso.
       Eu sei que no quiseste, mas  a verdade. S te causei problemas e se o Rodney conseguir o que pretende, eles no vo acabar to cedo.
       Eu aceito-te com problemas e tudo.
      
      Assim que chegaram ao rancho, Molly pensou que tinha de fazer o jantar, mas quando estavam a estacionar  frente da casa, reparou que havia quatro jeeps desconhecidos 
parados  beira do ptio. Jake deu-lhes uma olhadela e praguejou baixinho.
       De quem so?  perguntou Molly.  Famlia  murmurou ele.
      Ela sentiu um aperto no estmago:
       O que  que eles vieram c fazer?
       O Hank deve t-los chamado.  Os olhos dele brilhavam sob a luz do alpendre.  Peo-te desculpa. Acho que no deves estar com disposio para uma grande 
festa.
      Molly levou a mo ao cabelo e olhou para a roupa que trazia vestida, toda amachucada por causa da viagem.
       No estou apresentvel. Ele sorriu de orelha a orelha.
       Ests melhor do que eu. Ela olhou para a casa.
       Esto c os teus pais?
      Jake esticou a mo e tocou-lhe no ombro:
       No fujas de mim. A minha me e o meu pai so as melhores pessoas do mundo.
      Molly interpretou a resposta como um sim e engoliu em seco. Naquele momento no queria saber se os pais dele eram simpticos ou no. No estava pura e simplesmente 
preparada para os conhecer. Era impossvel que estivessem satisfeitos com a deciso repentina do filho mais velho de se casar que, ainda por cima, tinha desaparecido 
sem comunicar nada a ningum. A nica coisa que faltava para aquele dia horrvel terminar em beleza era uma discrdia familiar.
      Jake saltou da camioneta e contornou-a para abrir a porta a Molly. Enquanto a ajudava a descer do veculo, sussurrou-lhe:
       Querida, parece que engoliste uma cesta inteira de sapos vivos. No estejas nervosa.
       Eles no vo gostar de mim.
       Tens razo. Eles vo adorar-te.  Ele ps-lhe o seu forte brao  volta das costas.  Descontrai-te e s tu mesma. Metes o meu pai no bolso em dois segundos.
      Molly desejou poder acreditar nisso.
       Vo zangar-se connosco por termos fugido para Reno? Ele suspirou.
       Talvez, mas, dadas as circunstncias, tenho a certeza de que sero compreensivos.
       Vais contar-lhes? Sobre o Rodney e a clnica, quero eu dizer? Jake comeou a subir as escadas, mantendo-a bem junto a ele. O seu brao reconfortava-a, por 
um lado, mas era uma barreira intransponvel, por outro. A firmeza com que ele a agarrava era para Molly uma mensagem silenciosa. Dizia-lhe que, por mais que quisesse, 
no tinha como fugir quela provao.
       O Hank j lhes deve ter contado  respondeu ele.  Os irmos Kendrick tambm vieram. Tenho a impresso de que ele foi buscar reforos de envergadura para 
o caso de eu precisar de ajuda para lidar com o Rodney ou com a justia.
      Molly encolheu-se, sentindo-se to envergonhada que tudo quanto queria era desaparecer.
       Isso significa que estiveram a lavar a minha roupa suja em pblico.
       No tens culpa nenhuma  recordou-lhe ele.  No tens a menor razo para te sentires envergonhada, Molly.  Ao chegarem ao alpendre, Jake parou para a olhar 
nos olhos.  Mantm a cabea bem erguida e os ombros levantados. Eu vou estar sempre ao teu lado.
      Ouvi-lo dizer aquelas palavras, fez aumentar inexplicavelmente a confiana de Molly. Lembrou-se da postura que ele havia adoptado ao lado dela durante a manh, 
com as pernas afastadas e o seu poderoso corpo pronto para a luta. Jake Coulter era um homem com quem se podia contar em qualquer circunstncia. Tinha a sensao 
de que ele era capaz de se opor  sua prpria famlia para a defender, o que lhe provocava emoes muito dolorosas sobre as quais ela no se podia, nem queria, debruar.
      Quando entraram em casa, sentiram o cheiro de comida a ser cozinhada e ouviram o rudo de vozes. Molly esperava encontrar o grande salo cheio de gente, mas 
para sua surpresa, o barulho provinha da sala ao lado. Jake encaminhou-a directamente para a entrada da cozinha e, a seguir, recuou um passo, para a deixar entrar 
primeiro. Nesse momento, veio-lhe um pensamento horrvel  cabea: ele tinha recuado para que ela levasse o primeiro tiro.
      A cozinha estava repleta de gente. A primeira coisa que Molly viu foi trs mulheres de cabelo escuro. Uma rapariga morena estava numa cadeira de rodas com 
um beb recm-nascido ao colo, uma senhora mais velha, baixa e rechonchuda, mexia qualquer coisa no fogo e uma outra mulher encontrava-se perto do frigorfico, 
junto a um cowboy  alto, de cabelo negro, que vestia umas calvas de ganga perfeitamente vincadas e uma camisa western branca.
      Embora fosse bastante grande a curiosidade que as mulheres despertavam em Molly, quem lhe chamou a ateno foram os homens. Aos seus olhos perscrutadores todos 
pareciam sados do mesmo molde. Altos, magros e morenos, eram todos eles magnficos exemplares do gnero masculino, mas o que mais a impressionou foi a forte semelhana 
que tinham uns com os outros. Se s dois deles eram Kendricks, como lhe havia dito Jake, por que seriam todos to parecidos? Seria alguma coisa que havia na gua 
de Crystal Falis?
      Hank e os sete estranhos viraram-se ao mesmo tempo para Molly, assim que a viram. A seguir, como se tivessem recebido uma ordem, todos se dirigiram para ela, 
gritando:
       Parabns!
      Molly ficou to espantada com os gritos de alegria, que andou para trs, indo bater em Jake, que a segurou pela cintura com o seu forte brao.
       Tio Jake!
      Molly olhou para baixo e viu um minsculo cowboy a correr em direco a eles. Tinha um chapu de cowboy negro maior do que ele sobre a sua cabeleira morena 
e era o rapazinho mais amoroso que ela alguma vez tinha visto. O mido passou por Molly com os olhos a danarem de alegria e agarrou-se a uma perna de Jake.
       Pega-me!  gritou ele.
      Jake deu um pequeno belisco a Molly, para a tranquilizar, e depois soltou-a para agarrar no mido.
       Quem s tu, rapaz? Mas o que  que vem a ser isto? Saio durante algum tempo e quando volto tenho a minha casa invadida por cowboys desconhecidos.
      A criana agarrou-se s orelhas de Jake, quase lhe deitando o chapu abaixo.
       Sou o Jaimie. Tu conheces-me.
      Jake franziu os olhos, fingindo que estava a examinar o rapaz.
       Jaimie? No, no pode ser. Ele  mais pequeno.
       Eu cresci!
      Jake esboou um grande sorriso.
        verdade,  o Jaimie. Que comida  que a tua me te d para te fazer crescer tanto? Ela precisa de te pr um travo. Ests a ficar cada vez maior.
      A mulher mais idosa, que estava ao fogo, deu um passo em frente. Molly viu fugazmente uns olhos azuis amigveis, um sorriso radiante c um rosto doce e gentil.
        Deves ser a Molly  disse ela, e sem qualquer hesitao, envolveu-a nos seus braos rolios.  A tua mulher  encantadora, Jake. Bem, acho que te vou perdoar 
por teres fugido para Reno para casares com ela. A Molly  demasiado bonita para que pudesses pensar duas vezes.
      Jake, que continuava com a criana ao colo, aproximou-se dela, oferecendo-lhe o seu apoio silencioso.
        Com a Molly no h qualquer possibilidade de mudar de ideias, me. Eu encontrei finalmente a mulher que me prendeu. Quanto  fuga para Reno, tenho a certeza 
que o Hank te explicou que no tnhamos outra alternativa.  Inclinou-se para fazer um sorriso a Molly.  Querida, esta  a Mary, a minha me.  incuravelmente afectuosa, 
abraando e tratando todas as pessoas como se fossem velhos conhecidos. Tenho a certeza de que te vais habituar a ela.
      Mary fez um gesto com a mo para o sacudir.
        Vai-te embora. Se no posso abraar a minha nova filha, quem  que posso abraar, ento?
      Molly achou a me de Jake maravilhosa e o seu inesperado abrao tranquilizador, ficando com a impresso de que tinha uma amiga entre os Coulter.
       Tenho muito gosto em a conhecer, Mary.
        Chama-me me  emendou-a Mary.  Tive seis crianas, mas s uma filha, e j tinha perdido a esperana de que algum dos meus filhos trouxesse outra para 
casa. Hoje  um dos dias mais felizes da minha vida.
      Nesse momento aproximou-se deles um homem mais velho de cabelo escuro. Os traos familiares eram to evidentes que Molly compreendeu imediatamente que se tratava 
do pai de Jake. Exceptuando os cabelos cor de prata nas fontes e as rugas que a vida tinha gravado na sua cara bronzeada, a semelhana dele com Hank e o seu marido 
era espantosa.
      Empurrando suavemente a mulher para o lado, o homem puxou Molly pelas mos para a afastar de Jake e, a seguir, soltou-a, comeando a examin-la lentamente 
com os seus perturbadores olhos azuis. Quando ele deu uma volta em seu redor, Molly sentiu-se um pouco como se fosse uma gua num leilo, mas no momento em que o 
sogro se voltou a colocar diante dela, lhe pegou no queixo e lhe virou a cara para um lado e, depois, para o outro, chegou a pensar que ele ia abrir a boca dela 
para lhe investigar os dentes.
      O olhar do homem tornou-se caloroso ao fazer um sorriso a Jake:
       Falta-lhe um pouco de altura, filho.
      Mary endireitou os ombros e informou o seu grande e corpulento marido:
        to alta como eu.
      Os olhos do pai de Jake brilhavam de alegria.
       Foi o que eu disse, filho, falta-lhe um pouco de altura.
      Mary deu uma cotovelada no estmago do marido, fazendo-o agarrar-se  barriga. Ele soprava e ria-se ao mesmo tempo que a mulher o recriminava:
       Cala-te, Harv. A pobre da rapariga vai pensar que tu no gostaste dela.
      Harv fingiu-se consternado.
        Bem, isso  impossvel  sorriu para Molly.  Eu gostei indiscutivelmente dela.
      Jake colocou Jaimie no cho e, no instante seguinte, Molly sentiu as suas grandes mos pousarem-se-lhe gentilmente nos ombros.
       Achei que ias gostar dela, pai  disse Jake e, a seguir, dirigiu-se a Molly:  J agora, este  o meu pai. O que lhe falta em maneiras sobra-lhe em lealdade.
       J sabes a quem saste, Jake!  disse Hank a rir-se.  Foi ao pai. Harv sorriu para Molly.
       Bem-vinda  nossa famlia, mida.
      Depois, seguiu o exemplo da mulher e envolveu-a fortemente nos braos, apertando-lhe as costas de tal forma que Molly quase ia ficando sem respirao.
      Quando se libertou do abrao de Harv Coulter, o homem alto de cabelo escuro que estava junto  rapariga morena em cadeira de rodas disse-lhe:
       Foge enquanto ainda  tempo, Molly. Nesta famlia so todos loucos. E, o pior de tudo,  que isso  contagioso e, daqui a nada, comeas a pensar que so 
normais.
      A mulher na cadeira de rodas deu um murro na coxa do homem. Molly percebeu imediatamente que era a irm de Jake. Os seus traos eram finos, mas tinham a marca 
dos Coulter, os olhos dela eram uma exploso de azul e o pequeno queixo, onde se via uma covinha diminuta, formava uma delicada linha quadrada.
        Ns no somos loucos, apenas... excntricos.  Ela puxou a cadeira para a frente e, como tinha o beb aconchegado num dos braos, estendeu apenas uma das 
suas mos a Molly, que a apertou com delicadeza.
        Desculpa-nos, Molly. Eles j comearam a abrir as garrafas de champanhe, esquecendo-se das boas maneiras. Eu sou a Bethany, a irm do Jake  disse ela, 
e dando uma pancadinha com a mo no seu beb, acrescentou:  E este  o teu novo sobrinho, o Sly. Sylvester, apresento-te a tua tia Molly.
      Esta, que ainda no havia assimilado muito bem o facto de se ter casado, ficou espantada ao ouvir Bethany referir-se a ela como tia daquela criana. No entanto, 
teve a presena de esprito de dizer:
       Ele  um amor  e inclinou-se para ver melhor o beb.  Que menino to bonito.
       Nasceu prematuro e ainda  um pouco pequeno, mas o mdico diz que vai recuperar depressa. A julgar pelo seu apetite, acredito que sim.
        Bethany lanou um olhar trocista ao homem de cabelo escuro que estava junto dela.  Este maldizente  o pai da criana. Apresento-te o meu marido, Ryan 
Kendrick. Aconselho-te a no acreditares numa nica palavra do que ele diz. Adora falar mal da minha famlia.
      Ryan riu-se e estendeu-lhe a sua mo calejada pelo trabalho. Molly apertou-lha com um sorriso, mas sem saber como, viu-se diante de outro homem alto e de cabelo 
escuro que lhe deu um segundo abrao de cortar a respirao.
       Sou o Zeke, um dos irmos do Jake, o mais velho a seguir a ele.
        Ol  disse Molly, examinando os seus olhos azul-cobalto e as suas feies cinzeladas, que tinham a marca dos Coulters.  Tenho muito gosto em te conhecer.
      Depois de a ter abraado, Zeke, em vez de a soltar, ps-lhe a mo  volta da cintura e puxou-a para o local onde se encontrava a terceira mulher e o cowboy 
de cabelos negros e camisa westem branca. Mesmo antes de ser apresentada, Molly j sabia que se tratava do irmo de Ryan Kendrick. Ao observ-lo de perto, achou 
que os dois podiam ser gmeos.
        Quero que conheas o Rafe e a Maggie Kendrick  disse Zeke.
       O Rafe  o irmo mais velho do Ryan. Ele e a Maggie apareceram de surpresa na nossa festa.
      Maggie riu-se e esbugalhou os seus deslumbrantes olhos castanhos.
       No acredites nele, Molly. Fazemos parte da famlia e no necessitamos de ser convidados.
      Retirando a mo da cintura de Molly, Zeke lanou uma olhadela por cima da cabea desta a Jake, que estava mesmo atrs deles.
        Estou a fazer as vezes de empregado de mesa. Tu e a tua noiva querem champanhe?
      Jake olhou para Molly com ar inquiridor e, a seguir, abanou a cabea.
       Obrigado na mesma, Zeke. Bebemos daqui a bocado.
      Maggie deu um abrao rpido a Molly e um beijinho na face de Jake.
       Parabns, cowboy. J no era sem tempo que algum te deitasse o lao e te pusesse com rdea curta.
       Chhh  disse Jake a brincar.  Ela pensa que foi ao contrrio. Maggie esboou um sorriso malicioso, abrindo-se-lhe covinhas na face, e pegou no brao de 
Molly.
       No vai ser por muito tempo. A Bethany e eu vamos esclarecer isso com ela imediatamente.  Olhando para Molly, acrescentou:  Sou a me do Jaimie, o rapazinho 
do chapu grande.  Fez um gesto com a mo, indicando a altura dele.  Quis vir a casa do tio Jake. A minha irm Heidi ficou a tomar conta da minha filha, a Amlia.
       A tua filha, o teu filho?  interrompeu-a Rafe, num tom provocadoramente reprovador ao mesmo tempo que piscava um olho a Molly,
       Eles tambm so meus filhos. Na boca da Maggie eu no passo de um cabea no ar.
       Que grande erro, tens sempre um chapu de cowboy em cima dela  observou Maggie.
      Tocando na aba negra do referido chapu, Rafe deitou um sorriso malicioso e sexy  mulher.
       Nem sempre. Existe uma senhora muito especial para a qual tiro o chapu em certas ocasies.
      As faces de Maggie tornaram-se rubras. Molly levou algum tempo para compreender o que Rafe queria dizer, mas depois as suas faces ficaram to vermelhas como 
as da outra mulher.
      Jake veio salv-la.
       No te preocupes, Molly, a me do Rafe ensinou-lhe boas maneiras, mas estas no querem nada com ele.
      Rafe ps um brao por cima dos ombros de Maggie e puxou-a para junto dele.
       Volta para aqui, mida. Preciso de um stio onde me encostar.
      O stio onde ele se ia encostar deu-lhe uma forte cotovelada no estmago e Rafe dobrou-se, fingindo estar com dificuldade para respirar, ao mesmo tempo que 
aproveitava a ocasio para mordiscar o pescoo de Maggie. Esta deu um salto e gritou.
       Rafe Kendrick, no sejas mau.
       Eu sou sempre bom. E, s vezes, at excelente.
       Sou eu quem vai conduzir esta noite?  perguntou Maggie.
       Provavelmente.  Rafe foi buscar a garrafa de champanhe que tinha colocado em cima do frigorfico.  Esta coisa d um coice to grande como uma mula.
       S vai no segundo copo  disse Maggie, olhando para Molly com ar compungido.  Ele raramente bebe. Teve um problema com a bebida h uns anos e...
        No tive nenhum problema  protestou Rafe.  S se tem um problema quando se quer deixar de beber e no se consegue.  Riu-se ligeiramente.  Eu nunca quis 
deixar de beber  Rafe quase entornou o copo ao inclinar-se para acariciar com o nariz uma orelha de Maggie.  Quero dizer, nunca quis deixar de beber at te conhecer. 
Depois, jurei que nunca mais o faria.
       Talvez seja melhor lev-lo para casa?  perguntou Maggie a Jake, erguendo as sobrancelhas.  O que  que achas? Receio que esteja um pouco entornado.
       Pap, o que  entornado?
      Toda a gente se virou e viu Jaimie a puxar uma perna dos jeans do pai. Nesse preciso instante, Rafe ficou sbrio. Com um cuidado exagerado, voltou a colocar 
o champanhe em cima do frigorfico, pousando o copo com um tinido que revelava a sua determinao. A seguir, agachou-se para envolver o filho num dos braos, franziu 
as sobrancelhas com ar pensativo e disse:
       Bem, entornado  o particpio passado do verbo entornar  despenteou o rapaz e puxou-o para si.  A tua me estava a dizer-me que j passei a fase do particpio 
passado.
      Jaimie trepou para o joelho de Rafe e sorriu feliz para Jake.
       Eu ainda no cresci tudo, por isso o meu pai pode continuar a dar-me abraos.
       O que  que ests para a a dizer? Se eu ainda te posso abraar?  Rafe envolveu o filho nos braos e apertou-o fortemente.  Eu vou abraar-te sempre, grandalho.
       Mesmo quando eu for enorme e grande?
       Mesmo nessa altura.
      Hank disse que tinha chegado o momento de brindar pelos noivos. Abriu outra garrafa de champanhe com gesto teatral e comeou a encher as delicadas flutes de 
cristal, que tinham sido oferecidas a Jake quando foi inaugurada a casa.
       Visto que sou o padrinho e no pude assistir  cerimnia, cabe-me a honra de ser o primeiro a felicitar-vos.
      As palavras de Hank foram seguidas de uma srie de calorosos brindes, alguns humorsticos e outros comovedores. Molly reparou que Rafe Kendrick mal levava 
a sua flute aos lbios a cada brinde. E, no instante em que a apanhou a olhar para ele, piscou-lhe o olho. A mensagem era clara. Tencionava no ultrapassar o particpio 
passado durante o resto da noite.
      Ao ver Rafe e Maggie juntos, Molly sentiu uma pontinha de inveja. Tinham claramente um bom casamento. Jaimie e Amanda eram crianas muito felizes.
      Aps os brindes, todos se reuniram  volta dos noivos para conversarem. Molly sentiu-se no mnimo intimidada, sem saber muito bem como se devia relacionar 
com um grupo to grande e exuberante. Jake, apercebendo-se do seu mal-estar, ps-lhe um brao por cima, encaminhando-a por entre os presentes, com os quais iam trocando 
algumas palavras, ao mesmo tempo que todos bebericavam champanhe, excepto Rafe e Bethany, que ainda estava a amamentar.
      Quando o jantar foi finalmente servido, Molly comoveu-se ao ver que os pratos eram vegetarianos, uma ateno que devia a Hank e aos empregados do rancho, que 
haviam informado Mary Coulter de que a mulher de Jake raramente comia carne.
      O ambiente jocoso que reinou durante toda a refeio ajudou-a a descontrair-se. Ao ver que ela se sentia melhor, Jake pediu-lhe licena pura ir buscar o seu 
novo sobrinho. Molly reparou na expresso terna do rosto dele no momento em que pegou no beb que a irm tinha nos braos. Ao contrrio da maioria dos homens, parecia 
completamente  vontade com uma criana ao colo. Quando o menino tentou mamar no boto do bolso da sua camisa, que se encontrava precisamente sobre o peito de Jake, 
este sorriu e ofereceu-lhe o n de um dos seus dedos como alternativa.
      Molly comeou a desinteressar-se da conversa que se desenrolava  sua volta para observar o seu novo marido com o beb nos braos. Jake tinha tirado o chapu, 
o seu cabelo negro caa-lhe em ondas desordenadas sobre a testa quando se inclinou para beijar o sobrinho na fonte. Havia tanto amor naquele gesto e tambm um indisfarvel 
desejo. Ela lembrou-se da manh em que ele lhe tinha dito que pretendia formar uma famlia. Nessa altura no havia acreditado nele, mas depois de o ter visto com 
Jaimie, e agora com o beb, compreendeu que era verdade.
      Jake Coulter estava desejoso de ter um filho.
      Na garganta de Molly formou-se um n. Sonhos desfeitos. Tambm ela sempre desejara ter filhos, mas aps os seus dez anos de casamento com Rodney, tinha chegado 
 concluso de que isso era totalmente impossvel. No entanto, ao observar Jake, surgiu nela uma rstia de esperana.
      Seria possvel? Ele dizia que estava apaixonado por ela. Por mais inverosmil que isso lhe parecesse, depois de Jake lhe ter proposto vender os cavalos para 
contratar um advogado, Molly convenceu-se de que deveria ser verdade. Poderia ela acalentar alguma esperana de que este casamento tivesse futuro? Nesse caso, seria 
absolutamente natural que os dois formassem uma famlia.
      S de pensar nisso, sentiu-se tonta, o que a levou a pr a ideia totalmente de parte. J tinha passado por aquela situao antes e acabara com o corao despedaado. 
Receava expor-se outra vez quele sofrimento. Jake Coulter era um homem extremamente atraente e encantador, e podia escolher a mulher que quisesse. Neste momento, 
estava convencido de que ela era essa mulher, mas Molly achava que ele ia mudar de opinio bem depressa. Ela era demasiado gorducha e desengraada para o conseguir 
prender durante muito tempo e, se criasse iluses a esse respeito, iria ter um desgosto de morte quando ele comeasse a ser-lhe infiel.
      Apesar deste pensamento, deu consigo a sorrir e a rir-se com maior frequncia do que durante o jantar, que havia sido servido em estilo buffet para que as 
pessoas pudessem comer onde desejassem. Molly foi-se sentar no grande salo juntamente com as outras mulheres. Perto do fim da refeio, notou que todas elas tinham 
um ponto em comum. Sempre que falavam dos maridos, os seus olhos brilhavam. No pde deixar de sentir alguma inveja. Como seria a sensao de amar to profundamente 
e ser amado com a mesma intensidade? Molly no fazia a menor ideia.
      Ao sentir-se deslocada, procurou Jake com os olhos e viu-o a conversar com Rafe Kendrick junto s escadas. Estava encostado ao corrimo com a cabea inclinada 
e ainda tinha o beb nos braos. Como se houvesse sentido os olhos de Molly sobre ele, Jake levantou a cabea e os olhares de ambos cruzaram-se. Um pequeno sorriso 
aflorou-lhe aos lbios, murmurou qualquer coisa a Rafe e atravessou rapidamente a sala com aquele seu modo de andar pachorrento. Devolveu a criana  me, pegou 
no prato vazio que Molly tinha sobre as pernas e pousou-o na mesa do caf.
        Temos de ir buscar algumas das tuas coisas  casa de madeira  disse ele suavemente.
      Molly ainda no havia pensado nisso, mas era evidente que Jake tinha razo. Se ela ia passar a noite na casa principal, precisava dos seus artigos de higiene 
pessoal, uma muda de roupa e qualquer coisa para vestir durante a noite. Sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias nesse momento, uma vez que apenas costumava dormir 
com uma T-shirt muito grande e um par de meias.
       No me posso ir embora e deixar a cozinha suja  protestou ela.
       A noiva no lava a loua na sua noite de npcias  ouviu Mary dizer.  Vai com o teu marido, que ns tratamos da cozinha.  Olhando para Harv, sorriu e acrescentou: 
 J est na altura disso. Estamos a abusar da hospitalidade deles, tenho a certeza que os midos querem ficar sozinhos.
       Ah, no!  exclamou Molly.  No temos pressa de que se vo embora.
      Ryan, que estava agachado ao p da cadeira de Bethany, riu-se ligeiramente e olhou para Jake:
       Ouviste, Jake? No tens pressa de te ver livre de ns.
      Este limitou-se a sorrir sem deixar de olhar afectuosamente para Molly e, com a mo ainda estendida, disse:
       Vamos, querida.
      Molly compreendeu que no tinha outra soluo. Toda a gente estava a olhar para eles. Aceitou a mo de Jake e deixou que ele a ajudasse a le-vantar-se. Pegaram 
em dois casacos de ganga e foram-se embora, fugindo de todos aqueles olhares. Jake ps-lhe um brao  volta da cintura antes de comearem a descer as escadas, demonstrando, 
ao tocar-lhe, o mesmo -vontade possessivo que havia exibido durante toda a noite, um direito seu, agora que estavam casados.
       Ests a, rapariga?  perguntou ao mesmo tempo que fazia presso sobre as ancas dela atravs do tecido.  O casaco do Hank quase no me deixa ver-te.
      Na opinio de Molly, era como se ela tivesse sido engolida.  medida que caminhavam ela passava os dedos pelo anel. Era uma sensao estranha, depois de tantos 
meses sem usar aliana, e uma advertncia silenciosa de que j no era a mesma pessoa. Casada. A palavra ressoava na sua cabea como se fosse uma chave a rodar num 
ferrolho. Tentou convencer-se de que uma sentena de priso perptua com Jake era capaz de no ser uma coisa assim to m, mas nem por isso se sentiu mais aliviada.
      Determinada a no se deixar dominar pelo pnico como havia sucedido em Reno, tentou afastar aquelas preocupaes da sua mente. Mas no conseguia deixar de 
pensar na sua anterior noite de npcias, na forma como Rodney, completamente embriagado, tinha apalpado o seu corpo, penetrado nela sem se preocupar com a dor que 
lhe causava para, a seguir, cair num torpor, esmagando-a com o seu peso morto. Para Rodney ela apenas tinha sido um objecto. Nunca tivera a menor considerao pelos 
seus sentimentos, nem naquela noite nem em qualquer outra ocasio. A mera possibilidade de poder voltar a ser tratada da mesma forma fazia sentir-se mal.
      Jake no era assim, disse ela a si prpria para se tranquilizar. No era. Era estpido compar-lo com Rodney. Sempre que havia cometido esse erro, ele demonstrara-lhe 
que estava completamente enganada.
      Embora ela tivesse percorrido com ele muitas vezes o caminho para a casa de madeira, nesta noite parecia-lhe diferente, havia uma maior intimidade entre ambos. 
Jake, que tinha introduzido a mo por baixo do casaco de Molly, pousara-a mesmo por cima da sua anca esquerda, fazendo com que o corao dela batesse mais rapidamente.
        Ests tensa  observou ele sem qualquer emoo. O seu olhar brilhante cruzou-se com o dela sob a luz da lua.
      Molly disse que sim com a cabea.
       Foi um dia cheio de emoes. Sinto-me como se tivesse subido a uma montanha-russa e no a conseguisse descer.
      Jake fez um rudo surdo com a garganta.
       As coisas vo acalmar-se a partir de agora. Sentir-te-s melhor aps uma boa noite de sono. Jake fez uma pequena pausa antes de voltar a falar.  Espero 
que no te tenhas importado com a minha insistncia em virmos os dois buscar os teus pertences. Noutras circunstncias, poderamos esquecer as aparncias e continuares 
a dormir na casa de madeira como tens feito at hoje. Mas com o Rodney a rondar por aqui no seria sensato. No me arrisco a que ele te rapte durante a noite porque, 
se te conseguir levar para Portland, vai ser o diabo para te trazer de volta.
      Molly no tinha pensado que Rodney a podia raptar.
       Tens razo.  melhor no arriscarmos.
       Confia em mim, eu no arrisco. No te vou deixar longe da minha vista. Podes passar a noite comigo.
      Passar a noite com ele? Na mesma cama? Molly olhou espantada para Jake, mas ele no pareceu dar por isso. A anca dela roou na perna dele ao contornarem um 
tronco cado. No momento em que se tocaram, a rapariga teve a impresso de que Jake a puxava mais para si. Passou-lhe fugazmente pela cabea que ele tinha esperana 
de consumar o casamento nessa noite, mas a seguir ps a ideia de parte. Jake nunca se deitaria com uma mulher sem ter em considerao os sentimentos dela. E, alm 
disso, havia-lhe prometido que no o faria.
       Est uma noite linda  disse Molly, mas ao aperceber-se do tom nervoso da sua voz, apeteceu-lhe bater em si prpria.  Olha s para as estrelas.
       Esto um espanto  concordou ele, numa voz baixa e rouca.
      Ao chegarem  casa de madeira, Molly juntou apressadamente as suas coisas para poderem voltar para junto dos convidados na casa principal. Quando estava a 
remexer a gaveta  procura de uma pea de roupa que pudesse usar como camisa de noite, Jake ps-se atrs dela, pregando-lhe um susto de morte. Ele pousou as mos 
nos seus braos, puxou-a para trs, encostou-a a si, e inclinou a cabea para roar os lbios no cabelo dela.
       Molly, descontrai-te. L porque somos casados, isso no significa que eu me v atirar para cima de ti. Por que  que ests to nervosa?
      Essa era uma pergunta para a qual Molly no encontrava resposta. Tinha a certeza de que no receava Jake, a prpria ideia era ridcula. Ele era o homem mais 
amvel e gentil que ela havia conhecido.
      Infelizmente, era tambm o mais atraente. Sentia um formigueiro percorr-la cada vez que as mos dele roavam os seus braos, o que a levava a ter pouca f 
na sua capacidade de resistncia se ele continuasse a seduzi-la. Jake fazia-a desejar esquecer-se do resto do mundo. O simples facto de o imaginar a tocar-lhe na 
sua pele desnuda, provocava-lhe um aperto no estmago.
       No sei o que se passa comigo  disse ela debilmente.  Acho que comecei a aperceber-me do passo que demos. Eu... casar-me no era exactamente o que eu estava 
 espera quando me levantei esta manh.  As grandes mos de Jake massajavam-lhe os braos, libertando-lhe a tenso acumulada nos msculos. Ela encostou-se mais 
ao peito dele, nervosa e, ao mesmo tempo, reconfortada pela robustez do seu poderoso corpo.  No sei o que esperar. Quero dizer... bem, estamos casados. No te 
censuro se quiseres exercer os teus direitos conjugais.
       Direitos conjugais? Nunca nos meus quase trinta e trs anos de vida tinha ouvido algum usar essa expresso.  terrivelmente antiquada.
       ?  A expresso no parecia assim to antiquada a Molly, sobretudo naquele momento em que as mos dele repousavam sobre os seus braos.  Os homens sempre 
estiveram convencidos de ter certos privilgios no casamento. E no me parece que isso tenha mudado.
      A julgar pelo modo como ele lhe tocava era evidente que no.
       Lamento que o juiz de paz se tenha sado com a conversa do at que a morte nos separe durante a cerimnia  murmurou ele.
       No tiveste culpa disso.
       No  concordou Jake , mas isso incomoda-te.
       Acabmos por fazer todas as promessas habituais. Ele acariciou-lhe a fonte com os lbios e disse:
        verdade.
       As promessas devem ser cumpridas.
       Eu cumpro as minhas se tu cumprires as tuas  sussurrou ele com um laivo trocista na voz.
      Molly fechou os olhos com muita fora.
       Acho que no tenho outra alternativa. A capela, em Reno, podia ser de pacotilha, mas para mim as promessas foram feitas, na mesma, perante Deus.
       Para mim tambm  murmurou ele.  Nesse caso, posso fazer-te uma ltima promessa?  Depois de Molly acenar afirmativamente com a cabea, ele disse:  Nunca 
te irs arrepender de te teres casado comigo. Farei tudo o que puder durante o resto da minha vida para que no tenhas razo para isso.
      Oh, como Molly desejava acreditar nele. Lembrou-se de Jake com o beb da irm ao colo e desejou agarrar-se a esse sonho com todas as suas foras.
       Isso significa que queres mesmo levar isto avante e fazer amor esta noite?  perguntou ela tensa.
       Molly, numa relao nem tudo gira  volta do sexo.
       Mas  nisso que tu ests a pensar. Diz l que no. Ele ficou totalmente imvel.
       Sim, estou a pensar nisso. O meu desejo por ti  to grande que at faz doer. No te vou mentir.  Deslizou as mos suavemente pelos braos de Molly, e quando 
os seus dedos encontraram os dela, entrelaaram-se uns nos outros.  Mas eu disse-te que ia esperar at que estivesses pronta. Achas que te estava a mentir?
      Ela fechou os olhos.
       Acho que sabes muito bem que eu estou pronta em muitos aspectos.
      Jake soltou um suspiro, desentrelaou os dedos dele dos dela e en-volveu-a nos seus braos, pousando possessivamente uma das mos no declive formado pelas 
costelas de Molly, mesmo por baixo do seu seio direito.
       Em muitos aspectos, sim. Acho que te podia beijar e fazer com que me desejasses.
      Molly ia dizer que no, mas arrependeu-se. J tinha mentido de mais a este homem.
       Sim, podias  admitiu ela num fio de voz.
      Ele inclinou-se para o lado para lhe dar um beijo por baixo da orelha.
       Mas h um pequeno problema  murmurou Jake.  Tu tens medo que eu no te queira. Enquanto no conseguires ultrapassar isso e te comeares a sentir melhor 
tambm sobre outros aspectos, no vamos conseguir que o nosso momento seja perfeito. E, por essa perfeio, acho que vale a pena esperar.
      
      
      
    Captulo 20
      
      
      
      Uma hora mais tarde, Molly encontrava-se sozinha com o seu novo marido na casa principal. At Hank se tinha ido embora, deixando o seu quarto no outro extremo 
do corredor para ir dormir num div na camarata dos empregados. O facto dele ter feito isso para que ela e Jake tivessem mais privacidade na sua noite de npcias, 
deixava os nervos de Molly ainda mais em franja. Parecia que todos estavam a conspirar para que eles fizessem amor na primeira oportunidade que tivessem.
      Molly subiu as escadas a tremer, levando Jake atrs dela. Ele tinha apagado as luzes do primeiro andar, pelo que apenas dispunham do candeeiro do tecto, que 
estava por cima do patamar, para lhes indicar o caminho. Durante as semanas que trabalhara no Lazy J, Molly havia subido estas escadas vezes sem conta para ir limpar 
os quartos ou guardar roupa acabada de lavar, por isso no compreendia por que agora lhe custava tanto faz-lo.
      Ouvia, atrs de si, o rudo das botas dele a baterem nos degraus e do saco de plstico onde trazia as suas coisas a roar nas calas de ganga. Quando chegaram 
ao patamar, Jake pousou uma das suas mos nas costas dela e encaminhou-a para a suite principal, um acolhedor conjunto de trs salas em estilo rstico, que Molly 
j conhecia. Um quarto para dormir com uma grande rea, um recanto aprazvel destinado  leitura e uma espaosa casa de banho dividida em quatro zonas, que tinha 
como reas adjacentes um toucador, um quarto de vestir e um enorme roupeiro onde se podia andar.
      Antes de entrarem na suite, Jake colocou-lhe uma mo no ombro para a fazer parar, ps o saco de plstico  frente deles e disse:
       Podemos esquecer algumas tradies da noite de npcias, mas h uma de que eu no abdico.
      A seguir inclinou-se e tomou-a nos braos. Molly, receando que ele deixasse cair, agarrou-se ao pescoo dele, soltando um gritinho.
       No me leves ao colo!  pediu ela.  Eu sou muito pesada, vai ficar com dores nas costas.
      Jake abanou-a ligeiramente para lhe tomar o peso.
       Isso  mentira, tu no s assim to pesada.
       Quase cinquenta e oito quilos  informou-o ela.
       Assim, tanto? Molly retirou uma das suas mos do pescoo dele para lhe dar uma palmadinha no ombro. Jake riu-se e virou-se ligeiramente para o lado, a entrar 
na suite, para ela no bater com os ps na porta.
       Agora, pelo menos, foi melhor  comentou ela.
       Agora, o qu?
       Quando o Rodney atravessou a porta comigo ao colo, eu bati com a cabea.
      Jake fez um esgar de dor e sorriu.
       Bem, j vais ver. Esta no  a nica coisa em que eu vou ser melhor, muito melhor, atrevo-me a dizer.  Levou-a at  cama e deitou-a delicadamente em cima 
da colcha. A seguir, com uma mo de cada lado do corpo dela, inclinou-se para trs para a contemplar.  Exactamente como eu pensava  disse ele suavemente.  Ficas 
mesmo bem aqui.  Um brilho malicioso surgiu-lhe nos olhos.  Como  que um homem pode ter tanta sorte? Nunca tinha visto uma bssola to perfeita.
      Molly franziu as sobrancelhas, perplexa.
       Uma bssola? Contornando-lhe os lbios com um dedo, ele fez um largo sorriso.
       Aqui  o norte. Deixo os outros pontos  tua imaginao. Molly soltou um gemido que o fez rir entre dentes. Ela sentiu calor nas faces e, quem havia de dizer, 
no corpo tambm. Olhou para ele com a boca seca. Jake, sem lhe tirar os olhos de cima, inclinou-se para a beijar docemente. Depois de lhe provocar um aperto no estmago 
e fazer com que praticamente todos os msculos do corpo de Molly estremecessem, afastou-se para trs e olhou para os bicos espetados dos seios dela que sobressaam 
por baixo da blusa de algodo.
       Essas pequenas maravilhas trespassam-me como se fossem espadas afiadas, provocando aguilhoadas de desejo no meu baixo-ventre  sussurrou-lhe ele.
      Ao perceber que a frase tinha sido retirada do romance que ele lhe deixara no alpendre, Molly riu-se surpreendida.
       Afinal, sempre o leste  provocou-a Jake.
       Folheei-o.
      Ele moveu afirmativamente a cabea com um brilho nos olhos.
       At chegares s melhores partes?
      Ela riu-se de novo.
       Ests a fazer progressos  disse ele com ar de aprovao.  Muitos progressos. Precisas de te descontrair e levar a vida um pouco menos a srio. J algum 
te disse isso?
       No que eu me lembre, mas vou tomar nota. Tens mais sugestes a dar-me?
      Jake fez fora com as mos para se endireitar.
       Tenho, mas podem esperar  respondeu ele, pegando no saco que havia posto no cho, e colocando-o sobre a cama.  Por agora, ver-te sorrir  j um passo na 
direco certa.
      Dirigiu-se para a casa de banho ao mesmo tempo que desabotoava a camisa e disse-lhe por cima do ombro:
        Pe-te tambm  vontade. Acho que vamos ter uma noite muito longa  nossa frente.
      Molly sentou-se na cama e abriu o saco de plstico. A T-shirt que ela linha escolhido para dormir estava mesmo ao de cima, uma camisola branca usada que lhe 
tapava um pouco mais as coxas do que as outras. Suspirou, desejando novamente ter um pijama de flanela.
      Ainda estava no mesmo stio, a olhar para a camisola, quando Jake voltou da casa de banho uns minutos mais tarde. Vinha nu da cintura para cima, fazendo-lhe 
lembrar a primeira vez que o vira. O pensamento que lhe veio imediatamente  cabea foi que nunca tinha visto um homem to belo. De repente, sentiu a boca e a garganta 
pegadas como se tivesse engolido uma cola muito forte.
      A parte superior do corpo dele era lustrosa e todos os msculos e tendes que envolviam o seu torso sobressaam com grande nitidez. O escuro cabelo de Jake, 
totalmente despenteado, brilhava sob a luz do candeeiro, as suas pontas parecendo chamas.
       H algum problema?
       No tenho pijamas, apenas uma T-shirt.
      Ele arqueou as sobrancelhas e foi at  cmoda.
       Vou buscar umas sweats para mim.  Depois de abrir a gaveta, mediu Molly com os olhos e disse:  Tenho aqui roupa interior trmica que pode servir-te de 
pijama. Queres um conjunto de camisola e calas?  Perante o olhar surpreendido dela, Jake riu-se.  Se vou ter de me reprimir, quanto menos estiver  vista, melhor. 
Se h coisa que eu detesto  faltar com a minha palavra a uma senhora  atirou a roupa trmica para cima da cama.  S com uma T-shirt em cima, tu ias ser uma grande 
tentao para mim.
      Molly pegou, agradecida, na roupa que ele lhe deu.
       Obrigada.
       No tens de qu  respondeu Jake, piscando o olho.  Se precisares de ajuda para vestir isso, chama-me. Prometo que vou tornar uma situao difcil noutra 
completamente impossvel.
      Ela riu-se, cheia de nervos, e levantou-se.
       Acho que me consigo desenvencilhar sozinha.
       Era o que eu receava que dissesses.
      Durante os primeiros cinco minutos, Jake esperou pacientemente que Molly sasse da casa de banho. Nos cinco minutos seguintes, continuou  espera, mas com 
menos pacincia. Ao fim de dez minutos, comeou a preocupar-se. No ouvia qualquer dos rudos que as pessoas costumam fazer antes de ir dormir, tais como o som da 
gua a correr, o roar da escova de dentes ou barulho do autoclismo. Que raio estaria ela a fazer l dentro, a contar as riscas da parede?
      Levantou-se da cama e dirigiu-se para a porta do quarto de banho com a certeza de que estava trancada. E o pior de tudo era t-la feito to robusta que seriam 
certamente necessrios dois homens e um rapazinho para a deitar abaixo. Se tivesse sucedido alguma coisa a Molly, teria de chamar Hank para a tirar de l.
      Bateu suavemente nas grossas tbuas de madeira e perguntou:
       Ests bem, querida?
       Nem por isso  respondeu ela.  Importas-te de me dar a minha T-shirt?
       Porqu? Qual  o problema com a roupa interior que eu te emprestei?
       A roupa em si no tem nenhum problema, mas no me serve. Jake franziu as sobrancelhas e encostou a mo  porta. Aquela roupa servia-lhe a ele. Molly era 
muito mais baixa e pesava bem quarenta quilos a menos.
       Est-te muito grande?
        precisamente o contrrio.
       Como  que isso  possvel?
       O problema  onde no me serve.
      Jake sorriu sem querer. Pensando bem, ela era bem mais recheada em certas zonas do que ele.
       Tenho a certeza que podes vestir isso. Vais para a cama, no vais para uma passagem de modelos.
       Se achas que certas partes do meu corpo tapadas com camadas de algodo, te trespassam como se fossem duas espadas afiadas, devias v-las agora cobertas com 
uma malha apertada.
      O sorriso de Jake alargou-se. Encostou um ombro  porta, ao mesmo tempo que imagens deliciosas surgiam na sua cabea.
       Mida, a camisola no te pode estar assim to apertada.
       No est... na maior parte dos stios. Mas, o problema no  apenas com a camisola.
       Sai da, que eu no olho  tentou convenc-la.
       Nem pensar nisso.
       Eu apago primeiro as luzes. O que  que me dizes?
       De maneira nenhuma. Consegues ver no escuro. Jake riu-se ligeiramente e ela deu por isso.
       D-me o raio da T-shirt.
      Ele imaginou-se a roar nas pernas desnudas e no traseiro insuficientemente tapado dela durante toda a noite e compreendeu que no ia conseguir manter a promessa 
que lhe tinha feito.
       Molly, dormires s com uma T-shirt no  boa ideia.
       Acredita em mim, o meu corpo embrulhado num plstico de bolhas de ar tambm no  uma boa ideia.
      Plstico de bolhas de ar? Jake ficou perplexo. Pensando bem, o tecido trmico tinha algumas semelhanas com um plstico de bolhas de ar.
       Tenta esticar o tecido.
       Achas que eu tenho fora para isso?  Fez-se silncio e, a seguir, Molly disse:  O gancho das calas chega-me quase at aos joelhos.
      Jake encostou a testa s slidas tbuas de madeira da porta. As imagens que lhe rondavam a cabea no pressagiavam uma noite de npcias platnica.
       Molly?
       Sim?
       Eu amo-te.
       Isso  irrelevante.
      Para ele era imensamente relevante.
       At posso ir nua  disse ela de mau humor.  Tens outro par de sweats?
       No.
      Ele no lhe ia dar o que tinha vestido. Se o fizesse, ela fugiria do quarto aos gritos.
      A porta da casa de banho abriu-se repentinamente. Jake, que estava encostado a ela, foi apanhado desprevenido e quase chocou com a mulher que lhe apareceu 
 frente como se fosse um pugilista deficiente em altura, com os punhos cerrados de cada lado do corpo, as pernas ligeiramente afastadas e o seu pequeno queixo levantado. 
A primeira coisa que lhe passou pela cabea foi que nunca tinha visto a sua roupa interior to bem utilizada. Com todos os diabos! Por muito que lhe custasse reconhecer, 
compreendeu a relutncia dela em sair da casa de banho. Todas as elevaes e sinuosidades do seu corpo eram reveladas por aquela malha justa, sendo algumas absolutamente 
irresistveis para o olhar masculino e outras no tanto.
       Santa me de Deus!
      Molly inclinou-se para a frente para segurar no gancho das calas que, tal como tinha dito, lhe chegava aos joelhos. Dobras de tecido acumulavam-se em redor 
dos seus esbeltos tornozelos. Ela podia no ter muita altura, mas no lhe faltavam atributos.
      Encostou uma das suas mos mesmo no meio do peito de Jake, empurrando-o para trs para conseguir passar.
       Disse-te para me dares a minha T-shirt.
      Jake virou-se para a ver. A imagem era de fazer perder a cabea. Ela tinha o traseiro mais fantstico que ele alguma vez vira, ambas as ndegas abanavam a 
cada passo que dava. Jake no conseguia distinguir as bolhas de ar do plstico das covinhas da celulite. A parte do seu corpo que era puramente masculina e que no 
tinha a menor noo de boas maneiras, deu um salto, ficando totalmente erecta, e bateu furiosamente contra as sweats. Ele agachou-se. No momento em que se endireitou, 
o rgo voltou a empinar-se. Por fim, Jake conseguiu dom-lo entre as pernas, juntando os joelhos e caminhando atabalhoadamente at ao quarto, como se fosse um beb.
      Molly, sentada de costas para ele, no outro lado da cama, tinha esparramado todas as bolhas de ar do fato trmico sobre a colcha, o que teve o efeito hipnotizador 
de ampliar as suas generosas formas. Por cima das elevaes apetitosas do traseiro e das ancas, estreitava-se a cintura, fazendo-o morrer de desejo de a envolver 
nas suas mos e nunca mais a largar.
        Sinto-me como um hipoptamo enfiado numa meia at aos joelhos para girafas  disse ela mal-humorada. A seguir, afastou a colcha e chegou-se para trs.  
Apaga as luzes e pra de olhar para mim. Ests a criar-me complexos.
      Na opinio dele, Molly j tinha complexos que chegassem, mas deixar de olhar para ela era superior s suas foras. Nunca a atraco dos opostos havia sido 
to grande.
      Molly era o oposto dele em quase todos os locais, suave onde ele era firme, convexa onde ele era cncavo e agradavelmente rolia onde ele era plano. No conseguia 
olhar para ela sem morrer de vontade de lhe tocar, e o sangue ardia-lhe nas veias ao imaginar aquele corpo macio encostado a si.
      Os seios dela tinham a forma de meles arredondados e maduros. Ela dissera-lhe uma vez que eram cados. No fazia mal. Se eles se lembrassem de tombar enquanto 
faziam amor, no tinha dvidas de que iria gostar de os procurar e, a seguir, deleitar-se-ia ao aprision-los. O simples facto de olhar para aquelas elevaes espetadas 
na malha justa provoca-va-lhe tremores no corpo.
      Caramba! Estava metido num sarilho. Uma promessa era uma promessa. No lhe ia tocar, mas isso no significava que fosse fcil resistir  tentao. Os seios 
de Molly cederam ligeiramente  fora da gravidade e o mamilo que apontava na sua direco visou-o precisamente entre os olhos.
      Apagou as luzes. Ela tinha razo, conseguia ver no escuro. Sentiu-se aliviado quando Molly puxou os lenis para cima. Dirigiu-se  cama, sentou-se  beirinha 
e ficou a olhar para o contorno branco e sinistro dos seus ps.
       O que  que ests a fazer?  perguntou ela num fio de voz. Jake suspirou.
       A pedir a Deus que me d foras. Ela riu-se entre dentes.
       Ah, no te preocupes. Eu nunca excitei ningum na minha vida. Jake achou que isso se devia ao facto de ela nunca ter passado diante de um homem com roupa 
interior trmica colada ao corpo. Desejava v-la nua. Ele ainda nem sequer sabia qual era a cor dos seus mamilos. Cor-de-rosa, talvez? Cerrou os dentes. Deviam ser 
da mesma cor dos lbios.
        Deita-te  aconselhou-o ela.  Vamos conversar at nos dar o sono.
      O sono ia-lhe ser difcil de chegar naquela noite, mas seguiu o conselho de Molly e abriu os lenis para se deitar ao lado dela. Esticou-se de barriga para 
cima e cruzou os braos com fora sobre o peito para fugir  tentao de lhe tocar. S esperava que ela no desenvolvesse repentinamente uma boa viso nocturna, 
uma vez que os lenis e a colcha exibiam uma elevao, mesmo por baixo da cintura dele.
      Molly bocejou.
       Parece que o dia de hoje durou uma eternidade.
       Tens razo.
      Fez-se silncio. Depois, ela murmurou:
       E se ele voltar com um mandato do tribunal? E se no considerarem o nosso casamento vlido porque estou interditada?
      Ao sentir medo na voz dela, a libido de Jake esfriou. Procurou a mo de Molly s cegas e, aps envolver os esbeltos dedos dela nos seus, sussurrou-lhe:
       No te preocupes com isso, Molly. No o deixo levar-te.
       E se no o conseguires impedir? Ele tem montes de dinheiro e pode contratar os melhores advogados.
       Eu tambm posso  garantiu-lhe Jake.
       Nem penses em vender os cavalos. Ele apertou-lhe a mo com mais fora.
       O Rafe e o Ryan ofereceram-se para me apoiarem financeiramente. Em condies normais, no gosto de pedir dinheiro emprestado, mas neste caso, fao-o sem 
pensar duas vezes. Os Kendricks so uma famlia muito rica e poderosa com contactos em todo o Oregon. O Rafe disse-me esta noite que, se o Rodney tentar causar-me 
problemas, pe o advogado dele a tratar do assunto.  um tipo que faz as coisas mexer e mete o Rodney na linha.
      Jake sentiu Molly tensa.
       Detesto que tenhas de pedir dinheiro emprestado por minha causa.
      Ele endividar-se-ia alegremente para o resto da sua vida, se isso servisse para a tirar das garras de Rodney. Tinha visto a frieza dos olhos daquele homem. 
Nunca mais a queria perto do sacana.
       O Rafe e o Ryan so parentes por casamento. No me importo de lhes pedir ajuda.  mais fcil pedir dinheiro emprestado  famlia.
      Ela suspirou de cansao.
       Bem  disse Molly suavemente , se isso te servir de consolao, vou poder pagar-te a dvida algum dia. Isto , se os tribunais me devolverem o controlo 
sobre a minha herana.
      Foi a vez de Jake ficar tenso.
       Quanto  que o teu pai tinha exactamente? Nunca me chegaste a dizer.
       Muito. Nem tudo lquido,  claro. Alguns milhes esto presos na firma. Ele deixou-me a sua quota na empresa. O resto da herana foi dividido em partes iguais 
entre a Claudia e eu. No me recordo dos nmeros exactos, mas em aces, obrigaes e dinheiro no banco, penso que tenho cerca de quatro, mais o valor da minha quota 
na firma.
       Quatro qu?
       Milhes. O pap comeou a investir assim que saiu da faculdade e era muito bom no que fazia.
       Meu Deus! Casei-me com uma mulher rica. Ela riu-se ligeiramente outra vez.
       Sim, bem...  agradvel que no tenhas dado por isso antes. Se te tivesses casado comigo pela fortuna que vou herdar teria sido terrvel.  Molly permaneceu 
calada durante algum tempo e, a seguir, disse com voz trmula:  Isso no serve para nada, sabes. O dinheiro no d felicidade. A mim s me serviu para tornar a 
vida mais difcil.
       Pode no dar felicidade, mas tenho a certeza de que ajuda muito. Molly riu-se de novo e apertou-lhe os dedos.
       Isso incomoda-te? Que eu tenha dinheiro, quero dizer. Jake ps a sua mo sobre a dela.
       O dinheiro ou a falta dele no nos define como pessoas. Amo-te pelo que tu s, no pelo que tens.
      Ela suspirou.
       E quem  que pensas que eu sou, Jake? Ele sentiu um n na garganta.
       Uma mulher muito especial.
       Tenho medo que no me conheas. Se eu prpria quase no me conheo, como  que tu me hs-de conhecer?  Jake ouviu um rudo oco e compreendeu que ela estava 
a engolir em seco para a voz no lhe tremer.  E, agora, sinto que nunca o conseguirei.
       Conheceres-te a ti prpria, queres tu dizer?  O silncio dela ser-viu-lhe de resposta.  Molly, o facto de te teres casado comigo no te impede de atingires 
os teus objectivos e realizares os teus sonhos.
       Impede-me, claro que me impede. Hoje tornei-me a mulher de um rancheiro. E, tu, tornaste-te o qu?
      Ele olhou para ela sem compreender.
       No percebo o que queres dizer.
        isso mesmo. Aposto que nunca te passou pela cabea que hoje te tornaste no marido de uma corretora da bolsa. 
      Ele sentiu a tenso que irradiava de Molly como se de ondas elctricas se tratasse. 
        o que eu sou, Jake, pelo menos foi para isso que fui educada. O casamento com o Rodney descarrilou a minha carreira. ramos scios, dizia ele, mas na realidade, 
eu era pouco mais do que um moo de recados. Quem possua uma prestigiada licenciatura em Informtica era ele. Eu tinha deixado a faculdade e feito apenas os testes 
estaduais para conseguir uma licena, o que me tornava inferior aos seus olhos, embora tivesse grande experincia em finanas e conhecesse melhor o campo do que 
ele. Eu fazia todo o trabalho duro e o Rodney ficava sempre com os louros.
      Depois do divrcio, pensei que iria um dia voltar para a firma. Desejava sentar-me  secretria do meu pai, sabes? Queria tomar conta de metade dos negcios 
e continuar a tradio do nome Sterling.  Um tremor percorreu-lhe todo o corpo, e Jake sentiu a mo dela estremecer. 
      Tambm pretendia investigar a morte do meu pai. Foi o Rodney quem o matou, tenho quase a certeza. Queria provar que foi ele e met-lo na cadeia.
       E achas que agora j no vais poder fazer nada disso?
       Estou casada com um rancheiro da zona central do Oregon. J vi este filme. Vou acabar sendo uma extenso de ti, tal como sucedeu com o Rodney.
        por causa disso que, s vezes, te sentes to perdida?  perguntou Jake, com voz rouca.
        Sim  respondeu Molly. Ele ainda a sentia a tremer.  Agora j no  to mau como antigamente, mas  por causa disso.
        Ai, Molly, apenas necessitas de tempo para te redescobrires a ti prpria.
      Ela tornou-se rgida.
       Como  que posso fazer isso agora? Vai comear tudo outra vez.
      Jake inclinou a cabea, tentando ver-lhe o rosto. Ela espetou fortemente o polegar na palma da mo dele, o que o fez compreender at que ponto estava agitada.
       Era por isso que no me queria voltar a casar. Dizem que estamos numa poca esclarecida, mas so sempre as mulheres que acabam absorvidas pela vida dos maridos 
e no o contrrio. No te estou a culpar. Compreendo que se trata de uma problema social, que tu no inventaste, nem  da tua responsabilidade. s o homem, no tens 
de mudar. Eu sou a mulher, por isso tenho.
       No te agrada a ideia de seres a mulher de um rancheiro?
      Molly manteve-se calada ao seu lado durante bastante tempo. Quando finalmente falou, a sua voz era cavernosa.
       Tornei-me a mulher de um rancheiro. Tenho poucas possibilidades de alterar essa situao.
      Jake sorriu no meio das sombras da noite.
       Eu sou to teu marido como tu s minha mulher.
       No, no s. Aposto que nem por uma vez te passou pela cabea, ao longo do dia de hoje, que, ao te casares comigo, deixavas de ser um rancheiro e passavas 
a ser outra coisa diferente.
      Isso era verdade.
       Foi um dia cheio de acontecimentos. No tive tempo para pensar em todas as mudanas que se iro dar na minha vida a partir de agora.
       Que mudanas?  perguntou ela com amargura na voz. Ele riu-se ao de leve.
       No tem graa nenhuma  disse ela firmemente.  Expliquei-te por que  que no me queria voltar casar e tu no conseguiste compreender. Queria ser eu prpria 
outra vez. Necessitava descobrir de novo quem sou e ser eu prpria durante algum tempo.
      O tom ansioso da voz dela afligiu Jake.
       Abdiquei da minha liberdade h doze horas, ponto final. No tinha outra alternativa e sabia muito bem o que estava a fazer. Agora, apenas tenho...  ele 
ouviu-a novamente engolir em seco  tenho de viver com isso.
        No, no tens, Molly. O casamento no  isso. Disse-te que no ia ser uma priso e estava a falar a srio. Queres ser corretora de bolsa? ptimo. Torna-te 
na melhor corretora de bolsa do mundo. Investe o meu dinheiro, faz de mim um homem rico. Eu no me importo.
       A empresa  em Portland. Se o tribunal decidir a meu favor, como  que eu posso trabalhar l e viver aqui?  A voz dela tornou-se num pequeno fio.  Desde 
que sa da clnica, apenas tenho vivido para o dia em que poderei regressar  Sterling and Wells. Mas, agora, isso j no  possvel. Vou ser a cozinheira-chefe 
e lavadora de garrafas do Lazy J. Vou separar leite, fazer manteiga e ficar mais gorda do que uma barrica se a comer.
      Jake desentrelaou a sua mo da dela, pousou-a na cintura de Molly, puxou-a para si e envolveu-a nos braos. Ela soltou um gritinho de espanto ao mesmo tempo 
que o seu corpo tenso se deixava levar. Ele encostou o rosto ao cabelo dela, agarrando-a com fora.
       Presta ateno  disse Jake com voz rouca. Quando Molly tentou falar, ele calou-a com um ligeiro toque.  Tu vais voltar a trabalhar na Sterling and Wells 
e a primeira vez que te sentares  secretaria do pai irei estar ao teu lado para celebrar a ocasio.  verdade que te casaste com um rancheiro, mas isso no significa 
que tenhas de lavar os meus tachos e as minhas panelas. Se ambos estivermos a trabalhar, podemos contratar algum para fazer o servio domstico.
       Eras capaz de fazer isso?
       Sou capaz de muito mais. Quanto a vivermos aqui,  imprescindvel, pelo menos durante uma parte do ano. Mas quem  que disse que no podemos viver a outra 
parte em Portland? Estamos na era das telecomunicaes, Molly. Sempre que estiveres c, podes trabalhar com o teu computador ligado  rede da empresa. Existem faxes 
e telefones. E, em caso de emergncia, Portland no  assim to longe. Podemos meter-nos no carro e pormo-nos l em trs horas e meia.
      Ela fungou.
       Fazes com que tudo parea muito simples, mas no . O que  que tu vais fazer durante a parte do ano que estivermos em Portland?
      Jake mordiscou um caracol sedoso de Molly e puxou-o gentilmente com os dentes.
       Serei o marido de uma corretora de bolsa. No tenho outro remdio. Se tu s capaz de te entender com um separador de leite, eu tambm consigo usar uma calculadora 
ou ser eficiente com um computador.
      Ao sentir o movimento dos lbios dela no seu ombro, ele esboou um sorriso.
       Ests a falar a srio?
      Jake percorreu-lhe as costas com a mo, deleitando-se com a sensao que lhe causava t-la nos braos. Depois de a ter finalmente entendido, era capaz de mover 
cus e terra para a tornar feliz.
       Durante o Inverno, a neve aqui  to intensa que se torna difcil trabalhar. A maioria dos criadores de gado manda as vacas para a Califrnia, onde podem 
pastar ao ar livre. Nessa altura, no me far grande diferena ausentar-me e deixar o Hank a tomar conta do rancho. Quem sabe? At sou capaz de gostar de ter outra 
profisso seis meses por ano. Vamos ter uma vida bastante movimentada.
      Jake sentiu-a sorrir outra vez. Molly suspirou e enrolou os braos  volta do pescoo dele. V-la corresponder ao seu abrao era maravilhoso.
       Jake Coulter de fato e gravata. A est uma coisa que eu quero ver.
       Eu fico muito bem de fato, para tua informao.
       Qual foi a ltima vez que puseste um? Ele riu-se no escuro.
       Vesti um fato... deixa-me pensar. Fui a um funeral no ano passado e vesti um. Cheirava a naftalina, mas ningum estava mais elegante do que eu.
      Ela respondeu-lhe com uma risada.
       No podes ir para a Sterling and Wells a cheirar a naftalina. Temos de mandar limpar o fato.
      Ele aproximou-a mais de si, satisfeito com o tom de admirao, quase de esperana, que notou na voz dela. Molly ainda tinha muitas dvidas, mas comeava a 
acreditar que o casamento podia funcionar.
      Jake tinha uma surpresa para ela. Ia matar-se para que o casamento funcionasse.
      
      
    Captulo 21
      

      No dia seguinte, Jake no perdeu a sua mulher de vista nem por um momento, com receio de que Rodney pudesse aparecer. Molly foi alimentar os cavalos com ele 
e caminhou ao seu lado, calada com botas de borracha que lhe ficavam muito grandes, durante todo o tempo em que Jake substituiu os aparelhos de rega.  tarde, ele 
insistiu para que ela o acompanhasse na carrinha enquanto distribua feno ao gado.
       No tinha percebido que o teu trabalho era to duro  comentou Molly, quando o ltimo animal recebeu a sua rao.
      Jake estacionou a carrinha perto da casa. Depois de guardar as chaves, examinou as feies dela com uns olhos to brilhantes como se fossem safiras azuis, 
e disse:
       Vem dar um passeio comigo.
        E o jantar?  perguntou Molly, dando uma olhadela ao relgio.  J passa das cinco e ainda nem sequer comecei.
       Somos recm-casados. Esquece o jantar, depois aquecemos o que sobrou de ontem. Gostava de passar uns minutos com a minha noiva. Um passeio junto ao riacho 
no  grande coisa como lua-de-mel, mas  o melhor que te posso oferecer neste momento.
      Estava uma tarde linda e Molly concordou com um sorriso.
       Est bem, mas tens de me prometer que me vais ajudar a arranjar qualquer coisa para o jantar. Estou farta de andar atrs de ti o dia inteiro.
       Prometido.
      Ele pegou-lhe na mo enquanto passeavam  beira do riacho. Caminhavam devagar. Os seus corpos moviam-se lentamente em unssono, rodeados pelos sons que pairavam 
no ar. O ms de Maio estava no incio e embora os dias estivessem a tornar-se maiores, a noite j havia comeado a cair, formando manchas de um negrume acinzentado 
por entre as rvores que bordejavam a floresta. Um gamo solitrio, que ainda tinha os chifres forrados de veludo, assustou-se ao v-los.
      Jake f-la sentar-se num pequeno monte de terra coberto de relva junto ao riacho. O vale estreitava-se naquele stio, no alcanando mais de noventa metros 
de largura. Do outro lado do curso de gua, na direco norte, a linha da vedao corria paralela  floresta que a tentava invadir, mas a leste, a paisagem estava 
salpicada de vacas da raa Hereford. Mesmo do outro lado do riacho, Molly viu um coelho que procurava o seu jantar e, j no limite da floresta, entreviu uma cora 
com um enho.
       Ah-ah  sussurrou ela.  Acho que estamos a impedir que aquela mam e o seu filhinho tomem o aperitivo da tarde.
      Jake olhou na mesma direco.
       Eles vo  procura de um local mais reservado. Molly observou a cora e o filho a irem-se embora.
       So to queridos e graciosos.
       So mesmo especiais,  verdade.  Um momento mais tarde, ele sussurrou:  Ouve.
      Molly ficou muito quieta,  volta deles ouvia-se a floresta entoando uma maravilhosa sinfonia: o vento assobiava nas rvores, um falco piava ao longe e os 
esquilos tagarelavam uns com os outros, preparando-se para a noite.
       No  fantstico?  perguntou Jake.
      Ela concordou totalmente. E o facto de partilhar aquele momento com ele tornava-o ainda mais belo. Ao olhar para o perfil do seu marido, sentiu um sobressalto 
no corao, invadida por emoes que no queria reconhecer, mas que era incapaz de negar. O que lhe havia sucedido era impensvel, deixara-se apaixonar por ele. 
Deus do cu. A conscincia disso assustou-a. Ele era um homem de personalidade muito forte... e to bonito. Am-lo podia ser perigoso.
      Jake apanhou-a a apreci-lo e uma nuvem de ternura passou pelos seus brilhantes olhos azuis. Aproximou-se dela para lhe tocar no nariz com um dedo.
       No tenhas medo, Molly querida. Eu sou o melhor investimento a longo prazo que tu alguma vez fizeste.
      Ela colocou as mos  volta dos joelhos.
       Como  que sabes o que eu estou a sentir?
       Sou bom a ler emoes.  por isso que me dou to bem com os cavalos.  Sorriu ligeiramente para ela.  Mas, seja como for, quando duas pessoas se amam compartilham 
os seus sentimentos. Qual  o mal de eu compreender o que ests a sentir, sem que tu me digas? V o lado positivo, isso vai fazer de mim um marido melhor. Irei compreender-te 
e poderei descobrir imediatamente quando te magoar.
      Fez-se silncio. Ela percebeu que Jake procurava as palavras mais adequadas para se exprimir.
       Ests apenas a sentir o mesmo que eu sinto desde h vrias semanas  explicou-lhe ele gentilmente.  Quando nos apercebemos disso  assustador, no ?  
Afagou-lhe uma face com o n de um dedo.  Amar profundamente deixa-nos muito vulnerveis, e qualquer coisa nos pode ferir.
      Molly desviou rapidamente o seu olhar.
       No acredito que consiga passar por isso outra vez. Sei que parece pattico, mas fiquei ferida para o resto da minha vida.
       No voltars a ser magoada  garantiu-lhe ele.  No por minha causa.
      Ela mordeu o interior dos lbios.
       Eu apenas...  Molly fez uma pausa para respirar, dirigindo novamente o olhar para ele.  Sei que no tenho sido justa contigo, Jake. Tu no s o Rodney, 
no tenho a menor dvida a esse respeito. Mas dentro de mim... no mais profundo do meu ser... existe uma criana aterrorizada. Ela acreditava em heris e contos 
de fadas e, agora, tem medo de cair na mesma armadilha. Tento dizer-lhe para crescer, para deixar de ser estpida, mas acho que tem os ouvidos tapados.
      Ele sorriu e concordou com a cabea.
        Todos temos uma criana dentro de ns, Molly. Tu no s caso nico.
       Tambm tens uma dentro de ti?
        mais um adolescente, para dizer a verdade. Cheio de testosterona, s pensa em sexo. E estou convencido de que o miudeco tem tampes nos ouvidos, porque 
ouve muito mal.
      Molly teve de se rir.
       E o que  que tu lhe dizes?
        Para manter as mos longe de ti, no olhar para onde no deve e deixar de ter pensamentos lascivos.
      Ela deixou escorregar as mos sobre as pernas.
       Peo desculpa por ser a causadora disso.
       Tens ideia da quantidade de vezes que pedes desculpa por coisas de que no tens culpa?
       Tenho quase trinta anos. Devia deitar-me contigo e pronto. Isso no  um bicho-de-sete-cabeas para as outras mulheres.
       Eu no me casei com as outras mulheres. Foi a ti que escolhi.
        Espero que no tenha sido um erro. Sei que estou a ser ridcula, Jake, mas no mais profundo do meu ser, tenho medo, e no consigo afastar esse medo.
        Medo de qu?  perguntou ele suavemente.  No  de mim, pois no?
        Claro que no. Nunca confiei tanto numa pessoa como confio em ti. No  esse tipo de medo.
       Ento, que tipo de medo ?
       Tenho medo que no aches o meu corpo atraente.  As palavras saram-lhe com dificuldade, cravando as unhas na ganga das calas  medida que as arrancava 
uma a uma da garganta.  Tenho medo que finjas o contrrio, embora eu veja a verdade nos teus olhos. Sinto vontade de me encolher de vergonha s de pensar numa humilhao 
dessas. Preferia morrer.
      Jake olhou para o outro lado do riacho com ar srio. Molly esperava que ele fizesse um comentrio ao que ela lhe acabara de dizer, mas ele surpreendeu-a, ao 
referir:
       Era aqui que eu brincava em criana. Adorava este stio e ainda o adoro.  Utilizou um tom de voz calmo, quase reverente.  Quando quero recordar os momentos 
mais importantes da minha vida, tanto os bons como os maus, venho para c. Estas rvores no so lindas?
      Estranhando a mudana de assunto, Molly seguiu o olhar dele. As rvores eram mesmo lindas, uma grande mistura de pinheiros lodgepole e amarelos do oeste que 
se erguia majestosamente em direco ao escuro cu do entardecer.
       Sim, so lindas.
       Qual  a mais bela? Molly examinou-as.
         uma pergunta difcil de responder. So todas to bonitas, cada uma  sua maneira, que eu no consigo decidir-me.
       Aquela  maravilhosa  afirmou Jake, apontando para um pinheiro amarelo do oeste, muito alto e direito.  E olha aquela ali, no  extraordinria?
      Molly olhou para o pinheiro para onde ele apontava e sorriu.
       Sempre gostei de todos os tipos de rvores.
       Eu tambm  respondeu Jake, inclinando a cabea para um carvalho retorcido e quase morto que se encontrava no outro lado do campo, na primeira linha da floresta. 
 Mas, para mim, nenhuma  mais especial do que aquela. , de longe, a mais bonita.
      Ela olhou, admirada, para o pinheiro a que ele se referia. Havia uma racha no centro do seu outrora magnfico tronco e metade dos ramos estavam mortos.
       O que foi que lhe sucedeu?
        Um relmpago  suspirou ele.  E, tambm a idade, acho eu. O tempo no perdoa.
       Parece estar a morrer, Jake.
       Acho que no.  Jake cruzou os braos sobre as suas pernas dobradas, e ficou a olhar para o carvalho moribundo com uma expresso sonhadora no rosto.  Somos 
velhos amigos, ele e eu. Quando era pequeno, no conseguia trepar aos pinheiros amarelos do oeste, e os junperos eram to pequenos que nem merecia a pena tentar. 
No entanto, era capaz de trepar a este velho carvalho.
      Molly tentou imagin-lo em criana e uma imagem do pequeno Jaimle surgiu-lhe na mente.
       Alguma vez caste?
       No, nunca. Aquela rvore tem ramos to grossos como a minha cintura. Constru uma fortaleza l em cima. Devia andar pelos seis anos nessa altura. A pobre 
da rvore fartou-se de apanhar tareia. Eu no conseguia segurar correctamente na enxada nem no martelo, e o carvalho ficou cheio de cicatrizes, desde c de baixo 
at l acima. Cada uma delas guarda uma recordao minha. Desde ento, sempre que o trepo, recuo no tempo e revivo milhares de tardes e de noites ao relento.  como 
se tudo isso tivesse acontecido ontem. Passei muitas horas felizes l em cima, sentindo-me no topo do mundo e totalmente protegido. Muitas horas amargas, tambm. 
Sempre que sucedia alguma coisa, era para l que eu ia. Era o meu lugar secreto, isolado de tudo e de todos.
      Ela deu um suspiro.
       Uma vez, o meu pai quase o deitou abaixo.  Jake baixou a cabea.  Se olhares bem, vs que est muito prximo da vedao, e uma das suas grandes razes 
estava a fazer levantar uma estaca.
       Por que  que no o deitou abaixo?
       Por minha causa. Agarrei-me a uma perna dele e implorei-lhe que no o fizesse. Ele tentou explicar-me que havia mais carvalhos no rancho e que no iria sentir 
a falta daquela velha rvore, mas eu acabei por o convencer de que aquele carvalho era muito especial para mim e que nenhum outro poderia ocupar o seu lugar.  Jake 
deu uma pequena risada.  O meu pai desviou a vedao para contornar a rvore e deixou-a em paz.
      Molly reparou que existia um desvio na vedao, como ele tinha dito.
       O teu pai foi um amor.
       O meu pai  um bom homem. Tem um corao de ouro, apesar dos seus modos bruscos.  Jake fixou os olhos na rvore e a sua expresso tornou-se outra vez sria. 
 Na noite em que a minha irm teve o acidente de cavalo num barrei racing, vim para aqui quando voltmos do hospital. Deviam ser umas quatro da manh e ainda estava 
escuro como breu. Durante toda essa tarde tive de me fazer forte por causa da minha me, do meu pai e dos meus irmos mais novos. E tambm da Bethany, quando acordou. 
 O msculo do queixo de Jake contraiu-se.  Ela desatou a gritar quando compreendeu o que lhe tinha sucedido. No parava de gritar. Tive de a levar para a cama. 
Fartei-me de lhe dizer que ela ia ficar bem, sabendo perfeitamente que estava a mentir, que ela nunca mais voltaria a ficar como era. Gostava tanto dela e a Bethany 
era to bonita!
      A sua vida tinha sido destruda num dcimo de segundo e no havia nada que eu pudesse fazer. Ao ser o irmo mais velho, tinha-lhe sempre resolvido os problemas, 
sabes? Mas nessa noite era-me impossvel faz-lo.
      A voz dele tornou-se grave  medida que recordava aqueles momentos to dolorosos. Molly fechou os olhos.
       Oh, Jake  sussurrou ela.
       V-la daquela forma abalou a minha f em Deus. No parava de perguntar a mim prprio porqu. Como  que Ele podia permitir que aquilo sucedesse? Talvez a 
mim, mas no a uma pessoa como ela, que nunca tinha feito mal a ningum e no merecia uma coisa dessas. Jake suspirou e passou a mo pela face.  Estava to zangado. 
Havia acreditado em Deus durante toda a minha vida e, de repente, era tudo mentira, uma enorme farsa. Necessitava de estar sozinho.
       E ento vieste para aqui.
      Ele disse que sim com a cabea.
        Os meus pais estavam desorientados e os meus irmos tambm. Tinha a impresso de que o mundo havia acabado. Ao chegar aqui trepei at  minha antiga fortaleza, 
o cho estava a cair aos pedaos, mas eu sentei-me nele mesmo assim. Sentia-o como sendo a minha casa, um lugar familiar e pacfico no momento em que o resto do 
mundo se tinha tornado um pesadelo. Depois de tanto ter chorado que j nem lgrimas tinha, amaldioei Deus e levantei um punho em direco ao cu, jurando que nunca 
mais voltaria a acreditar fosse no que fosse. Nessa altura, sentia o que dizia com todas as fibras do meu ser.
       Ento, o que  que te fez mudar de ideias?
      Molly estava certa de que tinha havido uma razo para ele mudar, uma vez que no conhecia ningum com tanta sensibilidade como Jake Coulter.
      Ele dirigiu o olhar para oriente.
       O romper da aurora  disse ele suavemente.  S poders compreender o significado da palavra beleza depois de veres o nascer do Sol do alto da minha velha 
rvore. Eu estava ali sentado e sou capaz de jurar que tive a sensao de que a luz me atravessava. Apercebi-me, nesse momento. Apercebi-me, simplesmente. Eu e a 
minha velha rvore estvamos a ver a face de Deus, e Ele dizia-nos: Bom-dia. Jake sorriu ao lembrar--se.  Afinal, o mundo no tinha acabado. Compreendi que a 
Bethany iria, de alguma maneira, conseguir recuperar e que, acontecesse o que acontecesse, o Sol voltaria sempre a nascer. A vida no pra. Por vezes, temos de arranjar 
foras para a enfrentar e apenas o conseguimos fazer, procurando no mais profundo do nosso ser a f e a confiana perdidas.
      A convico com que Jake falava fez Molly sentir um n na garganta. Reinava um silncio tranquilo em redor deles e durante um longo momento permaneceram sentados 
a contemplar o carvalho. Ouvi-lo, f-la tomar conscincia do muito que aquele lugar significava para ele. Revelou-lhe igualmente uma outra faceta do homem por quem 
se tinha apaixonado. Precisamente quando ela pensava que sabia tudo o que havia para saber sobre Jake Coulter, ele mostrava-se sob outro ngulo.
       Quando olhas para o meu carvalho, as nicas coisas que provavelmente vs so os ramos mortos e o grande corte que tem no tronco.
       Agora vejo mais do que isso  garantiu-lhe ela , e compreendo que para ti seja a rvore mais bela da floresta.
      Jake olhou para Molly.
       Ento, por que  que no compreendes que irs ser sempre a mulher mais bela do mundo para mim?
      Molly tentou desviar o olhar, mas no foi capaz, e os seus olhos inun-daram-se de lgrimas.
       Eu amo-te  sussurrou ele.  Acho que te amei desde o primeiro momento em que te vi, Molly querida. E sempre que olhar para ti, irei ver a mulher que amo. 
No interessa se s perfeita ou no. Para mim s-lo-s sempre, e  isso que conta. Mesmo daqui a muitos anos, quando estiveres velha e engelhada, ver-te-ei com o 
corao e no com os olhos. Quando amamos algum, as imperfeies no existem, e mesmo que as vejamos, achamo-las bonitas.
       Ai, Jake.
      Ele segurou-lhe o queixo com a mo e Molly fechou os olhos com toda a fora quando ele a beijou gentilmente na face. Depois, Jake soltou-a. No momento seguinte, 
ela ouviu o ruge-ruge da roupa dele e compreendeu que se havia levantado. O vento assobiava entre as rvores, e esse assobio acalmava-a e envolvia-a como se de um 
abrao se tratasse.
        Deste dez anos da tua vida a esse sacana  disse ele com voz rouca.  No permitas que ele destrua o resto da tua existncia. Olha para dentro de ti, para 
o mais profundo do teu ser e tem um pouco de confiana em mim.
      Aps dizer estas palavras Jake foi-se embora, mas o eco delas continuava a ressoar na cabea de Molly muito depois do rudo dos seus passos ter desaparecido. 
Tem um pouco de confiana em mim. Os olhos dela encheram-se outra vez de lgrimas. Ficou a olhar para o velho carvalho, morrendo de vontade de ir atrs de Jake, 
mas sem coragem para isso.
      Alguns minutos mais tarde, levantou-se, trepou a vedao e atravessou a zona das pastagens. Ao chegar perto da outra extenso de arame, observou o carvalho, 
detendo-se no labirinto que os seus ramos mortos e vivos formavam. Era uma rvore muito grande, com pelo menos um metro e vinte de dimetro na base e uma altura 
gigantesca que testemunhava a sua vetusta idade. No cimo dela, Molly conseguia ver as runas da fortaleza que Jake tinha construdo em criana. O tronco impressionante 
do carvalho ostentava marcas gravadas na sua velha casca, algumas j carcomidas pelo tempo, mas outras parecendo ainda bastante recentes. Molly atravessou o arame 
farpado para se aproximar da rvore e ler as inscries.
      Um sorriso aflorou-lhe aos lbios. Jake tinha gravado a crnica da sua vida naquele velho carvalho. A inscrio que comemorava a sua licenciatura na faculdade, 
dizia PIGSKIN, 1993, e tinha sido minuciosamente cinzelada em maisculas. Numa outra gravura lia-se: O MEU MELHOR AMIGO, PETER, 1976-1983. As letras no eram to 
perfeitas, o que revelava uma menor percia com a faca na altura em que haviam sido escritas. Fazendo as contas, Molly chegou  concluso de que Jake deveria ter 
cerca de treze anos por essa altura. Ao passar os dedos pela gravura ques-tionou-se sobre quem teria sido aquele Pedro de que Jake tanto gostara, imortalizando-o 
naquele lugar especial.
      Ler aquelas inscries antigas causava-lhe uma sensao muito estranha. Era como se estivesse a bisbilhotar o dirio que continha todos os segredos do corao 
de Jake Coulter. A gravao mais recente daquele lado da rvore relatava o nascimento do sobrinho: SLY, ABRIL, 2001. Molly tambm se comoveu com esta inscrio, 
que lhe recordou a ternura que tinha visto no rosto dele ao pegar no beb.  medida que caminhava em redor da rvore e ia lendo as inscries, tanto as novas como 
as antigas, o corao apertava-se-lhe. Os acontecimentos mais importantes da vida de Jake, quer fossem alegres ou tristes, estavam l gravados, inclusive as datas 
do acidente de Bethany e do casamento desta com Ryan Kendrick.
      Era incrvel. Molly tinha vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Na zona mais alta daquela confuso de ramos enormes, ainda se conseguiam ver as cicatrizes 
dos cortes feitos pelo machado de um rapazinho. Imaginou-o em criana, tentando acarretar tbuas de madeira para o cimo da rvore, numa tarde de Vero, para construir 
perto do cu uma manso em miniatura. Jake havia passado boa parte do seu tempo neste lugar desde esse dia, e cada marca na rvore representava uma recordao sua.
      No momento em que Molly se preparava para se ir embora, reparou nos cortes do outro lado do tronco, que lhe pareceram muito recentes. Aproximou-se para os 
examinar melhor e aquilo que viu quase a fez cair de joelhos. Era um corao recm-gravado em cujo interior ele havia escrito: MOLLY, MEU AMOR, 2001.
       Oh, Jake  murmurou ela, a tremer.
      Passou os dedos levemente pela gravura. A julgar pela frescura dos cortes, tinham sido feitos h muito pouco tempo. Imaginou-o a trabalhar com a navalha, gravando 
mais uma recordao na sua rvore, para que, ao passar por ela da a muitos anos, pudesse recordar aquele momento como se tivesse ocorrido na vspera. Molly, meu 
amor. Quase conseguia ouvi-lo sussurrar aquelas palavras num tom profundo e spero, carregado de emoo. Se alguma vez houvesse desejado uma prova irrefutvel do 
seu amor por ela, tinha-a ali. Molly passara a fazer parte da crnica da vida dele, o seu nome encontrava-se gravado no seu lugar secreto, onde jamais poderia ser 
apagado ou esquecido.
      Recordando o que Jake lhe havia contado sobre a noite em que se dera o acidente de Bethany, Molly enrolou os braos  volta do peito e inclinou a cabea para 
trs, para entrever o cu atravs do labirinto formado pelos velhos ramos do carvalho. No podia afirmar que estava a contemplar a face de Deus, mas conseguia ver 
e sentir a inacreditvel beleza da Criao que a rodeava. E, ali mesmo  sua frente, estava uma inegvel verdade.
      Muitos anos depois, quando Jake voltasse a este lugar especial e visse a gravao que continha o seu nome, no queria ser apenas uma recordao agradvel na 
sua vida.
      Queria ser a mulher que permanecera ao seu lado.
      
      Fiel  sua palavra, Jake ajudou Molly a preparar o jantar nessa noite e, aps terminarem a refeio, arregaou as mangas para lavar os pratos. Molly, cheia 
de nervos e com um pano da loua na mo, esperava ao lado de Jake que ele passasse por gua um grande tacho e o colocasse no escorredor da loua. Observava-o pensando 
na melhor forma de abordar a questo, mas todas as ideias que lhe passavam pela cabea pareciam-lhe idiotas, acabando sempre por desistir.
      Por fim, disse abruptamente:
       Tomei uma deciso.
      Jake, que estava a esfregar uma forma de pirex azul, interrompeu o trabalho, dirigindo-se-lhe com ar interrogativo:
       Tomaste uma deciso sobre o qu?
      Molly engoliu em seco e torceu o pano da loua nas mos.
       Decidi fazer amor contigo.
      Ele quase deixou cair a forma que estava a lavar, mas conseguiu re-compor-se rapidamente.
       Quando?  quis ele saber com os olhos a brilhar. Ela no tinha planeado o momento nem o lugar.
       Bem... hum... quando quiseres. Esta noite, acho eu. Se tu quiseres,  claro.
       Se eu quiser!  ele fez um longo sorriso.  Posso acabar de lavar os pratos depois?
      Molly. Os casos amorosos de Jake tinham sido tantos, que ele j no se recordava como era fazer amor com uma mulher tmida e hesitante. Depois de arrumarem 
a loua, ela lembrou-se de umas quantas coisas de ltima hora para atrasar o inevitvel. O capacho da porta das traseiras necessitava de ser sacudido. Chamou Bart 
e passou dez minutos a correr trs dele,  volta da cozinha, para lhe lavar os dentes. Um bico do fogo recisava de ser limpo. As mos dela tremiam tanto que mal 
conseguia egar no esfrego de arame.
      Jake pensou em ir ao frigorfico buscar a garrafa de champanhe que tinha sobrado e abri-la, ela necessitava de qualquer coisa que a ajudasse a descontrair-se, 
mas receava que para acalmar os nervos de Molly fosse preciso uma banheira cheia de espumante. E, por outro lado, no a queria embriagada na primeira vez que fazia 
amor com ela.
       Molly, no precisamos de fazer isso esta noite, se no te achas preparada  props-lhe ele finalmente, pedindo a Deus e a todos os santos jue ela no o levasse 
a srio.
       Ai, no  respondeu ela com voz trmula.  Mas eu quero mesmio.
      Ele j tinha visto pessoas que se preparavam para fazer uma operao cirrgica muito complicada demonstrarem maior entusiasmo. Reprimiu um sorriso, para no 
revelar o que pensava. A ltima coisa que queria era que ela achasse, nem que fosse por um instante, que se estava a rir do seu nervosismo, quando na realidade se 
passava precisamente o contrrio, uma vez que sentia um aperto no peito e tinha vontade de a abraar.
      Ao chegarem ao quarto, ela parou junto  cama e ps-se a olhar fixa e ansiosamente para ele, ao mesmo tempo que tentava desabotoar a blusa com umas mos que 
tremiam violentamente.
       Querida  disse Jake cautelosamente , no  assim que isto deve ser.
       No ?  perguntou ela num fio de voz.
        No, no   garantiu-lhe ele. Aproximou-se dela, agarrou-lhe as mos e inclinou-se para lhe beijar os cantos da boca, que tambm tremiam. Iria Molly continuar 
assim o tempo todo? A ideia aguou-lhe a imaginao.  Isto no  uma inaugurao oficial.  normal beijarmo-nos e... Jake encostou o seu rosto ao dela  deixarmos 
que as coisas aconteam naturalmente.
        No  disse ela quase sem voz.  No desta vez. Eu... hum... preciso que me vejas primeiro. Se no gostares, podes simplesmente desistir.
      Santo Deus. Ela era to bonita e to amorosa. Como podia pensar que ele no ia gostar dela? E gostar tambm no era a palavra mais apropriada, queria-a como 
jamais havia desejado algum. Por outro lado, preferia ser ele prprio a despi-la, mas o tom determinado da voz de Molly dizia-lhe que ela necessitava de fazer aquilo. 
Por qualquer razo tortuosa, ela estava convencida de que aquela era a nica forma de exorcizar os seus demnios.
      Jake suspirou e deu um passo atrs com as mos levantadas em sinal de derrota.
       Est bem. Faz como quiseres.
      Molly disse resolutamente que sim com a cabea e reiniciou a sua batalha com os botes. Jake no se recordava de ter visto uma blusa com tantos. Um... atrapalhao, 
atrapalhao... dois. Ela estava a mat-lo. As mos de Jake ardiam de vontade de os arrancar todos de uma vez.
      No entanto, encostou-se  porta, de braos e pernas cruzados.  espera. A blusa de algodo ia-se abrindo a pouco e pouco. Uma vez, quando andava na faculdade, 
Jake tinha ido a um strip tease. Todos os outros rapazes se tinham entusiasmado, gritado e feito figuras tristes, apalpando a bailarina e metendo dinheiro por baixo 
do fio dental que ela usava. Todos menos ele, que achara o espectculo repugnante, chegando a questionar-se se seria anormal. No era. Agora no tinha a menor dvida 
de que observar uma mulher a despir-se lentamente, cada vez mais lentamente, o conseguia excitar, mas era necessrio que fosse a mulher certa.
      Molly. Santo Deus, como ele estava apaixonado por ela. Encostou-se mais  porta, agradecido pela espessura das calas de ganga que trazia vestidas, uma vez 
que tornavam a sua ereco menos evidente. Ele era capaz de aguentar aquilo, mesmo que isso significasse a sua morte, era capaz de aguentar.
      Por fim, o raio da blusa ficou desabotoada. As faces de Molly tornaram-se ruborizadas de constrangimento ao deix-la deslizar pelos seus braos. Pum. O rudo 
da blusa a cair no cho explodiu na cabea de Jake como se fosse uma bomba. Jake desejava, rezava para que se lhe seguisse o suti, mas, oh, no, ela levou as mos 
ao cs das calas, enlouquecendo-o enquanto tentava abrir o fecho.
      Que diabo estaria ela a fazer? Estremeceu, agitou-se e, a seguir, baixou a cabea. A rapariga era mesmo desajeitada, ele teria aberto aquele fecho num abrir 
e fechar de olhos. Jake pousou o olhar na elevao que os seus seios formavam por cima das rendas do suti e quase engoliu a lngua.
      Depois de ter aberto o fecho das calas, Molly atirou os sapatos para longe e dobrou-se para descalar as meias. Ele seguiu-a com o olhar. Jake sabia que ia 
descontrolar-se assim que lhe visse os dedos dos ps. Eram mnimos e as unhas tinham um tom de rosa que variava de acordo com a luz. Ele imaginou-se a mordisc-los.
      Molly meneou as ancas e as calas deslizaram-lhe pelas pernas at aos tornozelos. A seguir, avanou um passo, dando um pequeno pontap nas calas. Jake perguntou-se 
qual seria a prxima pea, o suti ou as cuecas. Ali  sua frente, ela parecia irreal, com as partes mais femininas do seu corpo ainda tapadas por nylon ou renda 
branca.
      Ele era um santo, no havia a menor dvida. As suas omoplatas j tinham quase furado a porta onde se encontrava encostado.
      Logo a seguir, Molly retirou as cuecas e quando estas lhe passaram pela anca, encolheu a barriga. No preciso momento em que a pea de roupa interior lhe chegou 
aos ps, levou uma das suas mos ao ventre para tapar a salincia abdominal, que obviamente considerava pouco atraente. Jake no encontrou nada de mal na barriga 
dela. No encontrou mesmo. Mas foi o ninho de caracis cor de caramelo mesmo por baixo do ventre de Molly que fez os seus olhos saltarem-lhe das rbitas.
       Eu... hum...  A voz dela tornou-se quase imperceptvel, fazendo-lhe lembrar uma nota tremida, soprada num apito de cana.  Eu tenho barriga.
      Jake j nem sabia onde estava a dele. Observou as ancas e as coxas rolias de Molly. A pele dela era cremosa e perfeita. A sua figura parecia tida de um sonho 
masculino, cada milmetro do seu corpo era suave e tentador.
      O suti. Ele queria que ela o tirasse. Mas, caramba, aqueles seios fabulosos eram a ltima coisa que ela ia mostrar. Molly levou as suas mos trmulas aos 
colchetes dianteiros do suti. Jake no conseguia pensar em mais nada a no ser que provavelmente ainda havia quatro colchetes para desapertar. Entretanto, a laringe 
dele tinha-se colado  parte de trs a garganta.
      A pacincia era uma virtude, recordou ele a si prprio. O suti havia de acabar por sair. No tinha memria de ter visto uns colchetes to teimosos. Ela estremecia, 
torcia-se e os seus seios agitavam-se a cada um dos seus movimentos. Jake estava  beira de um ataque cardaco, pousou os olhos nos bicos do peito de Molly, perguntando-se 
de que cor seriam.
      Quando o suti finalmente se desapertou, ela abriu-o um pouco, o seu corpo estava tenso. Num acto deliberado de humilhao, permaneceu sem se mexer com os 
mamilos ainda tapados pela renda daquela pea de roupa interior. Os olhos tornaram-se-lhe mais escuros e as suas faces cobriam-se de manchas carmesins. Tinha um 
ar to infeliz, ainda no totalmente nua, mas quase, e com os braos paralisados pelo constrangimento que a torturava.
      Ao devor-la com os olhos, Jake sentiu vergonha de si prprio. Nunca a devia ter deixado fazer uma coisa destas. Aproximou-se dela. No momento em que se preparava 
para lhe agarrar as mos e acabar com aquilo, soaram campainhas de alarme na sua mente. Se Molly j tinha conseguido chegar at quele ponto, era evidente que ela 
necessitava de percorrer o resto do caminho. Por alguma razo, era para ela importante que ele se chegasse para trs, limitando-se a observ-la. A observ-la com 
olhos de ver.
       Deixa-me ver-te, meu amor.
      Molly engoliu em seco e ficou a olhar para ele. Caramba, era to bonita. Como  que ela no conseguia perceber isso? Sob a luz fraca que entrava pela janela, 
a sua pele reluzia parecendo cetim cremoso. Ele desejou beijar cada uma daquelas curvas apetitosas, cada um daqueles declives deliciosos, sabore-la e mordisc-la 
at ela implorar por mais. Nesse momento, Jake teria matado Rodney Wells com as suas prprias mos. O sacana. Havia-a magoado to profundamente que as feridas ainda 
sangravam.
      O tom da voz dele era semelhante ao de uma lixa a roar na lmina de uma faca quando disse:
       Molly, deixa-me ver-te.
      Os tendes do pescoo dela tornaram-se salientes e os ombros retesaram-se-lhe. Jake sentia a luta que ela travava consigo prpria. Que Deus a ajudasse.
      Com um movimento brusco, Molly afastou o suti do peito e ficou parada a olhar para ele. Toda ela tremia. Por estranho que parecesse, agora que os lindos seios 
dela estavam nus  frente dos seus olhos, Jake quase nem reparou nos mamilos cor-de-rosa sobre os quais tanto havia fantasiado. Como poderia ele deleitar-se a observ-los 
com a rapariga morta de vergonha? Sem o calor da paixo que a libertasse da timidez, tudo isto era uma terrvel provao para ela.
      Jake desejava tanto tom-la nos braos, tranquiliz-la com sussurros e palmadinhas apaziguadoras. At ele era capaz de se sentir pouco  vontade se estivesse 
ali nu diante de uma pessoa, a ser observado.
      No entanto, no era de gestos tranquilizadores que Molly precisava naquele momento. Para ela, os prximos segundos e a reaco dele eram cruciais.
      Em vez de a abraar, Jake fez deslizar as alas do suti pelos braos de Molly e deixou-o cair no cho. A seguir, pegou-lhe nas mos e puxou-a para a afastar 
da cama de modo a ter espao suficiente para descrever um crculo completo  sua volta. Jurou a si prprio que depois de o terminar iria ter a certeza de que ele 
a havia examinado totalmente e observado de perto todos os defeitos imaginrios do seu corpo.
      E os defeitos eram mesmo imaginrios. Ela era delicada, agradavelmente rolia, mas perfeitamente torneada. A curvatura das suas costas era lisa, sem um vestgio 
de costelas que a desvirtuasse e a camada de carne feminina sobre os ossos era apenas a necessria para lhe dotar a pele de uma tal suavidade que o fazia arder de 
desejo de lhe tocar.
      Por mais que se esforasse, no conseguia compreender a sua enorme insegurana em relao aos seios. Eram sem dvida grandes e pesados. Ela nunca iria passar 
o teste do lpis, isso era bvio, mas muito poucas mulheres de busto generoso o conseguiam. No entanto, os seios dela eram bem feitos e se aquela inclinao para 
baixo significava que estavam cados, ele queria-os cados e tudo, considerando-se o homem mais feliz mundo.
      Molly tinha a impresso de estar a morrer. Cada vez que tentava respirar, os seus pulmes estremeciam. Sentiu um latejar louco nas fontes e temeu que pudesse 
desmaiar, um temor que o modo violento como o seu corao batia contra as costelas acentuava. Tinha frio e calor ao mesmo Tipo, a sua pele arrepiava-se devido ao 
ar gelado, mas ardia nos locais onde os olhos de Jake se pousavam.
      Quando j no podia aguentar aquela agonia, cruzou os braos sobre peito e obrigou-se a encar-lo. Jake tambm estava a olhar para ela, mas no era para o 
seu rosto. Molly teve vontade de se esconder. Debaixo da cama, num buraco do cho, fosse l onde fosse, desde que ele no pudesse continuar a examin-la daquela 
maneira. Repetindo em parte o que o pai dele tinha feito na noite anterior, Jake descreveu lentamente um crculo  sua volta, fazendo-a sentir-se como se fosse um 
objecto que ia ser licitado num leilo.
      De repente, parou atrs dela, tocou-lhe ligeiramente na ndega direita exclamou:
       Meu Deus!  o rabiosque mais giro que eu j vi em toda a minha vida!
      Molly fechou os olhos com muita fora. Giro? Oh, meu Deus. Giro era pouco, ela precisava que ele a achasse bonita, mesmo que isso no fosse verdade. Tudo o 
que lhe dissesse que no correspondesse a essa expectativa era insuficiente.
      Jake agarrou cada um dos lados da cintura dela com as suas grandes calejadas mos, fazendo-a dar um salto. A camisa dele roou-lhe nas omoplatas, ao mesmo 
tempo que a sua respirao lhe aquecia o pescoo, mesmo por detrs da orelha. Deslizou as mos at  anca dela, pressionando ligeiramente a pele suave de Molly com 
os seus grossos dedos.
      Aproximou-se um pouco mais dela, desviando uma das suas mos da anca para o ventre, onde explorou a salincia que ela tanto detestava. As extremidades dos 
seus dedos contornaram ao de leve a protuberncia, o que fez com que os msculos da barriga de Molly se contrassem.
       Oh, Molly  sussurrou ele , s mesmo maravilhosa. A tua pele parece seda. s assim to fofinha em toda a parte?
      Ela engoliu em seco e um gemido lamuriento, que no foi capaz de reprimir, escapou-se-lhe da garganta. Jake inclinou a cabea, beijou-lhe o ombro e pressionou-lhe 
fortemente o abdmen com a mo, fazendo com que o traseiro dela se encostasse s coxas dele. A ganga das calas de Jake pareceu a Molly quente e abrasiva quando 
ele se roou nela.
      Ele soltou-a repentinamente, andou  sua volta e ps-se diante dela. Os seus olhos, uma autntica exploso de azul no seu rosto moreno, percorreram-na da cabea 
aos ps. Ao fazerem o percurso inverso, detiveram-se nos joelhos, e um pequeno sorriso aflorou-lhe aos lbios. Depois pararam um momento a examinarem-lhe as coxas, 
uma das partes do seu corpo de que ela menos gostava e, a seguir, pousaram-se ardentes no vrtice em que aquelas se juntavam.
      Quando os seus olhos encontraram finalmente os dela, Jake disse:
       Descruza os braos, querida.
      Parecia que Molly tinha colocado cepos sobre os seus seios e no havia nada no mundo que a fizesse mov-los. Ele chegou-se mais perto dela, segurou-lhe nos 
pulsos e obrigou-a afastar as mos. A seguir, deu um passo para trs e olhou para os seios de Molly com uma tal intensidade que os seus olhos azuis pareciam toc-los 
e acarici-los de um modo quase fsico. Aps alguns segundos, Molly tentou novamente tap-los, mas Jake encostou-se a ela.
       No faas isso  sussurrou ele.  No faas isso.
      Ela tremia como varas verdes. Queria parar de tremer, tentou parar, mas os seus msculos pareciam ter adquirido vontade prpria. Sempre que um estremecimento 
lhe sacudia o corpo, os seios agitavam-se-lhe levemente.
      Jake no disse nada, nem ela precisava que ele lhe dissesse alguma coisa. No entanto, soltou-lhe as mos para poder acariciar a parte lateral do corpo dela 
e envolver-lhe os generosos seios com as suas. Ela estremeceu e soltou outro gemido lamuriento no momento em que ele lhe contornou os mamilos com os polegares, atiando 
as rugosas aurolas com movimentos to leves como se fossem plumas, mas evitando os bicos duros e sensveis. Molly sentiu uma dor aguda nos seios, mas a sua respirao 
tornou-se mais calma e menos profunda, os seus pulmes j no arfavam descontroladamente. A viso perifrica foi-se-lhe nublando e, por fim, s conseguia distinguir 
as feies perfeitamente esculpidas do rosto moreno de Jake.
        Meu Deus!  exclamou ele num tom gutural.  s to bonita, Molly. Eu j esperava que fosses, mas a minha imaginao estava muito aqum da realidade.
      Os olhos dela encheram-se de lgrimas. De repente, pareceu-lhe que todo o seu rosto se reduzia a uma boca que se contorcia sem cessar. Jake inclinou-se para 
lhe beijar os cantos trmulos, roando os seus lbios nos dela com uma delicadeza incrvel.
       No chores, meu amor. Por favor, no chores. Lamento muito que isto tenha sido to constrangedor para ti. Tu s to bonita, Molly. To bonita mesmo. Jake 
envolveu-a num abrao fortemente possessivo, o corpo dele estava tenso, mas vibrante de emoo.  No h um canto do teu corpo que no seja perfeito. s maravilhosa 
desde o topo da cabea at a ponta dos ps. At gosto das covinhas de celulite que tens no traseiro.
       Gostas?
       Gosto  garantiu ele.
       No me achas gorda?
      Ele agarrou-lhe numa mo e colocou-a entre ambos, pressionando-lhe a palma contra a braguilha dele.
       Parece-te que esta reaco  de quem te acha gorda?
      Molly sentiu uma rigidez palpitante sob a ganga. A sensao de alvio fez-lhe fraquejar as pernas. Se no fossem os braos robustos dele, no tinha a menor 
dvida de que teria sido incapaz de se manter em p. Com face encostada  camisa de Jake, disse numa voz abafada:
       No.
       Eu bem te disse que te achava bonita. Gosto das tuas formas, Molly e se quisesse uma mulher parecida com uma tbua de engomar, tinha ido  procura de uma, 
mas no  isso que eu quero.  Ps-lhe uma mo no raseiro, deu-lhe um belisco e soltou-a.  Gosto da sensao de te tocar, sempre to fofinha. E adoro o teu aspecto. 
Tens uns seios magnficos, gosto das tuas covinhas e nunca vi umas pernas to bem feitas como as tuas.
      Jake deslizou as mos at s ancas dela e, a seguir, iniciou um percurso lento em direco aos seios, que segurou nas palmas das suas mos. Desta vez, aps 
estimular as aurolas com carcias to leves como plumas, passou os polegares pelos mamilos, provocando-os at eles se tornarem luros e estremecerem.
       Quero beijar estas belezas. Posso?
      Molly estava a tremer  tremia tanto que tinha medo de que as suas pernas viessem abaixo. Subira as escadas e, depois, estivera todo aquele tempo a desnudar-se, 
sempre convencida de que ele lhe iria virar as costas com repugnncia. E, agora, apesar de todas as suas palavras tranquilizadoras, no conseguia acreditar que ele 
no o tivesse feito ou no o viesse ainda a fazer.
       Tens a certeza que me queres?
        Se tenho a certeza?  perguntou ele com uma risada rouca.  Molly, eu morro de desejo por ti  disse Jake numa voz to baixa e aguda que parecia trespass-la.
      Deu-lhe novamente uma pancadinha nos mamilos, fazendo-lhe ccegas com a lngua no interior da orelha. Cada movimento dos polegares de Jake provocava-lhe fortes 
ondas de choque no interior dos seios que lhe faziam estremecer todo o corpo. No seu baixo-ventre, os msculos eram uma massa de calor palpitante e tudo em seu redor 
um formigueiro de desejo. Santo Deus, ele fazia-a quer-lo. Queria Jake Coulter como jamais havia querido fosse o que fosse em toda a sua vida.
      Ele distribua-lhe beijos ao longo do pescoo. Molly, que sentia a respirao quente de Jake sobre as colinas ondulantes que eram os seus seios, gemeu agarrando-se 
s mangas da camisa dele. Usando a lngua como se de um dardo se tratasse, ele percorreu-lhe o rego dos seios ao mesmo tempo que os seus cabelos negros roavam delicadamente 
o pescoo inclinado dela. Os dedos de Molly sentiam a poderosa musculatura dos braos de Jake, e essa fora apelava a toda a sua feminilidade, dando lugar a um desejo 
to ardente que fazia agitar as suas entranhas.
      Ao erguer-lhe um seio, Jake passou a pontinha da lngua pelo seu mamilo. Esse calor hmido f-la estremecer at  ponta dos dedos dos ps e tornou-lhe a respirao 
sibilante.
       Desejo-te tanto, tanto  disse ele numa voz impaciente e implorante que lhe descontrolou os nervos.
      Molly agarrou-lhe o cabelo para que ele no se pudesse mover. Queria sentir a sua lngua ali naquele stio e ele voltou a pass-la pelo mamilo, arrancando-lhe 
um grito. O homem gemeu e soprou ligeiramente sobre a pele molhada da sua mulher e o choque causado por este frio repentino fez Molly desejar ainda mais o calor 
dele.
      Jake soltou-lhe os seios para lhe agarrar o rosto com as mos. Os seus longos dedos enfiavam-se no cabelo dela e as polpas comprimiam-lhe possessivamente o 
couro cabeludo, ao mesmo tempo que as palmas ru-gosas das mos lhe aqueciam as faces.
      Ela tentou concentrar-se nas feies morenas de Jake enquanto este lhe acariciava as mas do rosto com os polegares. Sentiu-o estremecer levemente, compreendendo 
a sinceridade e a fora do desejo dele.
       Oh, Jake  disse ela com voz trmula. Naquele momento de acalmia sensual, a sua cabea aclarara-se ligeiramente. Olhou bem no fundo dos lindos olhos de Jake 
e o que viu neles foi um desejo ardente, quente, puro e visceral. Era a primeira vez em toda a sua vida que um homem olhava para ela daquela forma. Uma sensao 
maravilhosa percorreu-lhe lodo o corpo, uma alegria simples que lhe dava vontade de rir e de danar pelo quarto, uma sensao de alvio que a libertava da terrvel 
tenso acumulada nos msculos.  Eu tambm te desejo, e tanto que nem me consigo controlar.
        Queres-me agora?  perguntou-lhe Jake, rindo-se ligeiramente e deslizando as mos at aos ombros dela. Empurrando-a um pouco para trs, acrescentou:  Bem, 
que nunca algum possa dizer que eu fiz esperar uma senhora.
      Molly gostou mesmo muito de o ver olhar para ela assim. A parte da frente da camisa do marido roava nela, excitando-lhe os mamilos, o que a fazia desejar 
ter a lngua de Jake outra vez sobre eles. Nesse momento as suas pernas bateram na cama e ele deu-lhe um pequeno empurro, fazendo-a tombar para trs. Antes de Molly 
conseguir perceber o que lhe linha acontecido, j Jake se havia lanado sobre o leito e agarrado os ombros da sua mulher de modo a poder elevar a parte anterior 
do seu corpo sobre o dela. O rosto de Jake aproximou-se do seu.
       Minha senhora, quando acabarmos, no haver um cantinho do seu corpo que eu no tenha provado.
      Molly engoliu em seco. Os ombros dele eram quase o dobro dos dela a musculatura do seu peito e braos fazia esticar o tecido da camisa azul que trazia vestida, 
revelando a sua poderosa constituio fsica. O seu cabelo negro todo despenteado caa-lhe em ondas sobre a testa e tinha uma sobrancelha cor de azeviche maliciosamente 
erguida em ar de desafio. Ele sorriu abertamente. O contraste que o claro branco dos seus dentes fazia com a sua pele bronzeada provocou um estranho sobressalto 
no corao e Molly, atingindo-lhe a garganta.
      Antes que ela ficasse muito nervosa, ele colocou a sua boca sobre a ela. Calor hmido e seda a roar. Os lbios de Jake eram suaves, mas firmes, e ele usava-os 
com mestria, obrigando os dela a abrirem-se para eles introduzir a sua lngua. Atravs de assaltos longos e penetrantes, saboreou os recantos mais profundos da boca 
de Molly, roando-lhe o interior das faces, fazendo-lhe ccegas no cu da boca e estimulando-lhe s lbios. Molly sentiu-se tonta. O respirar dele misturou-se com 
o dela no momento em que Jake lhe passou um brao por baixo da cintura para prender a si. Jake. Como j antes havia sucedido, ela esqueceu-se do resto do mundo, 
deixando-se levar pelas sensaes que ele lhe causava. Contorceu-se debaixo dele, agarrou-lhe o cabelo com as mos e estremeceu com o turbilho das emoes que a 
assolavam.
      Desta vez, quando Jake interrompeu o beijo e deslizou os lbios at os seus seios, ela no queria que ele parasse. Jake mordiscou-lhe um mamilo, a coluna dela 
torceu-se como se tivesse adquirido vida prpria, o ar prendeu-se-lhe na garganta e o grito que soltou era de puro prazer. Cada vez que ele movia a lngua, cada 
vez que esta roava na pele dela, os msculos de Molly estremeciam e os seus dedos dos ps contraam-se.
      Ele acariciou-a como se estivesse esfomeado, at se sentir finalmente satisfeito e, a seguir, continuou a provoc-la docemente com os dentes, mordiscando ligeiramente 
aquela zona sensvel e estimulando-a com o roar da sua lngua. Molly gemeu, gritou, mas ele no parava de a provocar.
      O desejo cresceu dentro dela, tornando-se to intenso que quase lhe fazia doer. Sem ter grande noo do que fazia, enrolou as pernas nas coxas dele e encostou 
as ancas queles msculos masculinos deliciosamente firmes, procurando irreflectidamente alvio num balano passional to antigo como a prpria feminilidade.
       Ah, no, ainda  cedo  sussurrou ele.  Vamos deixar isso para mais tarde, querida.
      Ele chegou-se para trs, apoiado nos joelhos, e despiu a camisa. Molly, ao ver o peito e os braos dele desnudos teve dificuldade em manter o ritmo cardaco 
e os seus pulmes precisaram freneticamente de oxignio. Ele era to belo. Sob a luz tnue do crepsculo que entrava pela janela, a pele de Jake parecia bastante 
mais escura do que o habitual e o intenso azul-celeste dos seus olhos prendia-se nos dela. Molly teve vontade de agarrar as salincias que os msculos formavam nos 
seus ombros, roar a polpa dos dedos pelos seus musculosos braos e sentir a textura da sua pele.
       Jake  disse ela com voz trmula.  Eu desejo-te.
      Ele fez-lhe um longo sorriso. Molly recordou-se de ter pensado na primeira vez que o vira, que Jake possua o semblante sombrio de um anjo das trevas. Mas 
agora o seu semblante no era o de um anjo das trevas, era antes o de um homem que sabia o que queria e no tinha a menor inteno de arrepiar caminho.
      Jake atirou a camisa para o lado e pousou a cabea no umbigo dela. O choque que lhe causou f-la rebolar as ancas sobre a cama.
       H alguma coisa de que gostes especialmente, ou alguma coisa em particular de que no gostes?
      Molly mal conseguia pensar, quanto mais articular uma resposta coerente.
       Eu... hum... eu no... com o Rodney eu nunca...  A sua voz perdeu fora quando a lngua dele descreveu um amplo crculo  volta do seu umbigo.  Jake?
      Ele levantou a cabea para olhar para ela com uns olhos subitamente penetrantes e extremamente atentos:
       Com o Rodney tu nunca o qu?  perguntou ele suavemente. Molly deu voltas ao seu confuso crebro para tentar lembrar-se do que tinha pretendido dizer. Ele 
moveu-se, aproximando o seu rosto do dela com um olhar inquiridor.
       Eu nunca gostei de nada  conseguiu Molly responder.
       Comigo no vai ser assim  sussurrou ele.
      Ela sabia que no. A experincia gratificante que tinha vivido at quele momento era a garantia disso.
      Jake inclinou-se para colocar uma vez mais a sua boca sobre a dela. Beijou-a at ela ficar tonta. A seguir levantou a cabea para percorrer com os lbios a 
face de Molly e depois a cana do nariz. Continuou a distribuir beijos ao longo do pescoo dela, detendo-se no V formado pela sua clavcula.
       Se fizer alguma coisa que tu no gostes, diz-me, est bem?
      Ela achava impossvel que houvesse alguma coisa de que pudesse no gostar.
       Est bem  acabou por dizer.
      Ele deslizou os lbios at ao esterno de Molly e quando atingiu outra vez o seu ventre, ela arrepanhou a colcha e fixou um olhar vago no intrincado tecto de 
pinho. Os romances que tinha lido descreviam este tipo de situaes, por isso conseguia adivinhar o que ele tencionava fazer, embora ela prpria nunca as tivesse 
vivido.
      Jake descreveu crculos at chegar ao ninho de caracis cor de caramelo que se encontrava no vrtice das suas coxas. Molly estremeceu e engoliu em seco, as 
suas entranhas contraram-se enquanto ele fazia provocadoramente deslizar os lbios e a lngua sobre a plvis dela. Quando o ventre de Molly se comeou a agitar, 
ele riu-se ligeiramente, ao mesmo tempo que a sua respirao quente e o palpitar do seu corao nas coxas dela a faziam gemer.
      Continuou a descrever crculos at s ancas de Molly e, a seguir, iniciou um lento caminho para baixo, roando o seu peito quente nela  medida que descia. 
Ao beijar-lhe os dedos dos ps, ela sentiu um formigueiro nos tornozelos. A ponta da lngua de Jake foi-lhe subindo at s canelas, provocando-a com pancadinhas 
excitantes at ela no ter a menor dvida de que estava a enlouquecer. No momento em que ele chegou mais acima e enfiou a lngua entre os seus joelhos para continuar 
a desliz-la at  zona iterior das coxas, Molly pensou que ia morrer.
       Ests a gostar?  perguntou ele com voz rouca.
      Molly no teria sido capaz de responder-lhe, mesmo que disso dependesse a sua vida. Quando Jake ultrapassou os caracis dela e alcanou o seu objectivo, mergulhando 
nele a ponta da lngua, Molly foi atingida por choques elctricos que se lhe propagaram por todo o corpo. O pouco ar que ainda lhe restava nos pulmes saiu bruscamente 
e o tecto comeou a rodar lentamente quando ele lhe voltou a fazer ccegas no mesmo stio.
       Querida, responde-me. Ests a gostar mesmo disto?
      Ela sentiu um aperto na garganta. Inclinou-se para a frente, tremendo tanto que lhe parecia que a prpria cama se estava a mexer, e conseguiu dizer quase sem 
flego:
       Sim.
      Jake voltou a mergulhar a lngua nela, inundando-a de terrveis ondas de calor.
        Tens a certeza?  murmurou ele, com os lbios colados a ela. - Se achares que estou a ir longe de mais e a andar muito depressa, eu compreendo.
      O movimento dos lbios dele fez com que Molly visse pontos brilhantes a danarem em frente dos seus olhos. O seu nico receio era que ele parasse.
       Tenho... a certeza.
      Nesse momento, a boca dele fechou-se sobre ela. Molly estremeceu e soluou. Era a sensao mais incrvel deste mundo, muitssimo melhor do que tudo o que tinha 
lido nos livros. Era... ela dobrou-se para a frente, Jake estimulava-a to suavemente que susteve a respirao at lhe latejarem as fontes. Molly voltou a soluar 
e agarrou-lhe o cabelo, tentando pux-lo para si, mas ele continuava a provoc-la com ligeiras pancadinhas, fazendo-a agitar-se e apertar-se por dentro, o que tornava 
o seu desejo ainda mais premente.
      Quando Molly pensou que ia morrer de desejo, ele surpreendeu-a ao pression-la fortemente com a boca, dando-lhe a impresso de que todos os nervos do seu corpo 
convergiam para aquele ponto. Com movimentos rtmicos, Jake acariciou-a com a parte spera da sua lngua, que pressionava cada vez mais, dominando-a por completo 
e desencadeando-lhe espasmos incontrolveis por todo o corpo. No meio das convulses ela sentiu-se livre e gritou, emitindo gemidos agudos a cada respirao ofegante. 
Jake manteve-se colado a ela at o corpo palpitante de Molly j no aguentar mais e, a seguir, acalmou-a com pancadinhas gentis, aliviando as latejantes extremidades 
nervosas que havia espicaado sem piedade at quele momento.
      Molly sentiu-se esvada. No se conseguia mexer, no conseguia pensar, nem concentrar a ateno. Ouviu o barulho de botas a carem no cho, seguido do rudo 
do fecho das calas e do tilintar de moedas a rolarem no soalho de madeira. Numa nvoa, viu Jake mover-se sobre ela. Ele beijou-a suavemente e, a seguir, segurou-lhe 
nas ancas e puxou-a para si. Molly duvidava que ainda tivesse capacidade para experimentar mais sensaes, achando que era impossvel que a apoteose se pudesse comparar 
com o que ele acabara de lhe dar.
      Mas estava errada.
      Quando aquele calor ardente e duro entrou nela, teve a sensao de que estrelas explodiam no seu baixo-ventre. Ele comeou por a penetrar suavemente, avanando 
gentilmente como se ela fosse de porcelana. Quando j estava bem fundo, recuou e, a seguir, voltou a avanar com lodo o cuidado.
        Sentes-te bem?  perguntou ele, num tom invulgarmente sufocado.
      Molly arrepanhou as mos nos seus ombros musculados.
       Oh, sim.
      Ele retomou o ritmo, aumentando a presso dos seus golpes. Exploses de prazer irromperam dentro dela. Soltou um grito e comeou a movimentar-se na mesma cadncia 
que ele, enrolando as pernas  sua volta para melhor se adaptar aos seus movimentos. Sentia-se a subir, mais e mais, como se Jake a conduzisse para um cume ardente. 
O corao saltava-lhe do peito, a sua respirao era ofegante e pontos negros danavam diante dos seus olhos. Jake aumentou a fora dos seus golpes, fazendo-a deslizar 
na cama a cada novo impacto at chegarem a um ponto em que nica coisa que os prendia um ao outro era as pernas dela envoltas nas dele.
      O cu. Molly atingiu o segundo orgasmo no preciso instante em que sentiu o corpo dele contrair-se. Estonteada e com a viso nublada, tentou concentrar-se no 
rosto moreno de Jake, amando-o como jamais amara algum. Jake. Uma corrente elctrica percorreu-lhe o corpo ao sentir os espasmos dele bem dentro dela e, depois, 
nada mais a no ser um delrio em espiral no momento em que juntos atingiram o clmax.
      
      
      
    Captulo 22
      
      
      
      Jake sentia-se como se tivesse o mundo nos seus braos. Molly aconchegara-se a ele, parecendo uma deliciosa almofada anatmica, to fofinha que estava tentado 
a am-la de novo, embora soubesse que a experincia a havia deixado exausta. Sem a menor inibio, o que seria impensvel se estivesse acordada, ela tinha-se encostado 
tanto a Jake que um dos seus seios havia tombado sobre o peito dele. A barriga que ela tentara meter para dentro ao desnudar-se, estava agora descontrada e encaixada 
na concavidade que o corpo do marido formava por cima das ancas, e uma coxa rolia atravessava-se obliquamente sobre ele, como se quisesse prend-lo.
      Jake sorriu na escurido em que o quarto havia mergulhado quando a noite cara. Como se ele pretendesse ir-se embora? Nem pensar. Caramba, ela era magnfica. 
Se a apanhasse outra vez a comer apenas salada ao almoo, dava-lhe aoites no rabo. Gostava dela redondinha. No havia um s stio do seu corpo em que ele pudesse 
tocar sem que o seu rgo ficasse erecto. Tinha vontade de apertar, beijar e acariciar todos aqueles recantos fofinhos e duvidava que ela alguma vez se fartasse 
da experincia.
      Brincou com o cabelo de Molly, adorando a forma como aqueles pequenos caracis se enrolavam nos seus dedos. Chegou-se mais a ela para cheirar o odor do champ 
e da essncia feminina que era exclusivamente sua. Raios. Deixou os caracis resvalarem-lhe da mo para a passar pelo traseiro dela e esboou um sorriso enquanto 
procurava as covinhas da celulite com as extremidades dos dedos.
      Era-lhe impossvel no se maravilhar com as sensaes fantsticas que ela lhe causava. A vida de Jake era muito dura. Levantava-se de manh para enfrentar 
trabalhos rduos, distribuir feno, lidar com os bois e testar a sua fora com cavalos desobedientes. A suavidade acetinada da pele dela excitava-o incrivelmente. 
Pousou uma das suas mos no ombro de Molly e procurou-lhe os ossos. Eles estavam l, mas teve de se esforar para os descobrir, ficando satisfeito com o que encontrou. 
Ela gemeu durante o sono. Ai, ai. Jake beijou-lhe a testa e sussurrou:
       Est tudo bem, Molly querida.
       Mmm  murmurou ela, enroscando-se um pouco mais. O seu corpo descontraiu-se de novo.
      Jake deslizou a mo pelo brao dela  procura dos msculos e tudo o ele encontrou foi uma graciosa covinha por cima do cotovelo. Registou-a na sua mente para 
no se esquecer de passar por l a lngua a prxima vez que fizessem amor. Tocou no osso do cotovelo de Molly e, a seguir, examinou-lhe o pulso e a mo, no encontrando 
quase nada sob aquela pele to macia.
      Ao continuar a pesquisa pela parte inferior do corpo dela, pousou a mo sobre a perna que estava dobrada. Na zona interior da coxa, descobriu uns altinhos 
esponjosos por baixo da pele, pensando que se tratasse a celulite. Altinhos esponjosos e quentes. O seu pnis endureceu e ficou erta.
      Jake suspirou. No a querendo despertar, fechou os olhos e levou mo ao peito, mas em vez deste encontrou um seio. Nesse momento perdeu-se. Desejava-a de novo 
e s conseguiria adormecer se a amasse outra vez. Pousou a mo sobre aquele seio suave como seda. Assim que seu polegar roou o mamilo dela, a pele de Molly retesou-se. 
Quando a puxou para cima e inclinou a cabea para lhe poder tocar com a lngua, ela estremeceu e, a seguir, deu um suspiro, continuando a dormir. Jake puxou-a um 
pouco mais para cima e introduziu o bico do seio dela na boca.
      Aquele bico sensvel aumentou de tamanho e arremeteu entusiasticamente contra a sua lngua. Jake mordiscou-o e, depois, chupou-o, estimulando-o at ele se 
tornar rgido e palpitante. Molly gemeu. Jake sentiu os esbeltos dedos dela contrarem-se sobre as suas costelas e viu-a pestanejar. Deu-lhe um pequeno belisco, 
o que fez com que os msculos da sua mulher estremecessem.
       Jake?  Molly pestanejou de novo.  O que  que ests a fazer?
       Nada. Continua a dormir, amor.
      Como se ele a deixasse! Ai, mas ela estava to apetitosa naquela posio, completamente descontrada e desprevenida. Empurrou-a para trs, sempre com o mamilo 
entre os dentes. Passou, a lngua pelo bico do seio, uma, duas vezes. Os olhos dela arregalaram-se e ele levantou a cabea para lhe sorrir.
       Ol.
      Molly suspirou e contorceu as costas ao mesmo tempo que se agarrava o cabelo dele.
       Caramba.
       Quero-te outra vez. Importas-te?
      Um suspiro sonhador foi a nica resposta dela. Jake tomou-a como um sim e amou-a de novo, mas prestando desta vez especial ateno a todas as covinhas que 
lhe tinham escapado durante o primeiro embate.
      
      Felicidade. Molly compreendia agora que nunca havia sabido o que isso era. Amar e ser amada... era uma alegria indescritvel que a propenso de Jake para a 
brincadeira tornava ainda mais especial. Com ele, Molly depressa descobriu que fazer amor era uma experincia que se devia desfrutar no apenas durante o acto propriamente 
dito, mas tambm nos momentos anteriores e posteriores. Jake divertia-a, provocava-a e brincava com ela. Por vezes, ele fazia-a rir-se tanto que quando finalmente 
a beijava, a paixo irrompia inesperadamente nela.
      Existia apenas uma nuvem no horizonte. Rodney. Molly estava preocupada por o ex-marido no ter ainda voltado com um mandato judicial como havia prometido. 
Conhecia-o e sabia que ele atacava sem piedade quando se sentia numa posio vantajosa.
      Por que no teria ele ainda voltado? Molly tinha a certeza que Rodney conseguiria obter o mandato sem grandes problemas. Era impossvel que ele tivesse descoberto 
que ela e Jake se tinham casado. Havia qualquer coisa que no encaixava e isso tambm preocupava Jake. Ela sabia-o. Sempre que via nuvens nos olhos dele compreendia 
que estava a pensar no assunto.
      Na tarde do terceiro dia aps o casamento, Jake convidou-a para um dos seus passeios habituais ao longo do riacho. Caminharam silenciosamente de mos dadas 
durante bastante tempo at que, por fim, ele disse:
       Sinto-me como se tivssemos sobre as nossas cabeas uma bomba presa por um fio, que a qualquer momento nos pode cair em cima.
      Ela apertou-lhe a mo com mais fora, compreendendo perfeitamente o que ele queria dizer. Nem mesmo nos momentos de maior felicidade, Molly conseguia esquecer-se 
dos dissabores que a aguardavam. O seu futuro imediato aterrava-a. Sabia que se tivesse de voltar para uma clnica no iria conseguir manter a sanidade mental. Depois 
da magia pura que Jake lhe havia mostrado, tudo o que ficasse aqum disso seria para ela um suplcio insuportvel. No acreditava que conseguisse viver sem ele.
        O Rodney quer alguma coisa, Molly  disse Jake suavemente.  Se j matou por causa disso,  bvio que no vai desistir. H-de voltar.
       Eu sei.
      Jake aumentou a presso sobre a mo dela.
        No suporto continuar aqui  espera como um cordeirinho. Vai contra a minha natureza  suspirou com ar cansado.  No consigo deixar de pensar naqueles 
papis que ele queria que tu assinasses. Acho que  por isso que te drogou e te internou na clnica. Pretendia dobrar-te, deixar-te de tal maneira desnorteada que 
acabarias por fazer tudo o que e quisesse, inclusive assinar papis sem os teres lido primeiro.
      Molly sentiu um n no estmago ao recordar-se daquela vez em que ele quase lhe havia batido. Houve momentos, quando estava doente, em que se sentira to aterrorizada 
que teria sido capaz de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, para fugir do pesadelo em que a sua vida se tinha tornado.
       Se ele  teu tutor, isso no faz sentido  referiu Jake.  Devia poder assinar por ti. Por que ser que ele precisa que sejas tu a assinar?
      Ela tambm j tinha reflectido sobre isso.
       Talvez se trate de documentos que no esto abrangidos nos poderes da tutela.  alguma coisa que ele no pode assinar por mim.
       Mas, o qu? Um bom advogado teria conseguido uma sentena de interdio que lhe concedesse poderes suficientes para ter acesso a todos s teus negcios nos 
cinquenta estados da unio.
      A ideia que nesse momento passou pela cabea de Molly causou-lhe um terrvel aperto no corao.
       Talvez tenha a ver com qualquer coisa fora dos Estados Unidos. Jake semicerrou os olhos.
       Raios o partam! Detesto este jogo de adivinhas. Molly tambm o detestava.
       Tenho de ver os registos da empresa  murmurou ela.
      Molly sentiu Jake parar subitamente. A seguir ele olhou para ela com ar preocupado.
       O qu?
       Vou a Portland, iludo a segurana do edifcio e procuro num dos computadores que esto em rede.
       Nem pensar! Isso  muito perigoso.
       Ficar aqui  espera do prximo movimento dele tambm  muito perigoso  respondeu ela.  Conheo-o, Jake. Est a maquinar e a planear qualquer coisa. Se 
o deixarmos dar o primeiro passo, podemos ficar numa situao da qual no vamos poder sair.
       Esquece isso. No te deixo ir.
      H uma semana os modos autoritrios de Jake t-la-iam aterrorizado. Mas neste momento, ao olh-lo nos olhos a nica coisa que viu foi o medo que ele sentia 
por ela. No pretendia control-la, a sua nica preocupao era que estivesse em segurana.
       Podias vir comigo.
      O olhar de Jake tornou-se vago. Ao cerrar os dentes, tremeu-lhe o queixo.
       Acho que sim. Se acontecesse alguma coisa, pelo menos, ficava a saber. E tu no tinhas de enfrentar o filho da me sozinho.
      Molly envolveu as mos dele nas suas.
       Sentir-me-ei muito melhor contigo ao meu lado, disso no tenho a menor a dvida.
      Jake olhou-a nos olhos.
       Est combinado. Vamos juntos.
      O corao dela galopava como se fosse um corcel enquanto pensava em todas as coisas que tinham de fazer, quase todas ilegais.
       Vamos precisar de ter vrios planos.
      Jake pregou a Molly um susto de morte quando lhe soltou a mo, dobrou as pernas e a agarrou pelos joelhos. Quando deu por isso, ela estava pendurada nos ombros 
dele de pernas para o ar e com a cabea a balanar-lhe. Teve de se agarrar ao cinto de Jake para no perder o equilbrio.
        Que raio ests tu a fazer? Jake, perdeste o juzo?
       No. Trouxe-te para aqui por uma razo e raios me partam se vou permitir que o Rodney Wells me lixe. Esta  a nica tarde livre que temos e eu quero aproveitar 
todos os seus segundos.
      Jake caminhava pela floresta, com Molly pendurada ao ombro. Ela protestava e fingia dar-lhe aoites no rabo, que ele retaliava batendo ao de leve no traseiro 
dela, que estava virado para cima.
       Ai! gritava a rapariga, embora no lhe doesse. Ele beliscou-lhe o rabo.
        Eh, desta gostei. Sou um depravado e ainda no tinha dado por isso.
      Ela soltou uma risadinha.
       Est quieto.
      Jake puxou-a ligeiramente para a segurar melhor e virou  direita.
       V l. Deixa um tipo divertir-se.
       Vai divertir-te com o traseiro de outra pessoa.
       No posso. S o teu  que d para isso.
      De repente parou e agachou-se para que ela pousasse os ps no cho. Quando Molly se conseguiu equilibrar, Jake fez um grande sorriso, dando uma pancadinha 
no pinheiro amarelo do oeste que estava ao seu lado.
       Lembras-te desta rvore?
      Molly olhou surpreendida para a rvore em questo.
       Foi esta?
      Ele bateu outra vez no tronco do pinheiro.
       Acredita em mim, foi esta. Era capaz de reconhecer este pinheiro em qualquer stio. Vejo-o milhares de vezes nos meus sonhos.
      Ela riu-se ligeiramente.
        Esquece isso. Ia ficar com espinhos no meu j abusado sim-senhor.
      Os olhos de Jake comearam a brilhar e, nesse momento, enfiou a mo no bolso e retirou o canivete.
       Trouxe o meu apanhador de espinhos. Quando acabarmos, deito-nas minhas pernas e...  Com os olhos cheios de malcia, exclamou: Bolas! Este plano no vai 
dar certo. De certeza que me esquecia de tudo e comeava outra vez a fazer amor contigo.
      Ps-lhe um brao em redor da cintura, inclinou a cabea e mordiscou-e a orelha.
       No!  gritou ela, sem vontade de o acompanhar.  Encostados a uma rvore, no.
       Por favor  pediu-lhe ele, dando-lhe outra mordidela.  S uma vez para tirar isto da minha cabea. Se no o fizer, vai perseguir-me a vida inteira  Jake 
apertou-lhe a cintura com fora e no instante seguinte Molly viu-se encostada ao tronco da rvore.  Enrosca as pernas na minha anca.
      Ela fez o que ele lhe disse. Ao aperceber-se do calor que emanava dos olhos de Jake, o sangue ferveu-lhe nas veias. Ele mexeu-lhe no cabelo ao mesmo tempo 
que a segurava com a parte inferior do corpo. O amor que Molly viu nos seus olhos f-la sentir-se maravilhosamente bela, to bela que no sentiu um pingo de vergonha 
quando Jake comeou a desabotoar-lhe a blusa. O olhar dele lambia-lhe a face como se fosse uma labareda de fogo.
        Trouxeste uma corda?  ela no conseguiu resistir a perguntar-lhe.
      A surpresa apoderou-se do semblante moreno de Jake, que a seguir desatou a rir.
       A cena de amor do livro, no ?
      Antes de Molly lhe conseguir responder, j ele a estava a beijar profunda e apaixonadamente. A sua lngua dominava a dela num jogo de avanos e recuos rtmicos 
que lhe recordava o modo como ele havia tomado o seu corpo. Deixou-se levar pelas emoes. Oh, como ela o amava. As sensaes que a percorriam eram indescritivelmente 
doces e liciosas. O seu desejo por ele era to forte que pensou que jamais o saciaria. Enganava-se,  claro. Jake nunca a deixava insatisfeita. Mergulhava com ela 
no abismo, tirando-lhe tudo o que ela tinha para dar e dando-lhe o que ela podia receber.
      Quando o momento chegou, ele retirou a camisa e entalou-a entre o traseiro dela e o tronco da rvore, querendo-a proteger, mesmo no ardor da paixo. A seguir, 
tomou realidade uma das fantasias mais loucas de Molly. Encostou-a totalmente  rvore, penetrou o seu ansioso corpo e amou-a com uma sede e energia tais que fizeram 
o corao dela dar saltos dentro do peito.
      
      H apenas um ms, Molly nunca se tinha visto como uma criminosa, mas desde que havia roubado um cavalo de corridas de sessenta e cinco mil dlares, j no 
estava to certa disso. E neste momento preparava-se para entrar s escondidas num edifcio, sem dvida uma das experincias mais aterradoras da sua vida. Fizera 
todo o caminho desde Crystal Falls transida de medo a pensar neste instante.
      As mos de Molly tremeram violentamente ao abrir a mala para tirar as chaves da firma, uma das poucas coisas que Rodney se tinha esquecido de lhe levar. Jake 
mantinha-se junto a ela nas trevas, embora uma das suas faces estivesse iluminada pelas luzes do parque de estacionamento. Para no dar nas vistas na cidade, tinha 
prescindido do chapu e havia vestido uma blusa branca e um casaco sport por cima das suas calas de ganga Wrangler. No entanto, o seu ar de cowboy era inconfundvel. 
Molly achava que Jake no perderia esse ar mesmo que trajasse um fato completo de trs peas muito caro, mas no o trocaria por nada no mundo. Parecia-lhe to alto, 
to robusto e to digno de confiana. T-lo perto de si, fazia-a sentir-se menos aterrorizada.
        Oh, Jake  sussurrou ela, olhando para a chave do alarme que tinha na palma da mo.  E se eles mudaram o sistema e o alarme dispara?
       Nesse caso, Molly querida, desatamos a correr com todas as pernas que temos.
      Ela riu-se ligeiramente.
        Que grande ajudante que tu me saste. Os criminosos nunca conseguem correr mais do que os polcias e acabam sempre por ser apanhados.
       A maioria dos criminosos no tem um quatro por quatro com pneus aptos para todo o terreno  disse ele a brincar.  Vo comer a poeira do nosso carro.
      A confiana que sentia na voz do seu marido deu-lhe coragem, por isso Molly respirou fundo e inseriu aquela esquisita chave tubular no buraco da fechadura. 
A seguir, reteve a respirao ao vir-la. A pequena luz vermelha do painel apagou-se e os ombros dela descaram em sinal de alvio.
       Obrigada, meu Deus.
       men!  No momento em que Molly destravou a porta, Jake abriu-a.  Despacha-te, rapariga. Aqui ns damos nas vistas.
      Entraram na empresa. A escurido envolveu-os quando Jake fechou a porta e a trancou de novo. Molly conhecia muito bem o edifcio. Estavam a pisar a carpete 
do vestbulo da entrada, um pouco mais  direita encontrava-se o bar e,  esquerda, ficava a portaria onde ela uma vez tinha apanhado Rodney enrolado com uma funcionria, 
mas agora essa recordao j no a fazia sofrer, nem sequer a incomodava. Aquele terrvel choque havia significado o incio do seu despertar, um percurso que a levara 
para os braos de Jake Coulter.
       Segue-me  sussurrou ela.
        No consegues ver-te livre de mim  disse-lhe ele ao ouvido.  Estamos colados um ao outro.
      Molly foi direita ao escritrio do pai, e s depois de ambos entrarem e fecharem a porta  que acendeu as luzes. Recordaes. Vieram-lhe imediatamente  memria 
com toda a fora, to horrveis e precisas que lhe parecia estar a ser atingida fisicamente. A secretria do pai, onde o encontrara com metade da cabea rebentada, 
e a cadeira onde tantas vezes se havia sentado enquanto ele trabalhava.
      Jake, que estava atrs dela, envolveu-a nos braos e puxou-a, encostando-a ao seu peito.
       Ah, Molly, querida. Fala comigo. No revivas isso sozinha. A voz dela era trmula:
       Parece-me que o estou a ver. Todo aquele sangue.  Molly comeou a tremer.  Eu amava-o tanto, Jake. Ele era to bom. To maravilhoso. O melhor pai do mundo. 
Nunca tive a menor dvida do seu amor incondicional por mim. Nos piores momentos, foi graas a essa certeza que me consegui manter em p. E, de repente, estava morto, 
de uma forma to horrvel.
      O abrao de Jake tornou-se mais forte. Parecia compreender que naquele instante ela necessitava desesperadamente da sua fora.
        assim que eu te amo, Molly querida. Incondicionalmente e para sempre.  Jake levantou a cabea para examinar a sala.  Tenta lembrar-te de outras coisas, 
Molly. De certeza que tambm guardas boas recordaes desta sala.
       Oh, sim  disse ela, suavemente. No entanto, no era das recordaes felizes que se recordava, mas das agridoces, daquelas que haviam definido a sua relao 
com o pai. Tinha onze anos e o corao partido por no ter conseguido o papel principal numa pea de teatro na escola. Os seus seios haviam-se desenvolvido mais 
cedo do que os das outras raparigas e Molly sentia-se muito insegura.  O meu pai era a ncora a que eu sempre me agarrava  murmurou ela.  E, por mais desgostosa 
que estivesse, ele descobria uma forma de me pr a rir e de me fazer sentir especial.
        disso que te deves lembrar, de todos esses momentos especiais. A morte  o nosso ltimo acto, no aquele que define a nossa vida. Lembra-te do teu pai 
como ele era e no como ele morreu.
      Uma sensao de paz envolveu Molly. Agarrou-se a todas as boas recordaes que tinha do pai, encostando-se ao slido peito de Jake, com os olhos momentaneamente 
fechados. Quando os voltou a abrir, sentiu-se recuperada e com foras suficientes para enfrentar fosse o que fosse, desde que este homem estivesse ao seu lado.
      Ao dizer-lhe isso, Jake murmurou:
       Podes enfrentar seja o que for mesmo sem mim. Tens uma grande fora interior, Molly. Constatei isso centenas de vezes. No precisas de mim, nem de ningum. 
Se precisasses no tinhas chegado at aqui.
      Molly endireitou-se e afastou-se dele. Pousou a mala numa cadeira vitoriana estofada, que estava junto  parede, e caminhou em direco  secretria, pondo 
um p  frente do outro e recusando-se a pensar naquela manh em que encontrara o pai sem vida.
      Ao sentar-se na cadeira dele, os seus olhos inundaram-se de lgrimas. Era isto que ela era. Desde criana que via registos de investimentos. Este era o seu 
destino, aquilo para que tinha sido preparada durante toda a sua vida.
       Pareces outra pessoa a sentada  sussurrou-lhe Jake.
      Molly olhou para o marido. O facto de ele compreender exactamente o que ela sentia, sem precisar de lhe dizer uma palavra, deixava-a muito feliz.
       Ol, Molly Sterling  disse ele suavemente, olhando-a bem no fundo dos olhos. A seguir, estendeu-lhe a sua grande mo morena.  H muito tempo que estou 
 espera de a conhecer.
      Molly apertou-lhe a mo. Nesse momento, teve a impresso de que uma corrente elctrica passava do brao dele para o dela, e esboou um ligeiro sorriso.
       Qual  a sensao de ser o marido de uma corretora de bolsa?
       Sinto-me o homem mais afortunado do mundo. Qual  a sensao de ser a mulher de um rancheiro?
      Ela levou algum tempo para responder.
        De felicidade  disse ela suavemente.  Sinto-me imensamente feliz.
      Ele fez um grande sorriso e inclinou a cabea para o computador.  Trabalha, rapariga. Apanha o filho da me pelos tomates.
       Posso liofiliz-los e pendur-los na sala de estar como um trofu?  perguntou ela enquanto teclava.
       Sim, amor. Eu fao-te uma vitrina especial para eles.
      Ela riu-se e continuou a trabalhar. O computador estava ligado  base de dados central, dando-lhe acesso a todos os ficheiros da empresa. Jake observava muito 
interessado, por cima do ombro dela, como Molly invadia o sistema da firma.
       Caramba! s mesmo boa nisso. Molly levantou o queixo com ar decidido.
       Sem dvida, Senhor Coulter. Aprendi com um dos melhores. Apesar de ter recuperado a determinao e a confiana em si prpria, a sua pesquisa revelara-se 
estril.
       Ai, Jake, no h nada aqui. No consigo encontrar uma nica coisa suspeita.  A seguir, abriu os ficheiros pessoais do pai, mas tambm no descobriu nada. 
 E, agora, o que  que eu fao?
       Fazemos um intervalo para nos acalmarmos  disse ele avisada-ente.  Se te deixas levar pelos nervos, no consegues pensar com ireza. Jake encostou a anca 
 secretria e sorriu para Molly:  O que que achas de fazer amor numa cadeira vitoriana?
      Ela riu-se.
       Aqui no.  um santurio.
      Ele suspirou e passou-lhe uma das mos pelo cabelo. Depois, olhou ao redor e disse:
       Quando passarmos seis meses do ano em Portland, onde  que eu vou tomar a minha dose da tarde se no for aqui?
      Molly fez um amplo sorriso.
       Talvez possamos isolar um canto e declar-lo exterior ao santurio.
       Combinado.
      Ela percorreu carinhosamente a secretria de mogno do pai com as mos. O simples facto de lhe tocar avivava-lhe inmeras recordaes.
       Quando eu era mida, o meu pai deixava-me surpresas no compartimento secreto.
       Em que compartimento secreto?
      Molly inclinou-se e olhou para ele com ar desafiador.
       No da secretria. Aposto que no s capaz de o encontrar.
      Jake agachou-se ao p dela e ps-se a examinar a estrutura. Passou a mo pelo lado esquerdo da secretria.
       Nada, nem sequer morno  provocou-o ela. Ele procurou no lado oposto.
       Frio, frio  disse Molly.  Tenta na parte norte.
      Jake procurou mais acima, sentindo um painel de madeira por baixo gaveta central. O seu olhar cruzou-se com o dela e, depois, sorriu. No momento seguinte, 
abriu-se uma gaveta invisvel por baixo da gaveta central.
        Voil  disse ele.
       Sempre que o meu pai saa, comprava-me qualquer coisa e escondia ali  explicou ela suavemente.  Vinha a correr para c depois da escola...  Molly interrompeu-se 
e ficou a olhar para o CD que estava dentro da gaveta. A pele arrepiou-se-lhe e os plos da sua nuca eriaram-se.  Oh, meu Deus, Jake.
      Ele virou-se.
       O que foi?  perguntou Jake antes de ver o disco.  Santo Deus, Molly, acho que ele te deixou um ltimo mimo.
      Molly gostou de o ouvir. Um mimo. Recordava-lhe todos os presentes significantes que Jake lhe tinha deixado no alpendre da casa de madeira.
      Pegou no quadrado de plstico com as mos a tremer. Uma emoo muito estranha apoderou-se dela por saber que o seu pai tinha sido a ltima pessoa a tocar-lhe, 
possivelmente instantes antes de morrer. O corao de Molly batia muito depressa devido  excitao.
       No tiremos concluses precipitadas  murmurou Jake.  D primeiro uma olhadela ao que est l dentro.
      Ela acenou afirmativamente com a cabea.
       Tens razo. O meu pai costumava dizer que as gavetas secretas no serviam para nada porque todas as secretrias tm uma. Ele nunca iria esconder nada de 
importante a.
       Talvez tenha infringido essa regra desta vez  sugeriu Jake com voz rouca.  Se tiveres razo e foi mesmo o Rodney quem o matou, o teu pai pode no ter tido 
tempo de o esconder noutro stio. Ou talvez soubesse que tu irias acabar por abrir esta gaveta, nem que fosse por nostalgia, e achasse que era uma forma segura de 
te transmitir uma informao.
       Pensava que no amos tirar concluses precipitadas. Ele sorriu.
       V o que est no raio do disco  insistiu Jake, num tom muito excitado.
      Molly tremia tanto que s  segunda tentativa  que conseguiu inserir o disco na drive. Dizendo para si prpria que no devia ter grandes expectativas, comeou 
a examinar os ficheiros.
       Oh, meu Deus! Jake. Oh, meu Deus!.
       O qu? No percebo nada. Explica-me.
       Ele usou empresas fictcias para investir fortemente em aces, servindo-se de informaes privilegiadas para fazer as suas apostas, o que  proibido.
       O teu pai?
       No  sussurrou Molly.  O meu pai nunca faria semelhante coisa, embora esteja tudo em seu nome.  uma maquinao do Rodney, no tenho a menor dvida.
       Que grande filho da me  disse Jake suavemente.  Fez negcios sujos e ps as culpas noutra pessoa.
      Molly abriu outro ficheiro. Mais uma vez a nica coisa que conseguiu dizer foi:
       Oh, meu Deus.
      Quando o efeito do choque lhe comeou a passar, sussurrou:
        Deve ter roubado milhes, Jake. Milhes!  Abriu ansiosamente outro ficheiro.  Mensagens electrnicas. Santo Deus, Jake, olha-me s para isto. Informaes 
de outras empresas sobre novos produtos, futuras fuses e alteraes do mercado.  Molly sentiu um aperto no peito ao descobrir que todas as mensagens vinham endereadas 
em nome de Marshal Sterling.  Com informao privilegiada deste calibre, o Rodney fez uma fortuna, servindo-se sempre de empresas fictcias e do nome do meu pai 
para que ningum pensasse que o beneficirio era ele.
       medida que examinava os ficheiros ia ficando cada vez mais alarmada.
       Foi tudo feito sob o nome do meu pai, Jake. Se eu mostrar isto s autoridades, a culpa vai recair sobre ele.  Deixou-se cair para trs na cadeira e olhou 
muito preocupada para o seu novo marido.   tudo obra do Rodney, tenho a certeza absoluta, mas no posso provar.  Com o corao partido, pousou novamente os olhos 
no ecr do computador e disse com voz sepulcral:  Talvez o meu pai se tenha mesmo suicidado, talvez se tenha sentido to desesperado depois de ver isto, que preferiu 
tomar o caminho mais fcil, e sair de cena, em vez de enfrentar o escndalo.
      Jake abanou a cabea.
        Nunca tive a honra de encontrar Marshal Sterling, mas conheo a filha dele. Um esprito fraco, que rebentasse os miolos perante uma dificuldade, nunca teria 
sido capaz de criar uma mulher do teu calibre.
       Oh, Jake, obrigada.
      Ele olhava para o ecr do computador com muita ateno.
       Por que  que todos estes ficheiros no esto na rede geral?  per-;untou.  D a ideia de que o teu pai os copiou de uma hard drive separada ou qualquer 
coisa do gnero.
      Molly sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
       Oh, Jake, fiquei to abalada que no fui capaz de pensar com clareza. Tens razo. Tens toda a razo.  Ela saltou da cadeira.  Isto so registos de transaces 
da empresa, supostamente feitas pelo meu pai, por isso deviam estar na base de dados central juntamente com todas as outras transaces da firma que ele realizou, 
em vez de escondidas num disco.
      Jake colocou-se ao lado dela.
        O meu pai andava terrivelmente preocupado com uma coisa na semana anterior  sua morte. Talvez suspeitasse do Rodney. Na manh em que morreu veio muito 
cedo para a empresa, o que raramente fazia, uma vez que tinha o hbito de ficar em casa com a Claudia antes de ela ir para a clnica. T-lo- feito propositadamente 
para chegar antes do Rodney e dar uma olhadela ao seu computador? O Rodney tambm foi trabalhar cedo nesse dia, pelo menos foi o que me pareceu, mas quando l cheguei 
ele ainda no tinha aparecido, o que achei estranho. Mas no  impossvel que j c tivesse estado e sado depois.
      Jake concordou com a cabea.
       Continua. At agora faz sentido. Molly tremia.
       Talvez tenha apanhado o meu pai no seu escritrio depois de ele ter copiado esta informao para um disco e de o guardar no bolso. Rodney  capaz de ter 
ficado furioso e seguido o meu pai at aqui.
      O pap deve-se ter sentado  secretria enquanto falavam.  possvel que ao aperceber-se que a situao se tornara letal, tivesse conseguido meler o disco 
no compartimento secreto precisamente antes do Rodney o matar.
      Contornou a secretria do pai e dirigiu-se apressadamente para o escritrio de Rodney, comjake atrs dela.
       Conhecendo o meu ex-marido como conheo, tenho a certeza de que ele continua a investir ilegalmente em aces. O Rodney  um jogador. Investir excita-o. 
Diz que  uma forma sofisticada de jogar, mas o que ele fez, na realidade, foi descobrir um modo de virar os dados a seu favor.
       Deus queira que possamos encontrar uma prova que incrimine o sacana.
       O Rodney sabia que o meu pai tinha provas contra ele  gritou ela de forma esganiada, enquanto corriam pelo corredor.  No vs, Jake? Foi por isso que 
ele ficou to furioso quando me encontrou a vasculhar o escritrio do meu pai naquele dia. No sabia onde  que ele tinha escondido essas provas e estava cheio de 
medo que eu as encontrasse, se  que as no tinha j encontrado. Por isso comeou imediatamente a encenar a minha loucura. Necessitava de pr em causa a minha credibilidade 
para no o poder meter na cadeia, caso descobrisse alguma coisa.
      Depois de se sentar na cadeira de Rodney, Molly fechou os olhos e foi buscar foras ao mais profundo do seu ser para se acalmar. Tinha de se fazer justia, 
prometeu ela a si prpria. Rodney iria pagar duramente pelas vidas que havia destrudo. Abriu de novo os olhos, pousou o olhar no ecr do computador dele e ps-se 
a trabalhar com toda a determinao.
      Jake cruzou os braos nas costas da cadeira para espreitar o que ela estava a fazer por cima dos seus ombros.
       H apenas uma pea que no encaixa na tua histria  disse ele em voz alta.  No explica por que  que o Rodney precisa to desesperadamente que lhe assines 
um papel.
       Talvez as respostas estejam aqui  respondeu Molly.
       Se ele roubou milhes, por que  que no pega no dinheiro e se pira?  perguntou Jake.  Pode ir para um pas estrangeiro e arranjar uma nova identidade. 
Tendo em conta os registos que vimos, fez uma fortuna.
        Isso  verdade, mas o Rodney  insacivel. A avidez est-lhe na massa do sangue. Vai continuar a roubar durante todo o tempo que puder. Isto para ele  
um jogo e o Rodney  um jogador compulsivo.
        Nesse caso, tem todo o interesse em que tu fiques sossegada no rancho para que ele possa meter as mos na massa  vontade durante os prximos meses. At 
o mandato do tribunal expirar, o Rodney governa a empresa sem qualquer interferncia tua  resmungou Jake baixinho.
       Isto cheira-me a esturro. No sei o que , mas est-me a cheirar muito mal. Assim que Molly entrou no computador de Rodney deparou-se com um muro intransponvel.
       Muitos destes ficheiros esto protegidos.
        So precisamente esses que  preciso abrir.  a que ele guarda o que  importante.
        Preciso da password  gritou Molly, sentindo-se frustrada.  Valha-me Deus, Jake. O Rodney  um gnio dos computadores. O guru de Silicon Valley, lembras-te? 
Eu sou um beb acabado de nascer comparada com ele. No vou conseguir entrar num sistema que ele protegeu.
      Jake ps-lhe uma mo sobre o ombro. O simples facto de ele lhe tocar ve uma aco calmante sobre ela.
       Molly Sterling Coulter, tu consegues fazer tudo o que te proponhas fazer. No foste capaz de roubar um cavalo, arriscando para isso a tua vida?
        Fui  disse ela num fio de voz. A recordao desse dia horrvel f-la sorrir.  Sim, fui.
        Chhh  disse Jake. Molly sentiu a mo dele estremecer.  Que foi isto?
      O corao dela sobressaltou-se ao ouvir um rudo estridente e repetitivo no corredor. Quase saltou da cadeira, pensando que tinham sido apanhados, mas depois 
acalmou-se. A seguir, soltou uma gargalhada e descontraiu-se, totalmente aliviada.
        o relgio do meu av.
      Jake escutou-o e riu-se ligeiramente.
       Caraas! Pensei que estvamos tramados.
      Molly voltou  sua tentativa para descobrir a password. Experimentou tudo aquilo de que se conseguiu lembrar: o nome dele, as suas iniciais, data de nascimento, 
o nmero da segurana social, mas nada lhe dava acesso aos ficheiros.
       O que ns precisamos  de um golpe de sorte  sussurrou Jake. Sorte. Rodney era um jogador. Molly teclou a palavra, mas no teve exito.
       Bem, tambm no  sorte.
      Ficou a pensar durante um momento e, de repente, um frmito de excitao percorreu-lhe o corpo. Movida por um impulso, teclou Sonora Sunset, o nome do cavalo 
em que Rodney tanto havia apostado.
       Bingo  murmurou Jake.  Acertaste, Molly.
       Consegui entrar  disse ela satisfeita.  Consegui entrar, Jake.
       Caramba!  exclamou Jake, quando ela comeou a abrir os ficheiros.  O Rodney  um rapaz muito ocupado.
      Molly encontrou vrios registos de aces ilegalmente transaccionadas e, a seguir, descobriu anotaes das apostas do seu ex-marido em corridas de cavalos.
        Agora percebo por que  que ele chicoteava o pobre do cavalo, A sorte no tem querido nada com o Rodney. Olha-me s para isto, Jake, Ele sofreu perdas muito 
elevadas, e a maior de todas corresponde  ltima aposta que fez no Sunset.
      Jake assobiou de espanto perante os enormes montantes que Rodney havia perdido.
        Ele  doido. No admira que o sacana no esteja ainda de papo para o ar algures numa praia. Tem apostado em corridas de cavalos  grande e  francesa.  
s isso que ele tem agora? Como  possvel? Est quase falido.
      Molly tambm no era capaz de compreender. Todos aqueles milhes que Rodney havia ganho ilegalmente pareciam ter voado.
       Acho que ele se deixou levar pelo jogo  sussurrou ela.
        Estoirar dinheiro desta maneira no faz sentido  disse Jake.   impossvel que ele no saiba que no pode continuar indefinidamente a usar informao 
privilegiada sem ser apanhado. Devia aproveitar a tua ausncia para arranjar uma fortuna e fugir assim que a situao se complicasse.
      Ela verificou, cheia de tristeza, os registos de todas as perdas de Sonora Sunset nas corridas. Pobre cavalo. Tinha corrido com todas as suas foras pelo Rodney, 
mas no fora capaz de ganhar. Era demasiado jovem e inexperiente, e os seus fracassos valeram-lhe a fria do dono.
        Oh, Jake, achas que o Rodney chicoteou o Sunset todas as vezes que ele perdeu?  perguntou Molly, num fio de voz   S de pensar nisso, parte-se-me o corao.
       Agradeo a Deus que ele tenha conseguido controlar os seus maus instintos em relao a ti  murmurou Jake.
        O Sunset era apenas um animal e no tinha a quem recorrer. O Rodney sabia que eu tinha. O meu pai ter-se-ia enfurecido se ele me levantasse a mo.  Molly 
falou com grande frieza.   Ele matou o meu pai, Jake. Ao olhar para estes ficheiros apercebo-me de toda a sua crueldade. Sei que ele o matou, mas o mais certo foi 
t-lo feito com a conscincia totalmente tranquila. O Rodney no conhece limites, nem tem a menor compaixo seja por quem for.
        Sonora Sunset foi a password que ele escolheu para uma vida de luxo  disse Jake suavemente.  Qual deles  o animal, o cavalo ou o Rodney?
       Graas a Deus que me vi livre dele  murmurou ela.
        Livre, sim. Est na altura de sarar as feridas e andar para a frente, Molly querida.
      Ela sorriu.
       Primeiro tenho de meter o sacana na cadeia.
       Achas que isto constitui prova suficiente para apresentar o caso  Securities and Exchange Commission?
      Molly disse que sim com a cabea e comeou a copiar todos os ficheiros protegidos para discos.
       Mais do que suficiente. As datas das transaces mais recentes provam que o meu pai no teve nada a ver com isto. Os mortos no fazem operaes de bolsa 
ilegais e, graas ao Rodney, eu sa de cena h alguns meses. Portanto tambm no pode pr as culpas em mim.
      Quando Molly acabou de fazer as cpias e se levantou da secretria, ele deu uma olhadela ao luxuoso escritrio.
       Tens ms recordaes desta sala?
       Montes delas  admitiu Molly. Surgiu um brilho nos olhos de Jake.
       Tambm  um santurio?
        mais a cmara dos horrores.
      Jake segurou-lhe no queixo com os dedos.
       Achas que ele alguma vez te enganou com outra aqui?
       No tenho qualquer dvida. Ele sorriu de orelha a orelha.
       Queres vingar-te? Molly deu uma risadinha.
       Acho que  melhor deixarmos isso para mais tarde, Senhor Coulter. Se fssemos apanhados, o senhor ia ter dificuldade para fugir com os jeans enrolados nos 
tornozelos.
        verdade.
      Jake concordou, mas beijou-a na mesma. Para Molly, a magia desse beijo foi suficiente para apagar todas as ms recordaes e criar-lhe outras novas e magnficas. 
Rodney Wells j no tinha qualquer poder sobre ele.
      
      Ao sarem da cidade o nico stio onde Molly pediu a Jake para parar era no cemitrio. No voltara a ver a campa do pai desde o dia do enterro e estava na 
altura, mais do que na altura de o fazer, e ela sentia-se finalmente pronta para enfrentar a dor.
      Como era habitual em Portland, chovia no momento em que Jake estacionou o carro perto do tmulo do pai dela. Encolhida no impermevel que ainda no tivera 
ocasio de vestir desde aquela fatdica manh em que havia deixado a cidade, Molly ficou rapidamente encharcada aps ter passado algum tempo de p junto  lpide. 
O seu cabelo, completamente molhado e colado  cabea, pingava. No entanto, ela permanecia imvel a olhar para a campa. Era to triste, to terrivelmente triste 
que a vida inteira de um homem pudesse ser reduzida a um trao entre duas datas.
      Era como se nunca tivesse existido. Recordou-se da inscrio na rvore de Jake, PETER, 1976-1983. A vida era to curta e a morte to definitiva. 
       Vou contactar as autoridades na segunda-feira, pap  explicou da calmamente.  Como amanh  domingo, no posso faz-lo mais cedo, mas prometo-te que no 
irei descansar at resolver este assunto. Peo a Deus que consiga apresentar um caso consistente contra o Rodney. No entanto, para o meter na cadeia, tenho de correr 
esse risco. Se falhar  possvel que arraste o teu bom nome na lama, e a reputao da Sterling and Wells poder ver-se tambm manchada. Sei muito bem o que a firma 
representava para ti.
      Molly engoliu em seco e fechou os olhos.
        Se isso suceder, custar-me- muito, pap. Mas no posso deixar de o fazer. Espero que me compreendas e perdoes se as coisas correrem mal.
      Jake, que havia estado sempre por perto sem que ela se apercebesse disso, juntou-se nesse momento a Molly e envolveu-a nos seus fortes braos.
       Tens de parar de te torturares dessa forma  sussurrou ele.  Porque  que achas que o teu pai fez uma cpia dos ficheiros do Rodney? Para meter o sacana 
na cadeia,  claro. Em circunstncias semelhantes, eu teria feito o mesmo. Comeo a pensar que o teu pai se parecia comigo em muitos aspectos.
      Molly sorriu entre lgrimas e gotas de chuva, compreendendo que ele tinha razo. Embora soubesse que aquele momento no era o apropriado, perguntou-lhe a tremer:
       Quem era o Peter, Jake? Ele contraiu-se.
       O qu?  A tenso saiu-lhe lentamente do corpo.  Viste a minha rvore?
        Sim  respondeu Molly, inclinando a cabea para a lpide.  Ao olhar para as datas lembrei-me.
      Jake encostou a face ao cabelo dela.
        O Peter era o meu co. Morreu para me proteger de um boi que se lanou contra mim.
      A tristeza que ela notou na sua voz partiu-lhe o corao.
       Deve ter sido um co muito especial para ti.
       Foi o meu nico co. Ao enterr-lo, jurei que nenhum outro ocuparia o seu lugar.
       E cumpriste a promessa?
      Molly voltou a sorrir entre lgrimas e gotas de chuva. Na verdade, ela no estava a fazer uma pergunta, j tinha compreendido que este homem quando amava era 
de alma e corao. Reconfortava-a saber que Peter continuava vivo na memria dele. As datas na lpide do pai no eram apenas nmeros esculpidos na pedra. Comemoravam 
a sua vida, e o trao representava a parte mais significativa, todos os acontecimentos ocorridos desde que entrara em cena at ao acto final. Jamais o esqueceria 
e, por isso, ele nunca se iria verdadeiramente embora.
       Posso pedir-te um favor, Jake?
       Sim.
       Deixas-me gravar o nome do meu pai na tua rvore? Jake apertou-a com mais fora.
       Agora  a nossa rvore, Molly querida. Acho que o nome do teu pai tem de l estar.
      A rvore deles. Oh, sim. Como ela tinha gostado de ouvir aquelas palavras. Um dia iria gravar o nome do primeiro neto do seu pai no tronco daquele belo carvalho. 
Marshal Sterling perpetuar-se-ia nela e nos filhos que ela e Jake viessem a ter.
      Pela primeira vez em muito tempo, Molly sentiu-se perto de ser a mulher que o pai pretendia que ela fosse.
        Sinto-o aqui  disse ela.  Penso que ele est a olhar para ns neste preciso momento. E sabes uma coisa?
      Molly viu-o esboar um sorriso.
       No, o qu?
       Acho que ele est no cu a congratular-se juntamente com os anjos por ver a filha nos braos de um homem to bom.  Virou-se para lhe emoldurar o rosto com 
as mos.  E sabes mais uma coisa, Jake? Nada nos poder deter. Juntos vamos dobrar o Rodney Wells e faz-lo pagar bem caro por tudo o que fez. Ao Sunset, a mim 
e ao meu pai. Ele h-de pagar, isso garanto-te eu.
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 23

      
      O sol da manh, ao entrar pela janela da cozinha, inundava as paredes e os soalhos de madeira com a sua luz dourada. Jake e Molly, sentados em cantos opostos 
da mesa, serviam o pequeno-almoo um ao outro, exceptuando os ovos da omoleta, toda a comida era vegetariana. Molly lambia os beios, saboreando o sumo de um pssego 
maduro, ao mesmo tempo que levava um garfo cheio de fruta  boca do marido. Riu-se quando ele fintou o garfo para lhe mordiscar os ns dos dedos.
       Preferia comer-te a ti  disse ele com voz rouca.  Vem para cima comigo.
         de manh  protestou Molly, lanando um olhar  janela.  E, alm disso, hoje  o meu dia de folga. No quero pass-lo na cama.
      Ele arqueou as sobrancelhas.
        Se formos l para cima, tomamos um brunch ao estilo Jake Coulter.
      Os dedos dos ps dela encolheram-se de excitao dentro das enormes meias de l que tinha tirado da gaveta de Jake.
       Um brunch?  O olhar de Molly pousou-se na boca dele. Imaginou os seus lbios deslizando-lhe pela pele e sentiu um calafrio delicioso na coluna vertebral. 
Numa voz invulgarmente grossa, disse:  s capaz de me convencer. Diz-me mais coisas.
      Jake colocou um pedao de pssego entre os dentes, quase sem roar na sua polpa madura, e deu-lhe pancadinhas com a lngua.
       Anda l para cima  sussurrou ele.  Farei tudo o que puder para te convencer, mas com actos, no palavras.
      Molly deixou cair o garfo e levantou-se da cadeira. Ele percorreu-a com os olhos at  bainha da T-shirt, onde se deteve um momento para lhe admirar as pernas 
desnudas.
       Sabias que tinhas umas covinhas muito engraadas nos joelhos?
      Ela inclinou-se para as ver. Quando voltou a olhar para ele, enrugou maliciosamente o nariz.
       H homens que so loucos por estas covinhas.
       Eu sou um deles.
      Cinco minutos mais tarde, Jake estava decidido a mostrar-lhe at que ponto era louco por elas, e Molly tinha a impresso de ser um banquete confeccionado propositadamente 
para o satisfazer. Ele mordiscou-lhe as covinhas do traseiro e, a seguir, beijou-lhe as que se encontravam na zona dos rins. Depois foi-lhe passando lentamente a 
lngua pela espinha at ao pescoo. Quando Jake a virou para lhe beijar o peito, Molly sentiu um forrmigueiro espalhar-se por todo o seu corpo.
       Eu disse-te esta manh quanto gostava de ti?  perguntou ele.
       H j uns bons vinte minutos que no mo dizes. Ele sorriu abertamente.
       Amo-te mais do que consigo exprimir por palavras. Compreendes o que eu quero dizer, no  verdade? Acho que tenho de te provar.
      Jake era muito melhor a provar do que a exprimir-se, concluiu Molly uns trinta minutos mais tarde. Ele tambm sabia como monopolizar por completo o dia de 
folga de uma rapariga. Quando terminou, a nica coisa que ela desejava era aninhar-se nele e dormir.
       Faz uma sesta comigo  aliciou-o ela. Ele franziu as sobrancelhas.
       Tenho coisas para fazer.
       Tais como?
       Coisas de trabalho, por muito que me custe dizer essa palavra.  o dia de descanso dos homens. Aos sbados e domingos sou eu e o Hank quem carrega com o 
trabalho.
      Molly murmurou algumas palavras de descontentamento e mordiscou-he o peito:
       Bem, nesse caso, exijo que o meu horrio seja alterado. Quero ter dias de folga que tu possas compartilhar comigo.
       Vai falar com a mulher do patro. Tive a esperteza de me casar e agora j no me preocupo com chatices domsticas.
      Ela fingiu que lhe dava murros no peito, mas a seguir mudou de tctica e comeou a beij-lo.
       Faz uma sesta comigo. Prometo que te recompenso quando acordarmos.
      Jake sorriu e fechou os olhos.
       s capaz de me convencer. Diz-me mais coisas. Ela ps-se de joelhos.
        Prefiro fazer-te uma demonstrao. Sou muito mais convincente com exemplos do que com palavras.
      Ele riu-se.
        um esforo intil. Acabmos agora mesmo e eu necessito de recuperar as foras.
       Vai uma aposta?
       Quanto  que queres apostar? Molly deu uma risadinha.
        Quem falou em dinheiro?  perguntou ela e murmurou-lhe ao ouvido o que queria que ele lhe fizesse se ela ganhasse.  O que  que me dizes disto?
      Jake olhou-a com os olhos meio fechados.
       Tu ests em brasa e eu acabo de perder a aposta s de pensar nisso.
      Ela olhou para baixo, confirmou o que ele lhe acabara de dizer e desatou-se a rir. No entanto, Jake no a deixou regozijar-se muito tempo. Sem que ela tivesse 
percebido muito bem como, j ele a estava a amar outra vez. Um amor lento e indolente, que acabou com os dois a ressonar nos braos um do outro.
       Jake!
      Molly acordou assustada com os gritos de Hank a chamar pelo seu marido. Depois ouviu o rudo de botas subindo as escadas. Jake sentou-se na cama a esfregar 
os olhos enquanto ela se cobria com os lenis. Imediatamente a seguir a porta abriu-se.
       Veste-te e despacha-te  berrou Hank.  No percebo como, mas os cavalos fugiram. Foram parar a toda a parte. O dono do rancho que fica no fim da estrada 
acaba de telefonar a dizer que tem l dois.
        Isso  a trs quilmetros daqui!  disse Jake entre os dentes.  Raios os partam! Como  que eles saram?
       Sei l, mas temos de os trazer para casa antes que algum deles seja atropelado.
      No momento em que o irmo saiu do quarto, Jake afastou os lenis para trs e deu um pulo para fora da cama.
       Bem, isto acaba definitivamente com a sesta. Molly segurou-lhe no cotovelo.
       Posso ajudar-vos a apanhar os cavalos?
      Ele inclinou-se para trs para a beijar e, a seguir, ps-se de p e enfiou as calas.
       Mais do que outra coisa, este trabalho  muito demorado  explicou, piscando-lhe o olho ao mesmo tempo que se dobrava para calar as meias e as botas.  
Prefiro que fiques aqui  minha espera. Ainda no te paguei a aposta que perdi.
      Ela suspirou e voltou a aninhar-se, sentindo-se deliciosamente preguiosa e satisfeita.
       Ento, fico aqui  tua espera.
      Jake tirou o chapu que estava enfiado na coluna da cama e p-lo na cabea.
       Se continuares a olhar para mim dessa maneira sou capaz de mandar os cavalos para o diabo.
      Molly riu-se sonolenta.
       Vai-te embora e faz o teu trabalho de cowboy. Eu agora preciso de algum tempo para recuperar as foras.
      Pouco depois de Jake sair do quarto, Molly aconchegou-se na cama abraada  almofada do marido para voltar a adormecer no meio do cheiro dele. Jake. Vagueava 
numa satisfao indolente, presa num mundo idefinido entre os sonhos e a viglia. Oh, como o amava. Era como se sua fada-madrinha tivesse agitado a varinha mgica 
para que todos os eus desejos se concretizassem.
      Mal caiu no sono, foi acordada por um estrondo. Pestanejou sonolenta tentando perceber o que era. Ao abrir os olhos, surpreendeu-se por ver a porta do quarto 
aberta de par em par. Sabia que o marido a havia fechado antes de sair. Endireitou-se, apoiada num brao.
       Jake, j encontraste os cavalos?
      Nesse momento, uma mo vinda de trs puxou-lhe o cabelo. Molly gritou com a dor que sentiu no couro cabeludo. A seguir, foi arrastada para fora da cama. Conseguiu 
entrever umas calas cinzentas e uns mocassins brilhantes.
       No, minha vaca gorda, ele ainda no encontrou os cavalos. Rodney. Ficou gelada de pavor. Afastou-lhe freneticamente a mo para que ele no lhe agarrasse 
com tanta fora o cabelo. Mas Rodney arrastou-a pelo cho e puxou-lhe a cabea com uma tal brutalidade que Molly teve medo que ele lhe partisse o pescoo.
       Meus Deus, s mesmo asquerosa  disse-lhe Rodney, encostando a sua cara  dela.  O sacana est to habituado a lidar com vacas que j no distingue as tetas 
delas das mamas de uma mulher.
      Molly fixou a ateno nos olhos cor de avel do ex-marido. Por estranho que parecesse, as suas palavras no a afectavam. Podia dizer tudo o que quisesse que 
no conseguia ferir os seus sentimentos. Ele j no a magoava. Molly tinha uma boa recordao de Jake para cada uma das palavras cruis que Rodney lhe havia dito.
       O que  queres, Rodney?
      Quando ele lhe encostou um objecto frio  fonte, percebeu imediatamente que se tratava de uma arma. Nesse momento, sentiu um n no estmago.
       Se ds um grito eu puxo o gatilho  sussurrou ele.  Veste o teu gordo cu. Ns vamos fazer uma pequena festa.
      Mal ele a largou, Molly afastou-se, andando de gatas. Sem nunca deixar de lhe apontar a arma, Rodney seguiu-a at  cmoda onde Jake havia esvaziado algumas 
gavetas para ela poder guardar a sua roupa. Com os dedos entorpecidos pelo medo, Molly retirou umas peas de roupa interior e vestiu-as apressadamente. A seguir, 
dirigiu-se ao roupeiro para pegar numas calas de ganga e uma blusa, sempre com Rodney atrs dela.
       Onde  que esto os discos do computador?  perguntou ele no momento em que ela vestia a blusa.
      Molly olhou para o ex-marido, fingindo uma expresso perplexa.
       Que discos do comp...
      Rodney bateu-lhe com as costas da mo na boca. A fora da pancada projectou-a para trs, indo chocar com a cabea na parede de madeira. De repente, as suas 
pernas foram-se abaixo e Molly deslizou pela parede at acabar sentada no cho a olhar estupidamente para ele.
      Encostando-lhe o cano da arma entre os olhos, Rodney disse:
        No brinques comigo, Molly. Eu rebentei os miolos do teu pai e podes ter a certeza que tambm rebento os teus.
      Isso no era nenhuma surpresa para Molly. Pestanejou, tentando recompor-se. Doa-lhe o queixo onde ele lhe tinha batido e sentia a cabea a andar  roda.
       Achas que algum entra no meu computador sem eu dar por isso?   perguntou-lhe ele, asperamente.  s to estpida como o teu pai.  Rodney bateu com a mo 
no peito.  O meu sistema  inviolvel. Se algum lhe mexer dou imediatamente por isso ao lig-lo, e tu deixaste marcas por todos os lados. D-me as cpias que fizeste.
      Molly teve medo de o desafiar. Levantou-se com dificuldade e tirou os discos do computador do bolso do casaco desportivo de Jake. Rodney arrancou-lhos da mo, 
examinou-os e enfiou-os no bolso do fato.
       Obrigado  disse ele suavemente.  Agora, acaba de te vestir. Rodney continuou a falar enquanto ela pegava nas calas de ganga e se encostava ao armrio 
para as conseguir vestir.
       Foi uma pena que o teu cowboy grande e forte no me tivesse ouvido quando eu lhe disse para no se meter nisto  vangloriou-se ele.
       Preferiu ficar com uma louca no rancho, cujo ltimo acto insano lhe vai custar muito caro.
      Ela no fazia a menor ideia do que ele estava a dizer at Rodney a forar a ir ao corredor com a arma apontada  cabea. Mesmo  porta do quarto estava uma 
lata de vinte litros de diesel.
       Espalha-a pelo cho.  E com um daqueles sorrisos melosos que ela odiava, acrescentou  Emprestava-te as minhas luvas, mas  muito importante que deixes 
impresses digitais na lata. Tenho a certeza de que compreendes.
      Molly compreendia perfeitamente. Meu Deus! Oh, meu Deus! Ele pretendia pegar fogo  casa de Jake. Mas, por muito que isso lhe custasse, ainda estava mais preocupada 
consigo prpria. Rodney tinha admitido abertamente que havia assassinado o pai dela. Nunca o faria se tivesse intenes de a deixar viva.
      Sempre com Rodney atrs de si, Molly foi espalhando combustvel pelo cho. Quando a lata de vinte litros ficou vazia, ele mandou-a descer as escadas com um 
gesto.
       Leva a lata contigo. Vamos deix-la l fora para servir de prova  polcia.
      Ela desceu os degraus rezando desesperadamente, implorando a Deus que interviesse de alguma maneira. Rodney pretendia mat-la, lia isso nos seus olhos. Sentia 
o sangue gelar-se-lhe nas veias, de to aterrorizada que estava.
      Ao chegarem ao andar de baixo, Rodney sorriu outra vez, inclinando cabea para lhe indicar outra lata de diesel.
       J sabes o que tens de fazer e no te ponhas a engonhar, porque se o teu cowboy voltar, vai ser um heri morto. No  isso que tu queres, pois no?
      Molly imaginou a fria de Jake ao deparar-se com aquela cena. Sentiu um aperto doloroso no corao, uma vez que sabia muito bem que no era a casa que ele 
iria defender em primeiro lugar. Uma raiva impotente eclodiu dentro dela. Passara toda a sua vida adulta pensando que no era grande coisa e, agora, pela primeira 
vez em onze anos, sentia-se feliz. Jake Coulter transformara a sua vida. Amava-o e era amada por ele. Ele tinha conseguido o impossvel, faz-la sentir-se bonita. 
No apenas assim-assim, no apenas engraada, mas verdadeiramente bonita. Rodney queria destruir tudo isso da pior maneira possvel, fazendo com que ela parecesse 
como a responsvel do crime.
       medida que espalhava diesel pelo soalho do grande salo, recordou-se de todas as vezes que o tinha atravessado com Jake. As lgrimas quase a cegaram ao lembrar-se 
da noite em que Hank brincara com ela, metendo-lhe medo com os pumas. Agora tinha uma famlia. Os irmos e irm de Jake, e os pais dele, que lhe haviam chamado filha 
e recebido e braos abertos. No queria morrer e perder tudo o que a fazia sentir-se parte dessa famlia.
       Agora a cozinha  disse Rodney, num tom baixo e venenoso. Molly engoliu em seco para a voz no lhe tremer.
       Vais matar-me, no vais?
       Cada coisa a seu tempo. Primeiro temos de acabar isto.
      Molly lanou mais diesel para o meio do cho. O combustvel juntou-se  volta da mesa de pernas cruzadas construda por Jake. Oh, meu Deus! Pensou no relgio 
feito com ferraduras de cavalos. A seguir vieram-lhe mente imagens da casa de banho do andar de baixo onde uma velha larrica de Jack Daniel fazia as vezes de mvel 
do lavatrio, e vrias ferraduras tinham sido unidas e utilizadas como toalheiros. Toda a moblia do grande salo fora feita com rvores do rancho. Em todos os cantos 
desta linda casa estava a marca de Jake Coulter. Havia-a construdo com as suas grandes e hbeis mos, e cada uma das suas salas era nica.
      Rodney, que tinha passado toda a sua vida roubando e destruindo avidamente, era incapaz de compreender que o que estava prestes a incinerar no era apenas 
uma casa, mas o sonho de Jake Coulter.
       Se me vais matar, vou aproveitar os ltimos minutos que me restam  afirmou ela, endireitando-se e voltando-se para encarar o homem que quase a tinha destrudo. 
 Quero que saibas quanto te odeio.
      Ele limitou-se a sorrir.
       Tu foste menos que uma mosca na minha vida, minha cara Molly. Achas que eu me vou preocupar com isso?
       No  respondeu Molly com uma voz cujo tremor revelava a averso que ele lhe causava.  Tu nunca te preocupaste com ningum a no ser contigo prprio. Ao 
olhar para ti, sabes o que  que eu vejo, Rodney? Absolutamente nada. Nem sequer as tuas facetas mais desprezveis tm para mim qualquer significado.
      Rodney fez um trejeito de desdm com a sua boca perfeitamente desenhada, que ela outrora havia admirado.
       Cala-te e espalha a porcaria da gasolina.
       Diesel  corrigiu-o ela.
      Molly no tinha outra soluo a no ser fazer o que ele lhe ordenava. De repente, sentiu-se muito afastada de tudo. Pensou por uns instantes se isso no seria 
uma espcie de instrumento de defesa que Deus tinha feito surgir dentro dela. Indiferena. Estava prestes a morrer e, no entanto, isso no a afectava, deixara de 
ter medo, apenas sentia indiferena.
      Quando acabou de regar a casa com diesel, Rodney mandou-a atirar as latas pela balaustrada do alpendre para que cassem no ptio da frente. Depois, sem nunca 
deixar de lhe apontar a arma, tirou um isqueiro do bolso.
       No faas isso, Rodney  tentou ela persuadi-lo.  O Jake nunca te fez mal. Ele est inocente. Se lhe incendiares a casa, vais arruin-lo. No podes acabar 
o que vieste c fazer, deixando-o de fora?
       Oh!  exclamou ele num tom falsamente compreensivo.  Sossega, minha querida. Parece-me que a Molly pequenina e gordinha est apaixonada. Outra vez. No 
chores por ele, amorzinho. De quanto tempo  que achas que ele vai precisar para se fartar de ti? No muito, isso  garantido. Acredita em mim. s a mulher mais 
insuportavelmente chata que eu conheo.
      Ela olhou para a porta da casa, onde poas de diesel se tinham formado mesmo junto  entrada. Rodney deu um passo para o lado e inclinou-se para chegar a chama 
do isqueiro ao combustvel.
       Prepara-te para te mexeres  disse ele.
       Por favor, no!  gritou Molly.
      Rodney riu-se. O combustvel incendiou-se, num horrvel crepitar de chamas. Ele saltou para trs, com um brilho terrvel nos seus olhos cor de avel.
       s to louca, Molly. Por que carga de gua haverias de pegar fogo  casa do teu amado? As pessoas vo abanar a cabea. As prprias latas de combustvel so 
do Lazy J, o que torna tudo perfeito. Vo pensar que as foste buscar ao barraco.
      Segurou-a pelo brao, fazendo-a descer as escadas  sua frente. Sunset comeou a relinchar no seu cercado. Pelo som que ele fazia, Molly compreendeu que o 
garanho tinha reconhecido Rodney. Arrastada por ele, caminhava aos tropees em direco  floresta. De repente, este parou aproximadamente no mesmo local onde 
ela vira Jake pela primeira vez, a serrar um pinheiro. Jake. Pensar que a casa que ele havia construdo pudesse ser completamente destruda pelo fogo, partia-lhe 
o corao. Agradeceu a Deus por ele ter derrubado a maior parte das rvores em redor da casa e do estbulo, formando uma barreira para as chamas. Tinha-o feito para 
proteger os edifcios em caso de incndio florestal, estava certa disso. Felizmente, as precaues que tomara tambm eram eficazes no sentido inverso, evitando que 
as labaredas se propagassem s rvores.
      Agarrando-a selvaticamente pelo cabelo, Rodney obrigou-a a ajoelhar-se. As pedras picavam-lhe as canelas e sentia uma dor lancinante nas coxas. No instante 
seguinte, uns papis e uma caneta apareceram-lhe diante do rosto.
       Desta vez vais mesmo assin-los. Molly pestanejou tentando ver melhor.
       Outra vez os papis?  Tremia violentamente quando os segurou.  J que me vais matar, pelo menos diz-me o que so.
       Assina essa porcaria!  ordenou-lhe Rodney, encostando o cano da arma com tanta fora  sua fonte, que ela at viu as estrelas.  Garanto-te que se no o 
fizeres, te rebento os miolos. J no tenho nada a perder. Nada.
       Claro que no. Jogaste tudo o que tinhas.
      Rodney virou a mo para lhe bater com a arma na cabea. A parte da frente atingiu-lhe o couro cabeludo, causando-lhe uma dor to lancinante que as lgrimas 
lhe vieram aos olhos. Tentou concentrar-se nos papis. O rudo da casa a arder penetrava-lhe nos ouvidos como se fosse o rugido de uma fera esfomeada. No precisava 
de olhar para trs para saber que a casa de Jake se havia transformado num autntico inferno. As letras eram apenas um borro e ela no era capaz de ver onde  que 
tinha de assinar.
       Assina!  gritou Rodney.
       Estou a tentar, raios te partam. Pra de me bater. No consigo ver nada.
      Ele encostou-lhe novamente o cano da arma  fonte.
       No fim da pgina. Assina!  Rodney deu-lhe uma forte cotovelada,  A tua recusa em assinar lixou todos os meus planos. Todos. Por que  que, de repente, 
te tornaste to teimosa? Trouxe-te papis para assinares mais de cem vezes e sempre o fizeste sem pestanejar. Por que  que da nica vez que era mesmo importante, 
tinhas de te mostrar to estupidamente cautelosa?
        Antes no tinha importncia!  gritou ela, continuando a tentar concentrar-se no papel.  Mas depois da morte do meu pai passei a ter obrigaes para com 
a empresa. Tinha de ser responsvel.
       Responsvel? Santo Deus! S causaste dissabores a ti prpria, minha vaca estpida. Se me tivesses assinado isto, ter-me-ia pirado, deixando-te em paz. Mas, 
no, decidiste tornar-te difcil pela primeira vez no nosso casamento.
       O que  que eu estou a assinar?  perguntou Molly, esforando-se para manter a caneta entre os seus dedos trmulos.
       Uma conta num paraso fiscal! Milhes de dlares, Molly. Todos eles automaticamente depositados em empresas fictcias em teu nome. Dessa forma, eu no era 
o beneficirio directo dos lucros, portanto se algum viesse a descobrir, eras tu e o teu pai que ficavam com as culpas. Pensei que sendo teu tutor tinha poder para 
fazer levantamentos, mas a porcaria do paiseco estrangeiro no considera os meus documentos legais. Tanto dinheiro e no podia movimentar nem um cntimo. Estava 
quase falido e tu recusavas-te a assinar. A minha nica forma de sobreviver era apostar nas corridas com o dinheiro que tinha aqui,  espera de ganhar.
       Mas o Sunset perdia sempre  interrompeu-o ela, com voz cavernosa.
       O raio do cavalo tem quatro ps esquerdos  respondeu Rodney amargamente.
       Ento, foi por causa disso que eu fui metida no manicmio?  Molly tinha vontade de se atirar a ele, furar-lhe os olhos, mord-lo e pontape--lo.  Tiraste-me 
a liberdade por dinheiro!
       No foi intencionalmente. Tu obrigaste-me a isso. O que querias que eu fizesse, que te deixasse ir embora sem assinares isto, ficando com milhes de dlares 
a apodrecer numa conta onde nem sequer posso tocar? Tinha de te obrigar a assinar. Estava convencido que mais cedo ou mais tarde acabarias por o fazer.
       Por que raio  que meteste o teu dinheiro sujo numa conta em meu nome?  gritou Molly.
       E por que no o havia de meter? Se alguma coisa corresse mal, tinha tudo arranjado para que a culpa recasse em ti e no teu pai, podendo ir-me embora sem 
qualquer problema.
       Para acumular outra fortuna?
      Ele sorriu.
        Tive lucros graas ao meu gnio. Condenas-me? Tu e o teu pai foram mesmo estpidos ao deixarem-se usar to facilmente. Por que no havia eu de aproveitar?
      Molly encostou a caneta ao papel, lembrando-se de todas as vezes em que se havia recusado a assinar.
       Ento, foi tudo por dinheiro. Mandaste-me para o inferno por dinheiro?
       Tu podias ter acabado com isto em qualquer altura. Pedi-te, vezes sem conta, que assinasses o papel, mas negaste-te sempre  Rodney agachou-se ao lado dela, 
apontando-lhe a arma entre os olhos.  No vs como eu sou brilhante, Molly? Tens um crebro do tamanho de uma ervilha, comparado com o meu. Viste todos os e-mails 
que recebi em nome do teu pai. Achas que aquelas empresas me davam informaes confidenciais voluntariamente? Claro que no. Quando trabalhei em Silicon Valley desenvolvi 
um vrus worm. No h nenhum software antivrus no mercado que seja capaz de o detectar. Posso anex-lo a qualquer mensagem que envie do meu computador. Quando os 
destinatrios abrem o ficheiro, o vrus infiltra-se no programa do seu sistema de correio electrnico, criando imediatamente um endereo paralelo que  activado 
sempre que o sistema recebe ou envia uma mensagem.
      Atravs do cano azul-escuro da arma dele, Molly via o rosto de Rodney, cujas feies se contorciam febrilmente. As chamas que se elevavam atrs dela reflectiam-se 
na ris dos olhos dele, danando como pequenos demnios na agonia do inferno.
       Ento, todas essas companhias te mandaram involuntariamente cpias do seu correio electrnico?  murmurou ela.
       Exactamente. Um esquema perfeito para obter informaes privilegiadas. Mandava-lhes folhetos sobre a nossa empresa por e-mail e, a seguir, recebia todas 
as informaes de que necessitava sobre os seus produtos e negcios. A minha bola de cristal mostrava-me o futuro e permitia-me fazer milhes.
      A viso de Molly, ainda nublada pelo golpe que tinha recebido na cabea, comeou a tornar-se mais clara. Pousou os olhos no documento que ele queria que ela 
assinasse. Percebeu que se tratava de um impresso para levantar dinheiro de uma conta offshore. Lembrou-se de todos os filmes que tinha visto onde a herona em perigo 
fazia com que o vilo no parasse de falar, ganhando alguns preciosos segundos. Mas isso era impossvel. Rodney j tinha dito tudo o que havia para dizer. O tempo 
esgotava-se.
      Pensou em desafi-lo. Oh, essa ideia era mesmo genial. Parecendo adivinhar-lhe o pensamento, Rodney sorriu friamente:
       Posso fazer-te sofrer.  isso que queres? Antes de acabar contigo, vais implorar-me que te mate. Ao menos uma vez na tua vida miservel, escolhe o caminho 
mais fcil.
      Molly analisou as suas opes. Jake andava pelas redondezas. Por muito que Rodney a fizesse sofrer, um atraso, mesmo que pequeno, podia salvar-lhe a vida. 
O seu marido e Hank iriam acabar por ver o fumo do incndio. Alis, podiam j vir a caminho do rancho naquele preciso momento. Quanto tempo levariam para percorrer 
trs quilmetros a cavalo? No fazia a menor ideia, mas no podia pr de lado nenhuma hiptese que lhe permitisse salvar a vida.
      Olhou bem nos olhos de Rodney:
       Se assinar isto assino a minha sentena de morte. Um brilho diablico surgiu no olhar do seu ex-marido.
       E se no o fizeres assinas a dele.
      Sorriu e levantou-se, apontando a arma para outro lado. Por instantes, Molly no compreendeu a quem  que ele se estava a referir, mas ao olhar na direco 
do cano da arma viu Sunset. Sentiu um aperto no corao. Mordeu violentamente a parte inferior da face para no gritar e fitou o lindo cavalo negro com os olhos 
a arder.
      Rodney olhou tambm para ele com um sorriso cruel nos lbios.
       Comeo por um joelho, no achas? Para um cavalo  morte certa. Lenta e atroz.  A arma produziu um estalido sinistro.  Se pensas que no consigo acertar 
a esta distncia, ests enganada. Pratico todas as semanas num campo de tiro desde h quase cinco anos. Acerto no alvo e garanto-te, minha querida, que o vou fazer 
sofrer muito.
      Molly tentou convencer-se que Sunset no passava de um animal e que a vida dela era muito mais importante do que a dele. No entanto, ao olhar para o maravilhoso 
garanho negro, e sabendo o quanto ele j tinha sofrido nas mos de Rodney, a deciso tornava-se-lhe ainda mais difcil. Os laos que se tinham criado entre ela 
e o cavalo eram profundos e, alm disso, j tinha arriscado muito para o salvar. Se permitisse que Rodney o matasse naquele momento, todos os seus esforos teriam 
sido em vo.
      Sentiu uma grande amargura na boca. Rodney Wells havia-lhe roubado tantas coisas. No podia roubar-lhe tambm Sunset.
      Rodney mat-la-ia provavelmente de qualquer forma. Uma fraco de segundo era suficiente para disparar uma bala. Quanto tempo conseguiria ela ganhar? Talvez 
um minuto. Olhando para Sunset decidiu que no podia sacrificar a vida do cavalo pela possibilidade remota de Jake chegar a tempo de salvar a dela.
       No, no faas isso.  gritou Molly.  Eu assino, Rodney. No lhe faas mal. Por favor, no lhe faas mal.
      Rodney apontou de novo a arma para ela.
       Ento assina, desgraada.
      Tremendo tanto com as mos que quase no conseguia segurar na meta, Molly rabiscou a sua assinatura na linha apropriada, sabendo que possivelmente tambm estava 
a assinar a sua sentena de morte.
       Aqui tens, meu sacana. J conseguiste o teu dinheiro. Por que  que no te vais simplesmente embora?
        Para que tu me denuncies? Nem pensar, minha querida. Quando me for embora no irei deixar nenhuma prova que me possa incriminar, o que significa que tenho 
de te calar a boca e fazer com que parea que tu fizeste tudo isto num acesso de loucura.  Rodney enfiou cuidadosamente o impresso bancrio na parte de dentro do 
casaco do fato, agarrou um brao de Molly e obrigou-a a levantar-se.  Anda, vamos acabar com isto antes que o teu cowboy encontre os cavalos e venha complicar s 
coisas.
      Molly caminhava ao lado dele aos tropees, fazendo esgares de dor devido  brutalidade com que Rodney lhe apertava o brao.
        Como  que me vais matar? De certeza que no  com a arma que registaste-a em meu nome, tal como registaste em nome do meu pai aquela com que o mataste.
       Raramente repito um lampejo de gnio  respondeu ele, soltando ma risada.  Resultou uma vez. Repeti-lo seria arriscado.
      Rodney levou-a at ao cercado de Sunset. Quando de repente a largou junto  porta, ela ficou a olhar para o ex-marido, sem perceber o que ele pretendia fazer, 
at que baixou os olhos e viu uma grande pedra e um chicote junto aos seus ps. Molly lanou-lhe um olhar horrorizado nequanto ele, sem nunca deixar de lhe apontar 
a arma, se baixou para pegar na pedra.
       Abre a porta  sussurrou Rodney. Molly deitou uma olhadela ao chicote.
       O que  que tu vais...
       Faz o que eu te digo!
      Ela estremeceu, e afastando-se do cano da arma com que ele a intimidava, virou-se e abriu o cercado. Sentiu nas suas costas o calor intenso da casa em chamas. 
Perguntou a si prpria se Jake seria capaz de ver o fumo e rezou para que fosse.
       Entra  ordenou-lhe Rodney. Molly obedeceu-lhe.
       Pra e no te voltes  disse ele.  As coisas custam menos quando no as vemos.
      Molly preparou-se para o pior, tentando freneticamente pensar no que poderia fazer para salvar a vida. No instante seguinte, uma dor atroz fez-lhe explodir 
a cabea. Numa fraco de segundo entre a conscincia e a inconscincia, compreendeu que ele a tinha atingido com a pedra. E a seguir  abenoada escurido.
      
      Jake, montado no seu garanho, corria atrs de um cavalo castrado, estalando a lngua e falando suavemente para que o animal no entrasse em pnico. A quarenta 
metros de distncia, Hank executava uma operao semelhante com uma gua assustada.
       No te preocupes, rapaz cantarolava Jake.  Vamos para casa e vais comer a tua aveia,
      Hank conduzia a gua na mesma direco. Numa comunicao silenciosa, acenou com o chapu a Jake. Este levantou o brao para que o irmo soubesse que estava 
mesmo atrs dele. Movia-se na sela, a pensar na mulher, desejando poder voltar para junto dela, quando lhe pareceu ver fumo l ao longe. Ficou a olhar estupidamente 
para ele durante um momento, mas a seguir, soaram campainhas de alarme na sua cabea. O fumo vinha do Lazy J.
      Contraiu-se, pisando rigidamente os estribos ao mesmo tempo que o sangue se lhe gelava nas veias.
       Hank  gritou ele.  H um incndio no rancho.
      Hank virou o cavalo, para olhar na mesma direco. Quando viu o fogo concentrou toda a sua ateno nele.
       Raios me partam!  a casa!
      Santo Deus. Jake j tinha pensado nisso, mas havia ficado de tal forma assustado que se recusara a acreditar nessa possibilidade. A casa. Molly tinha ficado 
l dentro a dormir. Oh, santo Deus.
      Deixou o cavalo que estava a perseguir e dirigiu a montada ao longo da borda do canal de drenagem at ao stio onde o irmo se encontrava.
       A Molly est l em cima a dormir  gritou ele quando chegou suficientemente perto de Hank para que este o pudesse ouvir.
      Hank inclinou-se totalmente sobre a sela e tocou fortemente com os calcanhares no cavalo, incitando-o a correr sem parar. Jake seguiu-o num louco galope a 
caminho de casa.
      
      Molly pestanejou atordoada. Terra. Tinha terra na boca e nos olhos. Tossiu e cuspiu. Os dedos enterravam-se-lhe no cho e a areia metia-se por baixo das suas 
unhas. Doa-lhe a cabea. A dor era to intensa que quase a cegava. No sabia onde se encontrava. Aos seus ouvidos chegava um rugido, juntamente com fortes estalos 
e o barulho de gritos agudos que lhe soavam como relinchos.
      Gemeu e virou-se para o lado. Via pernas negras a danar, num borro confuso. Tentou concentrar-se, pestanejou. Cascos. Passavam-lhe perto do rosto com uma 
impreciso estonteante, levantando nuvens de p cada vez que batiam no cho. Molly ficou a olhar para eles durante um momento, sem compreender o que via, mas de 
repente lembrou-se de tudo. Rodney. Ele tinha-a atingido na cabea e ela estava dentro do cercado de Sunset.
      Tentou levantar-se, fazendo fora com os cotovelos, mas o seu corpo parecia de chumbo, era como se os seus membros estivessem desligados o crebro. Voltou 
a cair, demasiado desorientada para se mover ou pensar com clareza. Viu Rodney na vedao. Estava sentado na travessa mais levada, tinha uma perna para cada lado 
e agitava um brao. Quando a sua viso se tornou um pouco mais ntida, compreendeu que ele brandia um chicote.
      Molly ficou gelada. Deu uma olhadela a Sunset, era dele que provinham os relinchos. O garanho movia-se de um lado para o outro aterrorizado, tentando fugir 
do chicote que estalava no ar  sua volta. Mas no tinha para onde ir naquele pequeno cercado.
       Pisa-a, cabro!  gritava Rodney.  Faz uma coisa bem feita, pelo menos uma vez na tua miservel vida!
      Sunset relinchava e dava passos para o lado, livrando-se  tangente dos golpes lacerantes do chicote. Rodney ria-se ao ver o cavalo aproximar-se perigosamente 
das pernas de Molly. Ela tentava freneticamente mexer os ps para fugir dos cascos do garanho, mas o seu corpo no obedecia s ordens que lhe dava. Oh, meu Deus. 
Rodney queria que Sunset a matasse, iria parecer um lamentvel acidente, o cavalo pagaria o preo de a ter matado e ele ficaria impune.
      Para espanto de Molly, Sunset no a pisava. Seria coincidncia? Olhou medrontada para o cavalo. O chicote voltou a estalar, quase tocando no nariz do garanho, 
que levantou a cabea, permitindo que Molly visse a parte branca dos seus olhos. A seguir, o animal desviou-se para o lado e afastou-se dela.
      Sunset. Ele tinha olhado para ela. Vira o brilho dos seus olhos. Mesmo om Rodney a aterroriz-lo, o cavalo tentava no a pisar.
      Ele no te vai fazer mal. Sinto-o, havia-lhe dito Jake uma vez.
      Lgrimas de revolta escorriam-lhe pela face. Pousou fugazmente os olhos em Rodney, odiando-o como nunca havia odiado algum. A fria provocou-lhe uma exploso 
de adrenalina que lhe sacudiu todo o corpo, levantou-se, apoiando-se nos cotovelos e nos joelhos. Maldito, maldito. era um sacana sem corao. Como podia ele fazer 
uma coisa destas?
       Pisa-a, minha besta estpida!  disse Rodney, fazendo mais uma vez estalar o chicote.  Pisa-a ou dou cabo de ti. Pisa-a, cabro!
      Sunset voltou a relinchar. Tonta e mal se aguentando nas pernas. Molly olhou para cima e tudo o que viu foi o cavalo empinado e o movimento vertiginoso dos 
seus cascos no ar. Deus do cu. Levantou uma mo para proteger o rosto, sabendo que estava prestes a morrer. Mas Sunset virou-se no ltimo segundo, pousando as patas 
dianteiras ao seu lado e no em cima dela. Molly tremia como varas verdes, chorando de alvio.
      O cavalo tentou afastar-se dela, mas Rodney impediu-o com um estalido do chicote. Sunset descreveu um crculo, indo para o outro lado e mais uma vez Rodney 
lhe bloqueou o caminho. Molly sabia que o animal no podia continuar a evit-la por muito mais tempo. O medo ceg-lo-ia mais cedo ou mais tarde e acabaria por a 
matar.
      Sentiu a raiva crescer dentro dela. Olhou fixamente para Rodney, odiando-o to intensamente que todo o seu corpo tremia. Era de mais. Tinha conspurcado a vida 
dela com a sua maldade, distorcendo-a e transformando-a numa horrvel caricatura, roubando-lhe tudo o que lhe era querido. No iria permitir que tambm destrusse 
Sunset. No iria mesmo.
      Com a mente repentinamente calma e os msculos contrados, preparados para o salto, esperou que Rodney voltasse a estalar o chicote. Nesse momento, deu um 
pulo e esticou os braos com uma velocidade e uma fora que at ento desconhecia possuir, apanhando o serpenteante ltego de cabedal no ar. Sentiu o chicote cortar-lhe 
as palmas das mos, mas no se preocupou com isso. Apertou-o o mais fortemente que pde, torceu os pulsos para o enrolar nos braos e puxou-o, servindo-se do peso 
do seu corpo.
      Soltando um grito de surpresa, Rodney caiu desamparado da travessa da vedao e foi parar ao interior da cerca, onde ficou estatelado de cara virada para baixo. 
A seguir, abanou a cabea como se quisesse aclarar as ideias.
       Meu grande sacana!  gritou Molly, atirando com toda a fora o chicote para fora da vedao atravs das travessas.  Deixa o meu cavalo em paz!
      Rodney abanou outra vez a cabea e tentou levantar-se. Olhou para ela atordoado e perplexo, parecendo no ter ainda assimilado o que lhe havia acontecido, 
mas assim que voltou a ver com clareza, enfiou a mo no interior do casaco.
       Plano B  disse ele ao mesmo tempo que retirava a arma.  Est registada em teu nome, querida. Eu menti-te.
      Molly contraiu-se, sabendo que ia receber um tiro a qualquer momento. O seu fim tinha chegado. Estava prestes a morrer.
      Esquecera-se, no entanto, que havia um terceiro actor em cena. Sunset. O cavalo saiu de trs dela como se fosse um anjo vingador com a crina ao vento e a cauda 
erguida, que mais parecia uma bandeira de cavalaria colocada na parte traseira do seu gigantesco corpo negro. Avanou sobre Rodney sem a menor hesitao. Este soltou 
um grito e tentou fugir do seu caminho, mas Sunset no desistia de o atacar.
       Oh, meu Deus!  exclamou Rodney.
      No instante seguinte, o cavalo empinou-se sobre a cabea dele. Molly quase gritou de alegria. Bem feito! Rodney s era valente quando tinha um chicote na mo.
      Ela deu um passo em frente. A arma tinha cado das mos de Rodney e encontrava-se no cho. Deu-lhe um pontap, atirando-a para fora do cercado, onde Rodney 
no a pudesse alcanar. Sunset moveu-se, descrevendo um crculo at ao lado contrrio do recinto. Molly, que tinha a ateno concentrada no ex-marido, s reparou 
que o cavalo ia voltar a atacar quando o viu de cascos levantados. Sunset estava apoiado nas patas traseiras, o seu poderoso corpo com os olhos esbugalhados e a 
crina ao vento era uma magnfica escultura de bano brilhando ao sol. O cavalo manteve esta pose durante interminveis segundos, um animal sedento de vingana, prestes 
a aniquilar o seu algoz.
      Aps soltar um grito de raiva, o garanho lanou os cascos dianteiros contra o homem que lhe deixara cicatrizes no corpo para o resto da vida. Molly observava-o 
estupefacta, com vontade de o incitar. O cavalo merecia este momento de vingana e Rodney merecia morrer. Durante alguns gundos que lhe pareceram uma eternidade, 
ela sentiu-se satisfeita e desejou sinceramente que o garanho desferisse um golpe fatal em Rodney. Era um fim perfeito para uma vida totalmente abjecta.
      Sunset relinchou mais uma vez e dobrou as patas traseiras, ganhando impulso para atingir Rodney com as da frente. Nesse preciso instante, Molly recuperou a 
sanidade mental. Sunset. O garanho ia matar Rodney e ela no o censurava por isso. Mas o que seria do cavalo se o matasse? Seja qual for o motivo, um cavalo que 
mata uma pessoa tem de ser sacrificado.
      Molly precipitou-se para a frente, embora com medo de que o garanho enlouquecido se virasse contra ela, ao interferir.
       Sunset, no! Sunset, pra!  Ela deu um salto para agarrar o cabreste do cavalo, sabendo perfeitamente que no tinha fora para o puxar.
       Por favor, Sunset. Por favor!
      No momento em que o animal sentiu as mos dela, soltou um relincho de desagrado, recuou e ficou imvel diante do homem que tanto odiava, soprando, resfolegando 
e contraindo todos os msculos do seu majestoso corpo. Molly agarrou-se ao pescoo dele a chorar.
       Eu sei  sussurrou-lhe ela.  Sei como te sentes, Sunset, mas  melhor assim.  melhor assim.
      Rodney gemeu e rolou no cho. Pelo modo como se movia, Molly percebeu que ele no estava muito ferido. Para bem de Sunset, alegrou-se por isso. O garanho 
j tinha sofrido demasiado por culpa deste homem. Sem tirar a mo do pescoo do cavalo, deitou uma olhadela ao ex-marido, sentindo-se totalmente distanciada dele. 
Tinha o fato rasgado e pareceu-lhe ver gotas de sangue em alguns pontos. Comparado com as cicatrizes que ele tinha deixado em Sunset, aqueles ferimentos no passavam 
de simples arranhes.
       Se fizeres algum movimento, solto o cavalo  ameaou-o Molly. Rodney lanou-lhe um olhar oblquo, carregado de dio.
       E, depois, vou v-lo morto!
       No, no o irs ver, porque vou deix-lo matar-te.  Molly olhou Rodney nos olhos.  Prefiro dizer que fui eu que dei cabo de ti a permitir que algum toque 
neste animal.
      Ele levantou-se, apoiando-se num joelho. Sunset resfolegou e comeou a empinar-se. Rodney ficou paralisado, olhou desconfiado para o cavalo e voltou a sentar-se 
no cho.
       Aguenta-o, por amor de Deus! Molly sorriu.
        Sinto-me muito fraca e tonta por causa da pancada que me deste na cabea. No te mexas, Rodney. Se ele levantar as patas, sou capaz de no o conseguir segurar.
      O medo fez escurecer os olhos cor de avel de Rodney, que a seguir se deitou ao comprido.
       s uma grande cabra!  murmurou ele.
       Sou, e  bom que no te esqueas disso.
      Molly apercebeu-se de um outro rudo, distinto do rugir do fogo que consumia a casa. Antes de o conseguir identificar, ouviu a voz de Jake.
       Molly. Oh, meu Deus!
      Ao olhar  sua volta, Molly viu Jake a descer do cavalo envolto em poeira. Viu-o emergir de uma nuvem de p vermelho-alaranjado, lanando-se numa correria 
louca, um vulto confuso de azul e de pele bronzeada, que galgou a vedao como se ela no existisse. No momento em que ele a apertou nos braos, Molly teve a sensao 
de ter sido abalroada por uma locomotiva. Sunset relinchou e recuou um pouco, mas no se foi embora.
       Meu Deus, meu Deus!  Jake deu meia volta com ela colada ao seu corpo trmulo. Molly quis dizer-lhe que estava bem, mas ele abraava-a com tanta fora que 
no a deixava falar.  Ests a sangrar, ests ferida.  Afastou-a um pouco para lhe segurar o rosto com as mos.  Deus do cu, tens a cabea partida.
       Ele atirou-me uma pedra.  Molly levou a mo  cabea, fazendo um esgar de dor ao tocar no profundo corte.
      Quando ela comeou a dizer que estava bem, Rodney ps-se de joelhos. Jake largou-a de repente e deu meia volta, deixando-a ainda a cambalear.
       Meu grande cabro.  disse Jake a Rodney, arrancando-o do cho e abanando-o como se ele fosse um boneco de trapos.  Eu mato-te. Juro por Deus que s um 
homem morto.
      Rodney tentou esmurrar Jake com toda a fora, mas apenas lhe apanhou o queixo de raspo. Jake respondeu recuando o brao para ganhar impulso, e aceitou em 
cheio com o seu punho na cara de Rodney. O soco atirou-o contra a vedao. Molly ficou boquiaberta. Sabia que o seu marido era forte, mas no esperava que tivesse 
fora suficiente para levantar o homem corpulento do cho com um simples murro.
       O meu nariz  gritou Rodney, cobrindo os olhos com as mos.  Sacana, partiste-me o nariz!
       Foi s a primeira coisa que eu te parti!  respondeu Jake, avanando para ele, com o rosto distorcido pela raiva e o corpo tenso.
       Jake, no!  gritou Molly.
      Mas Jake no a ouvia. Agarrou Rodney pelas bandas do casaco e ps-se a bater com a cabea dele na vedao. Molly puxou o brao do marido, pedindo-lhe que parasse, 
mas ele continuava a no lhe dar ouvidos.
       Miservel! Porco imundo!  gritava Jake.
      Afastou Molly como se ela fosse to leve como uma pena, desferindo um murro no estmago de Rodney, cujo impacto o arrancou outra vez do cho e o fez dobrar-se 
em dois.
       Mantm as tuas mos sujas bem longe da minha mulher! Experimenta tocar-lhe ou olhar para ela de novo, e eu juro por tudo o que h de mais sagrado que te 
parto o pescoo.
      Molly receava que Jake o matasse. Nunca o vira assim. Tinha o rosto alterado, os olhos brilhantes, e cada vez que falava, arreganhava os dentes.
      De repente, apareceu Hank. Saltou sobre o irmo, imobilizou-lhe os braos atrs das costas, susteve-o com a fora do seu peso, aguentando-o nessa posio, 
com ele a praguejar e a dar saces, tentando inutilmente libertar-se.
       Pra, Jake!  gritou Hank.  No vale a pena. Deixa que seja a justia a punir o sacana.
      Soltando um enorme grito de raiva, Jake tentou novamente libertar os braos.
       Raios te partam, larga-me. Ele agrediu a minha mulher! Hank manteve os braos do irmo imobilizados.
       Ela est bem, Jake. Ela vai ficar bem.
      Jake tinha as pernas abertas para aguentar os cem quilos a mais que estavam pendurados nos seus ombros. Respirando com grande esforo, lanou um olhar furibundo 
em Rodney, que se encontrava cado no solo com as costas contra a vedao e um brao cruzado sobre o estmago.
        Ele est acabado  disse Hank.  Deste-lhe uma boa lio. Se continuares a bater-lhe, sabendo que j no pode reagir, mais tarde vais odiar-te por isso!
       Vou uma ova!  respondeu Jake.  Por que  que hei-de ter piedade dele? Ele teve alguma do Sunset?Raios o partam! Atirou uma pedra  cabea da minha mulher!
       Eu estou bem, Jake  disse Molly com a voz trmula.  Ests a ver?
        Fez um gesto com a mo em frente do rosto do marido.  Olha para mim. Estou bem. Foi s um pequeno golpe, no me aconteceu nada.
      Ele olhou para ela e parte da sua fria desapareceu-lhe dos olhos,
       Ningum toca na minha mulher  garantiu Jake.
       Ele vai pagar por isso  afirmou Hank.  Ele vai pagar, mas no assim. Podes acabar preso. Jake,  isso que tu queres?
      Jake deu um saco para o lado, mas logo a seguir deixou de lutar. Esforando-se para respirar, inclinou-se para a frente para suportar melhor o peso de Hank. 
Molly reparou que os seus olhos j no estavam enraivecidos.
       No, claro que no  isso que eu quero  respondeu ele.  Larga-me, mano, antes que eu d cabo de ti.
      Hank sorriu para Molly e soltou os braos do irmo. A seguir, deu uma pancadinha no ombro de Jake e disse:
       Tens de ter cuidado com esse gnio, mano. Pode meter-te em sarilhos.
      Jake endireitou-se, lanou um olhar furioso a Rodney e, dizendo palavres em voz baixa, deu um pontap no cho, atirando terra para a cara dele. Molly teve 
vontade de rir quando Rodney soprou e tossiu. Dado que ela tinha comido uma boa poro de terra h poucos minutos atrs, considerou que se tratava de um castigo 
justo.
       Hoje  o teu dia de sorte  disse-lhe Jake, com os dentes cerrados.  No mereces que eu seja preso por tua causa, por isso salvo-te a tua miservel pele.
      A seguir, aproximou-se de Molly e examinou-a com mos trmulas  procura de feridas, tocando-lhe to cuidadosa e gentilmente como se ela fosse de cristal.
       Eu estou bem  sussurrou a rapariga.  Eu estou bem, Jake. Quando levantou a cabea, Molly no queria acreditar no que via. Os brilhantes olhos azuis de 
Jake Coulter estavam inundados de lgrimas. Um msculo da sua face contraiu-se no momento em que lhe pesquisava cautelosamente o cimo da cabea, roando a extremidade 
dos dedos muito ao de leve pelas bordas da ferida.
       Ele podia ter-te matado  concluiu Jake com a sua voz rouca, a tremer ligeiramente.
       Mas no matou. O Sunset no me quis pisar, fizesse Rodney o que fizesse, e ns os dois chegmos para ele.
      Jake ps-lhe um brao  volta da cintura e puxou-a para si. Ela ouviu o bater do corao do marido e sentiu o tremor do seu corpo, compreendendo o muito que 
ele a amava. Fechou os olhos e encostou a face  camisa de Jake. Nunca uns braos lhe tinham parecido to maravilhosos. Amar e ser amada de verdade era uma sensao 
extraordinria.
       A tua casa  murmurou ela com voz trmula.  S te causei desgostos, do princpio ao fim. Tenho tanta pena, Jake.
      Ele abraou-a com mais fora, sem olhar para a casa.
       No penses isso, rapariga. No penses isso. Alguns problemas de vez em quando, mas nenhum desgosto importante. No sabes quanto te amo?
      Molly sabia. Como podia ela no saber? Ps-se em bicos dos ps para se agarrar ao seu pescoo.
        Oh, Jake, eu tambm te amo. Mas o que vai ser do rancho? Ele destruiu tudo.
       Tudo, no  sussurrou ele junto ao cabelo dela.  Nem nada que se parea. Temo-nos um ao outro, querida. Nada nos poder abater por muito tempo.
      Sunset relinchou nesse preciso momento. Molly abriu os olhos e viu que o cavalo cheirava a manga da camisa do seu marido. Jake riu-se ligeiramente e estendeu 
uma mo para a pousar em cima do cabresto.
       Ento, j chegaste  concluso de que eu estou bem, no  verdade?  Agarrou-lhe o cabresto.  Agora, podes dar-lhe a ela todo o carinho que quiseres.
      O cavalo relinchou outra vez e aproximou-se deles para cheirar a roupa de Molly e, depois, o seu cabelo. Ao sentir o odor do sangue, fez um rudo de desagrado 
e bateu com as patas no cho.
        Eu sei  disse Jake, segurando-lhe mais fortemente o cabresto.
      Tambm gostava de o pisar com toda a fora, mas  melhor no. Molly teve de se rir. Concordava totalmente com Jake. Nem tudo estava perdido. Tinham-se um 
ao outro e tambm tinham Sunset.
      Quando o amor  verdadeiro nada  impossvel. Os trs juntos formavam um trio vencedor e podiam comear tudo de novo. Sunset ainda no tinha feito a sua ltima 
corrida e o que o fogo havia destrudo podia voltar a ser construdo. Ela iria recuperar a sua herana. O dinheiro no seria um problema para eles.
      Molly virou-se, no aconchego dos braos do marido, para repousar as costas no peito dele, mal se apercebendo que Hank se encontrava debruado sobre Rodney 
para lhe retirar os discos do computador e os impressos que este a havia forado a assinar. Fora do alcance das chamas, a floresta e as reas de pastagem do Lazy 
J. estendiam-se numa promessa de esperana, oferecendo pastos para os cavalos, madeira para reconstuir a casa e um espao interminvel onde todos os pequenos Coulters, 
que um dia iriam nascer, poderiam brincar. Molly queria que eles crescessem ali, na terra dos Coulters, rodeados de uma realidade que antes tinha ido o sonho do 
seu pai.
      Endireitou os ombros e respirou fundo para se purificar. Lembrou-se das inmeras vezes que ouvira vozes sussurrando dentro da sua cabea. Quem s tu, Molly? 
Onde ests tu, Molly? Agora podia responder inequivocamente a ambas as questes.
      Era Molly Sterling Coulter e estava precisamente no lugar que era o seu, ou seja, nos braos amantes do seu marido.
      
      
      
      
      
      
    Eplogo
      
      
      Sete meses mais tarde.
      Flocos de neve danavam docemente no ar, cobrindo as conferas de branco e emprestando ao brilhante cinzento-azulado do crepsculo a atmosfera mgica do Natal. 
Jake puxava o tren onde se sentava a sua mulher, em estado avanado de gravidez, embrenhando-se na floresta ao mesmo tempo que procurava o pinheiro perfeito. 
At agora, no havia encontrado nada que agradasse a Molly. Deu uma olhadela ao relgio. Se no descobrisse rapidamente o pinheiro de Natal, no conseguiriam chegar 
a casa a tempo de receber os convidados. Infelizmente, no podia contar isso a Molly, porque queria fazer-lhe uma surpresa.
      Soltou um suspiro, resignado, e continuou a avanar. Era-lhe difcil caminhar em certas zonas, com os remoinhos de vento e neve que varriam o cho a chegarem-lhe 
aos joelhos. O forte cabo do tren batia-lhe no casaco de ganga acolchoado, fazendo-lhe doer os ombros, e sentia as pernas cada vez mais cansadas devido ao esforo 
de puxar todo aquele peso extra.
       O que  que achas daquele?  perguntou esperanado ao apontar para um pequeno abeto.
      Molly analisou com um olhar crtico a rvore que ele lhe indicou. Aps uns instantes abanou a cabea:
       Acho-o muito fininho.
      O anterior era demasiado grosso. Comeando a pr em dvida que existisse uma rvore de Natal perfeita, Jake recomeou a busca. Deu alguns passos, mas teve 
de parar para respirar.
       Ests a ficar cansado  disse Molly, num tom preocupado,   Eu sabia que isto no era uma boa ideia. Deixa-me sair do tren e caminhar. Um pouco de exerccio 
vai-me fazer bem.
        Nem pensar  disse ele, respirando com dificuldade. Embora j lhe tivesse enunciado as razes pelas quais a trazia puxada por um tren, acrescentou:  Com 
toda esta neve, no. Podes cair e magoar-te.
       Eu no sou de porcelana e o beb tambm no.  Molly fez um gracioso trejeito de desagrado e abanou a cabea para sacudir os flocos de neve do seu cabelo 
encaracolado.  Seria como tombar numa almofada, no me iria magoar  disse, abarcando com a mo enluvada a brancura macia que rodeava o tren.
       Podes tropear num cepo tapado pela neve  retorquiu Jake.  Ou numa grande pedra. Por outro lado, no estou assim to cansado.
       Ests sim. Por favor, deixa-me sair do tren. S durante um bocadinho, a seguir, podes continuar a puxar-me.
      Jake franziu os olhos, para a ver melhor.
       Tu prometeste, no h discusso. Quando est em causa a segurana da minha mulher e do meu filho, no quero correr riscos.  Na esperana de a distrair, 
dirigiu o olhar para as rvores de folhas persistentes que estavam  sua volta. O pai de Jake havia-as plantado anos atrs, mas agora j tinham crescido o suficiente 
para poderem ser cortadas.  Gostas de alguma?
      Molly franziu levemente as sobrancelhas.
       Sabes qual  o meu problema? So todas muito bonitas. Nunca tive dificuldade para escolher a rvore de Natal numa loja. Fao a compra em menos de dez minutos, 
mas aqui no consigo tomar uma deciso.
       Sabes o que se costuma dizer? Dar muita possibilidade de escolha a uma mulher s serve para a confundir.
      O olhar divertido de Molly cruzou-se com o seu. A seguir, ela deitou-lhe a lngua de fora.
        Bem, a maioria dos homens no so capazes de compreender o que significa simetria, mesmo que esta corra atrs deles e lhes morda o traseiro.
      Jake riu-se e aproximou-se do tren para lhe roubar um beijo. A boca quente e hmida dela sabia a caramelo, e isso fez com que ele se sentisse muito tentado 
a esquecer-se da rvore de Natal e juntar-se a Molly sob as mantas que to cuidadosamente tinha aconchegado em torno dela.
       H quanto tempo no te digo quanto te amo?  perguntou ele na sua voz rouca.
       H pelo menos vinte minutos. Sinto-me negligenciada.
      Jake apoderou-se dos seus lbios, alargando o beijo at ela se chegar mais a ele e lhe envolver o pescoo com os braos. Incapaz de resistir ao convite de 
Molly, meteu-se no tren e puxou-a para o colo. Quando acabaram de se beijar, permaneceram sentados em silncio, contemplando a beleza da paisagem que os rodeava. 
A neve que caa parecia abafar todos os sons, criando um silncio quase mstico e dando-lhes a impresso de que eram as duas nicas pessoas no mundo. Jake pousou 
o queixo sobre a cabea de Molly e soltou um suspiro.
       Ests feliz?  perguntou ele.
        Nunca estive to feliz em toda a minha vida  murmurou ela.  Mal posso esperar que chegue o Natal.  Levou a mo ao seu protuberante ventre, que sobressaa 
sob o nylon da nova parka.  Ainda me custa a acreditar que tenhas sido capaz de reconstruir a casa a tempo. Quase consigo ver o salo com as luzes a cintilarem 
na rvore e as grinaldas cobrindo as rochas trazidas do rio.
      Ao tentar visualizar o cenrio, a nica coisa que conseguia ver era o sorriso de Molly iluminando a sala. Sentia-se to afortunado por o destino a ter conduzido 
at ele.
       Obrigada, Jake  disse ela suavemente. Ele moveu-se para a poder ver.
       Obrigada porqu?
       Por te teres esforado tanto para que a casa ficasse pronta antes do Natal. No era absolutamente necessrio. Tambm teria gostado muito de celebrar o Natal 
na casa de madeira.
      Jake inclinou-se para lhe beijar a ponta do nariz.
       No queria que o nosso filho fosse para aquela casa cheia de correntes de ar e, se no estivesse pronta antes do Natal, tambm no seria no perodo das festas 
que a conseguiria acabar.
      Molly suspirou e aninhou-se nele.
        Mais uma vez obrigada. Graas a ti, os ltimos meses da minha gravidez vo ser um sonho.
      Ao ouvi-la falar, Jake notou um laivo de tristeza na sua voz, compreendendo que Molly sentia a falta de algum que para ela era muito importante.
       No a teria conseguido terminar sem ajuda. O Hank e o resto dos homens trabalharam quase tanto como eu. E tu tambm deste a tua contribuio. O que  que 
me dizes dos assentos das cadeiras que tu, a me e a Bethany fizeram?
        Isso no foi nada. Enquanto ns costurvamos confortavelmente sentadas, vocs passavam o dia inteiro a tratar do rancho e parte da noite a construir o mobilirio 
da casa.
      Jake amparou com as suas mos a barriga volumosa de Molly. No podia negar ter trabalhado de sol a sol para conseguir terminar a casa antes do nascimento do 
filho, em Fevereiro. Mas cada uma daquelas longas horas de esforo tinha valido a pena.
       A seguir ao Ano Novo vamos comear a mobilar e decorar o quarto do beb  prometeu ele.  Encontrei um pedao de tronco muito bom para fazer um bero. Parece 
a arca de No.
      Ela riu-se entre dentes.
       Ests a brincar.
       Continuas com a ideia da arca de No ou j mudaste de opinio?
        No. Continuo a querer a arca de No. Ao crescer num rancho, o nosso filho vai estar rodeado de animais. Devemos habitu-lo a esse estilo de vida desde 
a sua mais tenra idade.  Molly roou a face no casaco dele.  Oh, Jake, eu amo-te tanto. Um bero em forma de arca? Deve ser amoroso. Tu tornas todos os meus desejos 
realidade.
      Nem todos, pensou ele, deitando uma olhadela ao relgio. Eram quase cinco da tarde e a prenda de Natal mais importante de Molly devia estar quase a chegar. 
Jake pedia a Deus que eles no tivessem sofrido um acidente. Uma terrvel tempestade de neve tinha-se abatido sobre as montanhas, o que tornava a estrada entre Portland 
e o rancho muito traioeira, sendo necessrio pr correntes nas rodas do automvel para atravessar os pontos mais elevados do caminho, Jake tinha a certeza disso.
        Ento, a tua felicidade  perfeita?  perguntou ele, tentando no perder o fio  conversa.
      Molly permaneceu agarrada a Jake durante um momento, sem murmurar uma palavra. Quando finalmente abriu a boca, notava-se uma nota de alegria na sua voz:
       Sim, absolutamente perfeita.
      Jake, que tinha os lbios encostados aos caracis dela, fez um grande sorriso. Doce Molly. Ela jamais iria admitir que a sua felicidade no era completa, nem 
nunca o seria, enquanto no fizesse as pazes com uma pessoa muito especial. Jake sentia-o, embora ela no expressasse a sua apreenso. Todas as mulheres jovens desejam 
e necessitam do apoio da me na altura do primeiro parto.
      O julgamento de Rodney tinha sido muito desgastante do ponto de vista emocional. O devastador depoimento de Molly fez com que o ex-marido recebesse duas sentenas, 
uma de priso perptua e outra de quarenta anos de recluso. Sendo a justia como  nos Estados Unidos, Jake achava que o sacana iria conseguir obter a liberdade 
condicional algum dia, e gozar a ltima fase da sua vida como um homem livre. No entanto, essa pequena injustia, por muito desagradvel que fosse, no era suficiente 
para estragar a felicidade de Molly.
      O que preocupava Jake  aquilo que ele no podia de forma alguma evitar  era a falta de comunicao entre Molly e a sua me adoptiva, durante o julgamento, 
veio a lume que Jared Wells, o pai de Rodney, suspeitara que o filho estivesse envolvido em transaces ilegais. Sem imaginar a dimenso dos delitos de Rodney, Jared 
fez o que muitos pais tinham feito nas mesmas circunstncias: fingiu que no via, dizendo para si prprio que Rodney no estava a prejudicar ningum a no ser ele 
prprio.
      Havia-se enganado. A m avaliao que Jared fizera do filho tinha prejudicado muita gente, custado a vida ao seu melhor amigo e scio, e causado a Molly um 
horrvel sofrimento durante o tempo em que estivera internada na clnica. Era uma culpa que Jared Wells teria de carregar durante o resto da sua vida, e como ela 
era terrivelmente pesada! Tinha mantido a cabea inclinada para baixo ao longo do julgamento, incapaz de olhar Molly nos olhos, pensando que ela o odiava e jamais 
lhe perdoaria pela sua omisso. Claudia, leal como era, manteve-se ao lado do seu novo marido, mas os olhos dela revelavam o desespero e os remorsos que sentia sempre 
que olhava para o outro lado da sala do tribunal, onde a filha estava sentada.
      Que grande problema! Era uma situao que Jake estava decidido a alterar para bem de Molly. Tinha perdido a conta das vezes que a havia encontrado junto ao 
telefone com um ar nostlgico a ensombrar-lhe o rosto. Sempre que lhe perguntava qual era o motivo, ela limitava-se a abanar a cabea sem lhe dar resposta.
      Jake tinha a certeza do que a atormentava. Molly desejava falar com a me, mas o medo de ser rejeitada fazia-a perder a coragem. Ele compreendia-a. Depois 
de toda a lavagem de roupa suja que tinha sido o julgamento, no seria fcil para nenhuma delas dar o primeiro passo.
      Por estranho que parecesse  talvez no tanto, uma vez que Molly havia sido criada por uma pessoa ntegra como Claudia  Molly no culpava Jared Wells por 
amar e proteger o filho. Desde o primeiro momento, havia compreendido a razo por que o seu tio postio decidira manter-se calado. Que pai era capaz de entregar 
um filho s autoridades sem ficar com o corao despedaado? Jared no conhecia a dimenso das ilegalidades que Rodney havia cometido e no podia imaginar o grau 
de malvadez a que este tinha chegado, antes de tudo ficar esclarecido. Assassnio, traio. Tratava-se de crimes que transcendiam a compreenso das pessoas normais 
e decentes, e Jared Wells era indiscutivelmente um homem decente e bondoso. Jake descobriu isso a primeira vez que falou com ele ao telefone.
      No. Alm de Rodney, Molly no culpava ningum. No censurava Jared e ainda menos Claudia. Mas como muitas vezes sucede em situaes complicadas, como era 
o caso, Molly estava absolutamente convencida que Claudia e Jared tinham ficado ofendidos por o testemunho dela ter sido crucial na condenao de Rodney. E, alm 
disso, ela mostrara-se abertamente feliz quando o jri declarou Rodney culpado de todos os crimes.
      No entanto, depois de ter sido feita justia, Molly havia adoptado uma postura hesitante, tendo medo de dar o primeiro passo em direco  me e ao padrasto. 
Por muitos crimes que o Rodney tenha cometido, podes imaginar como tudo isto deve ter sido doloroso para o Jared. Se me quiserem ver, so eles que tm de vir ter 
comigo!, havia ela dito a Jake depois do julgamento.
      Por causa disso, Molly nem sequer tinha voltado  Sterling and Wells, para se sentar  secretria do pai e ocupar o lugar que era legitimamente seu. Para no 
magoar a me at era provvel que nunca o fizesse, o que seria uma pena, uma vez que tinha sido preparada para seguir as pegadas de Marshall Sterling. A firma de 
investimentos era importante para ela, e enquanto no tomasse as rdeas da empresa nunca seria a mulher que o pai queria que ela fosse  ou pelo menos a mulher que 
ela necessitava de ser. E isso no podia acontecer, e no iria mesmo acontecer se estivesse na mo de Jake evit-lo. Durante seis meses por ano, queria v-la a ajudar 
a dirigir a empresa  qual o pai havia dedicado toda a sua vida. Na perspectiva de Jake, no se tratava apenas da herana de Molly, mas igualmente da dos seus filhos, 
por isso, iria fazer tudo o que pudesse para que o legado de Marshal Sterling lhes fosse tambm transmitido.
      Observando a situao do lado de fora, Jake via trs seres que se haviam amado muito no passado, e que ainda se amavam. Estava mais do que na altura de falarem 
uns com os outros, chorarem juntos e retomarem as suas vidas. Acima de tudo, Molly e Claudia necessitavam de recompor a sua relao. Uma criana estava prestes a 
nascer, Jake no queria que o filho crescesse sem conhecer a av materna.
      Por isso, tinha telefonado a Claudia e insistido para que ela e Jared viessem jantar com eles no Lazy J. poucos dias antes do Natal. Preocupada com a reaco 
de Molly, Claudia mostrara-se hesitante em aceitar o convite, mas Jake havia conseguido levar a sua avante aps uma conversa de homem para homem com Jared. Seria 
apenas uma noite. Se as coisas corressem bem, Molly poderia pedir  me e ao padrasto para ficarem mais uns dias no Lazy J., mas se corressem mal, o sacrifcio no 
duraria muito tempo.
        Ests nervoso  murmurou Molly, tirando-o dos seus devaneios. Fez-lhe uma festa no brao e perguntou-lhe:  Ests preocupado com alguma coisa? Pareces muito 
ansioso.
      Jake rezava para ouvir o som de um automvel na estrada. Se os pais de Molly tivessem sofrido um acidente no caminho, todos os planos que tinha feito para 
um reencontro feliz estragar-se-iam para sempre. No queria sequer pensar como Molly iria reagir se alguma coisa acontecesse  me. No melhor dos casos, entraria 
prematuramente em trabalho de parto.
       No, mida, no estou preocupado. Por que  que havia de estar? O seguro pagou todos os estragos do incndio. O estbulo e a casa foram reconstrudos e, 
desde o leilo do Outono, estamos a operar em terreno positivo.  Deu-lhe um ligeiro aperto nas costas.  E, o melhor de tudo  que daqui a nada vai chegar um lindo 
rapazinho, cheio de sade. Nunca estive to feliz em toda a minha vida.
       Eu tambm no.  O olhar de Molly deteve-se subitamente numa rvore, que estava mais  direita, e um sorriso encantador aflorou-lhe aos lbios.  Oh, Jake, 
olha para aquela.  maravilhosa!
      Jake virou-se para observar a rvore, caindo-lhe o corao aos ps quando viu o tamanho dela.
       Mida, ela deve ter uns trs metros de altura.
       Precisamos de uma que seja bem alta para colocar diante das janelas arqueadas. Uma rvore pequena iria parecer enfezada.
      Ele tirou Molly do colo com todo o cuidado, soltou um suspiro e ps-se de p. Desejava que o seu primeiro Natal com a mulher fosse inesquecvel em todos os 
aspectos, e se isso significava arrastar uma rvore de trs metros at  sua casa, f-lo-ia sem se queixar. Retirou a serra do stio onde a havia guardado no tren 
e lanou-se ao trabalho. Alguns minutos mais tarde, deu um salto, afastando-se do local onde o gigantesco pinheiro ia tombar.
      Molly tentou levantar-se, dentro do tren, daquela forma desajeitada, com a barriga atirada para a frente, to caracterstica das grvidas. Quando se conseguiu 
pr de p, tinha um aspecto encantadoramente arredondado dentro da parka e das grossas meias de l que Jake havia insistido que calasse. O seu cabelo esvoaava, 
formando uma brilhante nuvem de caracis  volta da sua cabea.
       Vai ficar linda decorada com as luzes de Natal  observou ela.
       No chega nem a metade da tua beleza  disse-lhe Jake do fundo do corao.
      Toda a sua vida tinha ouvido dizer que algumas mulheres ficavam radiantes durante a gravidez e Molly era uma delas. Os olhos brilhavam-lhe e a sua pele parecia 
resplandecer.
      Depois de Jake derrubar a rvore e amarr-la ao tren com cordas, ele e Molly iniciaram o caminho de regresso a casa atravs da floresta.
       Se no estiveres muito cansada, achas que vamos conseguir decorar este monstro logo  noite, depois do jantar?
        No vou estar cansada, tenho a certeza  afirmou ela, cheia de entusiasmo.  A nica coisa que fiz hoje foi sentar-me no tren enquanto tu trabalhavas.
      Jake achou que ela tinha razo.
      Quando chegaram perto de casa, viu um Buick bege a aproximar-se, o que lhe deu um grande alvio. Jared e Claudia tinham chegado sos e salvos. Conduziu o tren 
por cima das tbuas que havia colocado sobre o riacho para fazerem de ponte. A seguir, parou, deu uma olhadela a Molly e disse:
       Parece que temos companhia.
      Molly semicerrou os olhos para conseguir distinguir alguma coisa por entre a neve que caa. No momento em que ela viu a mulher esbelta que saa do carro, abriu 
muito os olhos, incrdula, e ficou lvida. Durante um terrvel momento, Jake pensou que provavelmente havia cometido um erro ao convidar Claudia sem ter falado primeiro 
com Molly. Mas, nesse preciso instante, a sua mulher soltou um grito de alegria.
        a minha me. Oh, Jake,  a minha me.
       Parece que sim.
      O olhar inquiridor dela cruzou-se com o seu. Depois, antes de ele conseguir compreender o que ela ia fazer, Molly lanou-se nos seus braos, a sua enorme barriga 
contra a dele.
       Chamaste-a por minha causa! Oh, Jake, obrigada.  cobriu o queixo dele de beijos.  Amo-te. s o marido mais maravilhoso que alguma vez existiu. Amo-te, 
amo-te, amote!
      Ainda Jake no tinha respondido, j ela corria em direco  casa. Com medo que Molly escorregasse na neve, ele esteve quase a agarrar-lhe a no, mas depois 
pensou melhor e deixou-a ir. quela distncia da casa, no havia cepos nem pedras tapadas pela neve. Se ela escorregasse e casse, a neve espessa faria as vezes 
de um colcho.
      Para uma mulher grvida, corria com uma espantosa agilidade. Jake, que puxava o tren carregado com a rvore, seguia-a com um passo bastante mais lento. Aquele 
momento pertencia a Molly e Claudia. Ele preferiu ficar atrs enquanto elas se abraavam.
      Quando chegou perto do celeiro, Hank viu-o e foi para a porta. Jake acenou-lhe com o chapu com os olhos a brilharem de contentamento ao ver a mulher lanar-se 
nos braos da me. Hank fez um olhar cmplice ao irmo e disse:
       Vais ser o heri dela durante pelo menos um ms.
      Jake ficou a observar o emotivo encontro e, a seguir, sorriu abertamente.
       Eu apenas dei um empurro, foi s isso.
       Queres que eu v a casa buscar um conjunto de toalhas?
       Para qu?
        Para elas secarem as lgrimas  respondeu Hank, pondo as suas mos enluvadas nas ancas ao mesmo tempo que o seu rosto moreno se enrugava num grande sorriso. 
 Vai ser complicado. Ela tem andado chorosa nos ltimos dias. Quando abre a torneira, j no a consegue fechar.
      Jake olhou para as duas mulheres, nos braos uma da outra, soluando de alegria e balanando para a frente e para trs.
       A maioria das mulheres chora facilmente durante a gravidez. Isso tem a ver com o nvel das hormonas.
        Ontem disse-lhe que a sua barriga estava enorme e ela desatou a chorar  exemplificou Hank.  Fiquei desolado e tentei anim-la, mas no havia nada que 
a conseguisse alegrar. No era minha inteno ofend-la. Ela  to querida, e est to gira com aquela grande barriga empinada.
       Neste momento sente-se gorda e desengraada. Acho que isso se passa com a maioria das mulheres no seu estado.
       A Molly no parece gorda  observou Hank.  Acho engraada a forma como ela se bamboleia como um pato.
      Jake advertiu o irmo com o olhar.
       No te atrevas a dizer que se bamboleia como um pato  frente dela. Ainda vai estar ofendida contigo depois de o beb nascer.
      Hank bufou, irritado.
       Achas que eu sou assim to estpido?
       Acho.
      O som estridente de um lamento chegou at eles. Jake virou-se para olhar para a mulher por entre os cada vez mais grossos flocos de neve que no paravam de 
cair. Sentiu um aperto no corao ao ver que Jared se tinha juntado s duas mulheres e participava agora num abrao a trs. Molly, que tinha o rosto enterrado no 
ombro da me, voltou-se para o encostar no peito de Jared. Mesmo quela distncia, Jake conseguia entrever a expresso alegre da sua face.
      Ficou satisfeito, muito satisfeito. Desde o princpio que se tinha apercebido da solido de Molly. Para algum como Jake, que crescera rodeado de tanto amor, 
entristecia-o que outras pessoas no houvessem tido a mesma sorte.
      Com um sorriso nos lbios, observou como Claudia emoldurava a face de Molly com as suas mos. A ternura do gesto da mulher mais velha falava por si prpria, 
fazendo-lhe lembrar a tarde em que ele havia dito a Molly que todos, tanto humanos como animais, se viam atravs dos olhos dos outros. Recordou-lhe igualmente, com 
um laivo de tristeza, que Molly olhara uma vez para o seu reflexo no espelho da casa de banho e lhe tinha dito que no se conseguia encontrar, que a pessoa que ela 
havia sido j l no estava.
      Jake garantira-lhe que a verdadeira Molly continuava a existir, que ela apenas necessitava de tempo para se redescobrir a si prpria. O encontro de hoje era 
a ltima fase desse processo, a recuperao das memrias cia sua infncia e o restabelecimento dos laos familiares que definiam quem ela era e a forma profunda 
e incondicional como havia sido amada.
      Na garganta de Jake formou-se um n. Molly e Claudia acabariam por solucionar os seus diferendos, o amor que sentiam uma pela outra era demasiado forte para 
que assim no fosse. No entanto, ele sentia um ponta de vaidade, uma vez que era a ele que se devia o encontro de hoje, antes do Natal e antes do nascimento do filho. 
Que melhor presente poderia ele dar  sua mulher?
      Como se tivesse sentido o peso do seu olhar, Molly virou-se  procura dele. O sorriso radioso que ela lhe fez era o convite que ele esperava. Largou a corda 
do tren e dirigiu-se a ela, que se desprendeu dos pais e correu para ele.
      Jake apanhou-a a meio do caminho e envolveu-a nos seus braos. Ela chorava e ria ao mesmo tempo, inclinando a cabea para trs para o olhar nos olhos. Jake 
deixou que Molly os perscrutasse bem fundo, na esperana que ela lesse neles a mensagem que lhe queria transmitir.
      A julgar pelo seu radioso sorriso, Jake compreendeu que ela a havia lido  que para ele, Molly era e sempre seria a mulher mais bela do mundo.

      
      
      
    FIM
      
      
      
1 Cano do trio ingls Right Said Fred. (N.da T.)

            2 Trocadilho com When The Going Gets Tougb, The Tough Get Going, de Billy Ocean, tema principal do filme A Jia do Nilo. (N. da T. )

            3 ERA - Equal Rights Amendmcnt (Emenda da Igualdade de Direitos).

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